segunda-feira, 4 de maio de 2026
Diário Militar de Bento Correia de Câmara (Junho e Julho de 1819)
Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)
“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".
Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)
Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820
(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]
* * *
[Início]
1816. 1.ª Campanha.
Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.
Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.
Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano.
Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati. -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado.
Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.
Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.
Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817.
1817.
Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.
Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.
Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.
Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.
1818.
Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.
Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.
Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.
Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29.
[1819]
Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.
Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú.
Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.
Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.
Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.
Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.
2.ª Campanha, 1820.
Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.
Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.
Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".
[Fim]
* * *
Pequena biografia
O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.
Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete. É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.
Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
Correspondência entre Francisco António de Raposo e Carlos Frederico Lecor (1818-1819)
Carta n.º 1 - De Francisco António Raposo a Carlos Frederico Lecor, com informações acerca de uma visita que o primeiro fez a Maldonado, por terra, no último trimestre de 1818
[Folhas numeradas. Está entre duas cartas datas, uma de 7/9/1818 e outra de 10/1/1819]
Ilustríssimo e excelentíssimo senhor
As circunstâncias um pouco confusas que observo na povoação de Maldonado me obrigam a participar a vossa excelência o que tenho observado para melhor julgar o que for mais conveniente. Pelo caminho encontrei em todos contentamento, felicitando-se de poderem gozar do descanso que a tanto tempo desejavam, para restabelecerem as suas casas que de ano em ano se tinham cada vez mais arruinado. De Solis Grande até Pan de Azúcar, observei o mesmo contentamento, porém um pouco de altivez mais nos indivíduos, ainda que prestando-se me para tudo, porém queriam só representar de soldados acompanhando-me ao lado, sem quererem acompanhar a bagagem, e outras vezes adiante.
Do Pan de Azúcar para Maldonado me acompanhou um tenente, comandante do distrito, por algum tempo na estrada onde em conversação me disse que se receava muito do comandante do departamento que estava nomeado, não cometesse // as suas atrocidades antigas, e depois de dizer várias coisas concluiu que havia de fazer toda a diligência para não estar debaixo do seu comando. Disse-lhe que não se desanimasse que em vossa excelência chegando, logo se havia arranjar tudo de um modo muito agradável, pois já lhes tinha mostrado com experiência as vantagens que têm tido aqueles que estão unidos à nossa bandeira. Entreteve mais um pouco de tempo a conversação. Falou-me português muito bem e se despediu. Notei que por todos estes sítios quando entrámos há três anos não falavam mais do que espanhol, e agora são muitos os que falam português bastante claro, o que me dá ideia da oposição que tínhamos quando entrámos no país, e presentemente estarem a favor.
O coronel P… é pouco constante no seu parecer, e tem um oficial que é o seu espírito santo. Chama-se Furrezão se não me engano no nome. É todo metido a belo espírito, e político, de forma que o leva por onde quer ao tenente-coronel. Este homem da primeira vista // que tive com ele, se fez conhecer pelo modo com que falava. Julguei, pelas suas expressões, que estão com ideias de novas condições, e tratados, etc. Não quis entrar em questão por não aclarar ideias que não podia repelir.
Na disputa que houve com o coronel Almeida se faz conhecer a volubilidade de um, e a influência do outro. O primeiro esquecendo-se do que tinha convindo disse que tinha sido forçado o seu consentimento, e o segundo chama antipolítico o levantar a bandeira portuguesa na torre, depois do chefe do departamento estar feito coronel por vossa excelência, e tomar o comando com a sua autoridade.
De todos os rumores que tenho ouvido, conheço que o cabildo e o povo quer a nossa união, e que só alguns oficiais é que se querem reputar como nação, e fazerem tratados, etc. Ouvir Agui… [Francisco Aguilar y Leal (1776-1840), ministro interino de Hacienda em Maldonado] fala sempre comigo a nosso favor, e deseja que a Ponta de Leste [Punta del Este] se povoe; que para isto basta só distribuir terreno aos vizinhos que o quiserem para nele edificar, com obrigação de ocuparem logo o terreno construindo casas. Fala com o // coronel Almeida a respeito da disputa da bandeira. Diz-lhe que isso nunca verá a bandeira portuguesa na torre. Há algumas vozes que dizem dever arvorar a bandeira da pátria, e que nós somos seus auxiliadores. À vista disto me recordo que poderá haver nisto alguma influência anglicana.
Em San Carlos ainda está arvorado o barrete da liberdade e ninguém se atreve a derribá-lo. Os povos estão todos contentes, porém começam a duvidar decididamente o partido que tomarão. É entre os magnatas que há estas diferenças.
O comandante de Maldonado tem pedido armas que se lhe tem dado, e querem obrigar o povo a pegar em armas, julgo para apresentar a vossa excelência um maior número de gente. Têm chegado a dar em alguns para os obrigar. Isto tem feito retirar uns para Montevidéu e outros para a ilha. Corre aqui voz que a gente que se uniu em San José [de Mayo], depois de três dias tornaram outra vez a seguir o partido da Espanha ou pátria.
