sábado, 27 de julho de 2019

Memórias: Expedição do Algarve, Junho e Julho de 1833 (capitão Marquês de Fronteira)


«O Marechal Solignac foi logo substituido, como Major General, pelo General Saldanha, e organisou-se uma Divisão, debaixo do commando do Tenente-General, Duque da Terceira, para desembarcar nas costas do Algarve.
Foi então que o Duque do Fayal passou a ter o titulo de Duque de Palmella, sendo nomeado Governador Civil provisorio, para partir com a expedição.

A Divisão do Duque da Terceira foi assim organisada: Commandante o Tenente-General, Duque da Terceira; Ajudante-General o Tenente-Coronel Manuel José Mendes; Quartel-Mestre General o Major José Jorge Loureiro; Secretário militar o capitão Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque; Ajudantes de campo os capitães Marquez de Fronteira e D. Manuel da Camara; Officiaes de ordens o tenente Conde de Ficalho, Ajudante de campo do do Imperador, e varios outros officiaes; Auditor o bacharel João Antonio Lobo de Moura, hoje Visconde de Moura e Ministro de Portugal na Russia.

A força compunha-se de duas Brigadas. A primeira, commandada pelo General Schwalbach, que era a ligeira, constava de Caçadores 2 commandado pelo Coronel Romão, e Caçadores 3 commandado pelo Major Vasconcellos, hoje General, Barão de Leiria. A segunda Brigada, do commando do General Brito, compunha-se do batalhão de Infanteria 3 commandado pelo Coronel Marianno Barroso, do batalhão de Infanteria 6 commandado pelo Coronel Torres, e do batalhão francez de seiscentas baionetas commandado pelo Coronel Barão de Schwartz, batalhão e Coronel que eram uma verdadeira peste. Ia mais meia bateria de montanha, servida pelos academicos, e dezoito lanceiros montados, commandados pelo capitão Griffet, hoje Brigadeiro.
O General D. Thomaz de Mascarenhas estava addido ao Quartel General, assim como o Major Rezende, que ultimamente morreu General e Barão, e Saint-Maurice, antigo Ajudante do Marechal Solignac, e outros officiaes.

Recebemos ordem de embarque para o dia 20 de Junho, á noite: mais uma separação de amigos e parentes e, principalmente, do irmão, que era o meu primeiro amigo, deixando-o sitiado e ameaçado dum grande assalto, commandado por um dos primeiros capitães do Exercito francez, porque já se annunciava a chegada do Marechal Bourmont para commandar o Exercito de D. Miguel, isto quando eu partia para uma expedição das mais aventurosas, apenas com mil e quinhentos homens que tinham de arrostar com forças triplicadas em numero e que iam intentar o ataque duma capital de trezentos mil habitantes com uma guarnição de oito mil homens.

Abraçando o irmão e os amigos e dando-lhes os ultimos adeuses, parti no dia 18, de tarde, para a Foz, seguindo o meu General. Este aquartelou-se com o seu collega Saldanha, e eu e os meus camaradas onde pudémos.
Eu arranchei com os academicos que faziam parte da expedição. Entre elles, havia um dos meus amigos de creação, Domingos de Saldanha, irmão do General Saldanha, o doutor Freitas, advogado nesta capital, bem conhecido pelo seu espirito mordaz, e o meu actual collega na Camara dos Pares, Pinto Bastos.
Meu cunhado e o Conde de Ficalho tambem se associaram comnosco e as horas que alli passámos correram alegremente, tendo uma mesa soffrivel.
No dia 18, embarcaram, com grande custo, por causa do fogo das baterias, Napier e o Quartel-Mestre General José Jorge Loureiro, e mais alguns officiaes, decidindo-se que o embarque dos Duques de Palmella e da Terceira tivesse logar na noite de 19, na praia entre a Foz e o Farol da Luz.
Napier, que não era o typo do aceio, teve a fantasia de tomar, nesta occasião, um banho, debaixo do fogo das baterias inimigas, na praia da Foz.

Á meia noite entrámos num grande escaler que estava a grande distancia do mar, o qual, depois de embarcarmos, foi levado por oitenta homens, que o deviam levar, com o maior silencio, até o pôrem a nado, por isso que nós estavamos a meio tiro de fusil das vedetas inimigas, valendo-nos a escuridão da noite.
Assim que a embarcação cahiu na agua e que os remos se puzeram em movimento, sendo nós presentidos pelas vedetas e baterias inimigas, rompeu, de todos os lados, um fogo vivissimo, mas felizmente em direcção contraria áquella em que íamos; apesar dos foguetes da China illuminarem o espaço, nunca nos puderam descobrir. No campo inimigo sabia-se da expedição e pode-se fazer ideia do empenho que teriam em metter a pique a embarcação que conduzia os Duques ou o Almirante Napier.
Muito nos custou a abordar á fragata almirante: a noite estava escura, e andamos, de navio em navio, até que, ao fim de duas horas, encontrámos a fragata Rainha de Portugal. Entrando na camara do Almirante Napier, elle francamente nos disse que tinha dois canapés para os Duques e que nós tinhamos o chão por cama e o peor de tudo era que havia a peste a bordo, porque o cholera lavrava na tripulação e, nas ultimas vinte e quatro horas, tinham fallecido seis homens da equipagem.

Seriam duas horas da noite quanto o Almirante nos fez servir um pessimo grog e nos deu a permissão de fumar na sua camara, propondo-nos o fazermos um deposito geral dos nossos charutos bons e maus e termos uma ração diaria de tantos charutos por cabeça.
O Quartel-Mestre General, eu e varios dos nossos camaradas annuimos á proposta, do que muito nos arrependemos, porque o Almirante, que fumava sem cessar, fumou a maior parte dos charutos do deposito.
Foi nesta noite que elle teve a curiosidade de saber o meu nome, e desde logo começou a chamar-me Fronteira e nem uma só vez na sua vida me deu o titulo de Marquez.
Embrulhámo-nos nos capotes e deitámo-nos no sobrado. Junto a mim estava o meu cunhado e o meu amigo, Major David, que estava muito incommodado. Não pudémos pregar olho toda a noite.

O Almirante Sartorius ainda estava a bordo, e toda a noite esteve em conferencia com o novo Almirante, o qual subia á tolda repetidas. vezes e passava por cima de nós, pondo-nos os pés, ora na barriga, ora nas costas, como se andasse pelas ruas dum jardim.
Ao romper do dia estavamos todos na tolda, juntamente com o Almirante. Faltava-nos agua e polvora e Mendizabal que, como já disse, era da expedição. O Almirante telegraphou logo para a Foz: Agua e polvora ou desembarco a expedição.

Durante o dia, recebemos a agua e polvora, debaixo da protecção da bandeira ingleza, porque o commandante da estação tinha instrucções secretas para proteger o embarque de polvora e dinheiro para a esquadra.
Pelas cinco horas da tarde, vimos sahir da Foz um escaler com a bandeira ingleza: era Mendizabal que se dirigia á fragata almirante, trazendo dois enormes caixões que se collocaram na carnaça onde jantavamos. Mendizabal entendia, e com razão, que era mais commodo sahir a barra do Porto debaixo da bandeira ingleza.
A caixa militar já estava a bordo, mas elle improvisou uma: pediu ao commandante da estação ingleza no Porto que lhe garantisse, com a sua bandeira, os fundos que levava para as despezas da expedição.
O Almirante Napier, maravilhado da grande somma de dinheiro que Mendizabal trazia nos enormes caixões, desconfiou que fosse alguma estrategia do fino Mendizabal e, mandando abrir um dos caixões, achou-o cheio de calhaus e pedras da praia da Foz! Este episodio muito nos fez rir durante toda a viagem.

