segunda-feira, 27 de julho de 2026

Resumo do Diario que se fez na marcha do Exercito de S. M. Fidelissima, que sahiu do Rio Grande de S. Pedro, a encontrar-se com o de S. M. Catholica. para hirem unidos a castigar os povos rebeldes das 7 Missões (1755-1756)

Resumo do Diario que se fez na marcha do Exercito de S. M. Fidelissima, que sahiu do Rio Grande de S. Pedro, a encontrar-se com o de S. M. Catholica. para hirem unidos a castigar os povos rebeldes das 7 Missões, que cede Hespanha a Portugal, sendo General do Exercito Portuguez Gomes Freire de Andrade e do Hespanhol D. José Andonaigue. Povo de Santo Angelo. 22 de junho de 1756. (Annexo ao n.º 20164)

Arquivo Histórico Ultramarino, Conselho Ultramarino, Caixa 87, n.º 20164 e 20165


Transcrição feita a partir de fonte impressa no documento, a acompanhar o manuscrito. Não há indicação de ser livro ou periódico. Mantive tanto quanto possível a ortografia etimológica do documento transcrito, que já terá feito as suas próprias adaptações.

Cronologia limite: 15.12.1755 -  18.6.156


«Aos 15 de dezembro de 1755 sahio da villa do Rio Grande o nosso General a encontrar-se com o Exercito que antes havia mandado passar para o Forte de S. Gonçalo, distante ao Rio Grande 10 legoas ao poente, passando primeiro o rio que serve de desaguadouro a Lagôa Merim e depois de pôr em ordem a Tropa, artilharia, trem, bagagens e mais cousas precisas, se poz em marcha no dia 23 do dito. Constava o nosso Exercito de 1106 homens. inclusiveis os officiaes dos quaes 668 herão de Infantaria e 438 de Dragões. 7 peças de bronze, de 2 libras de balla, 3 peças de amiudar, 3750 cavallos, 1600 bois de carro, 106 mullas de carga, 240 piões para serviço dos carros e cavalhada. 145 carros de mantimentos, em cujo numero não entram as carretas de particulares, seus piões, cavallos e bois, 3000 cabeças de gado vacum,'que tudo compõem huma grande comitiva.

Marchou o nosso Exercito por campos de lombadas, e não muy abundantes de agoa em varios campamentos e com bastantes mosegas (que sem embargo do grande cuidado de S. Ex.ª e ordens apertadas) em que varias vezes pegou fogo, por causa do descuido dos piões nos seus ranchos: porém nunca houve perigo, por acudirem as Tropas e apagal-o e no dia 4 de janeiro, mandou o nosso General hum official com praticos em busca do Exercito Hespanhol, com aviso ao General delle para que quizesse continuar a sua marcha thé à Ilha dos Serandiz. onde se encontrarião, por evitar o grande rodeio que nos era preciso fazer para chegar às Cabeceiras do Iaguá. lugar destinado para o encontro.

No dia 6 encontrou o Official o dito Exercito e voltou com a resposta, de que aquelle General convinha com o que parecia a S. Ex.ª, por ser o mais acertado e continuamos a marcha. No dia 16 de janeiro, chegou o nosso Exercito ao lugar onde se achava acampado o Exercito de S. M. C. e o nosso passou pela sua frente na forma seguinte. Marchava junto de campamento, com as bandeirolas e logo a guarda de Campo, que cobria hum Tenente e na sua rectaguarda a carreta do Thezouro. com a guarda de hum sargento e 4 soldados. e depois as 7 peças de bronze nas suas carretas e cada huma com hum catre monchego, com o serviço correspondente: com algum intervallo seguião os 4 Esquadrões de Cavallaria da nossa direita e logo o Batalhão de Infantaria, que commanda o Coronel José Pinto Fernandes Alpoim, com 2 peças de amiudar e na sua retaguarda o Batalhão, que commanda o Coronel Francisco Antonio Cardoso de Menezes e Sousa, com outra peça de amiudar e depois os outros 4 Esquadrões de Dragões, que todos herão comandados pelo Coronel Thomz Luiz Osorio: seguia-se na retaguarda de tudo o Trem e serviço de toda a Artilharia e carretas; os carros e carretas de viveres, formavão outra linha pela esquerda, a qual marchava pela retaguarda do Exercito Hespanhol. O nosso Exercito hia luzidissimo e fardado de novo, que fazia huma bella vista, não cauzou pequena admiração nos Hespanhóes, ver hum corpo tão uniforme na America e muito mais com aquella regularidade por semelhantes certões e despovoados, em que se não tem faltado à mínima couza, que se costuma observar nos Exercitos grandes da Europa. S. Ex.ª se apartou do Exercito com os seus 2 ajudantes de ordens e guarda de Dragões, pelo avizarem que o General Hespanhol o vinha buscar fóra do seu campo.

Hia o sobredito Senhor, montado em hum soberbo cavallo chileno, bellamente adereçado, vestido de encarnado com cabos aues e hum chapéo de plumas pretas e cumprimentando-se os 2 Generaes, marcharão ao Campo Hespanhol e a pé estiverão vendo passar o Exercito de S. M. com grande satisfação. Desde o dia 16 thé 21 estiverão os dous Exercitos parados, por esperar o de S. M. Catholica humas carretas de viveres, que vinhão mais atrazadas; neste lugar publicou o nosso General um decreto em que S. M. lhe dava faculdade de prover todos os postos vagos deste Exercito, e os de Santa Ctharina athé à Praça de Colonia, comprehendendo-se athé ao posto de Coronel incluzivé, com o poder de lhe mandar logo sentar praça e correr o soldo; em virtude deste decreto, promoveu S. Ex.ª 80 e tantos officiaes desde sargentos athé coronéis, despacho que admirarão muito aos Hespanhoes, ficando os Portuguezes muito satisfeitos, por verem que S. M. se lembrava de os ter gostozos em tão larga distancia evitando-lhe por este modo as grandes demoras que havião de ter nos seus requerimentos. No dia 21 de janeiro, marcharão os dous Exercitos em 2 linhas, indo o nosso como auxiliante na esquerda, e no dia 24 chegamos ao porto de Santa Tecla, que está na latitude de 31 gráos, 20 e 57, o qual tinha uma pequena Capella e alguns ranchos, que todos achamos queimados e a campanha d’aquelle districto.

