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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Celebração da Paixão de Jesus Christo entre os Guaranys (Março de 1818)

 


A CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO ENTRE OS GUARANIS.
(Episódio de um Diário das campanhas do Sul.)
Por José Joaquim Machado de Oliveira, Sócio efetivo do Instituto.

Os Americanos devem procurar na historia, nas scenas da região que habitam, os quadros, os similes, as imagens, para compor ou adornar os seus escriptos !.... PANORAMA.

I.
A Capella de Alegrete.

No outono de 1818, o acampamento de Alegrete, que fora improvisado em dois dias na margem esquerda do Ibirapuitã (1) pela famosa coluna do General José de Abreu, depois que separou-se da divisão do General Curado, ia-se metamorfoseando em capela, que na Província de S. Pedro é o preliminar de grandes povoações. O primeiro assento do arraial militar foi na ourela do rio, onde este descreve a sua maior sinuosidade, e tem no centro o Passo-geral, que é um ponto convergente de diversas estradas e caminhos, que vem de diferentes povoações e estâncias da campanha. Mas, si esta localidade era azada para o alojamento temporário de guerreiros, que, fatigados de longas marchas, de vigorosas escaramuças contra as hostes de Artigas, e do regido serviço do acampamento do Quaraí, anhelava um paradeiro, que pusesse termo a tamanha lida, não preenchia o objeto e as esperanças do chefe entre-riano, cujo pensamento era erigir uma povoação, que simbolizasse á posteridade seus feitos de armas, e chama-se a civilização e o comércio ao país, que abrangia suas grandes estâncias, e formava o seu melhor apanágio. Esta empresa tinha por fundamento um direito tradicional, que competia aos generais continentinos no cabo de suas campanhas, e para perseverar a extensa autoridade de sua temível espada no remanso da paz e fora das contendas marciais.

(1) Rio de Pau-vermelho, ou do Angico, na língua Guarani.

A divisão do General Curado, depois da celebre batalha de Catalán, retirara-se para a margem direita do Quaraí, distinta e pujante com os louros dessa batalha, e das de Arapeí, Missões. Carumbé e Ibirocaí, depois de expelir para além dos confins da província as hostes de Artigas, e de em três meses recuperar o extenso território desde Missões até Quaraí, de que o inimigo se havia assenhoreado com incrível velocidade. Convinha, porém, expurgar completamente de aquém do Uruguai essas hordas barbaras, que tão devastadoras e infensas tinham sido ao solo ocupado, e que de novo tomavam nos campos de Montevideu uma atitude hostil e ameaçadora. A divisão pois teve de deixar aquela posição; e a coluna Abreu, que tão gloriosa parte tivera naqueles sucessos, a substituiu na duplicada tarefa de defender e segurar a fronteira. Seguido de seu ajudante, a quem apelidara com o titulo científico de – engenheiro de acampamento –,  e menos por sua capacidade profissional, do que para bem merecer a categoria de fundador de povoações, o enérgico chefe passava as manhãs na colina mais vizinha do Passo-geral a estender a sóga (2), com que traçava instintivamente os cimentos da futura capela.

Do Passo-geral começa a erguer-se uma colina, que a pouca distancia, e como sua primeira ondulação, entra e se confunde na coxilha sobranceira e paralela à margem ocidental do Ibirapuitã, e que se desdobra por uma extensão imensa até o encontro da grande Coxilha de Santa Anna, que vai terminar no Uruguai, alimentando com fontes perenes os dois Ibirapuitãs classificados em guaçú e chico (grande e pequeno), o Inhanduí, o Ibirocaí (rio de pau de canoa), todos tributários do grande Ibicuí (rio de areia), um dos maiores membros do sistema fluvial da província. É nesse risonho sítio que se edificou a atual vila de Alegrete, para cujo fundamento contribuíram o prestigio dos heroicos feitos de armas do General Abreu na guerra contra Artigas, e a sua autoridade militar, elementos estes de que sempre se lia de ressentir aquela povoação.

(2) Cordel comprido de couro, que se ala no animal, que sequer conservar preso em lugar onde possa pastar.

Já das vizinhas matas se derribavam os angicos, os ipês e os torumans seculares, e das ribas pedregosas do Ibirapuitã desapareciam, como por efeito de incêndio, as toceiras do santa fé (3) e o flexível caraha (4) para a construção das casas, e da igreja onde se devia recolher e adorar a imagem da Virgem Aparecida, depois do seu miraculoso resgate do poder dos artiguenhos, que a tinham arrebatado da capela de Inhanduí, quando em suas primeiras correrias incendiaram aquela sucursal, e que merecia particular veneração do chefe da coluna por tê-lo (como ele dizia) livrado sempre das balas inimigas.

Do devoto serviço de traçar as dimensões da igreja compartilhava o sisudo capelão da coluna, que, com uma fisionomia bíblica, e sem alterar o seu andar grave e solene, sempre de acordo com o seu carácter místico e balofa corpulência, olhava o trabalho através de dois grandes vidros, que lhe mascaravam a frente, e indicava com o dedo engastado num ingente anel os pontos que devia abranger o recinto do santo edifício.

Aventureiro no Continente, e por especulações simoníacas entre um povo generoso e ingénuo, cheio de fé e de crença, o bom Padre, a pretexto de auxilio para a construção de uma igreja em país além do Atlante, e cujo orago, por seu assenso manifestado milagrosamente, como ele só afinava, o havia incumbido dos aprestos para essa obra pia, granjeava, mediante o seu sacerdócio impuro, e com uma consciência elástica, um pecúlio em moeda e bestas para o próprio passal. Uma copia viva do polposo Gil Peres de Lesage, mesmo em seu acanhado sensório, nesta criação faceta da natureza o pincel do caricaturista não dependia dos traços de um pensamento fantástico para expor aos dilettanti uma composição risível, um completo exemplar para uma nova epopeia cómico-burlesca.

(3) Uma espécie de gramínea com que se cobre as casas.
(4) Outra gramínea, que tem a flexibilidade do vime.

Em quanto os aventureiros entre-rianos, dirigidos pelo seu famoso cheio, lançavam os fundamentos da capela do Alegrete, a companhia dos naturais lanceiros com o seu capitão Chico, que formava uma parte integrante da coluna Abreu, e com ela compartira os louros, que a fortuna da guerra dispensara com mão larga a esse general, construia um apêndice da capela, que devia servir para o seu alojamento sob o titulo de aldeia. Não era sem o concurso da gente da raça guarani, que se empreendiam essas povoações nas vastas e remotas campinas do Continente. Submissos no trabalho por mais rude e assíduo que fosse, nimiamente sofredores nas privações, e pouco exigentes no serviço dos brancos eram os guaranis considerados como a parto indispensável e mais interessante dos elementos materiais que entravam na formação desses estabelecimentos; sendo para tal fim atraídos por promessas falazes, por ajustes leoninos, de que só se realizavam os deveres da parte contratada.