* * *

No dia 21 pela manhã fez-se a expedição de vela, no rumo do sul, e sobre a tarde aproximou-se da barra da Figueira.
No dia 22 pela manhã avistou-se Peniche, e a fragata almirante aproximou-se da costa e da praça a tal ponto que, sem oculo, viamos a guarnição sobre as muralhas. O resto da expedição seguia viagem por fora das Berlengas.
Dobrámos o Cabo de S. Vicente durante a noite; era na vespera de S. João e vimos os frades do Hospicio do Cabo, á roda da fogueira.

O General e o Almirante tinham escolhido para ponto de desembarque as vizinhanças de Villa Real de Santo Antonio, afim de cortar ao inimigo a estrada de Mertola e limpar completamente a foz do Guadiana.

No dia 24 fomos roçando a costa do Algarve, soffrendo o fogo dos muitos fortes que a guarnecem, mas sem lhe respondermos. Pelas tres horas da tarde, estavamos em frente da praia escolhida para o desembarque, chamada de Alagôa, entre o forte de Cacella e Monte Gordo, a legua e meia de Tavira.
O Vice-Almirante fez avançar as embarcações de guerra, formando os transportes uma segunda linha. Tanto da praia, como do forte, fizeram alguns tiros, a que respondeu a fragata Rainha, fazendo calar as baterias de terra, vendo nós fugir pela praia os artilheiros. 
O desembarque effectuou-se logo com a maior facilidade. Muitos habitantes vieram ao nosso encontro, assegurando-nos que Villa Real estava completamente abandonada.

O General ordenou logo a marcha sobre Tavira, e a esquadra principiou a navegar ao longo da costa, em direcção ao Cabo de S. Vicente.
A noite estava escura e constava ao General que o Visconde de Mollelos, Governador do Algarve, estava a pouca distancia, com ideias de resistencia. Fizemos alto e bivacámos por algumas horas. Como acontece no meio dia da Europa, as noites de Junho são humidas e muitas vezes frias sobre a madrugada, e eu, por prevenção, tinha o meu capote sobre a terra. O meu amigo David ia de mal a peor, e ambos nos cobriamos com o mesmo capote, deitando-nos numa eira. Antes do romper do dia, continuámos a marcha, encontrando o inimigo na margem direita do pequeno rio Almargem.
O Visconde de Mollelos tinha escolhido aquella posição para: cobrir Tavira, e alli nos esperavam, com quatro peças de artilharia, os realistas de Tavira, Faro e Beja, e alguns artilheiros, do numero 2 e um destacamento de Cavallaria 5.
Alguns tiros de fusil e canhão manifestaram a presença do inimigo, mas, logo que a nossa columna avançou, coberta nos seus flancos por alguns atiradores, fugiu até Faro, atravessando Tavira, em desordem, e deixando em nosso poder uma peça de calibre 6 e uma de 3, e muitas munições. Nós apenas tivemos um soldado ferido e um contuso, mas, infelizmenie, o meu amigo e camarada Major David, assistente do Quartel-Mestre General, Passando a ponte, foi gravemente ferido num braço, isto sobre um ataque de cholera, que trazia desde a sahida do Porto, o que ignoravamos, produzindo-lhe a morte, apesar dos esforços do habil facultativo, Major Libanio, companheiro do Duque em todas as campanhas, e do desvelo do General e de todos nós.
Desde esta epoca, fiquei convencido de que o cholera não é contagioso: dormi ao lado do Major durante toda a viagem e no bivaque, cobertos com o mesmo capote!

Entrámos em Tavira em triumpho. Os habitantes pronunciaram-se logo pela causa da Rainha. O Duque, antes de se estabelecer no bello Quartel-General do Governador do Reino do Algarve, entrou no Convento dos Franciscanos, onde o guardião nos serviu belos figos e da melhor fructa de que tenho provado, e, perguntando-lhe o Duque pelos frades, soubemos que tinham morrido todos de cholera, escapando só elle e o leigo.
Não era consoladora a noticia para nós, que tinhamos devorado da bella fructa que nos apresentavam.

O Duque de Palmella e o Vice-Almirante vieram a terra conferenciar com o Duque da Terceira, e no dia seguinte marchámos sobre Olhão, sabendo, a pouca distancia desta villa, pelos habitantes que em massa nos vieram receber, que tinham acclamado ali a Rainha. 
Foi um dos quadros populares mais bellos que tenho visto, pelo vestuario dos habitantes e pela grande especialidade de palmas e ramos que traziam nas mãos.
Acampámos dentro e fora da villa. O cholera fazia alli grandes estragos.

Ao romper do dia, marchámos sobre Faro, onde entrámos entre repiques de sinos e girandolas de foguetes. O destacamento de Cavalaria 5, commandado pelo alferes Couceiro, apresentou-se logo, abandonando Mollelos, bem como vinte officiaes da primeira linha que alli estavam em deposito.
Poucas horas depois da nossa chegada, o litoral do Algarve tinha acclamado a Rainha e a Carta.
O Duque de Palmella, Napier e Mendizabal desembarcaram logo, e a esquadra ancorou na costa.
O General occupou-se logo da remonta para os officiaes do Quartel General, bagagens e reserva de polvora, o que se fez com toda a facilidade, pela boa vontade dos habitantes. Nós tinhamos marchado a pé, desde o momento do desembarque.

Os Duques e o Almirante estabeleceram-se no Palacio Episcopal, que o Bispo tinha abandonado momentos antes de nós chegarmos, dirigindo-se á capital. Alli estavamos, o mais commodamente possivel, tendo encontrado uma dispensa muito bem sortida.
O batalhão francez era o cancro da Divisão do Duque, os maiores ladrões e bebados que tenho visto. O Barão Schwartz era um verdadeiro cavalheiro de industria.
O Duque pediu ao Almirante um vapor para transportar logo duzentos dos mais insubordinados para as Berlengas, que já estavam occupadas por uma força nossa.
O seu embarque foi difficil, disparando as espingardas contra o General, Coronel e todos nós, e o resto do batalhão foi condemnado a ficar de guarnição em Faro, porque era impossivel que entrasse em campanha.

O Almirante Napier combinava os seus planos de campanha com o Duque, Loureiro e officiaes de Estado Maior, mas tinha tempo para tudo. Queria a sociedade do bello sexo e reprehendeu, uma vez, seriamente, o seu bom e amavel enteado, Charles Napier, porque, indo comigo a uma sociedade de senhoras, o não tinhamos levado; quando soube, porem, que a reunião tinha sido de boa sociedade e não suspeita, chamou-nos tolos, porque, em tempo de guerra, não se frequenta a boa sociedade do bello sexo.
Feitos os preparativos para nos pormos em marcha, seguimos sobre S. Bartholomeu de Messines e Loulé. O Duque de Palmella ficou em Faro, organisando o paiz. O General Brito foi nomeado, interinamente, Governador Militar do Reino do Algarve, e o Major Luna Governador da praça de Faro.

Bivacámos, no primeiro dia de marcha, na bella propriedade do Duque de Loulé, á Quarteira, onde nos faltava tudo, excepto perus, reduzindo-se o nosso jantar a peru assado, sem mais pão nem biscoito, porque nada havia.