O Exercito Hespanhol marchava em 2 filas ou alas, levando na sua vanguarda 4 peças de artilharia, depois da guarda de campo e bandeirolas; o seu general marcha em coche a 4 mullas e se segue a tropa. No dia 22 se havia apanhado hum Indio no campo, o qual disse que os mais estavam na razolução de se defenderem e que no posto de Santo Antonio novo havião 200 famílias e que na estancia de S. Xavier estava o Padre Luiz e na de S. Miguel estava o Padre Lourenço e o mesmo ratificarão os mais Indios, que nestes ultimos dias tem vindo à falla com os nossos; e hoje 23 disserão não passasemos adiante, emquanto não chegavão cartas dos Padres e de seus Caciques. Os lingoas lhes disserão que viessem fallar ao nosso General e elles o não quizerão fazer, antes responderão se o General quisesse alguma couza fosse lá e continuarão em lançar fogo aos pastos, para que o não tenhão a multidão de cavallos e rezes que levavão ambos os exercitos, porém nós sempre vamos continuando a marcha, apartando-nos da estrada a hum e outro lado a buscar pasto e agua para os animaes.

No ultimo do mez de janeiro pararão os Exercitos no campo de Santo Antonio. proximo a huma povoação de Índios que tem este nome, a qual elles havião queimado tanto que souberão da nossa proxima chegada àquelle logar. No 1.° de fevereiro continuou a marcha e parámos junto do Arroyo Iaguary aonde faltarão 16 hespanhoes que em huma parte descobrião e vigiavão o campo do lado direito do exercito, e se suppoz seria surprehendida pelos Indios, como depois se verificou no dia 5 de fevereiro em que 2 aventureiros Paulistas prizionarão 2 Indios. os quaes confessarão que topando a dita Patrulha huma de índios, estes puzarão bandeira branca e segurarão elles estavão de paz, e muito perto do seu commandante. o qual estava prompto a darnos vacas e o mais que tivesse e indo debaixo de boa fé aonde estavão os ma[i]s Indios, depois de os haverem segurado e desarmado para comerem, os lancearão a todos e os 2 Indios trazião_varios trastes dos mortos. No dia 6 e 7 marchamos thé campar junto do Rio Vacacay que desagoa para o Rio Grande de S. Pedro; na tarde deste dia vierão alguns Indios inquietar a nossa guarda de campo, e sahindo hum Pião nosso para fóra delle, o matarão, dando-lhe cento e tantas lançadas e depois de morto, lhe abrirão hum peito e tirarão o coração: tambem faltou no mesmo dia hum pião hespanhol. O General de S. M. Catholica pedio ao nosso General 150 Dragões, que com 300 soldados seus fossem castigar os ditos Indios, indo commandando o Governador de Monte Vidio e com os nossos o Coronel de Dragões Thomaz Luiz Osorio. Logo forão segundos corpos de reserva de hum e outro exercito, por dizerem erão muitos os Indios. O corpo principal seguio os Indios a distancia de legoa e meia e os atacou, matando o cabo principal, que era hum Indio de grande valor chamado Sepé. e morrerão mais 6 ou 7 Indios e dos nossos só hum soldado Portuguez veio ferido em hum braço com huma lançada. A 8 deu parte a guarda de Campo de avistar muitos Indios e logo o nosso General a mandou reforçar com os piquetes: o General Hespanhol mandou hum corpo de 600 homens seus e nossos com ordem de os hir atacar.

Marcharão estes meia legoa e deu parte o Comrnandante do corpo, que era Hespanhol, que era muita a lndiada: quiz o dito General mandar retirar o corpo, porém o nosso não conveio, dizendo que hera dar mais valor aos Indios, vendo que nos retiravamos, com que assentarão que marchasse o Exercito, que pelo meio dia se poz em marcha, passando primeiro o Rio e chegando as nossas tropas primeiro ao lugar aonde já estava o corpo que havia sahido, fez alto formado em batalhão, esperando as ordens do General Hespanhol, que chegou ás 2 horas, ordenando-nos acampassemos neste lugar, em que não houve agoa nem lenha. No dia 9 não houve mais novidade, que vir a noticia que os Indios havião morto 2 hespanhoes que andavão corneando alguns touros que havia pela campanha. No dia 10 marchamos quazi a rumo do Norte e tendo andado couza de 3 quartos de legoa avistamos grande multidão de Indios formados. que depois se soube herão 1800, logo se meterão as nossas tropas em Batalhão e ordenou o General Hespanhol que desta sorte marchassemos para os Indios, o que se executou em distancia de meia legoa thé que fizemos alto quazi a tiro de mosquete dos ditos Indios; vierão alguns fallar ao General Hespanhol com repetidas arengas e ultimamente propozerão que escrevesse o dito General aos seus Padres e caciques, que elles se retirarião para o norte de hum Artoyo que havia na rectaguarda, emquanto não chegavão as respostas que poderião vir no dia seguinte. Deu-lhe o General Hespanhol huma hora de tempo para se poder retirar, segurando-lhe não farião mal, findo o termo, entrarão com novas arengas, dizendo que elles se não querião retirar daquele lugar, e que caminhassemos nós sobre o seu lado direito, onde havia hum arroyo, em que poderiamos campar.

Respondeu-se-lhes que eles nos não governavão, que se retirassem logo, quando não abririamos caminho. O empenho de demorar-nos hera estarem levantando a terra e cobrindo-se com toda a força, pelo que se lhe cominou se retirassem i que se o não fazião, em ouvindo tocar as caixas de guerra, certo hiamos castigar a sua rebeldia.