Mui suscetível de impressionar-se dos princípios da religião, do sentimentalismo e do maravilhoso; sugeria a uma intelectualidade abstrata; de uma compleição indolente, linfática; sem energia, sem os improvisos, a penetração, o fogo de um génio ardente audacioso, a tribo guarani recebeu dos seus primeiros civilizadores, os Jesuítas, com um preceito divino, a doutrina insidiosa e infamante, que lhe prescrevia, como a uma raça banal e maldita, a servidão e a ignóbil sujeição aos brancos. Esta herança fatal e cavilosa tem sido transmitida, como um legado sagrado, de geração a geração... e o será até a consumação dos séculos! Seus pais a herdaram dos Jesuítas, eles a legaram a seus filhos com toda a sua perfídia original, e estes não curaram de alienar de seus descendentes tão abjeta condição. Raça degenerada pelo homem civilizado, por ele prostituída, votada sempre à escravidão e à ignomínia, terá de permanecer até a extinção do seu último individuo neste estado de degradação e aviltamento, seja pela sua apoucada inteligência, ou por essa preocupação tradicional do anátema divino, a que supõe-se condenada.

Vitima de uma civilização errónea e corrompida, proscrita, aniquilada já, reduzida a pequenos grupos nessas povoações teocráticas do Uruguai, que formam uma parte dessa criação ciclopeana dos Jesuítas na vasta região do Guaira, ou amontoados em alguns recantos das povoações e estâncias da campanha, ou sem habitação fixa, levando uma vida nómada ou selvática nos campos, e nas extensas florestas da serra geral, rojam na miséria, e na indolência e ociosidade; e, como a horda de charruas e minuanos, disputando com as matilhas de chimarrões (5) a posse da avestruz e do poldra da bagualada (6) com que se devem alimentar, ou, em fim, estimulados pela fome e nudez entregam-se á rapina nos campos , de cuja propriedade primordial foram atrozmente esbulhados: e é desta condição degradante, que fica muito abaixo da que lhe competia em relação à sua origem livre, e á sua índole dócil e pacifica, que provem o antagonismo natural e indefinido do índio contra o branco, e essa dissimulação e ar de infidelidade que se discrimina em seu procedimento, quando se acha ao serviço de outros que não sejam os de sua raça, aos quais trata com as mais puras e leais afeições, o lhes procura todos os meios de formar o seu bem-estar.

Pouco distante da colina em que se traçava a capela de Alegrete, estende-se outra menor, separada daquela por uma quebrada (garganta) do terreno, em cujo fundo serpeava uma sanga (sanja), que ia abicar no Ibirapuitã, e servia de esgoto ás enxurradas. Esse sitio de menor superfície, e em gradação mais inferior, foi o designado para o alojamento da companhia de lanceiros, que ao depois tomou o nome mais significativo da aldeia. A quem não conhecesse o indeclinável divórcio, que subsiste entre as duas raças, esse muro de bronze que as separa, e que só há de desmoronar-se com a extinção dos indígenas; só pela simples comparação desse local com o da capela, lhe seria manifesta essa deplorável rivalidade, que por três séculos tem enchido de acerbas dores os corações bem formados. Em breve tempo fantasiou-se ali um grupo de copes (7) com suas ramadas na frente, e a cujo delineamento e obra presidiram a confusão e a negligencia. 

(5) Bandos de cães bravios, vagando nos lugares onde pasta a bagualada.
(6) Manadas sem numero do animal cavalar, que andam montadas e sempre a corso com incrível velocidade.
(7) Pequenas cabanas construidas de madeira e palha, em que habitam os índios guarani.

Além da necessidade, que pungia os guarani para a fabricação do seu alojamento, de se garantirem da intempérie das primeiras geadas do inverno, que já em Abril começam alvejar os campos ; cumpria-lhes também celebrarem a paixão de Jesus Cristo na quaresma daquele ano, segundo as formulas praticadas pelos jesuítas, e que lhes foram transmitidas com zelo, perseverança e acatamento. Esta piedosa comemoração, interrompida pela guerra com dor mística dessa gente, devia exercitar-se então em grande aparato, e com todo o apuro de sua dedicação ao Crucificado, menos por intrínseco sentimento de crença ortodoxal, do que por imitação e costume tradicional; convencendo-se devotamente de que, quanto mais se manifestassem contritas as consciências, e votadas a toda a expiação; quanto mais compungentes fossem suas oblações propiciatórias, melhor aplacariam a cólera divina em que supunham ter incorrido pela involuntária interrupção da serie ânua desses atos.

A religião, na fraca e acanhada inteligência dos guarani, torna-se para eles o mais forte, e por assim dizer, o único habito moral da sua vida: o objeto mais essencial que ela lhes apresenta, e que lhes sugere a mais escrupulosa atenção, é o culto explicito das imagens exercido com estrépito e aparato singelo; e o ministro deste culto, que eles olham como o dispensador das graças celestes, que pode pela forca maravilhosa de suas orações, e interposição de oferendas, amenizar a intempérie das estações, neutralizar os males físicos e aflições da humanidade, fazer abundantes os frutos da terra, e predispor o caminho para a felicidade eterna atrai facilmente as suas mais vivas e ternas afeiçoes, e tem sobre seus ânimos um predomínio exclusivo. É assim que com esta suscetibilidade ascética fundaram os jesuítas esse predomínio, e lhe revestiram de tal consistência, que, atravessando os tempos e afrontando a luz da civilização, ainda deve preponderar até o desaparecimento do ultimo individuo genuíno da raça.

II.
O Concurso festivo.

O boato da ereção da capela de Alegrete com a aldeia acessória, e de que os guarani da coluna Abreu se propunham a restabelecer ali a celebração ânua da paixão de Jesus Cristo, tinha divagado de estância a estância, de povoação a povoação, e chegado mesmo ás sete Missões do Uruguai, essas reminiscências verminosas, e padrões seculares do imenso poderio dos filhos de Loyola.