O cholera assolava todos os casaes das immediações. O General, deixando uma brigada em S. Bartholomeu de Messines, aquartelou a outra Brigada em Loulé, onde estabeleceu o Quartel General em casa do Capitão-Mor Mascarenhas, com mais de oitenta annos de edade e que, desde o principio da usurpação, tinha seu filho nas masmorras da Torre de S. Julião.
Tanto elle como sua respeitavel esposa nos receberam com grande enthusiasmo, hospedando-nos com o maior luxo. A noite, as pessoas distinctas da terra vieram cumprimentar o Duque, e os donos da casa esmeraram-se em fazer as honras d'ella.
Na manhã seguinte, o almoço estava servido para o General e seu Estado Maior; esperavam-se os donos da casa, que não appareciam, quando de repente se abriu uma porta e appareceu o dono, trajando o luto mais rigoroso, com o aspecto triste e carregado, dizendo ao Duque que o desculpasse por o ter feito esperar, mas que naquella noite um ataque de cholera lhe tinha roubado a sua velha esposa. Apesar do terrivel golpe, teve a coragem de almoçar comnosco, almoço tristissimo, interrompido algumas vezes com o arranjo do enterro.

Foi ao sahir da missa militar, um domingo, que o Duque da Terceira teve a agradavel noticia de que, no dia 2 [na verdade, 5] de Julho, o Almirante Napier tinha derrotado completamente e aprisionado a Esquadra de D. Miguel. A noticia era dada pelo Duque de Palmella, remettendo um bilhete do Almirante, em que dizia: Pouco mais ou menos, a Esquadra inimiga está em meu poder. Tenho muitos prisioneiros; meio os posso guardar. Venham os Duques coadjuvar-me quanto antes.
O Duque de Palmella partiu logo num vapor para a bahia de Lagos, onde estava a Esquadra, e o Duque da Terceira, montando logo a cavallo, tomou o caminho de Lagos, por Albufeira. Ahi descançou alguns momentos em casa duma senhora distincta do paiz, visita de muito compromettimento para ella, porque, poucas semanas depois, perdeu os filhos e o genro, ficando só no mundo, pelo crime de ter dado hospitalidade ao Duque.

Chegámos a Lagos na manhã seguinte. A maruja miguelista e muitos soldados da Brigada tinham sido desembarcados pelo Almirante Napier. O mau hospital de Lagos estava cheio de feridos, tanto nossos como do inimigo, e Lagos estava em completa anarchia.
O Almirante tinha levantado a sua bandeira na nau inimiga, a nau Rainha, e o Duque de Palmella estava a seu bordo, achando-se prisioneiro o Almirante miguelista.
Muita impressão me fez, quando entrei na camara do Almirante, o vêr muitos officiaes amigos e conhecidos, gravemente feridos, entrando neste numero o enteado do Almirante. O segundo Commandante da nossa Esquadra entendia-se que estava mortalmente ferido, e tinhamos perdido dois Capitães de Mar e Guerra, um d'elles de quem era amigo e com quem tinha relações desde o principio da campanha, o capitão Jorge.
Com gosto abracei os dois unicos jovens officiaes portuguezes que se acharam na batalha e que tinham sido meus companheiros de viagem desde o Porto até ao Algarve, o tenente Guimarães, hoje Visconde da Villa da Praia de Macau, onde foi Governador, e o Capitão de Mar e Guerra, Sergio, Ajudante de Campo de Sua Magestade.