Em todo este tempo não quiz o nosso General rezolver nada por si, como querião os Hespanhoes, e sempre respondeu estava promto para executar as ordens do General Hespanhol.,que era o auxiliado e sabia as que tinha da sua Côrte. O Governador de Monte Vidio prevenia ao nosso General que tanto que no Exercito Castelhano se desse fogo a huma peça, fizesse o mesmo a nossa artilharia e se seguisse o ataque, porque os Indios teimavão e querião se metesse a noite para nos fazer alguma. Mandou o nosso General ordem a 3 Esquadrões de Dragões da esquerda, que tanto que se desse principio ao ataque, carregassem o lado direito dos Indios pelo seu flanco, por se dizer ali tinhão a sua artilharia, e marchassem 2 peças de amiudar, com huma companhia de granadeiros a flanqueal-os, e que no ataque tambem carregassem sobre o mesmo flanco. Deitarão os Capelães a absolvição aos soldados e se seguiu o viva Elrey. A pouco espaço deu fogo a peça de signal e correspondeo logo a nossa Artilharia. com a felicidade de matar o commandante dos Indios. e como foi grande o fogo o Exercito se avançou com pressa e se pozerão os Indios em precipitada fuga e os nossas os alcançarão e forão matando thé se meterem por huns barrancos que havião a hum e outro lado do seu campo, lugar estreito, donde fazendo fortes, tiravão com flexas e pedras, porém a nossa infantaria os forçou com repetidas cargas de mosquete por todos os mais ……….. as Tropas castelhanas matavão a tiro de lança quantos encontravão.

Os nossos Esquadrões da esquerda e as gentes de Correntes (homens valorozos) carregarão os do lado direito, e por distancia de mais de huma legoa forão matando Indios. e se julgou pelos que se contarão e deixarão de contar, mais de 1200 mortos e 150 prizioneiros. Haverião na trincheira quando se deo principio ao combate 1800 entre cavallaria e infantaria e hera do mesmo numero o nosso exercito atacante, por estar grossa escolta guardando as bagagens da nossa rectaguarda. Dos Portugueses ficou o Coronel Thomaz Luiz Osorio ferido em 3 partes de flexas, sendo o mais perigoso o das costas: morreo hum soldado e 20 feridos, em que entrou hum alferes de Infantaria.


Dos Hespanhoes morrerão 2 soldados e 10 feridos, e principiando a acção ás 2 horas da tarde se achava concluída ás 3 e 10 minutos. Deixarão os Indios todas suas bandeiras, caixas de guerra e artilharia, cujas peças erão de grandeza de pedreiros, feitas de madeira e forradas de couro, carregadas com balla miuda e a nenhuma derão fogo. Tão bem tinhão algumas pequenas minas, malfeitas e ficarão sem effeito. Pondo-se o exercito em marcha, caminhamos hum terço de legoa, onde campamos junto a hum pequeno arroyo.

Acharam-se nos mortos varias cartas. pelas quaes se vem no conhecimento de serem os ditos Indios exhortados e instigados pelos Padres para se opporem ao seo Soberano e igualmente enganados por elles, pretendendo conserval-os republicanos ou tendo já declarado a hum com o titulo de Rey.

No dia 15 de fevereiro paramos no Campo de Santa Anna, que se achava quazi na latitude de 30 gráos, que hera a mesma do passo do Rio Jacuy, aonde o anno de 1754 havia estado o nosso Exercito, e de donde havia communicação aberta para o Rio Grande de S. Pedro. O General Hespanhol quiz marchar era seguimento dos Indios athé às Missões, porém o nosso General lhe propoz ser precizo segurar o passo do dito Rio Jacuy, unica communicação para as nossas terras, para por elas nos entrarem os viveres com que havíamos de subsistir nas Aldeias.

Instou o General Hespanhol em seguir para ellas, e o nosso em seguir o passo, dizendo ultimamente, que se elle hia a castigar os Povos rebeldes e voltar, que mandasse tocar á marcha, porque havia mantimentos bastantes para o fazer, porém se os hia castigar e pôr em socego as Aldeias e esperar que chegasse o Marquez de Val de Lirios, principal Comissario de S. M. Catholica, para as entregar com todas as clausulas expressas no tratado de limites, que se havia de gastar muito mais tempo e que concluido o mantimento perecerião as Tropas por não haver mais que aquelle passo por onde entrasse nas ditas Missões e a Fortaleza de Jesus, Maria José, 15 legoas distante para dentro do dito passo, e que ficando este fortificado e seguro, se facilitavão os soccorros e não menos as noticias das suas respectivas Côrtes, e que sem esta circumstancia se não avançava com a sua tropa, pelo risco a que a expunha. Bem conhecia o General Hespanhol serem ajustadas com a razão e com as leis militares as propostas do nosso General, porém teimava em contrario, instigado dos seus officiaes. que estavão na esperança de que tanto que chegassem às Missões, e as rendesse, tomava dellas posse o nosso General e elles se recolherião a Buenos Ayres com o seu.