A par dessa noticia ia medrando a fama das proezas bélicas desse chefe, que por muitos anos teve a vitoria atada aos tentos do seu lombilho (8), e que restituiu heroicamente à lide marcial, sucumbindo na batalha de Ituzaingó, os títulos e honrosas condecorações que ela lhe havia brindado com mão generosa. A presença deste bravo e singelo filho do campo enlevava todas as considerações, e atraía todas as simpatias; tinha um absoluto domínio sobre todas as convicções, todos os alvedrios... Como é que se pôde definir esta preponderância deslumbrante, esta espécie de magnetismo, que é propriedade do guerreiro feliz, do homem que melhor sabe reprimir a comoção que sugere a presença do perigo, que sobrepuja a essa alienação rápida que surpreende todas as suas faculdades? Como essa superioridade moral, que tem o seu melhor apoio em factos de armas, e este ar de autoridade, que mais impõe a homens simples, do que aqueles que tem a razão mais cultivada?

Tais noticias puseram em movimento para o Passo-geral do Ibirapuitã numerosos bandos das diversas raças que habitam o departamento de Entre-rios até ás suas mais longínquas paragens.

Não era sem interesse ver uma família guarani em viagem. O seu chefe tinha a precedência na marcha, arriando (9) os cavalos que não eram montados; vestido mui singelamente, envolvida a cabeça em um pano, e cingindo a cintura o inseparável cheripá (10), do qual pendiam a guampa, e a faca encastoada em tangori, apresentava-se apto para voltear o laço e as bolas, e a disparar sobre a bagualada, quando vinha em um cordão incomensurável reconhecer os viadantes, ou sobre a avestruz, que fugia com carreira tortuosa, e equilibrando-se nas asas estendidas. A pouca distancia dele ia a china, mãe da família, cavalgando o animal mais pacifico da tropilha, e cobrindo-lhe a cabeça e as faces um lenço vermelho (panhoêlo puitam), que se confundia com a cor de seu rosto, mais aproximado à linha circular que à oval. Se tinha filhos pequenos, trazia-os engrupados sobre a montaria, e ligados a si com o cheripá; e na sua falta gozava das honras da garupa o perrito mais mimoso da numerosa matilha, que a seguia de perto, o qual se sustinha por si mesmo, equilibrado em sua posição, ainda que a cavalga dura galopasse, pelo habito que tinha de ser assim transportado. Pendiam aos lados do lombilho, e cruzando o assento por baixo do pelego, (11) a maleta e o possoêlo, que continham o vestuário festivo da família; e circundavam o colo esguio do paciente animal rolos de sogas, e enfiadas de porongos cheios de água para a jornada. 

Pejado de gelos, e impelido pelo violento e frígido Minuano (12), entrava o inverno despojando os salsos e as timboubas de sua linda folhagem, e amarelecendo os campos. No crepúsculo da tarde já não se ouvia o saudoso piar da codorna, que agachada na touceira de macega, evitava temerosa as garras do carnívoro chimango, que esvoaçava em redor. Já o garruto e vigilante quero-quero não estendia os seus voos muito além dos banhados, e posto num desplante quase vertical esperava atento o inseto com que se alimenta, e que nos lugares mais relvosos busca abrigo contra os arremessões do Minuano. O cope indiano de Alegrete já acolhia o soldado de formas atléticas do capitão Chico, e sua família; e à porta de sua cabana via-se cintilar com a luz do sol a temível lança, que tantas vezes se enristara contra os artiguenhos, e que aí se hasteava durante o dia, como o marcial distintivo de um lanceiro de Abreu. As famílias guarani, que ocorriam para a piedosa celebração da paixão do Redentor, tinham hospedagem aberta na aldeia: sendo-lhes comum o trabalho e aprestos que procediam esse ato, afim de preenchê-lo sem omissão da menor solenidade, sem deixar-se de observar escrupulosamente os preceitos tradicionais que lhe eram atribuídos, e que os velhos índios tinham bem impressos em sua memoria.

(8) Para bem compreender esta frase local, cumpre saber que nada assegura tanto o ânimo e pujança do cavaleiro do Sul, e firma sua esperança, como o laço que traz enrolado ao lado direito da garupa, e preso a atilhos de couro, a que chamam tentos.
(9) Palavra que equivale a arrebanhar, ou levar diante de si uma ponjão de animais cavalares ou vacuns.
(10) Pedaço de baeta de cor frisante, com que os homens do campo cingem o ventre, e serve para diferentes místeres.
(11) Pelego: pele de cordeiro que serve de cochim sobre o lombilho. Maleta: sacco estreito com dous fundos para conduzir fato. Posoêlo: alforges de couro cru, que se traz sobre a garupa.
(12) Vento do Oeste.

III.
Domingo de Ramos.

Era Domingo de Ramos [15 de Março]; e ao primeiro alvor do dia, depois da chamada militar dos lanceiros, dirigiu-se a companhia, de mistura com os seus hospedes, ao mato vizinho; e, passado algum tempo voltaram para a aldeã processionalmente e conduzindo cada um índio uma grande braçada de folhas da palmeira geribá, que servissem para colmar as cabanas onde se devia exercer o serviço divino durante a semana da paixão, e representar os últimos martírios do Salvador.

Este préstito misterioso, imitando a oração triunfal do Homem-Deus, quando se apresentou às portas de Hyerosolima [Jerusalém], executou-se silenciosamente e com regularidade militar: e os índios, envolvidos nas folhas, semelhavam massas moventes de verdura, que caminhavam para a aldeia por própria ação, a formar os recintos em que se deviam praticar aqueles atos expiatórios. Nesse dia, precedendo a bênção da cabana, que devia servir de santuário naquela solenidade, aí celebrou missa o capelão de Alegrete, anunciando à devota assembleia que ia começar a semana em que a cristandade comemorava a paixão de Jesus Cristo, e devia manifestar-se contrita por piedosos exercícios, e por atos expiatórios de penitencia.

Ao mesmo tempo que se construia a cabana onde se de viam observar os ofícios divinos, outra se elevava á pouca distancia dela para os exercícios flagelatórios daquelles que se dedicavam à penitência afim de aplacar a cólera da Divindade, e torná-la propícia, dilacerando com rudes açoites suas próprias espáduas, e suportando com estoica resignação os mais bárbaros tormentos.

Na tarde desse dia, e em reunião geral dos aldeões apresentaram-se ao seu chefe os que se propunham à penitência. Depois de uma breve elocução da mui acatada autoridade, enunciada no idioma guarani, em que significava quanto seria do agrado da Divindade (Tupâ) a pública e espontânea dedicação a esse ministério expiatório da mais exaltada crença, devido menos a um pensamento de dor moral e de eternidade, que ao de excitar a admiração por um robusto sofrimento nas torturas da flagelação e das macerações corpóreas, dispersou-se a assembleia, tributando, desde logo, deferências e homenagens aos candidatos à representação simbólica do Redentor, e contemplando-os como predestinados por uma inspiração celeste para exercerem as funções mais augustas e religiosas na celebração a que se dedicavam.

