segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Diário Justificativo de Lazare-Marie-Bernard de Grosson de Truc

 


GROSSON DE TRUC

O capitão de infantaria Lazare-Marie-Bernard de Grosson de Truc (nomes próprios grafados em português como Lázaro Maria Bernardo) nasceu em 1761 em Marselha, no seio da pequena nobreza da cidade, filho de Jean Batiste Bernard Grosson de Truc. 

É bastante provável que tenha estudado direito, mas o que é certo é que, por sua própria admissão, deixou a França em 1792 e se alistou no Roll's Regiment, entre 1794 e 1797, um regimento britânico inicialmente formado por suíços, mas também logo depois, por emigrados franceses. A unidade atuou principalmente no teatro mediterrânico, entre Nápoles e Sardenha. Foi com este regimento que aportou a Lisboa, em maio de 1797, passando à disponibilidade e ficando em Portugal.

Se não é certo o que fez entre 1797 e 1801, sabemos que foi promovido a ajudante de infantaria da Guarda Real de Polícia (GRP), de Lisboa.

Em junho de 1806, passa a capitão efetivo (era agregado desde data incerta, mas possivelmente novembro de 1805), e recebe o comando da 3.ª companhia de infantaria da GRP, que era responsável pela área em torno da praça da Figueira, na baixa de Lisboa.

Em 16 de agosto do ano seguinte, passa ao Regimento de Infantaria n.º 7, de Cascais, no mesmo posto. Pouco mais de 2 meses depois, a corte e o governo real transferem-se de armas e bagagens para o Brasil e, meros dias depois, os franceses entram em Lisboa.

* * *

Grosson de Truc é preso em Lisboa, a 26 de setembro de 1808, por membros da GRP, com o apoio de soldados espanhóis, ficando preso no Aljube (?) e depois transferido (Trafaria) para a fortaleza de Cascais, com ordem iminente de transporte para França. É principalmente neste período que o autor se foca, pela natureza dos documentos, permitindo-nos a nós uma perspetiva privilegiada de um ator da pequena cena histórica, uma engrenagem mínima do complexo sistema geral.


MANUSCRITO

Este texto é um texto jurídico, próprio do autor, que além de oficial do Exército, teria formação de leis, tendo exercido após 1815. Oferece, no entanto, também pela sua natureza, elementos memorialistas na perspetiva de um emigré ao serviço do Príncipe Regente entre vésperas da invasão franco-espanhola de 1807 até os dias finais de 1809, preso em Cascais e expetante de ter que sair do país. [VERIFICA Luz].

Encontrei este manuscrito digitalizado de documentos na guarda do Arquivo Histórico de Itamaraty, com a cota COTA. Foi dirigida a alguém que o pudesse apoiar e patrocinar no Rio de Janeiro.

No Arquivo Histórico Militar, temos a indicação dada no livro mestre de Infantaria n.º 7, que o oficial passou ao serviço francês a 20 de Fevereiro de 1808, a mesma data do desmantelamento do Exército Português. 

* * *

Grosson de Truc nega sempre a sua culpa, requerimento atrás de requerimento, às dezenas, e o seu comportamento posterior decerto indica um desprezo pelo regime de Napoleão, pois em 1815 é capitão do estado maior do novo governador da Córsega e, nome do rei Luís XVIII. É notado nessa ocasião por ser muito desajeitado – principalmente com a espada a interferir na normal mobilidade, e desabituado do uniforme, e com alguns 60 anos de idade (teria 53 anos, mas vai dar ao mesmo, quando o que queremos é mostrar que tem idade a mais para o posto).

Ter-se-á reformado como chefe de batalhão no exército francês da restauração.

* * *

DIARIO JUSTIFICATIVO

Em consequencia da ordem do 7.mo Regimento d'Inf.ª do dia 27 de Nov.bro de 1807, sobre outra do General Gomes Freire, em execução daquella por elle recebida da Secretaria de Estado, a qual posso (…), fui hum dos officiaes que se offerecerão e persistirão na offerta, p.a acompanhar a S.A.R. por onde fosse; e posso mostrar a Relação.

Tres embarcações devião ser aprontadas em Setubal, em 3 outros dias conforme o ajuste do corregedor com o General Gomes Freire. Ao termo prefixo, o d.to General annunciou q.e não havia embarcação. Deixo de falar da fala que fez à tropa, na mesma tarde do dia 27, e em consequencia daqual, muitos mudarão de resolução.

Em todas as relações seguintes, dadas no regimento, o meo nome vai no numero daquelles officiaes q.e recusavão de continuar o serviço militar com o governo francez.


[1808]

Em 31 de janeiro de 1808, alcancei licença do d.to General p.a ir para Lisboa sollicitar o mesmo.

Persisti nestes sentimentos por requerimentos de 21 e 28 de Fevereiro, e de 8 de Junho, juntando certidão de cirurgião: e fui finalmente apontado pelo Inspector geral D. Thomas de Noronha, p.a ser reformado com as m.as onras, sem soldo; o que não teve effeito, pelos acontecimentos que seguirão.

Entretanto de 10 de Março até 7 de Abril, fui mandado em diligencia no Algarve, por ordem do g.al Gomes Freire, na qual a minha conduta está bem conhecida de todos aquelles com quem tive de tratar, e principalmente pelo Ex.mo Marquez Monteiro Mor, e pelos RR. Arcediagos  Leitão (…), em Faro.