O nosso o dezensanou segurando-lhe que as Aldeias as não podia receber se não da mão do Marques de Val de Lirios, que estava em Buenos Ayres, e que não podia vir as Missões se não passado o inverno, cuja demora se estendia a 8 ou 9 mezes, e que forçosamente as Tropas havião de tomar quarteis de inverno nas Missões. Conveio o General Hespanhol em que se segurasse o passo e nelle se fizesse hum forte, onde ficasse guarnição para as occurrencias do Exercito e no dia 22 marchou a Tropa e gente precisa para aquella fabrica e sua guarnição e forão 400 mullas á Fortaleza de Jesus Maria José. carregar farinha de guerra para o exercito e hum capitão hespanhol para ficar governando o dito forte. Athé o 1.º de março fomos mudando de campamento por causa do pasto e agoa, e neste dia paramos junto de hum arroyo em que achamos 2 canoas no seu passo e no dia 6 chegou hum alferes de Buenos Ayres escoltado de 30 soldados dos que estavão no Rio Jacuy com cartas de Buenos Ayres e da Europa o qual havia vindo pelo Rio Grande, pelas quaes tivemos noticia que S. M. Catholica. havia lançado fóra do seu Palacio ao seu Confessor o Padre Francisco Rabago, da Companhia, por estar informado de elle ser a causa da oposição que fazião os Indios à entrega das Missões, e de que mandava ordens apertadissimas ao Provincial deste Religião em Buenos Ayres para que logo fizessem que os Indios cedessem sem a menor perda de sangue dos seus vassalos, e que do contrario experimentaria a Companhia o ultimo rigor da sua indignação e o avisava de que brevemente chegarião a Buenos Ayres mil soldados e virião muitos mil se fosse necessario, não só para castigar as 7 Missões. porém todas as outras. Com a chegada destas cartas conhecerão os Hespanhoes, o quanto era util a communicação e segurança do passo do Rio Jacuy e thé o dia 10 se responderão as cartas e marchou outra vez o Alferes pelo dito passo ao Rio Grande e d'ahy a Buenos Ayres. No dia 11 marchamos a mudar de campamento e o mesmo se fez no dia 12, em que campamos junto ao Arroyo Vacacayminimini, attendendo o nosso General a que alguns piões Castelhanos e Portugueses arruinavão as cazas das estancias e tiravão alguns trastes das pequenas ermidas. que encontravão, mandou representar ao General Hespanhol este inconveniente, o qual resolveu que no seu campo, se daria em cada Pião 100 açoutes, e sendo soldado 6 carreiras de varetas. O nosso General tambem mandou que se algum soldado profanasse aquelles lugares ou arruinasse as cazas, seria castigado rigorosamente. de sorte que servisse de exemplo aos mais e sendo pião, hiria para as galés. N'este campo aparecerão alguns Indios, ouvirão de noite alguns rebates porém não derão mais discomodo. que o de pôr-se o exercito em armas. Athé o dia 21 de março. nas demoramos Oeste campo de Vacacayminimini, por estarmos esperando que chegasse a Tropa que havia hido ao Jacuy a conduzir a farinha de guerra a qual chegou neste mesmo dia e foi repartida pelos dous exercites: nestes dias em que paramos, continuaram os Indios em aparecer e vir à falla com os guardas do campo e hum delles deixou huma carta em hum pão, na qual referião que adeante na boca do monte grande tinhão 1001 soldados, para dentro do monte 3001, e á nossa rectaguarcia 8001, em que entravão minuanes e charruas, protestando sempre não largarião as suas terras e aldeias, pois erão suas e Deus lh’as tinha dado. No dia 22, marcharão os exercitos, deixando em hum campo hum traço de cavallaria para se recolher as bagagens e a huma legoa de distancia do rio, avistamos os Indios em numero de 80 sobre huma lomba alta e tanto que chegamos perto entrarão a fazer varias escaramuças (signaes dos seus desafios) e como nos pareceo que detraz da dita lomba terião corpo maior, se formarão as tropas em batalha, dando-nos os Hespanhoes a direita e o lugar da primeira linha por não dar lugar o terreno para mais, de se formar tudo em huma.

Ao nosso lado direito havia bosque. donde sahião varios Indios, por cuja cauza pôz o nosso General na frente as 3 companhias de Granadeiros com as 3 peças de amiudar e a mais artilharia e no resto da Infantaria formou hum martello que cobrisse o flanco direito fazendo frente ao dito bosque, acompanhado tudo de cavallaria. se marchou para os Indios, que se foram retirando thé à boca do matto, onde se metterão forçados de alguns tiros de artilharia. A nossa tropa veio assim marchando e tanto que chegou defronte da entrada do bosque, se desfez o martello, ficando tudo em batalha, e os dragões cobrindo o flanco direito atirarão os Indios de dentro do matto alguns tiros que parecia de pedreiro com ballas de pedra e parecia estarem intrincheirados no bosque: mandou S. Ex.ª avançar humas peças de amiudar com 20 granadeiros e outra dos Hespanhoes, que disparando alguns tiros e os Indios outros, nos pareceo estar a trincheira abandonada, à qual concorrerão os piões e creados que acharão dezamparada e ainda seguirão os Indios por dentro do matto, que se retirarão precipitadamente. Como não podiamos entrar no matto, por ser preciso concerto para se passarem as carretas e bagagens, enquanto as tropas estiverão formadas em batalha, se formou o campamento, e logo se metterão os exercitos em quarteis defronte do sobredito matto a tiro de pedreiro, postando-se à boca do dito matto huma guarnição, de 120 soldados hespanhoes e portugueses. A trincheira dos Indios era mal feita e nella se acharão 3 peças de madeira, como as que se apanharão no dia 10 de fevereiro; nesta noite houverão 4 rebates e nelles a nossa guarda de Paulistas de pé matou huma espia, do qual se achou pela manhã o poncho como signal do tiro e sangue: a este campo se poz o nome de S. Lucas, por estar proximo a huma estancia e capella do mesmo Santo. No dia 23 marchou o exercito com a ordem seguinte por dentro do matto. Na vanguarda alguns pioens com a mestrança alimpou o caminho para passar a artilharia e logo a infantaria hespanhola pelo Governador de Monte Vidio e à sua direita por dentro do matto 80 Paulistas commandados pelo Capitão João Raposo d’Affonseca Lima e na esquerda outros 80 com o capitão Francisco Paes de Almeida. Seguião-se as nossas 3 companhias de Granadeiros com as 3 peças de amiudar, logo 4 peças de artilharia com os nossos fuzileiros e detraz os Dragões de S. M. e na rectaguarda 150 Dragões nossos com o Tenente Coronel José Ignacio de Almeida: assim marchou tudo por dentro do matto

cousa de 3 quartos de legoa the sahir a hum campo que dentro havia onde parámos não só por ser já tarde para passar a outra porção de matto, que seguravão os Indios ser de mão caminho, como por se achar molestado o General Hespanhol por ter neste dia montado a cavallo. No campo de S. Lucas havião ficado todas as bagagens e as tendas guardadas par 500 homens portuguezes e hespanhoes, commandados pelo nosso Coronel de Dragões Tbomaz Luiz Osorio, por cuja razão ficou sem tendas o exercito esta noite.