O numero dos penitentes era indefinido; mas, dentre eles o que mais duramente se atormentasse, o que mais sangue vertesse nas flagelações que se impunha, e que se sustivesse na mais absoluta abstinência, era o escolhido para representar naquela cena o papel de Jesus Cristo.

Os homens que se apresentavam para tais provas de um fanatismo sublimado ficavam logo separados de suas famílias e sócios; manifestando por este total isolamento que, como se considerassem eles os maiores pecadores, e os que por suas profanações às coisas santas, tinham incorrido na cólera celeste, eram indignos do trato humano em quanto se não purificassem por um modo, que aplacasse essa cólera, e assim fossem restituídos ao grémio dos fiéis.

IV.
A penitência.

Os dedicados a este ministério, que desde logo foram encerrar-se na cabana da penitência, começaram as suas flagelações na quarta feira de trevas. Nus da cintura para cima, ajoelhados, silenciosos, com a cabeça inclinada para o chão, a mão esquerda sobre o peito, e a direita empunhando um látego de couro, com ele descarregavam sobre suas próprias espáduas amiudados golpes com a mais rude impassibilidade, e sem o mais leve indicio de sentimento de dor. Dir-se-ia que estátuas de cobre por um oculto maquinismo figuravam aquele perene movimento.

Dia e noite eram os penitentes empregados neste descomunal exercício, que macerava o corpo, e atenuava as forças; privados de alimento, e assistidos de um servente, que era empregado em fazer sarjaduras nos lugares mais contusos do corpo para evitar a coagulação do sangue. O que via à roda de si o chão mais ensopado do sangue que vertia de suas feridas; o que mais cruamente rasgava as suas carnes, e que mais vezes caía por terra desfalecido, e inanido de alento, deixava entrever em seu aspeto, quando suas dores o consentiam, um ar de vanglória de ser talvez o predestinado para simbolisar o Homem-Deus em seus martírios e sacrifício humano. Ufano com esse pensamento, ele já se afigurava como o mais esforçado vencedor do espírito mau (Anhâ), e como o que mais valentes provas tinha dado do seu desprezo da dor, e por isso com direito à admiração e deferência dos da sua raça, que invejavam tão assombrosa dedicação. A vaidade supersticiosa, ante que a genuína fé cristã, dominava o espírito tão fraco e tão contraído destes filhos singelos da natureza selvagem, que, quando se não pudesse dizer que estavam no seu estado normal, com verdade seriam julgados como induzidos a erro, ou porque entrassem na sua primitiva civilização alguns elementos inspirados pelo fanatismo religioso da idade media, ou porque os sucessores dos jesuítas, abstraídos inteiramente daquela missão, de nada mais curassem que de neutralizar neles os atributos da razão para o melhor complemento dos seus fins. A tribo guarani, tão dócil, de um ânimo tão flexível, tão rica de suscetibilidades sociais, tocou o ponto do começo do seu aniquilamento da extinção dos filhos de Loyola. De sua transição do regime teocrático, austero, porém de absurda prática desses audaciosos doutrinários, para a dura servidão portuguesa, teve o principio a espantosa cadeia de males que o destino lhe lançou, e que a tem arrastado à ultima degradação e miséria.

O dia de quinta feira de Endoencas [19 de Março] foi ocupado nos aprestos para a procissão de enterro, que teria lugar no seguinte, O interior da cabana que servia de casa de oração estava coberto de preto, e sobre uma banqueta alta, construida de varas e revestida de pano branco, via-se colocado um crucifixo entre duas velas acesas, assentadas em castiçais de barro. Outras velas, engastadas em estacas de taquara, bordavam o recinto da casa, cujo pavimento era juncado de folhas de mata-olho; e ao lado direito da entrada via-se presa à parede uma guampa com agua benta e hissopo de cabelo para as aspersões dos que iam visitar o santo albergue, e oscular a peanha do crucifixo.

As imagens do Salvador e dos Bemaventurados, que formam o cortejo celeste, eram obra das mãos dos índios, qualquer que fosse a matéria de que para esse efeito se servissem, Sem as mais superficiais noções artísticas, só com a habilidade que sugere o natural discernimento, e por génio de imitação, fabricavam eles esses e outros muitos objetos com suportável execução, posto que nas imagens se divisassem impressas essas formas características do tipo indígena, essas atitudes e estilos que lhe são peculiares. Assim ó que a copia do gentil e nítido semblante de Santo António era formulada pelo fusco carão de um índio quinquagenário, com todas as suas feições e gestos agrestes, e o cabelo hirto; e o Divino Filho da Virgem de Idumeia, que se assenta nos braços do canonizado paduano, expondo idêntica fisionomia à de uma criança índia, tinha por vestes um ponche de seda orlado com fímbria de ouro, Destas imagens andavam sempre providas as maletas das chinas em suas viagens, e, como os Penates dos Romanos, eram expostas no interior dos copes,
quando os podiam construir para receberem as manifestações devotas da família.

Em ponto do meio dia, e ao rufo surdo de um tamboril coberto de pano negro, que se fez ouvir em todo o contorno da aldeã, começou a reinar o mais profundo silencio.

Tomaram as mulheres uma vestimenta negra, e soltaram os seus longos cabelos de ébano, em sinal de luto e dor, desatando-se de todos os laços sociais e místeres domésticos, e jazendo sentadas em um canto da cabana, imóveis, lastimosas, com as cabeças inclinadas para o chão, e no estado de um absoluto recolhimento moral. Nem o filho pequeno, que choramingava-lhe ao lado por falta de alimento, nem o cãozinho favorito, com o qual é tão meiga e complacente, e que exigia as habituais carícias, a retiravam desse estado de arrobo místico e exagerado ascetismo.

Uma cena tocante ocupou a espectação publica, à noite e depois da adoração do crucifixo, que se executou ao som de uma vozearia estrondosa e fúnebre, c com uma musica sepulcral. Prestada aos pés da banqueta que servia de sobpedâneo ao crucifixo, a índia que excedia as outras em longevidade, desferia um pranto lúgubre e horroroso à maneira das antigas carpideiras nos funerais, e balbuciava algumas palavras no seu idioma, entrecortadas de arquejos e soluços pavorosos. A horrível Sara americana, de guedelhas soltas, por entre as quais mal se enxergava um semblante engelhado e cadavérico, de mãos postas, e deslisando contorsões colubrinas para empregar mais veemência em suas vociferações, extasiava em redor de si uma multidão de povo, estupefacto de um quadro tão assombroso. Via-se nos índios a consternação, o enternecimento, e a contrição idiota que se deriva da impressão de objetos de terror, e não da comoção de uma consciência ascética; e mais de uma lágrima caía-lhe dos olhos misturada de soluços, que em pouco tempo se convertia em pranto geral e contagioso : e nos brancos, o característico do desprezo e escárnio, revelado por um gesto mofador. que de certo daria origem a algum desaguisado entre as duas raças sempre em rixa, sempre divorciadas, se por ventura os índios estivessem menos habituados a sofrer da parte dos brancos o trato mais ignominioso, e injuriosa zombaria pelos atos da sua crença religiosa. A compunção e piedade que a espantosa carpideira ganhava daqueles pelos seus lutuosos acentos e exclamação sibilina, perdia nestes por efeito do seu aspeto hediondo e horrível, e das suas gesticulações mímicas. Os olhos que lacrimosos contemplavam o símbolo do nosso resgate, em que
foi vitimado o Salvador, não podiam exprimir um pensamento doloroso, quando da cruz desciam descridos para a forma mosaica da tanajura secular.