Não me proponho descrever a batalha do Cabo de S. Vicente, do dia 2 de Julho [na verdade, 5]. Acha-se descripta em diferentes documentos officiaes. Foi um feito extraordinario: basta dizer que o Almirante Napier, com fragatas, abordou e aprisionou duas naus. 
Das enxovias de Lagos sahiu um jovem hespanhol que residia no Algarve, irmão do bem conhecido consul de Hespanha, D. Nicasio, para hospedar o Duque na sua casa, onde não residia havia cinco annos, tanto era o tempo em que jazia nas masmorras de D. Miguel, victima das suas opiniões liberaes, apesar de ser subdito estrangeiro. 
Depois de coadjuvar o Almirante Napier na difficil posição em que estava e de dar uma tal ou qual organização a duzentos marujos e soldados da Brigada que deviam seguir a nossa Divisão por terra, tendo combinado com o Almirante os movimentos, devendo este seguir viagem para a foz do Tejo conduzindo o Duque de Palmella, dirigiu-se o Duque da Terceira para Silves e d'aqui para S. Bartholomeu de Messines, onde reuniu as suas duas Brigadas e se preparou para marchar sobre a provincia do Alemtejo.
Quando nós entravamos em Messines, sahia o famoso Remexido, para entrar em campanha a favor do Usurpador com as suas guerrilhas, e que tantos annos fez tremular a bandeira de D. Miguel nas montanhas do Algarve depois da Convenção de Evora-Monte. Desde aquelle dia nunca mais voltou a Messines; conheci muito sua mulher, porque foi patrôa do General Schwalbach.
Vinte e quatro horas depois de chegarmos a Messines, mandou o Duque fazer um reconhecimento pelo Major José Pedro de Mello, levando debaixo de suas ordens o alferes de Cavallaria 5 apresentado e as praças que o seguiam. A uma legua de Messines foram surprehendidos pelo Remexido, aprisionados e conduzidos a Lisboa. O alferes e os soldados eram desertords do Exercito miguelista e o Major Mello era tido e conhecido por um dos maiores liberaes do Exercito; receámos muito que o patíbulo fosse a triste sorte dos nossos camaradas.
Avançámos sobre Santa Clara. Remexido retirava na nossa frente com os seus vinte guerrilhas, sem lhe podermos tocar, graças ás montanhas da Serra do Algarve. Entrámos em Santa Clara á hora da missa, porque era um dia santificado. O prior, ao levantar a hostia, proclamou a Rainha e a Carta.
Sendo este sacerdote um individuo de toda a confiança, o Duque incumbiu-o, nessa noite, duma missão delicada. O Coronel Domingos de Mello tinha feito um movimento sobre Mertola com parte do batalhão francez, e o Duque queria preveni-lo do nosso movimento: o prior foi incumbido d'esta commissão, mas, nessa mesma noite, cahiu nas mãos das forças de D. Miguel e foi fusilado.
Marchámos sobre Garvão, sem encontrar o inimigo, porque nos não esperava em posição alguma. Alli cahiram doentes muitos soldados e officiaes, entre estes meu cunhado D. Manuel da Camara, com umas sezões terríveis que davam grande cuidado ao facultativo. O General mandou-o conduzir para Odemira por uma guerrilha, com grande risco de ser aprisionado.
Continuámos a marcha sobre Messejana e chegámos alli de tarde, encontrando uma força inimiga que estava em observação do nosso movimento.
O Duque da Terceira estabeleceu o seu Quartel General em casa da senhora Brito, mãe do ex-Major de Lanceiros, Brito, onde fomos recebidos alegremente e ás mil maravilhas. A filha da dona da casa, elegante menina, cantando optimamente, acompanhada pelo celebre pianista Porto, fez-nos esquecer as fadigas da trabalhosa campanha das serras do Algarve, e o meu camarada Mousinho improvisou com grande facilidade, sendo esta noite a ultima vez que ouvi seus improvisos.
O General Mollelos esperava-nos em Beja, com os reforços que recebera, os quaes elevavam a sua força a dois mil e quinhentos homens, e o General Taborda, que vinha em reforço de Mollelos, occupava Cuba com mil e quinhentos homens.
Depois dum Conselho de guerra com os Officiaes superiores, o Duque decidiu-se a fazer um movimento rapido, a marchas forçadas, sobre o Sado, e d'aqui sobre Almada, para esperar, neste ponto, que o Almirante Napier forçasse a barra de Lisboa.
Passámos o Sado no dia 20 de Julho em Porto de Rei, onde encontrámos os lavradores daquellas paragens, que formavam uma forte guerrilha, montados em bons cavallos.
Seguimos sobre Alcacer, a marchas forçadas, e, aqui, o juiz de fora, com os voluntarios realistas da terra, ficando surprehendidos porque julgavam que era uma fraca guerrilha que pretendia occupar a villa, vieram ao nosso encontro, e o Quartel-Mestre General, á frente dalguns lanceiros e de nós outros, officiaes de Estado Maior, carregou-os, depondo elles as armas.
Bivacámos, depois, na famosa propriedade de Palma, dos Condes do Sabugal, e no dia 22 de madrugada estavamos á vista de Setubal. A vanguarda era feita pela guerrilha dos lavradores do Sado, que, vendo quatro peças em bateria junto a Setubal, debandaram sobre a testa da nossa columna, atropelando soldados e alguns officiaes, fazendo persuadir os Generaes Terceira e Schwalbach de que eramos carregados pela Cavallaria, ordenando-se, por isso, a formação de quadrados. O Duque nunca mais quiz uma tal vanguarda.
O inimigo pretendia defender Setubal com uns mil e quinhentos homens, entre milicianos e linha, e quatro peças de artilharia, mas em vinte minutos estava tomada a artilharia, tres bandeiras, e derrotada completamente toda a força.
Atravessámos Setubal, perseguindo o inimigo, e não fizemos alto senão na Quinta do Escoural, do Conde da Povoa, onde se reuniu a Divisão e se estabeleceram os postos avançados.
O Duque veiu por um momento á villa de Setubal, para communicar com a Esquadra, e á noite estabeleceu o seu Quartel General na referida quinta.
Ao amanhecer de 23, atravessámos Azeitão. Aquele aprazível sitio estava habitado por uma quantidade de senhoras e cavalheiros da melhor sociedade de Lisboa, que se julgavam compromettidos. Era tal o terror que os dominava, que nem um viva nos deram.
Depois dum pequeno descanso, continuámos a marcha sobre Amora, onde encontrámos o General Telles Jordão, com uma força, para nos reconhecer.
O General, decidido a dar batalha, fez um pequeno descanso e organisou a sua columna de ataque. Avançámos pela estrada que conduz á Piedade, estendendo linhas de atiradores sobre os flancos direito e esquerdo da estrada.
O inimigo retirava-se de posição em posição, com o fim de nos attrahir á Cova da Piedade e fazer alli uso da sua Cavallaria, unico terreno favoravel para isso.
O Duque collocou-se á testa da columna de Caçadores 2, com o General Schwalbach e os seus Estados Maiores, marchando o batalhão, a quarto de distancia, seguido por Caçadores 3. Desembocámos no vale da Piedade, onde eramos batidos, em flanco, por duas peças que estavam em bateria, do lado de Almada, sahindo um fogo terrivel das janellas e portas das diferentes casas, estando a certa distancia dois esquadrões de cavallaria, promptos a carregar-nos.
Os Generaes, com os Estados Maiores, collocaram-se no centro da columna, para que as companhias da vanguarda pudessem fazer fogo, e desde logo os dois esquadrões inimigos nos carregaram a fundo, e, á voz do General Schwalbach, receberam uma descarga á queima-roupa, que muito damno lhes fez.
O Major do 3, Vasconcellos, que não se poude collocar em columna contigua com Caçadores 2 na primeira carga, saltou, com Caçadores 3, da ponte da Piedade abaixo e formou logo a quarto de distancia.
Por uma segunda vez fomos carregados, e a Cavallaria inimiga ficou completamente derrotada. Junto ás baionetas de Caçadores 2, encontrei morto um jovem furriel do Regimento de Cavallaria 4, que tinha servido comigo, o que muita pena me fez.
Os Caçadores avançavam e a Artilharia inimiga apresentou-se toda. Os esquadrões, que nos tinham carregado e que estavam na retaguarda da Artilharia, puzeram pé em terra e deram vivas á Rainha, e o Coronel Romão, á frente dalgumas companhias do seu batalhão, occupou o caes de Cacilhas, matando o General em chefe inimigo, Telles Jordão.
O General Schwalbach, que tinha feito um movimento sobre a esquerda para occupar Almada, que estava fortemente guarnecida, mandou um official allemão, chamado Jorge, como parlamentario á guarnição, para se render; foi este barbaramente acutilado, vindo morrer entre as fileiras da nossa vanguarda. Era um jovem official de muito boa familia.
O General Duque da Terceira ordenou que se sitiasse a posição de Almada, mas que não se fizesse movimento algum. O castello rendeu-se na madrugada seguinte, quando descobrimos a bandeira azul e branca no Caes do Terreiro do Paço e do Sodré, e, no Tejo, grande quantidade de botes que se dirigiam a Cacilhas com individuos que nos vinham felicitar pelo nosso triumpho. Entre as muitas pessoas que atravessaram o Tejo, vinha o Ministro de Inglaterra.
O Ministro de Hespanha, que era o meu intimo amigo Cordoba, ficou prisioneiro, achando-se ao lado de Telles Jordão, vestido à paisana; tinha passado o Tejo por simples curiosidade. Deu-me por testemunha de que era o General Cordoba e Ministro de Hespanha, e o Duque, sabendo das relações de amizade que elle tinha comigo, encarregou-me de o acompanhar a bordo da fragata hespanhola ancorada no meio do Tejo, e um escaler da fragata alli nos conduziu, trazendo-me depois para Cacilhas, o que muito estimei, porque, se não tivesse sido assim, seria aprisionado pelos escaleres do Arsenal, que encontrei na volta, rondando o Tejo.
Quando o castello de Almada se rendia, o Duque de Cadaval retirava, com todas as forças, de Lisboa, e os seus habitantes proclamavam a Rainha, entrava o Visconde de Mollelos em Setubal, á frente de quatro mil homens.
Os escaleres do Arsenal e as barcaças chegaram a Cacilhas pelas dez horas da manhã, para transportarem a Divisão para Lisboa. O Tejo estava o mais sereno possivel e uma grande esquadrilha de botes embandeirados fazia alas á Divisão do Exercito Libertador, desde Cacilhas até ao Caes da Pedra. O enthusiasmo era inexprimivel.
O General Duque da Terceira, com o seu Estado Maior, vinha numa grande galeota, e, emquanto atravessava o Tejo, modestamente conversava com o seu antigo fornecedor de moveis, vinhos e de tudo quanto eram elegancias, o bem conhecido usurario Latance.
A entrada do bravo General em Lisboa foi digna dos seus feitos militares.
Mendizabal, antes da batalha naval do Cabo de S. Vicente, partiu para Inglaterra, num dos vapores da nossa Esquadra, o que tornou furioso o Almirante Napier e com razão porque grande falta lhe fazia aquelle navio para operações.
Mendizabal, que não se lembrava senão dos seus fundos, precisava estar na praça de Londres, para attender aos seus interesses, e tanto elle como o negociante Silva, mais tarde Barão de Lagos, sabendo primeiro do que ninguem o desembarque no Algarve e a tomada da Esquadra, ganharam umas sommas avultadas, jogando nos fundos portuguezes. 
Emquanto nós avançávamos sobre a provincia do Alemtejo, o General de D. Miguel, Conde de S. Lourenço, entendendo que a Divisão do Duque da Terceira faria uma grande quebra nas forças que defendiam as linhas do Porto, atacou vivamente a cidade no dia 5 de Julho, por diferentes pontos, sendo o principal a Quinta do Wanzeller.
O General Saldanha repelliu os ataques com vigor em todos os pontos, tendo o inimigo uma grande perda e nós muitos officiaes feridos e mortos, e alguns d'estes muito distinctos. O Brigadeiro Duvergier foi mortalmente ferido, fallecendo poucos dias depois do combate. O Major D. Fernando de Almeida, Ajudante de campo do General Saldanha, foi morto no campo de batalha.
Neste dia houve uma brilhante carga commandada pelo Major Pimentel, que foi promovido, no campo, a Tenente-Coronel.
Os Ajudantes de campo do General Saldanha foram condecorados com a Ordem da Torre e Espada, por se haverem distinguido naquella carga.
Foi a ultima acção que commandou o Conde de S. Lourenço, porque, poucos dias depois, tomou o commando do Exercito miguelista o General Bourmont.
Aqui acabo a quarta parte das minhas Memorias, porque julguei acabada a minha longa emigração, logo que desembarquei no Caes do Terreiro do Paço, entrando na minha terra natal e onde tinha a minha casa.»