[…] [Não existe final da carta no manuscrito]
[Francisco António Raposo, Coronel do Real Corpo de Engenheiros]
Fonte: AHM-DIV-2-01-01-21 [imagens 27-30]
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Carta n.º 2 - De Francisco António Raposo a Carlos Frederico Lecor, com informações acerca de uma visita que o primeiro fez a San Domingos Soriano, Mercedes e Rincón de Gallinas, no final de 1818 e inícios de 1819 (Mercedes, 10 de janeiro de 1819)
Ilustríssimo e excelentíssimo senhor
Tenho a honra de participar a vossa excelência que tendo feito uma viagem muito breve, desembarquei na Colónia e achei as obras adiantadas. Sobre a cortina entre os dois meio baluartes está o parapeito feito com taipa; assim como no baluarte da Bandeira já estão feitos os parapeitos de terrão. As paredes dos quarteis das duas companhias estão levantadas, e as que formam o quartel da companhia da retaguarda estão concluídos para madeirar. Ficam continuando o quartel da companhia de vanguarda para quando voltar àquela praça se madeirar e telhar. Ficou eleito o terreno para a fábrica de telha e tijolo. É um lugar junto às barreiras, onde há uma boa planície, ficando-lhe perto a água do rio. Em vinte e duas horas, que ali me demorei, foi o que se determinou, e observei naquela praça sossego e confiança na povoação, sendo o único motivo de queixa a retirada da música para Montevidéu, por deixar a terra triste.
Sai para S. Domingos Soriano, onde cheguei // no dia seguinte ao meio-dia. Logo desembarquei para ver a praça. Pareceu-me a posição pouco militar e deficiente de defender a não ser sustida por alguma embarcação de guerra, que segure a retirada. Não tem mais do que ser o porto vantajoso para o embarque de fazendas. A povoação fica arredada da praia ou porto de embarque coisa de dois tiros de espingarda, e além de ser de pouco consideração, tem as casas muito espalhadas como em habitação de lavradores. Fiquei uma noite na povoação, e não posso deixar de dizer o grande crédito que o tenente Jacinto Roque de Sena tem naqueles povos, todos os festejavam, e lhes ouvi dizer que com a sua chegada tudo estava remediado, que lhes não havia de faltar coisa alguma.
Conheci o comandante paraguaio Yesdro [Justo Yegros], que foi das forças navais de Artigas. Pareceu-me muito ativo e de bons sentimentos e inclinações e de um carácter superior ao do capitão Palaços. Também conheci o português Saldanha que fez a revolução, nos seus modos e carácter mostra ser como o dos nossos lavradores portugueses. //
Cheguei à Capilha de Mercedes em dois dias. Na viagem que fizemos, admirei-me da quantidade de madeiras com que estão bordadas as margens das ilhas e do Rincão das Galinhas, e desembarcando em um lugar onde estavam cortando madeiras para lenha, me entranhei pelo bosque para ver as grossuras das árvores e a abundância que haveria; vi que se poderiam tirar vigas de trinta palmos de comprimento, e havia grossuras para se poder fazer bom tabuado, em quanto as qualidades me informei daquele rancho de gente, que me asseguravam e ao coronel Pinto haver muito boas qualidades de madeiras de construção, e até se achariam algumas árvores de madeira de epé ou arco e a largura da mata naquele lugar pela terra dentro seria de meia légua. Asseguram-me também que tanto as margens do lado do rio Negro como aquelas do lado do Uruguai estão bordadas de árvores, assim como as ilhas no Uruguai, que as vi muito frondíferas [sic] de árvores.
Pelo que julgo será de uma grande vantagem para // a Real Fazenda estabelecer um partido de gente, que se empregue em cortar madeiras para construção, aproveitando os troncos e ramadas em lenha para fornecimento das praças e para o comércio, persuadido de que só o corte das lenhas pagaria todas as despesas; visto que as embarcações de Buenos Aires e demais partes fazem grandes despesas nos cortes de madeiras para lenha, e estimariam achar a carga pronta para abreviarem a sua viagem. Vossa excelência muito melhor poderá julgar a grande vantagem que se poderia tirar de uma tão grande abundância de madeiras que bordam todas as margens.
Desembarquei no dia 5 ao meio-dia na Capilha de Mercedes e me apresentei ao excelentíssimo Brigadeiro Saldanha e Daun, a quem comuniquei as ordens que tive a honra de receber de vossa excelência. Vi a povoação da Capilha de Mercedes; é muito mais considerável do que S. Domingos, e a sua posição mais defensável. A povoação está toda barricada e em estado de poder resistir a qualquer ataque do inimigo. Estavam // aperfeiçoando os parapeitos ou cortaduras, e em tudo estavam apercebidos. Escolheu-se duas casas que se ligavam com um parapeito pelo lado exterior da povoação para servirem de forte para a guarnição que fica no povo, e em um lugar que entra a povoação guarnecem-se-lhe as seteias de parapeitos de tijolos guarnecidos de seteiras a fim de abrirem os fogos e esconderem o número de gente que os guarnece. Para afastar o inimigo devem chegar as paredes onde se abrigarão do fogo, se guarnece de paliçadas a uma distância que fique debaixo da direção dos tiros das seteias, para serem de cima defendidas com o fogo de mosquete. Têm estas casas capacidade em que possam ter víveres para se sustentarem enquanto não forem socorridas.