Por um estudo continuo e aprofundado sobre a índole e compleição dos indígenas, e sobre suas acanhadas faculdades intelectuais, entenderam os jesuítas, seus primeiros civilizadores, que maior impressão fariam neles as ideias, que fossem representadas por objetos materiais, por ações físicas, que pertencem à possibilidade do homem, do que o pensamento moral, esse complexo de partes abstratas, que só compete ao domínio da potencia intelectual.
Queriam eles que os princípios religiosos falassem antes aos sentidos do que à imaginação; e é por isso que dos preceitos da crença, de que foram imbuídos os guarani, compreenderam estes que, materializada a divindade do Homem-Deus, ou transubstanciada em faculdade discernível, teve de achar-se na terra em luta com o poder infernal, que com este guerrearam as coortes celestes, vindo por fim a sucumbir o Filho de Deus, e a ser supliciado na cruz.
Preocupada cem estas insinuações erróneas, a deforme energúmena engrasava em sons inarticulados, monótonos roucos e lúgubres, algumas frases isoladas, que no próprio idioma exprimiam os essenciais atributos do Redentor, a dor dos seus martírios, e a cólera e indignação
pelo suposto triunfo do espírito das trevas, e a consumação do cristicídio. Nesta emfática e lastimosa apóstrofe ouviam-se repetidamente as palavras: - Christó opá anhundojára!.... omanó catu!! - (Cristo foi morto pelo demónio!.... sim, padeceu morte!!); e a elas seguiam-se vociferações horríveis, e exclamações descomunais, que produziam terror e espanto no animo dos índios que ali se achavam. Esta cena estranha, que ao mesmo tempo inspirava sentimentos opostos. de dor e de riso, durou algumas horas; substituída a carpideira, que a representava, depois de rouca e inanida de forças, por outra que tinha o mesmo devaneio de compungir o auditório, e dessarte fazer jus ao salário estipulado para semelhante exercício, o qual ordinariamente consistia em um trago de canha (copo de aguardente de cana) oferecido na pulperia do Pechincha, donde se retirava ébria e possessa de espírito mui diverso daquele que uma hora antes lhe ocupava a mente... Que transição !

Em toda a manhã de sexta feira [20 de Março] não se enxergou na aldeia pessoa fora de casa: parecia que havia sido abandonada dos seus habitantes e hospedes, ou que tivera lugar um daqueles movimentos imprevistos e rápidos, a que os Cossacos de Abreu estavam habituados para obstar alguma tentativa ou correria das hordas de Artigas. Talvez que se pudesse dizer que dominava ali o silencio dos túmulos, se os que se haviam dedicado desde quarta feira de trevas ao flagelo penitenciário suspendessem tão mortificantes provas de fanatismo brutal. O som compassado e surdo dos açoites, e o zunido rouco e monótono das cigarras, que, pousadas no espinilho (13), ainda sussurravam sua despedida aos últimos dias do moribundo outono, era o que ali revelava fracos sinais de lânguido movimento e frouxa vida.

Este exame foi cometido à autoridade militar do capitão Chico, que, para realizá-lo convocou a conselho os oficiais da companhia, os quais, ornados com as insígnias de suas graduações, dirigiram-se para a cabana expiatória, e aí aventaram esse caso com a consciência de austeros julgadores, que vão a decidir da existência de um grande culpado. 

Instituído, pois, um minucioso exame sobre provas tão barbaras, designou-se definitivamente o mísero paciente, sobre quem deviam ainda pesar novas e severas flagelações. Estremado ele dos seus consócios do martírio, deu-se por finda a penitencia, e, depois da retirada pesarosa dos outros candidatos à representação do Salvador, por não terem obtido a preferência, lançou-se-lhe uma tipoia (14) do cor negra, cingindo-lhe a cintura um cordão de couro da mesma cor.

Apenas anoiteceu, a repetição da scena das carpideiras excitou outra vez a curiosidade piedosa do povo guarani, que corria em grupos para o sitio onde ela ia reaparecer. O crucifixo, que se colocara sobre a banqueta da santa cabana, foi substituído por uma cruz preta, assentada em peanha de barro, e de cujos braços pendiam tiras de pano branco.

(13) Arbusto pertencente á família das Mimosas.
(14) Vestimenta talar, á imitação da antiga tunica, que as mulheres Guaranys trajam em casa.

V.
A Procissão de enterro.

Eram 10 horas da noite de sexta-feira. O tempo estava sereno, e o claro da lua mal podia penetrara densidade do vapor atmosférico, que, subindo, aglomerava-se sobre o circuito da aldeia, e caia em moléculas subtilíssimas humedecendo a terra. Ouvia-se ao longe os agudos acentos do jaguarete pousado no mais alto angico, e os rugidos do guarachaim em seu curso noturno.

Um sussurro inqualificável, e o separar-se para os lados em duas partes o povo que tinha afluído para o contorno da cabana consagrada ao santo ministério, denunciaram que ia aparecer a procissão do enterro, longo tempo esperada. Todas as vistas, todas as atenções convergiram para aquele ponto; e a presença acatada do chefe de Alegrete, trajado de aparatoso uniforme, impôs maior silencio do que aquele que devia sugerir a representação fúnebre de um ato, que os guarani profundamente reverenciavam.