* * *

Fonte
BARRETO, José Trazimundo Mascarenhas, Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna D, José Trazimundo Mascarenhas Barreto (ditadas por êle próprio em 1861), Partes III e IV, (Coord. Ernesto de Campos de Andrada) Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926. pp. 331 – 346.
Disponível para leitura na Biblioteca Nacional Digital em http://purl.pt/12114

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Memórias: Expedição do Algarve, Junho de 1833 (coronel João Pedro Soares Luna)



«[...] Nós estavamos no mês de Junho de 1833. Falava-se de uma expedição. Diferentes eram as opiniões a tal respeito: uns olhavam uma tal operação como inútil, visto que o reino todo estava ocupado pelas forças do tirano, mas esta opinião, necessariamente deverá ter a sua origem nas almas fracas e indignas da glória que só pertence às almas nobres, àquelas que não especulam com a nação, àquelas que apreciam mais a honra que a poltronice. Totalmente oposta era a opinião daqueles a quem hoje se nos chama = irracionais, inimigos da ordem, desordeiros, republicanos, e … nós, que não tendo a vida para contrato, mas sim para a dedicarmos à pátria, ansiosos desejávamos que se tentasse algum meio que proporcionasse à nação a ocasião de se desafrontar, pois que então tínhamos forças bastantes para defender a Cidade Eterna [Porto], e igualmente para um tal fim. Diversas eram igualmente as opiniões acerca do destino da expedição, mas seja-me permittido dizer, em tais casos todas as opiniões devem ser ouvidas por aquele que comanda, e ele só deliberar depois a que melhor convier adoptar. Ao passo que, julgo conveniente o então se espalharem todas essas opiniões com o fim de ter o inimigo incerto acerca de qual delas se adoptará, o que o obrigará a ser-lhe necessário uma força tal que talvez não possa pôr em acção.
[...]

Decidiu-se pois o sair a expedição; eu tive a glória de ser nomeado para fazer parte dela, permitindo-se-me levar cinquenta dos meus nobres companheiros: igualmente recebi ordem para levar quatro peças de artilharia de montanha, para o que deveria imediatamente passar ao trem dos Congregados, e tornar a receber o material competente daquelas; material que já havia entregado. Passei logo a cumprir esta ordem, mas já então não achei nada do que me convinha receber, graças às previdentes ordens que havia recebido para fazer a dita entrega... Quem comanda, desgraçadamente está sempre convencido que nunca erra...

Não me foi necessário nomear os dignos académicos que me deveram acompanhar. Sabido por eles que eu marchava, e que se me permitia levar uma parte do bravo corpo do meu comando, voluntária e espontaneamente se me ofereceram a maior parte dos valentes académicos. Foi para mim bem sensível o não poder nomear todos os oferecidos, depois da preenchido o número que me foi marcado. Feita pois a nomeação marchámos para a Foz, aonde se me apresentou o 2.° Tenente José Maria de Pina, comandando alguns artilheiros de linha, todos para ficarem debaixo do meu comando. (*)

(*) Recordo-me que por eu ter declarado que podia passar sem aquela força, o que efectivamente aconteceu logo, fazendo recolher parte dela ao seu corpo; o comandante geral de Artilharia me oficiou a esse respeito, fazendo-me responsável por toda e qualquer falta que houvesse em razão ao não ter artilheiros, mas eu nada tinha a recear, porque já conhecia os académicos. Sua Senhoria não teve nunca que punir a minha confiança, a qual como deixo dito, não tinha limites, comandando os homens que eu comandava.

Comigo foi igualmente um dos meus dignos oficiais. O nome deste, e dos bravos académicos que me acompanharam são os que se seguem :

Capitão de Artilharia João António Lobão.

Académicos:
2.° Sargento N.° 2 João Gualberto de Pina Cabral.
Cabo de Esquadra N.° 7 Albino Garcia de Mascarenhas.
N.° 9 Diogo Maria Vieira e Silva.
N.º 11 Avelino Eduardo da Silva Mattos.
Soldado N.º 15 Domingos Maria Loureiro.
N.º 21 José Maria Mendes Diniz.
N.º 24 Francisco Maciel Monteiro.
N.º 28 Jaime Garcia de Mascarenhas.
N.º 29 António Abranches Coelho.
N.º31 Simplício de Moura Machado.
N.º 34 António Joaquim Aleixo.
N.º 41 Estevão Joel Augusto.
N.º 42 Thiago da Silva Monteiro.
N.º 43 José Custodio da Costa Louraça.
N.º 44 Ignacio Fiel Gomes Ramalho.
N.º 48 José António Affonso Dias Veneiros.
N.º 49 Francisco de Souza Monteiro.
N.º 50 Francisco José Rodrigues Queiroz.
N.° 51 Estevão d'Assis e Souza.
N.° 56 Joaquim Pinheiro das Chagas.
N.° 62 António Maria Tovar.
N.° 63 Ernesto Augusto Zuzarte.
N.° 66 António José Barboza.
N.° 68 Thomaz d'Aquino Nogueira.
N.° 73 António Xavier Pinto.
N.° 79 José Silvestre Ribeiro.
N.° 81 José da Costa Pinto Bastos.
N.° 82 Theotonio Zuzarte.
N.° 88 Manoel António de Moura Cabral.
N.° 93 João Pedro Lecór.
N.° 102 Bazilio Cabral Teixeira.
N.° 103 José Maria Rojão.
N.° 113 Bernardo Coelho do Amaral.
N.° 116 Agostinho José da Silva Guimarães.
N.° 124 Francisco Ignacio Cid.
N.° 126 José Joaquim Alves de Mello.
N.° 127 António de Sá Ramalho.
N.° 130 Joaquim Cardoso Carvalho e Gama.
N.° 131 Manoel Dias Peixoto.
N.° 132 João Carlos Pimentel.
N.° 136 José Maria Corrêa Durão.
N.° 144 Bernardo Joaquim Carneiro.
N.° 146 Ernesto Adolpho de Freitas.
N.° 148 António Pereira Leitão.
N.° 150 Manoel José Mendes Leite.
N.° 151 Domingos de Saldanha Oliveira.
N.° 152 D. Francisco de Menezes Britto.
N.° 153 Francisco Maria do Carmo.
N.° 155 João Baptista Ferreira.
N.° 156 Manoel Vaz Lobo de Souza.
N.°157 João Pedro Fernandes Thomaz. (*)

(*) Além dos académicos acima relacionados, os académicos N.° 89, Manoel António Vellez Caldeira Castel-Branco, e N.° 98 , Lourenço de Oliveira Grijó, o primeiro empregado junto ao nobre Duque de Palmela [marechal de campo Pedro de Sousa Holstein, 1.º Duque de Palmela (1781-1850), 1.º duque de Palmela], e o segundo, desde longo tempo em comissão a bordo da esquadra, sempre que entramos em atitude de combate, reuniam-se aos seus companheiros, (com as armas na mão); o que efectivamente praticaram até separarem-se de nós, em virtude das suas comissões.
Igualmente devo declarar que tendo eu ficado governador militar da cidade de Faro, ali se me apresentaram os académicos N.º 30, Diogo António Palmeiro, N.° 75, Júlio Gomes da Silva Sanches e N.° 158, Emigdio José da Silva; este último com destino para se apresentar ao General Brito [brigadeiro António Pedro de Brito Vila Lobos (1782-1841)], e os dois primeiros ficaram em Faro, aonde prestaram relevantes Serviços, até que novamente regressaram para o Corpo.