Em 24 se poz o Exercito em marcha com a mesma ordem do dia antecedente e a meia legoa de distancia passamos hum ribeiro com o seu fundo de pedras soltas o qual he braço do Rio Hibicuy e corre para o este e d’ahi a couza de hum quarto de legoa principiamos a subir a serra, que tem a sua subida muy aspera e tanto que dizem os Indios que quando descião aquelle caminho se apeavão dos cavalos: he em aberto sobre rocha e com varios rodeios para o suavizar e ao lado delle precipicio de muita altura: custou bastante a subir a artilharia que foi tirada pelos soldados animados pelo nosso General a quem elles davão repetidos vivas, quando puchavão e os mesmos tem ouvido muitas vezes dos hespanhoes e igualmente se alentarão com a noticia que veio de que os Indios estavam fóra do matto que já os havião investido aIguns dos nossos. Foi sahindo o Exercito ao campo, fóra da serra e matto, onde se forão formando e marchamos adeante couza de hum terço de legoa, onde campamos; aqui tivemos a noticia de que sahindo 11 pessoas castelhanas portuguezas, mais avançadas do Exercito, lhe sahirão ao encontro couza de 20 Indios e retirando-se deles ganharão pequeno matto, onde se fizerão fortes e chegando os Indios os chamarão para fora do matto de donde dispararão huma arma, por cuja razão não só se retirarão os Indios, mas para verem se vinha aproximando o exercito a eles. Neste campamento se poz o nome de Campo Alto, parámos para se abrir no matto novo caminho por onde podessem subir as carretas, e depois de se fazerem varias entradas no matto se escolheo o melhor sitio, o qual se abriu sobre pedraria, o que custou muito, trabalhando n’elle mais de 200 homens, em perto de hum terço de legoa de distancia, derrubando grossas arvores e arrancando pedraria de hum lado e lançando-a para outro, para altearem o caminho e fazerem ainda que inclinado plano. e na maior subida se achou (depois de composto o caminho) que em distancia de 3000 palmos medidos horizontalmente devia a inclinação do caminho ter mais de 500; fez-se hum cabrestante para ajudar a tirar acima as carretas e em alguns espaços mais altos cadernaes com cabos para o mesmo fim thé que no dia 15 de abril se principiarão a passar e ouve dia em que passarão 60 carretas, emquanto se concertou o caminho. Chegarão no dia 11 de abril 2 Indios da Aldeia de S. Miguel e S. Luiz, com cartas para o General Hespanhol, huma do Padre cura de S. Luiz. em que dizia que os Indios da sua Aldeia estarão resolutos a ceder e que querião saber que terras lhes davão e que pedião os Indios prisioneiros: as outras erão do Povo e Caciques bastantemente atrevidas, pois nellas pedião a Deus desse mais juizo ao General Hespanhol e lhe apontavão varias exemplos de alguns Governadores de Buenos Avres e o máo fim que tiverão. teimando na resistencia de não largarem as aldeias: disse o Indio que trouxe as cartas que d'alli a 3 legoas estavão bastantes mil homens junto a hum Arroyo: neste mesmo dia se respondeu ao Padre que aquelle não era o proprio modo de solicitar a piedade de Elrey. que devia elle vir com os seus caciques a imploral-a e à carta dos Índios se respondeo de palavra, que a resposta de seus papeis brevemente lh’a haviamos dar pessoalmente. No dia 17 chegarão outros 2 Indios da Aldeia de S. Miguel com huma carta grande em Guaramy para a General Hespanhol em nome do Superior de todas as Missioens e seus caciques, na qual asseveravão, que se não havião de mudar das Aldeias, pois se não capacitavão que o seu Rey lhe mandasse entregar as suas terras aos Portuguezes. de quem sempre lhes havido mandado guardar. Na dita carta comparavão o General Hespanhol a Judas, pois debaixo de boas palavras os enganava. Dizião que não tinha elle General que escrever aos Padres, porque se não mettião nesse negocio, nem elles Indios o querião consentir. nem consentirião, e que só com elles e seus caciques podião tratar o que quizesse. porque os ditos Padres no decurso de quatro annos, que lhe pregavão fizesse o que-El-rey mandava nao havião conseguido nada e que em Tudo o mais que não fosse largar as terras estavão prontos para lhes obedecerem, pois sabião que as palavras de Deos erão as linguas dos Padres, ás quaes obedecerião athé à morte, porém que como esta entrega era vontade do Demonio certamente a não havião de obedecer tambem athé á Morte, e bem se conheceo das mesmas circunstancias e affectações das cartas, que para a sua composição havião concorrido os Padres; querendo mostrar que não cooperavão na rebeldia dos Indios: porém estes confessão o contrario e dizem que os Padres são os que movem tudo, estes Indios se demorarão sem lhes dar resposta della. Nestes dias que estivemos parados apanharão os Peões portuguezes e hespanhoes 1120 rezes, que forão de grande soccorro para os 2 exercitos.