Precedia ao préstito funeral uma cruz alta feita de taquaruçú, e hasteada por um menino envolvido numa vestimenta roçagante de cor preta, e cobrindo-lhe a cabeça um pano branco, sobre o qual assentava uma coroa de espinhos. Aos lados da cruz. e com os mesmos envoltórios, marchavam dois meninos com ciriais de taquara, em que ardiam velas de cebo. O exterior da procissão era guarnecido por duas alas de lanceiros, em traje de guerra, em numero de 50 a 60, empunhando ciriais semelhantes aos que iam aos lados da cruz que abria o préstito. No intervalo das alas movia-se lentamente, e com um ademan devoto e melancólico, uma numerosa fileira de meninas, vestidas de túnicas de pano branco, com os cabelos soltos, e coroas de espinho sobre suas cabeças, que se inclinavam para o chão: cada uma delas conduzia em suas mãos uma forma simbólica, e em miniatura, dos objetos que figuraram no martírio e paixão do Crucificado, e dos atributos físicos e morais, que se reuniram à sua essência divina. Viam-se nesta série, entre outros emblemas, o galo que com o seu tríplice canto revelou Pedro a culpa da sua estranha negativa, os trinta dinheiros que recebeu o discípulo traidor, o azorrague, a lança de Longuinhos [Longino], a escada do descimento, a coroa de espinhos, os cravos; assim também os peixes e pães reproduzidos nas bodas de Caná, a espada com que se armou contra o espírito das trevas, representado por um dragão de colo entonado, e as insígnias que lhe compeliam como o Rei profetizado da Judeia. Fechava a procissão um grupo de músicos, garganteando uns a ladaínha com uma voz chula e dissonante, e outros fazendo guinchar com sinistro alando algumas rabecas, obra de suas próprias mãos ; levando os que iam na frente deslocadores, e pregados no dorso, grossos cartões de musica, representada por grandes notas sobre pedaços de couro.

Como uma parte adicional da procissão seguia-se logo outro grupo armado de lanças, em cujo centro se distinguia, com as mãos atadas, diadema de espinhos na cabeça, e túnica preta, o miserando penitente, sobre quem tinha recaído a escolha para simbolizar o Homem-Deus, e que se pavoneava de que sua constância e sofrimentos assombrosos lhe dessem a preferência de apresentar-se em holocausto e vitima propiciatória ao Criador para remir a criatura. Com passos mal seguros, e aspeto aonde se vislumbrava entre os sinais de rudes tormentos o entusiasmo supersticioso de ter chegado a merecer a atenção publica, e a especial veneração dos da sua raça, pela firmeza e resignação com que se houve na severa flagelação de que saíra, caminhava o martirizado representante do Salvador, a quem os da escolta que o cercava não poupavam azorragadas, violentos arremessões, bofetadas e insultos ignominiosos.

Com este grupo ia um pregoeiro que, sempre que o prestito suspendia a sua marcha, apontando para o martirizado, e com atitude pujante, exclamava com detestável pronunciação a forma sacramental— Ecce homo —. Ouvindo esta exibição, o misero preconizado por um doloroso esforço estirava o corpo, elevava a cabeça (querendo sobre sair ao grupo que o circulava, e em um desplante ridículo, trabalhando para arremedar um gesto bíblico, manifestava a enfática alucinação de que se achava dominado por haver atraído a vista dos espetadores, e persuadir-se que os tinha ensopado em sentimentalismo religioso, o abismado em profunda consternação. Pelo contrario, se pelos gestos e sinais externos podem-se discernir os sentimentos íntimos, os brancos com um sorriso mofador revelavam um pensamento de dó por tão miseráveis apreensões e preconceitos, e os índios faziam só apreço do desgarro do energúmeno, e da gesticulação horrível com que ele suportava os golpes do azorrague.

Após este grupo, e pondo fecho a todo aquele espetáculo, ia uma mulher desfalecida nos braços de um índio, que representava a mãe do Crucificado, sustida pelo Evangelista que assistiu à sua paixão. Tinha por séquito uma multidão de mulheres, que levavam ao seu lado seus filhos menores de mãos postas, e que caminhavam vagarosamente com luzes nas mãos lavadas em prantos, e soltando arquejos e soluços. Em presença desta cena caíam de joelhos os índios que a observavam; e num arroubo extático e devoto batiam nos peitos com veemência.

Depois de um giro prolongado e vagaroso, que durou até a meia noite, dissolveu-se a procissão como por um encantamento, tomando cada comparsa diferente direção confundindo-se na massa dos espetadores.

Conclusão.

Ao primeiro clarão da manhã de sábado [21 de Março], ouviu-se o tambor da aldeia, acompanhado de pifanos, anunciar a aleluia em rufos descompassados e em dissonantes assobios. A cabana da penitencia tinha desaparecido, e em seu lugar hasteara-se um poste elevado, donde pendia um mal formado manequim, figurando o traidor Escariota, que tinha vendido o Divino Mestre; o qual arrancado de sua posição pelo laço de alguns cavaleiros, em poucos momentos foi reduzido a mil pedaços.

Ao tambor, que não cessou de rufar, congregaram-se vários tangedores de viola e rabeca, e em breve tempo o mais desentoado alarido de mistura com festivos hosanas difundiu-se da aldeia à capela de Alegrete; e esta retumbante folia, com um séquito numeroso de mulheres e crianças, trajados de gala, e em cujos fuscos semblantes reluziam a alegria e o contentamento, corria as ruas proclamando a aleluia e recebendo a espórtula de tão festivo anúncio. Depois de feita a coleta, cujos contribuintes eram retribuídos por uma ruidosa fanfarra, o bando folgazão recolheu-se aos seus copes, conscienciosamente pago de ter, segundo as regras e preceitos tradicionais da sua primitiva associação, desempenhado com o possível escrúpulo a celebração da paixão de Jesus Cristo.

* * *

Fonte
José Joaquim Machado de Oliveira, "A Celebração da Paixão de Jesus Christo entre os Guaranys (Episódio de um Diario das campanhas do Sul)", in: Revista Trimensal de História e Geographia, tomo IV (2.ª edição), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1863, pp. 331-349 [nota: 1.ª edição em 1842]

A transcrição foi feita modernizando a ortografia e com anotação cronológica tendo por base a data de 22 de Março como o Domingo de Páscoa em 1818.

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

 


“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]


* * *

[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.

Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 

[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *

Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Correspondência entre Francisco António de Raposo e Carlos Frederico Lecor (1818-1819)

Carta n.º 1 - De Francisco António Raposo a Carlos Frederico Lecor, com informações acerca de uma visita que o primeiro fez a Maldonado, por terra, no último trimestre de 1818

 [Folhas numeradas. Está entre duas cartas datas, uma de 7/9/1818 e outra de 10/1/1819]

Ilustríssimo e excelentíssimo senhor

As circunstâncias um pouco confusas que observo na povoação de Maldonado me obrigam a participar a vossa excelência o que tenho observado para melhor julgar o que for mais conveniente. Pelo caminho encontrei em todos contentamento, felicitando-se de poderem gozar do descanso que a tanto tempo desejavam, para restabelecerem as suas casas que de ano em ano se tinham cada vez mais arruinado. De Solis Grande até Pan de Azúcar, observei o mesmo contentamento, porém um pouco de altivez mais nos indivíduos, ainda que prestando-se me para tudo, porém queriam só representar de soldados acompanhando-me ao lado, sem quererem acompanhar a bagagem, e outras vezes adiante.