Duque da Terceira (John Simpson, 1834)
Sabido é que o comando geral da expedição foi dado ao nobre Duque da Terceira [tenente general António José de Sousa Manuel de Meneses (1792-1860), 1.º duque da Terceira], o que nos causou o maior prazer, pois tornámos a ver à nossa frente o valente soldado que nos tinha comandado nos Açores, e conduzido ao glorioso combate da Ladeira da Velha [3/8/1831], na ilha de S. Miguel. 

O nobre Duque da Terceira (justiça é confessá-lo) pela sua urbanidade e maneiras com que tratou sempre aqueles que fomos seus companheiros na emigração, e seus subordinados no campo da honra, pelo valor que desenvolvia, em suma, pela muita confiança que depositávamos em Sua Ex.ª; deve lisonjear-se que desde logo nós todos contamos com a mais feliz vitória, fosse qual fosse o destino a que S. Ex.ª nos levasse.

É do meu dever declarar que naquela ocasião fui mandado como oficial de artilharia que sou, e encarregado do comando da minha arma na Expedição Libertadora.

O estado da Foz continuava a ser o mesmo que já deixo descrito. Ali cheguei pois, e imediatamente fiz embarcar as quatro peças de artilharia de montanha, com o seu competente material, o que tudo foi para bordo de um dos navios de transporte que fazia parte dos do comboio; embarque que se efectuou debaixo do risco com que todos os embarques então se praticavam.


Castelo de S. João da Foz, no Porto. (fotografia de Henrique Matos, Wikicommons)

Recebi, na Foz, 200 000 cartuchos de infantaria, embalados, os quais me foram mandados da cidade para serem embarcados, assim como muitos milhares de pederneiras. Requisitei logo alguma casa aonde pudesse recolher o dito cartuchame, com alguma segurança para dali o fazer embarcar. O General Cabreira [brigadeiro Diocleciano Leão de Brito Cabreira (1772-1839)], a quem fui logo apresentar-me, e a quem estavam dadas as ordens a respeito do embarque, conheceu bem a minha justa requisição, mas como satisfazer-ma? Casa com alguma segurança, e a abrigo de qualquer acidente desastroso na Foz, aonde encontrá-la naquela época? S Ex.ª me autorizou para eu mesmo ir indagar aonde poderia ser recolhido o dito cartuchame com as vantagens necessárias, isto é, segurança dos incêndios, e facilidade de poder embarcar.

Em quanto à segurança dos incêndios, nem uma só casa descobri que estivesse a esse abrigo, ainda mesmo que ficasse fora da facilidade do embarque. Então assentei (e felizmente acertei) que a casa mais próxima ao rio, no ponto do embarque, era aquela de que devia lançar mão. Assim o executei, e para ela fiz logo conduzir a parte do cartucha que até então se achava na rua a céu descoberto: ali continuei a receber o resto. Acredite-se-me, ainda hoje tremo ao lembrar-me do risco em que então estive, pois que durante os dias que nos demoramos na Foz, o meu quartel foi na mencionada casa aonde tinha os 200 000 cartuchos; estando a toda a hora e a todos os momentos exposto a ser vítima, porque o inimigo não só nos atormentava com os tiros de peça e fuzilaria, mas igualmente com os repetidos tiros curvilíneos! Repito: eu dava mil parabéns à minha resolução em ter escolhido a dita casa junto à borda do rio, porque antevi que os tiros curvilíneos do inimigo, ele os não queria perder lançando as bombas e granadas áquele ponto (por não correr no risco de que tais projécteis caíssem no rio) enquanto que lançando-os sobre a povoação, sempre contava com fazer-nos algum estrago.

Estou capacitado que se o inimigo adivinhasse aonde eu tinha o mencionado cartucha, ele procuria fazer o seu dever (sejamos justos para com todos). Muitas vezes aconteceu estar eu e o 2.º Tenente Pina de Artilharia, sentados sobre os barris onde tinha o cartuchame, e as bombas e granadas rebentarem a pequena distância (mas sempre para o interior da povoação) da casa que ocupava. 

Várias noites tentámos o embarque das ditas munições. Julgue-se do nosso trabalho e risco. Eu e os meus beneméritos académicos, assim como o pequeno número de soldados de artilharia com que tinha ficado, éramos quem levamos os barris até ao ponto do embarque, e algumas vezes tivemos que tornar a conduzir aqueles para a dita casa, por ser absolutamente impossível o embarcarem, tudo devido ao terrível fogo dirigido pelos inimigos.

Concluiu-se afinal o embarque das munições, isto é, conseguiu-se o porem-se a bordo dos navios que nos deveram conduzir, mas a confusão indispensável em tais occasiões, fez com que uma grande parte das munições não fossem embarcadas nos navios que para isso se tinham nomeado. Porém ninguém podia responder por aquela falta, porque ela foi filha da extrema necessidade, em consequência do tempo que obrigou a levantar alguns navios, no número dos quais entraram os destinados para a condução das munições, e então forçoso foi o metê-las a bordo das outras embarcações.

Começou o embarque das tropas desses bravos a quem estava reservada a glória de virem abrir as portas da capital do reino! Embarquei pois com os meus valentes companheiros para bordo da fragata Rainha, aonde igualmente embarcaram os Nobres Duques, da Terceira e de Palmela , assim como o estado maior da divisão, e mais pessoas adjuntas aos nobres duques. Custará a acreditar, mas desgraçadamente nós os académicos fomos o mais mal tratados possível a bordo da dita Fragata!

O alojamento que se nos deu, quem o acreditará?! Foi na coberta junto à câmara; uma vela da fragata separava o pequeno intervalo que ocupam duas peças, (destinado para cinquenta e tantos homens de bem, votados a salvarmos a pátria!) do intervalo imediato aonde estavam os doentes de cólera, e para cúmulo de maior falta de consideração, os marujos que eram castigados com grilhões aos pés, eram mandados sofrer o dito castigo junto ao nosso infame alojamento! Custa-me a usar de tais expressões, mas como faltar à verdade?!

Como era do meu dever, fiz constar ao nobre duque, quanto deixo dito, assim como que, não tendo nós levado os nossos criados, não tendo meios de mandarmos cozinhar a triste ração que nos davam a bordo, em suma, faltando-nos a própria agua, forçoso era tomar-se alguma providência. 

O almirante Napier [almirante Charles John Napier (1786-1860)] deu efectivamente as suas ordens para que fossemos o mais bem tratados que pudesse ser, mas o oficial do detalhe iludiu sempre os bons desejos do almirante, e nós nunca fomos mais mal tratados em viagem alguma! Porém nossa constância jamais se enfraqueceu. Sempre superiores aos comodistas, jamais em nossa presença aqueles se atreveram a blasonarem do que não praticaram. É nosso dever desmascarar os impostores.

Graças ao que cada um de nós tinha podido levar para comermos, a não ser isso, maiores seriam as privações que sofremos. Lembrar-me-ei sempre das noites que dormimos sobre a tolda, por não cabermos todos em baixo (no já dito pequeno espaço que nos deram). Parece-me estarmos ainda cobertos com a imensa vela, e ali nos entregarmos ao sono como se estivéssemos sobre fofas camas! Quem acreditará que deitados sobre o duro taboado da tolda, vestidos, e com tanto incómodo, nós nos aborreciamos por sermos obrigados a levantar-nos antes do romper do dia, pois que desde então começava a baldeação da Fragata (*). Tanto pode o amor da pátria!