No dia 21 de abril já todas as bagagens, carros e tropa se achavão recolhidos aos exercitos e no seguinte se poz tudo em marcha e a mesma se seguiu no dia 26, onde foi preciso abrir passos para as carretas no Arroyo Guaruyupe, vierão alguns Indios em numero de 10 à vista da nossa guarda de campo: algumas pessoas que havia fóra da guarda se avançarão mais para ver se elles querião fallar, porém elles se retiravão e de longe incitavão os nossos, que procuravão atacal-os, mas elles se pozerão em retirada: no dia seguinte tornarão a aparecer, mas de longe. No dia 28 se continuou a marcha. e no dia 29 e no de 30 parámos para descansar a boiada e cavalhada, que já vem quazi incapaz da trabalhar, além do grande numero de animaes, que tem morrido e campamos junto do Rio Turipy. No dia 1, 2 e 3 de maio se continuou a marcha e campamos no ultimo, à vista da Estancia de S. Francisco Xavier, de cujo santo tomou o nome este campo: logo que chegámos a elle. principiamos a ver grande multidão de Indios, que divididos em alas como procissão marchavão para nós, divididos com intervallos grandes e como quem nos queria cercar, parecerão à vista como couza de 3000 Indios: dispararão-se algumas peças, mas elles como estavão dispersos e sem ordem não fazião effeito. A este tempo já à nossa cavallaria hespanhola e portugueza não estava (por arruinada) em estado de atacar e nos foi preciso esperal-os, fazendo o exercito alto, o que vendo os Indios e fiados na nossa impossibilidade por conta da cavallaria, se esforçarão a passar pelo nosso flanco esquerdo e picar a rectaguarda. o que com effeito conseguirão caosa de 80, porém forão logo rebatidos, de sorte que se pozerão em retirada, e como o nosso General tinha mandado avançar 3 esquadrões de Dragões, a impedir aos mais que passassem, e aos que tinhão passado o regresso, foi forçozo a estes o tentarem a passagem para a fuga por hum pantanosinho a que se meterão, largando os cavallos por segurar as vidas, porém sempre ficarão 2 mortos e forão alguns feridos deixando 37 cavallos, a mesma diligencia fizera o Corpo Espanhol pelo seu lado direito, aonde se travou com a Tropa de Corrientes huma grande escaramuça e nella ficarão 18 Indios mortos e subprendidos bastantes cavallos e 8 mulas. Como os Indios se retirarão hum pouco foi a Tropa portugueza ganhando terreno, a ver se esperavão, porém elles nunca quizerão chegar a tiro. Hum esquadrão espanhol destaca do seu corpo se avançou mais e deste sahirão 8 soldados a atacar sem forma huns poucos de Indios e disparando as armas sem effeito lanças: não havia para campar o exercito outro melhor lugar do que aquelle onde primeiro se havia formado em batalha, e como se hia findando a tarde se tocou à retirada e viemos campar nelle o resto do dia e de noite the às 8 horas estivemos cercados de Indios, fazendo repetidas escaramuças e algazarras; foi preciso nesta noite encerrar todo o gado e cavalhada. entre as carretas da bagagem e guarnecel-as com tropa e artilharia. No dia seguinte, 4 de maio parou o exercito no mesmo campo e pela manhã tornarão os Indios a occupar os mesmos postos do dia antecedente e gastarão todo este em escaramuças e gritarias.

Depois de jantar apareceu pela nossa rectaguarda hum esquadrão de 150 Indios e logo se destacarão algumas partidas e como hião montadas em cavallos de particulares e estes marchavão lentamente entenderão os Indios, que era por causa da impossibilidade dos cavallos, que bem os conhecião, por cuja razão, fiados nos seus nos esperarão: os nossos tanto que se acharão em alcance os carregarão repentinamente, metendo-as em tal confuzão, que não acertavão a escapar, de cujo choque ficarão 2 mortos e feridos e os mais se retirarão a todo o galope.

Todo este dia se occuparão os Indios em lançar fogo ao campo vizinho. porém sem nos causar damno: no dia 5 retrocedemos o caminho que levavamos, por nos segurarem alguns Indios prisioneiros era dobrado, e que hiamos melhor pela outra estrada que haviamos deixado.

Os Indios ao principio se capacitarão que nos tornavamos para traz e vierão-nos seguindo a rectaguarda com gritarias, dizendo-nos, que já lhe tinhamos medo e que obravamos com acerto, porque de contrario se seguiria o matar-nos a todos. Mas tanto que nos virão tomar a outra estrada das aldeias, ficarão suspensos deixando de nos seguirem e os que já levavamos pela vanguarda nos forão lançando fogo ao pasto do caminho, porém sem nos poderem impedir a marcha, e formamos acampamento nas primeiras vertentes do Rio Paratiny, que desagua no Uruguay em hum vantajozo sitio. Thé o dia 9, não houve mais novidade, que a continuação da marcha, inda que muy vagaroza por causa da grande debilidade dos animaes, arruinados da larga jornada, chuvas, frios e geadas, morrendo diariamente grande numero d'elles. Neste ultimo dia aparecerão 14 Indios e hum delles chegou a fallar, dizendo que á 3 dias tinha resuscitado e vinha vingar a morte, que lhe haviamos dado e que Deos lhe havia dito que os Reys não querião tal entrega, que nós eramos huns ladrões, que lhe vínhamos roubar as suas terras e que no dia seguinte nos veríamos. No dia 10 de maio marchou o exercito do campo de S. Francisco de Assis e logo principiamos a avistar Indios e seguimos a marcha; encontramos hum passo estreito cercado de matto e avistamos por cima delle huma trincheira com que os Indios estavão cobertos e como nos era preciso passar primeiro o passo do Rio Hycriaby e podia este estar tomado (como com effeito estava) mandou S. Ex.ª formar 10 peças de artilharia em batalha para os desalojar da sobredita trincheira emquanto atacavamos o passo e esforçavamos, e aos primeiros tiros desampararão os Indios a trincheira e as nossas Tropas e as castelhanas atacarão o passo do rio: teria o dia (sic) passo 70 palmos de largo na sua abertura, entre matto, de comprido the à margem do rio 300 palmos; o rio de largo 60 e tambem da outra margem era bordado de matto; entrou toda a nossa Infantaria portugueza e espanhola em 2 columnas com as nossas 3 peças de amiudar na frente, fazendo fogo pata ella e para os lados: os Indios dispararão tambem as suas peças e armas e como foi grande o fogo que fizemos, abandonarão logo os índios as trincheiras com que defendião o passo, que passarão huns soldados o rio a ganhal-as achando nelas huns taboens com 3 canos de espingarda de cada hum, a que davão fogo por rastilho e varios lugares em que tinhão peças. Havia na frente 3 porções de trincheira e do lado direito da nossa entrada outras 2 para nos disputarem a entrada do passo, todas escondidas dentro do matto, que se não vião de fóra; da outra parte direita do rio. em hum lugar alto tinhão outra bateria aonde achamos 2 peças de pau calibre de 4, a que não chegarão a dar fogo: atravessado o passo se formou a infantaria em batalha para hir ganhar a trincheira, que primeiro se viu de fóra, e a que estava acertada a nossa artilharia, a qual tambem achamos abandonada e examinando o sitio achamos estar todo cortado de caminhos por entre o matto, ou para nos atacarem ou para fugirem: da mesma sorte topamos logo 9 baterias fabricadas de grossos páus, terra e pedras e fachinas e seguindo a postura em que se achavão e as suas inclinações, mostravão serem feitas por quem tinha mais intelligencia do que a dos Indios e sem duvida, que se fossem defendidas com constancia, não digo por tropas reguladas, mas ainda pelos mesmos Indios, daria bom trabalho a ganhar o passo e custaria bastantes vidas. Da tropa portugueza ouve 1 soldado ferido de huma bala em huma perna e dos espanhóes hum peão morto por desgraça. Sahio o Exercito fóra do matto, onde campou, ficando a bagagem da outra parte do rio, para passar no dia seguinte. Depois tivemos noticia haverem morrido 50 e tantos Indios. No dia 12 continuou o exercito a marcha e campamos junta ao Arroyo Ycarupy, lugar onde claramente avistamos a Missão de S. Miguel, distante huma legoa: aqui nos vimos outra vez cercados de Indios, porém afastados da Tropa e dispersos em numero de 1000, com pouca differença, tentarão porém picar-nos a rectaguarda, mas alguns esquadrões nossos lhe fizerão suspender a idea e só poderão alcançar algumas rezes: sahio a tropa correntina amparada por 2 companhias de granadeiros nossos com 2 peças de amiudar e avançando estes, os Indios, onde estavão em maior numero se pozerão em precipitada fuga e tanto que os nossos tocarão à retirada, viravão os Indios com escaramuças e algazarras, mudando continuamente de lugar para lhe não acertarem os tiros, e nisto continuarão athé noite, que se retirarão.