Do Pan de Azúcar para Maldonado me acompanhou um tenente, comandante do distrito, por algum tempo na estrada onde em conversação me disse que se receava muito do comandante do departamento que estava nomeado, não cometesse // as suas atrocidades antigas, e depois de dizer várias coisas concluiu que havia de fazer toda a diligência para não estar debaixo do seu comando. Disse-lhe que não se desanimasse que em vossa excelência chegando, logo se havia arranjar tudo de um modo muito agradável, pois já lhes tinha mostrado com experiência as vantagens que têm tido aqueles que estão unidos à nossa bandeira. Entreteve mais um pouco de tempo a conversação. Falou-me português muito bem e se despediu. Notei que por todos estes sítios quando entrámos há três anos não falavam mais do que espanhol, e agora são muitos os que falam português bastante claro, o que me dá ideia da oposição que tínhamos quando entrámos no país, e presentemente estarem a favor.

O coronel P… é pouco constante no seu parecer, e tem um oficial que é o seu espírito santo. Chama-se Furrezão se não me engano no nome. É todo metido a belo espírito, e político, de forma que o leva por onde quer ao tenente-coronel. Este homem da primeira vista // que tive com ele, se fez conhecer pelo modo com que falava. Julguei, pelas suas expressões, que estão com ideias de novas condições, e tratados, etc. Não quis entrar em questão por não aclarar ideias que não podia repelir.

Na disputa que houve com o coronel Almeida se faz conhecer a volubilidade de um, e a influência do outro. O primeiro esquecendo-se do que tinha convindo disse que tinha sido forçado o seu consentimento, e o segundo chama antipolítico o levantar a bandeira portuguesa na torre, depois do chefe do departamento estar feito coronel por vossa excelência, e tomar o comando com a sua autoridade.

De todos os rumores que tenho ouvido, conheço que o cabildo e o povo quer a nossa união, e que só alguns oficiais é que se querem reputar como nação, e fazerem tratados, etc. Ouvir Agui… [Francisco Aguilar y Leal (1776-1840), ministro interino de Hacienda em Maldonado] fala sempre comigo a nosso favor, e deseja que a Ponta de Leste [Punta del Este] se povoe; que para isto basta só distribuir terreno aos vizinhos que o quiserem para nele edificar, com obrigação de ocuparem logo o terreno construindo casas. Fala com o // coronel Almeida a respeito da disputa da bandeira. Diz-lhe que isso nunca verá a bandeira portuguesa na torre. Há algumas vozes que dizem dever arvorar a bandeira da pátria, e que nós somos seus auxiliadores. À vista disto me recordo que poderá haver nisto alguma influência anglicana.

Em San Carlos ainda está arvorado o barrete da liberdade e ninguém se atreve a derribá-lo. Os povos estão todos contentes, porém começam a duvidar decididamente o partido que tomarão. É entre os magnatas que há estas diferenças.

O comandante de Maldonado tem pedido armas que se lhe tem dado, e querem obrigar o povo a pegar em armas, julgo para apresentar a vossa excelência um maior número de gente. Têm chegado a dar em alguns para os obrigar. Isto tem feito retirar uns para Montevidéu e outros para a ilha. Corre aqui voz que a gente que se uniu em San José [de Mayo], depois de três dias tornaram outra vez a seguir o partido da Espanha ou pátria.

[…] [Não existe final da carta no manuscrito]

[Francisco António Raposo, Coronel do Real Corpo de Engenheiros]

Fonte: AHM-DIV-2-01-01-21 [imagens 27-30]


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Carta n.º 2 - De Francisco António Raposo a Carlos Frederico Lecor, com informações acerca de uma visita que o primeiro fez a San Domingos Soriano, Mercedes e Rincón de Gallinas, no final de 1818 e inícios de 1819 (Mercedes, 10 de janeiro de 1819)

Ilustríssimo e excelentíssimo senhor

Tenho a honra de participar a vossa excelência que tendo feito uma viagem muito breve, desembarquei na Colónia e achei as obras adiantadas. Sobre a cortina entre os dois meio baluartes está o parapeito feito com taipa; assim como no baluarte da Bandeira já estão feitos os parapeitos de terrão. As paredes dos quarteis das duas companhias estão levantadas, e as que formam o quartel da companhia da retaguarda estão concluídos para madeirar. Ficam continuando o quartel da companhia de vanguarda para quando voltar àquela praça se madeirar e telhar. Ficou eleito o terreno para a fábrica de telha e tijolo. É um lugar junto às barreiras, onde há uma boa planície, ficando-lhe perto a água do rio. Em vinte e duas horas, que ali me demorei, foi o que se determinou, e observei naquela praça sossego e confiança na povoação, sendo o único motivo de queixa a retirada da música para Montevidéu, por deixar a terra triste.

Sai para S. Domingos Soriano, onde cheguei // no dia seguinte ao meio-dia. Logo desembarquei para ver a praça. Pareceu-me a posição pouco militar e deficiente de defender a não ser sustida por alguma embarcação de guerra, que segure a retirada. Não tem mais do que ser o porto vantajoso para o embarque de fazendas. A povoação fica arredada da praia ou porto de embarque coisa de dois tiros de espingarda, e além de ser de pouco consideração, tem as casas muito espalhadas como em habitação de lavradores. Fiquei uma noite na povoação, e não posso deixar de dizer o grande crédito que o tenente Jacinto Roque de Sena tem naqueles povos, todos os festejavam, e lhes ouvi dizer que com a sua chegada tudo estava remediado, que lhes não havia de faltar coisa alguma. 

Conheci o comandante paraguaio Yesdro [Justo Yegros], que foi das forças navais de Artigas. Pareceu-me muito ativo e de bons sentimentos e inclinações e de um carácter superior ao do capitão Palaços. Também conheci o português Saldanha que fez a revolução, nos seus modos e carácter mostra ser como o dos nossos lavradores portugueses. //

Cheguei à Capilha de Mercedes em dois dias. Na viagem que fizemos, admirei-me da quantidade de madeiras com que estão bordadas as margens das ilhas e do Rincão das Galinhas, e desembarcando em um lugar onde estavam cortando madeiras para lenha, me entranhei pelo bosque para ver as grossuras das árvores e a abundância que haveria; vi que se poderiam tirar vigas de trinta palmos de comprimento, e havia grossuras para se poder fazer bom tabuado, em quanto as qualidades me informei daquele rancho de gente, que me asseguravam e ao coronel Pinto haver muito boas qualidades de madeiras de construção, e até se achariam algumas árvores de madeira de epé ou arco e a largura da mata naquele lugar pela terra dentro seria de meia légua. Asseguram-me também que tanto as margens do lado do rio Negro como aquelas do lado do Uruguai estão bordadas de árvores, assim como as ilhas no Uruguai, que as vi muito frondíferas [sic] de árvores.