(*) Quantas vezes eu e os meus companheiros, ao levantarmo-nos, tanto de cima da tolda como do infame alojamento que nos deram, nos achámos pegados ao tabuado por efeito do alcatrão espalhado, nas costuras do dito tabuado?! 
Detestáveis devoristas, dizei, aonde sofresteis mais incómodos dos que sofreram os meus beneméritos académicos ?!

Já embarcados, mas ainda à vista da Cidade Eterna, nós olhávamos para seus muros [para sempre respeitáveis] e com saudade que não se explica, nós nos lembrávamos dos seus valentes defensores, nossos companheiros de armas; e bem assim dos heróis portuenses, que tanto merecem da pátria agradecida.

Levantou-se em fim o ferro, soltou-se o rumo, e aos incómodos que já deixo notados, juntou-se aquele do enjoo, moléstia quase geral nos primeiros dias de viagem.

Navegamos pois correndo ao longo da costa, passando à vista de todos os portos que desde o Porto se encontram, navegando para o Sul. Nos primeiros dias, nós ignorávamos aonde desembarcariamos, e quando os navios pairavam em frente de algum porto, os desejos que nós tínhamos de saltar em terra, é bem de presumir quais eles seriam, mas não vendo tomarem-se as disposições indispensáveis para o desembarque, forçoso nos era ir sofrendo o que já fica dito, e assim iamos pondo o inimigo em alarme. Passámos pois o Cabo da Roca, conhecemos então que ao Algarve é que nos dirigiamos. Prospera e felizmente passamos o Cabo de Espichel. Desde então, a todos os momentos esperávamos emproar à terra.

No dia 24 de Junho de 1833 , depois de havermos passado como em revista de grande parada, junto a todas as povoações marítimas do risonho Algarve, fomos desembarcar na praia de Cacela, entre Tavira e Vila Real de Santo António.

O inimigo teve ainda o arrojo de nos dirigir alguns tiros de Artilharia (disparados do Forte da Conceição), mas imediatamente de bordo das nossas embarcações se lhes correspondeu com terríveis bandas de Artilheria, o que fez logo calar o fogo inimigo, e nós efectuamos o nosso desembarque sem a mais leve oposição.

Pouco depois de estarmos em terra, apareceram muitos habitantes de Vila Real de Santo António, dando positivos sinais do prazer que tinham em nos ver ali, e para os libertarmos. Animados aqueles habitantes dos mais patrióticos sentimentos, partiram para a dita vila a fim de se reunirem, e armarem, para unidos a nós defenderem a pátria até então escravizada. Ali se me apresentou um sargento de artilharia, o qual se ofereceu para ir levar umas cartas que eu tinha escrito a bordo, as quais lhe entreguei, e aquele partiu logo.(*)

(*) Estando ainda a bordo da fragata, mas já para desembarcar, escrevi algumas cartas com o fim de ver se poderiam ser entregues a oficiais de artilharia que sabia serem dotados de bons sentimentos, e que por certo aproveitariam aquela ocasião para se unirem a nós. Aos nobres duques dei conhecimento das ditas cartas. S. Ex.ªs me autorizaram para que, em nome da nossa adorada rainha, assegurasse às pessoas a quem me dirigi, que a protecção lhe seria dada, assim como a todos que viessem unir-se a nós.

Depois de haver desembarcado toda a Divisão Libertadora, apesar ser já de noite, marchámos com direcção a Tavira, mas tendo andado algum terreno fizemos alto, e bivacámos no campo, passando logo a cozinharmos o inseparável amigo Bacalhau que se nos tinha distribuído a bordo antes de saltarmos para terra. E mesmo para que a tropa tivesse algum descanso, pois era de presumir que o rebelde Molelos [marechal de campo Francisco de Paula Vieira da Silva Tovar (1774-1852), 1.º visconde de Molelos, governador de armas do Algarve] nos quisesse disputar a entrada em Tavira.

Antes que rompesse o dia, a Divisão Libertadora pegou em armas, e na melhor ordem fomos mandados marchar; ao amanhecer estávamos próximos ao sitio denominado Almargem, aonde os inimigos nos esperaram, persuadidos de que estando senhores daquela posição nos poderiam fazer frente! Apenas nos avistaram, começaram logo a dirigir-nos tiros de Artilharia (segundo o seu costume a grandes distâncias, e nós marchando para eles, mas sem ainda havermos passado da coluna de marcha para a ordem de ataque.)

Os bravos batalhões de caçadores, que iam na frente, apenas deram vista daqueles escravos postados além da ribeira do Almargem, impacientes por lhe fazerem custar cara semelhante ousadia, romperam o fogo, marchando com tal denodo, que apesar da ribeira (a qual passaram dando-lhe a água por cima da cintura) que tinham na sua frente, nada foi bastante para deixarem de pôr em completa derrota os vis escravos do usurpador, os quais desapareceram com tal velocidade, que nunca mais os tornámos a avistar! O inimigo deixou em nosso poder duas peças de artilharia volante, uma de calibre 3 e outra de calibre 6.

Quando teve lugar o arrojo dos bravos batalhões de caçadores, o resto da divisão, apesar de marchar com igual valor, já não podemos ver se não um ou outro desgraçado rebelde correndo na mais desordenada fuga, e salvando-se da morte, embrenhando-se por entre o denso arvoredo dos risonhos campos de Tavira.

A Divisão tendo já passado o Almargem fez alto, enquanto uma força de caçadores (que tinha sido mandada em seguimento do inimigo) não recolheu. Passado algum tempo, recolheu a dita força, e a divisão continuou a marchar (na mesma ordem triunfante, em que até ali tinha marchado) em direcção à cidade de Tavira, aonde entrámos nesse mesmo dia, 25 de Junho de 1833, sem obstáculo algum.


Ribeira da Almargem, Tavira (fotografia de Digfish, Wikicommons)


A Cidade estava quasi deserta! O inimigo, assaz poderoso em embustes, tinha feito espalhar tal terror entre os habitantes daquela, que a maior parte deles (de ambos os sexos) tinham desamparado suas casas e fugido para o campo.

Informado o nobre Duque da Terceira de que o inimigo continuava a retirar-se na mais desordenada fuga, e em direcção à cidade de Faro, determinou que a Divisão Libertadora se aquartelasse na Cidade. (§)

(§) Como tinha por costume, acompanhado por um dos membros da Câmara [homem respeitável a todos os respeitos sociais e liberais] fui aquartelar os mais dignos companheiros, depois do que exige igualmente o ser aquartelado.
Conservarei sempre em memória o que então me foi dito pelo respeitável ancião que me acompanhava, e foi o seguinte: “O Senhor Doutor mór. há-de vir para minha casa. Convite que de bom grado aceitei, e ali fui o mais bem tratado possível. Devo igualmente declarar que, desde que em Junho de 1832, tinha partido da Ribeira Grande [na Ilha de S. Miguel], foi só na noite de 25 de Junho de 1833 que me deitei em cama de lençois.

Na tarde do dia 25 de Junho de 1833, na casa da Câmara da cidade de Tavira aonde compareceram os nobres Duques da Terceira e de Palmela, acompanhados de todos os comandantes dos corpos da Divisão Libertadora, oficiais da mesma, e pessoas de distinção da terra, que haviam ficado em suas casas, foi aclamada Sua Magestade Fidelíssima a Senhora Dona Maria 2.ª e a Carta Constitucional, o que se fez público, estando arvorado o estandarte nacional em uma das sacadas da Câmara, passando depois todos os concorrentes a assinarem aquele solene acto.

Ao romper do dia 26 do dito mês e ano, a Divisão, depois de pegar em armas, foi mandada marchar em direcção à cidade de Faro. Nossa marcha jamais foi alterada. O inimigo havia-se apoderado de tal terror, que apesar de não ser perseguido – com a Espada sobre os rins – todo o campo lhe parecia pouco para o deixar livre à nossa marcha triunfante.