A 13 se suspendeo a marcha por sobrevir huma trovoada com chuva: continuarão os Indios com suas carreiras os nossas Paulistas lhe fizerão huma emboscada em que matarão hum Indio: neste dia vimos principiar a arder as casas no Povo de S. Miguel, em que assistião os Padres e no dia 14 tambem não marchamos por continuar a chuva e em outra emboscada matarão os mesmas Paulistas outro Indio e trouxerão hum ferido, que confessou ser de hum dos Povos da outra parte do Uruguay e disse que em S. Miguel estavão poucas familias e que as mais estavão pelos mattos a hum e outro lado do Povo. No dia 15 continuamos a marcha em distancia de hum quarto de legoa unicamente para melhorarmos de campamento; aparecerão varios Indios e em hum pau posarão huma carta para o General espanhol, em que dizião que eles sempre forão amigos dos Castelhanos, que se separassem dos Portuguezes porque os querião matar, porém nós tornamos este avizo pelo contrario, pois eles sempre tiverão mais respeito á Tropa Portugueza da qual se afastavão mais. A 16 de maio marchamos para perto do Povo, acampamos junto a huma capela de N. S.ª do Loreto, feita de pedra e pelas mesmas medidas d'aquella que os Anjos transportarão e estava acabada de pouco, pintada e dourada por dentro, porém alguma cousa tinha desmanchado do altar. Aparecerão bastantes Índios e mandou S. Ex.ª pôr as providencias necessarias para que não chegassem as bagagens: vierão bastantes ao acampamento segurando querião pazes, principalmente os de S. Luiz e Santa Borja e se lhe respoudeo viessem os Padres e cabido dar obediencia: pelas 3 horas da tarde sahio hum destacamento de 100 Portuguezes e 100 Espanhoes a examinar o Povo de S. Miguel em que continuava o incendio e já se vião bastantes ruinas; foi este entrando sem oposição por estar abandonada pelos Indios e se achou que alem de algumas casas do Povo havião ardido todas as em que habitavão os Padres, que erão muitas e as melhores e certamente arderia a Igreja se S. Ex.ª não mandasse atalhar o fogo, que já se communicava á sachristia.

A Igreja estava despojada de ornatos: o sacrario quebrado e a maior parte das portas e tudo em tal desordem. que causou notavel pena a todos ver o pouco respeito com que havido tratado a casa de Deos, logo se lhe poz huma guarda para conservar o que ainda existia. He este Templo de S. Miguel de 3 naves, com o seu cruzeiro e sobre elle sua meia laranja: tem de vão pelo seu comprimento 350 palmos e de largo 120: as naves são divididas com pilares e arcos e os pilares com columnas alheias, que resaltão hum pouco fóra das paredes á ordem da architectura corintia e a sua cornija serve de cimalha real a todo o corpo interior da qual ao plano da Igreja ha 45 palmos de pé direito; todo he de pedra de inchilaria branda e de côr avermelhada, inda que o interior da Igreja caiada, tem 5 altares e 4 no cruzeiro do altar mór, que he de talha nova, mas de gosto ordinario e da parte do Evangelho no cruzeiro tem 2 altares, hum de Santo Ignacio e outro de N. S.ª da Conceição, pintados e dourados de gosto Moderno e de boa grandeza: o frontespicio he muito bom, segue a mesma ordem da architectura e nella tem huma alpendrada de 5 arcos de frente, com columnas com seu tímpano abalaustrado por cima; o segundo corpo continua com 3 pilares e a mesma ordem ao lado do alpendre tem 2 corpos com arcos e columnas o da parte esquerda da Igreja finda com o seguimento dos balaustres do timpano, e o da direita he para corpo da torre, a qual inda tem 2, e este ornado com 3 pilares capitaes alchetraves, frizos e cornija tudo de pedra; acharão-se na torre 6 sinos, 2 maiores e 4 pequenos, e tanto estes como os das mais aldeias são fundidos nas Missões da outra parte do Uruguay.

Da parte esquerda da igreja ha hum grande pateo, rodeado de alpendres, que serve de cemeterio, e da direita outro grande pateo, onde os Padres tinhão os cubículos, refeitorio. escola de solfa e instrumentos, que chegavão a 20 casas, tudo com varandas cobertas em roda com pilares de pedraria, que tudo achamos arruinado e queimado: havia n’este huma passagem que dava serventia a outro grande pateo, onde estavão as officinas; achamos huma casa com 24 teares. huma grande ferrada, caza de ourives. armaria e bastantes armazens, alpendre de entalhadores e fóra de tudo huma caza forte com prizão e tronco, e na parte opposta hum recolhimento para viuvas e donzelas: nas costas de tudo isto huma grande cêrca; o povo se compõe de 77 Ilhas de casas, em que havia 1400 e tantas famílias; cada Ilha cercada de alpendres com pilares de pedra e todas as ruas em linha recta: as Ilhas tinhão 8, 9 e 10 cazas; em cada casa vivião 2 e 3 familias, na maior miseria que se pode imaginar, pois na mesma casa, que he pequena, acendem fogo e dormem todos em redes e couros: faz compaixão ver a grande escravidão em que vivem e a summa pobreza em que os conservão. sem ter cousa alguma que póssão chamar seu, mais que o pouco panno de algodão com que se cobrem: as mulheres não tem outro vestido que 2 sipoias, que são do feitio de 2 sacos grandes abertos por ambas as partes, que metem pela cabeça e se embrulhão nelles, sem mais outra compostura. Os homens tem calção de algodão camisa. hum surtum e seu pouxo, tudo do mesmo, e como isto he meramente resumo, quando se fizer historia se verão seus usos e costumes.