Pelo que julgo será de uma grande vantagem para // a Real Fazenda estabelecer um partido de gente, que se empregue em cortar madeiras para construção, aproveitando os troncos e ramadas em lenha para fornecimento das praças e para o comércio, persuadido de que só o corte das lenhas pagaria todas as despesas; visto que as embarcações de Buenos Aires e demais partes fazem grandes despesas nos cortes de madeiras para lenha, e estimariam achar a carga pronta para abreviarem a sua viagem. Vossa excelência muito melhor poderá julgar a grande vantagem que se poderia tirar de uma tão grande abundância de madeiras que bordam todas as margens.

Desembarquei no dia 5 ao meio-dia na Capilha de Mercedes e me apresentei ao excelentíssimo Brigadeiro Saldanha e Daun, a quem comuniquei as ordens que tive a honra de receber de vossa excelência. Vi a povoação da Capilha de Mercedes; é muito mais considerável do que S. Domingos, e a sua posição mais defensável. A povoação está toda barricada e em estado de poder resistir a qualquer ataque do inimigo. Estavam // aperfeiçoando os parapeitos ou cortaduras, e em tudo estavam apercebidos. Escolheu-se duas casas que se ligavam com um parapeito pelo lado exterior da povoação para servirem de forte para a guarnição que fica no povo, e em um lugar que entra a povoação guarnecem-se-lhe as seteias de parapeitos de tijolos guarnecidos de seteiras a fim de abrirem os fogos e esconderem o número de gente que os guarnece. Para afastar o inimigo devem chegar as paredes onde se abrigarão do fogo, se guarnece de paliçadas a uma distância que fique debaixo da direção dos tiros das seteias, para serem de cima defendidas com o fogo de mosquete. Têm estas casas capacidade em que possam ter víveres para se sustentarem enquanto não forem socorridas.

No dia seguinte, fui com o senhor Brigadeiro Saldanha visitar o general Curado, e o marechal Oliveira. Receberam-nos com cordialidade, obsequiando em tudo quanto a atenção permite. A sua corporação de oficiais se mostraram [sic] muito obsequiosos. O general Curado falou na cortadura que // já tinha principiado de que já tinham feito 160 braças de comprimento. Mostrou-nos um estrepe de madeira que mandou fazer para resistir ou estropiar a cavalaria. É uma armadilha de três paus cruzados, que fará a altura de dois palmos, e de todo o modo que fique se apoia em três pontas e apresenta outras três para cima. Como não tinha visto o terreno não podia dizer coisa alguma sobre a sua utilidade.

No dia depois, fomos ver o estreito do Rincão e a obra principiada. Tinham-na dado de empreitada pagando a 160 reis a braça, com as dimensões que vossa excelência tinha indicado; porém, o terreno é duro e, depois de uma camada de terra preta de três a quatro palmos de grosso, se encontra uma camada de tufo muito duro para ser levado a enxada, e só a picareta é que pode ser cavado. Este tufo é marnoso [margoso] e bastante duro. Esta dificuldade faz lembrar fazer somente escavações nos lugares onde se deve fazer fogo para flanquear o entrincheiramento, e fazer as continuações das linhas de abates com excelentes árvores de que // há abundância tantos nas margens da vanguarda como na retaguarda da linha. As duas alturas em que tanto falavam são muito pouco sensíveis pela sinuosidade do terreno; uma delas domina a outra ainda que distante. Porém oferecem vantagem para colocar artilharia, para defender a entrada, que deve ficar entre as duas alturas, e proteger os ramais que ligam com as margens do Uruguai e rio Negro.

Segundo o que me disseram, não terá uma légua de extensão; porém, não dou crédito a isto sem medir, o que farei logo que passemos ao outro lado. Julgo será muito mais fácil a obra por haver grande recursos de madeiras, o que muito cobiço ter em Montevidéu e na Colónia.

Continua-se a entrincheirar as duas casas na Capilha, e o coronel Fontes a debulhar o trigo que se apanhou ou colheu nas terras abandonadas, para depois se fazer a mudança de campo para o Rincão, para se continuar a obra do entrincheiramento, que // arbitrariamente o general Curado despendeu julgando [que] levaria outra direção. O campo novo do general Curado está para dentro do estreito do Rincão coisa de meia légua, chegado à margem do rio Negro em uma altura que domina para um e outro lado.

Meu general, sinto ter que dizer da deserção dos soldados que, sem motivo de falta sensível, se têm deixado seduzir por uma carta ou proclamação de Artigas, que aqui deixou, no fez espalhar oferecendo passagem livre para qualquer parte que queiram ir, sem que os obrigue a pegar em armas. Esta ideia tem induzido soldados de bom procedimento que, levados pode ser pelo desejo de ver a sua pátria, os tenha induzido à deserção, persuadidos que por este meio poderão mais facilmente buscar passagem para o reino, ou ficarem livres do serviço. Consta-me serem 13 do batalhão, e dois de artilharia. Esta ideia é muito lisonjeira para os soldados e temo que o expediente não produza maior efeito, pois a esperança de // por este meio poderem ver mais depressa as suas famílias pode agradar muito aos soldados, que julgo por agora não ter motivo de queixa mais que a demora de algum pagamento, pois são muito bem fornecidos de rações, e abundantemente. O senhor brigadeiro Saldanha procura remediar isto quanto pode com as mais eficazes como julgo participará a vossa excelência.

Sendo quanto se me oferece dizer, rogo a vossa excelência me queira desculpar a longa narração com que tomo o precioso tempo a vossa excelência por julgar dever informar sobre todos os objetos que julgo devem interessar, pedindo dito perdão e a continuação das ordens de vossa excelência.

Deus guarde a vossa excelência. Quartel na Capilha de Mercedes. 10 de janeiro de 1819.

Ilustríssimo e excelentíssimo senhor Barão da Laguna

Francisco António Raposo

Coronel comandante do Real Corpo de Engenheiros

Fonte: AHM-DIV-2-01-01-21 [imagens 31-39]


Imagem: Capilla de Santo Domingo de Soriano vista desde la Plaza (Wikicommons)