Marchámos pois na melhor ordem possível. A estrada que desde Vila Real de Santo António corre para o Norte do Algarve, além de ser a mais pitoresca pela agradável vista dos campos do litoral do Reino do Algarve, aquela corre quase paralela ao oceano, que ali banha as férteis margens daquele reino.

Nós marchávamos na melhor ordem. Do mesmo modo, sobre o nosso flanco esquerdo, e nas águas do oceano navegava (na mesma direção para o Norte) a nossa esquadra. Raras vezes se apresentará um quadro mais brilhante e vistoso: duas divisões, uma terreste e outra marítima, marchando e dirigindo-se paralelamente à vista uma da outra, e ambas para o mesmo fim, aquele de libertarmos a pátria oprimida pelo mais cruel dos tiranos. 

A Divisão Libertadora fez alto sobre a estrada, quase à vista da povoação denominada Fuzeta. Recebi ordem para com o distinto corpo do meu comando ir reconhecer a dita povoação, o que efectuámos, tendo a satisfação de vermos vir para nós os habitantes daquela, os quais abençoando a nossa vinda, davam repetidos vivas à Divisão Libertadora. Fácil é de crer que nós entrámos na dita povoação como em romaria. 

Eu passei logo a tomar conhecimento do estado em que se achava a fortificação que ali existe. Os meus dignos companheiros, que haviam ficado na povoação, passaram logo a fazer arranjar alguma coisa para comermos, o que em breve se prontificou. Voltei do forte aonde tinha ido, e então reunidos os habitantes da Fuzeta em um largo, ali se aclamou a rainha e a carta. Depois do que o académico Lourenço de Oliveira Grijó falou àqueles habitantes, mostrando-lhe a que nós íamos, e o que era de esperar que eles fizessem. Nós pagámos generosamente quanto tínhamos comido. Aquela povoação é composta quase toda de pescadores, e sabido é a triste sorte desta miserável classe.


Marina de Olhão (fotografia de Juntas, Wikicommons)

A Divisão Libertadora havia continuado a marchar em direcção à notável vila de Olhão. Digo notável vila de Olhão, porque a justiça pede que eu aqui diga o que então seus decididos habitantes já haviam feito. Aquele povo de heróis, antes da Divisão Libertadora ali chegar, e ainda quando o rebelde Molelos se achava em Tavira, já haviam aclamado a rainha e a carta constitucional. Isto quando ainda se achavam entre os inimigos comandados pelo seu chefe, Molelos, e aqueles que haviam ficado em Faro, cidade que dista uma légua daquela povoação! Honra pois aos valentes olhanenses. Eles deram logo uma prova do quanto se podia contar com a sua cooperação. A sua valente conduta bem mostrava então, e dali por diante quanto são dignos de louvor por seus heroicos feitos. 

Quando partimos da Fuzeta, já o fizemos indo embarcados até Olhão, aonde desembarcámos, e aonde passei a aquartelar os meus companheiros. É do meu dever mencionar igualmente o prazer e bom acolhimento com que fomos recebidos por aquele povo de heróis. Todos à porfia se esmeraram em nos tratar bem, e em todos se manifestava o mais nobre entusiasmo pela liberdade legal.

Começaram então a apresentar-se-nos muitos dos indivíduos que haviam desamparado o rebelde Molelos. A Divisão Libertadora tinha recebido ordem para acampar, e ali passámos a noite.

Ao romper do dia 27 do dito mês e ano, a Divisão Libertadora, depois de haver formado, continuou sua marcha triunfante sobre a cidade de Faro. Durante aquele trânsito fomos sempre recebendo imensos apresentados que haviam podido fugir das fileiras dos rebeldes. 
Por aqueles soubemos que o rebelde Molelos tendo convocado um conselho, sobre se se deveria ou não fazer forte em Faro, optou pela negativa, e havia abandonado aquela cidade, depois de haver mandado inutilizar toda a artilharia, pólvora, oficinas do Trem, e de haver chamado a si os dinheiros publicos. 

Entrámos em Faro. Segundo o meu costume passei a eu mesmo ir aquartelar os meus dignos companheiros, depois do que fui igualmente para o quartel que se me deu.
De tarde passei logo a ver o estado em que se achava o Trem, e mais depósitos militares. Tive a satisfação de achar as oficinas do Trem, prontas a nelas se poder trabalhar, o que foi devido ao patriotismo do seu director, e ao bom espirito dos operários, os quais poderam iludir as terminantes e ameaçadoras ordens que tinham recebido do rebelde Molelos, inutilizando tão somente objectos que para nada prestavam já.


Na manhã do dia 28 do mesmo mês e ano, estando já com o corpo do meu comando, formado no largo da Sé de Faro,  para segundo as ordens que recebesse, executá-las, foi então que o nobre Duque da Terceira me nomeou para ficar governador de Faro, e encarregado de várias comissões, sendo a mais importante o prover a Divisão Libertadora de munições de guerra, artilharia, etc., etc. 
Bem queria eu não largar os meus dignos companheiros, mas, alem de ser mandado, a quem se não a mim (então) pertencia o desempenho de tais comissões? O Capitão Lobão havia, em Tavira, dado parte de doente. O meu cuidado limitava-se então a quem tomaria o meu lugar. Lembrei-me do nobre Conde de Ficalho [tenente António de Melo Breyner Teles da Silva (1806-1894), 3.º conde de Ficalho], hoje Marquês do mesmo título, e por certo, este benemérito conde, que reunia as simpatias dos meus bravos companheiros, seria aquele que me substituísse. Porém o Capitão Lobão, apesar do seu incómodo de saúde, apresentou-se e marchou com a Divisão.

Dada a ordem para aquella marcha, o meu primeiro pedido foi o de rogar ao quartel mestre general da Divisão Libertadora, o benemérito José Jorge Loureiro [major José Jorge Loureiro (1791-1860)], que eu esperava que para com os meus dignos académicos, sua senhoria tivesse sempre a mais pronunciada atenção. (?)

(?) Confesso que para com o digno José Jorge Loureiro, as minhas recomendações não careceram de instâncias, pois que S. S. obsequiou sempre os meus companheiros.

Quando se me intimou a ordem para ficar em Faro, disse-se-me que eu ali ficaria durante o tempo necessário para desempenhar as comissões de que tinha sido encarregado. Confesso que só aquela lisongeira esperança é que então adoçou a saudade que me causava o apartar-me dos meus amigos, daqueles bravos com quem desde Outubro do 1830 eu tinha constantemente partilhado as privações, os perigos e a glória adquirida até aquele dia! Nós nos abraçámos todos, nossas últimas palavras, despedindo-nos, foram: A Pátria livre ou morrer pela Liberdade.

Marchou pois a Divisão Libertadora, e eu fiquei na Cidade de Faro. [...]»


* * *

Fonte
João Pedro Soares Luna, Memórias Para Servirem à Historia dos Factos de Patriotismo e Valor Praticados pelo Distincto e Bravo Corpo Académico que fez Parte do Exercito Libertador, Typographia Lisbonense, Lisboa, 1837. Páginas 321-348.

Leia a biografia de J. P. S. Luna em
http://www.arqnet.pt/dicionario/lunajoaopsoares.html

Notas
O texto foi modernizado ortograficamente, assim como em termos de pontuação, mas o original pode ser consultado no livro, que pode ser lido na sua inteireza em: 
https://archive.org/details/memoriasparaserv00soar/page/n6

Imagens
Foto no topo do artigo (Fortaleza de Cacela) da autoria de Marc Ryckaert, na Wikicommons.

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