No dia 18 mudamos de campamento para a frente do Povo, sobre o caminho que vae para a Aldeia de S. João, e acudindo o nosso General à frente do campo, como costuma sempre, deu huma grande queda de hum barranco abaixo, por estar a noite escura, da qual maltratou bastante o peito, o que nos deu grande cuidado, mas foi Deos servido melhoral-o em breves dias. No dia 19 vierão alguns Indios de S. João, dizendo querião dar obediencia e trazião cartas do seu cura para o General Espanhol, na qual expressava ter reduzido aquelles Indios a dar obediencia, e que elle não vinha por se achar enfermo, que se S. Ex.ª desse licença, mandaria o seu companheiro, caciques e cabido a pedir perdão. N'este dia marchou hum destacamento (ao anoitecer) de 600 Espanhoes e 200 Portuguezes commandados pelo Governador de Montevidio, com ordem de mandar ao Povo de S. Lourenço, 2 legoas distante, e que ao romper da manhã a atacassem por estar renitente em vir dar obediencia, o que succedeo com felicidade porque os apanharão em descuido, e a tempo que quizerão resistir se acharão cercados e surprendidos e com elles 3 Padres, em que entrava o Padre Thadeo e o Padre Francisco Xavier; recebida a noticia ordenou o General Espanhol lhe remetesse o commandante os P. P. com hum esquadrão de cavallaria e o destacamento ficasse na Missão the segunda ordem e aos Indios de S. João se respondeu com carta para o padre cura, que viessem o companheiro e o cabido. A 21 chegou o Padre companheiro de S. João deu obediencia com os caciques e se retirou no dia 22, jurando cumprir certos capitulos que se lhe impozerão. De 21 thé 22 não houve mais novidade, que algumas disposições tratadas pelos Padres para socego das Aldeias.

No dia 25 chegarão os curas de Santo Angelo, S. Luiz e Cabidos a prestar juramento de obediencia e o Padre Thadeo veio para o nosso campe por ordem do General Espanhol, onde S. Ex.ª o tratou com toda a attenção, sem embargo de que todos julgavão que estava em prizão. No dia 28 marchou a Exercito a mudar de campo deixando no Povo de S. Miguel hum destacamento de 50 Portuguezes e 50 Espanhoes, com huma peça de amiudar para que os Indios não acabassem de o arruinar. Thé o fim do mez não ouve mais novidade que chegar o Padre Lourenço Valda com alguns Indios de S. M. a tratar composição e ficar o Padre demorado no campamento espanhol, o que tambem nos pareceu prizão. Continuou o exercito a marcha the o dia 2 de junho, e campamos entre os arroyos Urubacaramini e Guaçú, em cujo campo estivemos thé o dia 8 e nelle se festejarão os annos do nosso Soberano, vindo a juntar com S. Ex.ª o General Espanhol e todos os seus officiaes de patente, a cuja função vierão os Indios musicos de S. João assistir com os seus instrumentos e como estavamos já perto da Aldeia deste nome, expedio o nosso General ordens apertadissimas para que não fosse pessoa alguma ao dito Povo, por se não inquietarem as familias que nelle existião. No dia 8 se continuou a marcha junto do Povo de S. João. onde sahirão os Indios, officiaes militares e cabillantes em acto ceremonial a cumprimentar os Snrs. Generaes e no dia 11 entrarão S. Ex.as no Povo e os Indios os vierão buscar com a mesma ceremonia, e na Igreja os esperarão com musica. A Igreja desta Aldeia he de madeira e as paredes de adubos; he mais comprida que a de S. Miguel, mas menos larga; tem 3 naves e os pilares que sustentão as arcadas são de madeira: toda he pintada por dentro: tem 5 altares: as casas dos Padres são melhores que o erão as de S. Miguel e o mais tudo he o mesmo; tem as mesmas Ilhas casas, ainda que mais custas; nesta aldeia mandou o General Espanhol preparar quarteis para elle e para a sua Tropa, e disse ao General podia tambem quarteis dc inverno. S. Ex.ª se resolveo a tomal-os na Aldeia de Santo Angelo. por ficar mais proximo das terras de Portugal, para o que nos pozemos em marcha no dia 12 de junho e passando a nossa Tropa por dentro do Povo, se formou em batalha e postas as armas em terra forão a fazer oração à Igreja e campamos distancia de 3 quartos de legoa. No dia 13 se continuou a marcha the encontrar o Rio Yvvmini 3  quartos de legoa do campo antececente; tem este rio 100 palmos de largo e se passou todo o trem em balsas o que nos deu bastante trabalho e as carretas por cabos de vaevem, no que se gastou este dia e o seguinte.

Em 15 de junho continuamos a marcha em distancia de huma legoa, the encontrar o Rio Yuiguaçú, que tem dobrada largura que o antecedente, porém dava passo a cavallo e tanto este como o antecedente, se augmentão no tempo das cheias de mais de 12 palmos de fundo e no dia 17, à noite, já tudo estava do outro lado do rio campado a distancia de hum quarto de legoa, e no dia seguinte, 18, chegamos ao Povo de Santo Angelo, onde o nosso General tomou quarteis com a sua Tropa e fica trabalhando para reparal-a das passadas fadigas padecidas em tão dilatadas marchas e escabrosos passos, de que não he facil a inteira exposição em tão resumido extrato.»


Fonte

Arquivo Histórico Ultramarino, Conselho Ultramarino, Caixa 87, n.º 20164 e 20165

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