No dia seguinte, fui com o senhor Brigadeiro Saldanha visitar o general Curado, e o marechal Oliveira. Receberam-nos com cordialidade, obsequiando em tudo quanto a atenção permite. A sua corporação de oficiais se mostraram [sic] muito obsequiosos. O general Curado falou na cortadura que // já tinha principiado de que já tinham feito 160 braças de comprimento. Mostrou-nos um estrepe de madeira que mandou fazer para resistir ou estropiar a cavalaria. É uma armadilha de três paus cruzados, que fará a altura de dois palmos, e de todo o modo que fique se apoia em três pontas e apresenta outras três para cima. Como não tinha visto o terreno não podia dizer coisa alguma sobre a sua utilidade.
No dia depois, fomos ver o estreito do Rincão e a obra principiada. Tinham-na dado de empreitada pagando a 160 reis a braça, com as dimensões que vossa excelência tinha indicado; porém, o terreno é duro e, depois de uma camada de terra preta de três a quatro palmos de grosso, se encontra uma camada de tufo muito duro para ser levado a enxada, e só a picareta é que pode ser cavado. Este tufo é marnoso [margoso] e bastante duro. Esta dificuldade faz lembrar fazer somente escavações nos lugares onde se deve fazer fogo para flanquear o entrincheiramento, e fazer as continuações das linhas de abates com excelentes árvores de que // há abundância tantos nas margens da vanguarda como na retaguarda da linha. As duas alturas em que tanto falavam são muito pouco sensíveis pela sinuosidade do terreno; uma delas domina a outra ainda que distante. Porém oferecem vantagem para colocar artilharia, para defender a entrada, que deve ficar entre as duas alturas, e proteger os ramais que ligam com as margens do Uruguai e rio Negro.
Segundo o que me disseram, não terá uma légua de extensão; porém, não dou crédito a isto sem medir, o que farei logo que passemos ao outro lado. Julgo será muito mais fácil a obra por haver grande recursos de madeiras, o que muito cobiço ter em Montevidéu e na Colónia.
Continua-se a entrincheirar as duas casas na Capilha, e o coronel Fontes a debulhar o trigo que se apanhou ou colheu nas terras abandonadas, para depois se fazer a mudança de campo para o Rincão, para se continuar a obra do entrincheiramento, que // arbitrariamente o general Curado despendeu julgando [que] levaria outra direção. O campo novo do general Curado está para dentro do estreito do Rincão coisa de meia légua, chegado à margem do rio Negro em uma altura que domina para um e outro lado.
Meu general, sinto ter que dizer da deserção dos soldados que, sem motivo de falta sensível, se têm deixado seduzir por uma carta ou proclamação de Artigas, que aqui deixou, no fez espalhar oferecendo passagem livre para qualquer parte que queiram ir, sem que os obrigue a pegar em armas. Esta ideia tem induzido soldados de bom procedimento que, levados pode ser pelo desejo de ver a sua pátria, os tenha induzido à deserção, persuadidos que por este meio poderão mais facilmente buscar passagem para o reino, ou ficarem livres do serviço. Consta-me serem 13 do batalhão, e dois de artilharia. Esta ideia é muito lisonjeira para os soldados e temo que o expediente não produza maior efeito, pois a esperança de // por este meio poderem ver mais depressa as suas famílias pode agradar muito aos soldados, que julgo por agora não ter motivo de queixa mais que a demora de algum pagamento, pois são muito bem fornecidos de rações, e abundantemente. O senhor brigadeiro Saldanha procura remediar isto quanto pode com as mais eficazes como julgo participará a vossa excelência.
Sendo quanto se me oferece dizer, rogo a vossa excelência me queira desculpar a longa narração com que tomo o precioso tempo a vossa excelência por julgar dever informar sobre todos os objetos que julgo devem interessar, pedindo dito perdão e a continuação das ordens de vossa excelência.
Deus guarde a vossa excelência. Quartel na Capilha de Mercedes. 10 de janeiro de 1819.
Ilustríssimo e excelentíssimo senhor Barão da Laguna
Francisco António Raposo
Coronel comandante do Real Corpo de Engenheiros
Fonte: AHM-DIV-2-01-01-21 [imagens 31-39]
Imagem: Capilla de Santo Domingo de Soriano vista desde la Plaza (Wikicommons)