Voltei p.a Lisboa em 26 de Abril, p.a continuar as muitas sollicitações, para excusar-me do serviço.

Hé no mez de Maio que principiárão as minhas maiores desgraças que fazem a assunção de huma justificação separada.

Em 16 de Julho, os officiaes do regimento que se não derão prontos, tiverão licença para recolher nas suas casas, da qual aproveitei, continuando a vencer soldo que todos cobrarão até Setembro (e eu só até Junho) sendo-lhes depois pago todo o attrazado desde a sahida dos francezes, mesmo a aquelles officiaes que quizerão continuar // continuar com elles, e forão apontados.

Em 14 de Agosto, e 7 de Setembro, fiz officio ao meo Brigadeiro chefe do Regimento, para me offerecer para o serviço de S. A. R. cada vez que o corpo a se reunir; do que lhe supliquei me avisasse logo.

Em 11[?] de Setembro me apresentei ao General Hope, p.a o mesmo fim.

Em 15 tendo sido insultado pelo povo, e gravemente ferido, fiz officio ao mesmo, p.a o mesmo fim. Em 18 ao Major-general Beresford, e em 22 ao General Dalrymple.

Em 27, a minha casa foi attacada à mão armada, por algu~s individuos de Guarda Real da policia, e soldados Espanhoes, e me tirarão varios objectos. Isto se praticou na minha ausencia, e sem ordem superior.

Em 28, participei o succedido ao Ajudante do Intendente geral da Policia a quem ele deome communicação da carta, o que não foi com tudo sufficiente para embaraçar que eu fosse prezo em 29, n'huma casa particular aonde passava a noite, por huma escolta da mesma Guarda auxiliada de bastantes soldados Espanhoes e povo em tumulto, a pezar de não exhinir ordem p.a assim o fazer, e ser investido da m.a farda e distinctivos, e requerer de ser apresentado ao S.or General. Assim fui conduzido das 8 horas da tarde, até 1 hora da madrugada, à presença do novo Commandante da d.ta Guarda, na sua casa insultado e ameaçado por soldados de ambos os corpos, e por dois cadetes que depois soube serem sobrinhos do mesmo Commandante; em perigo das bayonetas espanholas apontadas sobre o meo peito: Mandado depois à presença do Intendente que não me deou audiencia, e remettido para a cadeia da cidade, à sua ordem, quando agora vasa pedia selo à do S.or General das armas, meo juiz natural.

No dia 8 de Outubro, o d.to Intendente mandou o seu Ajudante a receber de mim huma declaração a respeito porque modo me achava neste reino. Detalhei nesta toda a minha vida desde a minha chegada em 20 de Junho de 1797; os empregos e postos que tenho seguido, a m.a conduta neste resolução. Me refiro à d.ta declaração, p.a todas as maiores clarezas que se entenderem de mim, assim como aos officios , memorial, rol de testemunhas e relação de serviços que dirigi na mesma datta (…/....) d.to Ajudante, para serem juntos à Declaração.

O Intendente deou conta ao Governo e não duvidou em fazer-me assegurar publicam.te por varias vezes, que a conta estava favoravel, tendo // tendo remettido todos os meos papeis.

Em 5, 9, 25 e 32 de Outubro fiz constar da minha prisão e impedimento ao meo Chefe, remettendo p.a o Regimento a certidão de prezo; dando me pronto logo que fosse em liberdade. Me foi respondido por officios de ? E 6 de 9.bro devia apresentar-me pessoalmente e mostrar-me livre por sentença a Conselho de Guerra, p.a ser admittido, o que não podia ser sem aqueles requisitos conforme as ordens circulares, à respeito dos officiaes indiciados e pertencentes aos varios regimentos.

Na datta de 6  d'Outubro requeri tãobem ao Governo ao fim que (…) constar ao meo regimento, e não me prejudicassea d.ta prizão, por não haver crime. Repeti o mesmo requerimento em 20.

Em 22, entre os varios desgostos e insultos que tenho tido que dissimular no meo cativeiro, conto que me foi apresentada por hum Cap.m Barret ao serviço inglez, huma portaria da Intendencia para que eu fosse remettido p.a ir servir em soldado à S. M. Britânica, ou nas tropas espanholas, e o meo nome se viou confundido com aquelle de varios sujeitos sem nascimento, nem qualidade, e da ultima plebe.

Representei por officio de 22, dirigido ao Ajudante da Intendencia, declarando porem ser pronto p.a servir aó à S. A. R. em qualquer parte que me determinasse: Foi antão a portaria revogada e deou-se outra sem que o meo nome figurasse tão impropriamente nesta.

Sobre o meo requerimento do mesmo dia, tanto à Intendencia, como ao General das armas, para ser remettido com a culpa, ao meo regim.to a fim de satisfazer ao Decreto de 30 de Setembro, e ser remettido a Conselho de Guerra justificativo, sahirão despaxos de 25 e 29, p.a requerer immeditamente a S. A. R.

Em 16 de Nov.bro fiz novo requerimento a S. A. R., pedindo copia da m.a declaração de 2 de Outubro, e de ser remettido em conselho de guerra regimental, aliás solto como innocente; e por interim me fosse dado o meo semio soldo na forma da lei de 23 de Abril de 1790.


[1809]

Por requerimentos de 6 e 28 de Fev.ro de 1809, tornei a pedir a S. A. R. o conselho de guerra ou de ser remettido à Commisão de inconfidencia, requerendo novamente o meo/meio soldo, ou os necessarios e usitados [?] socorros p.a o meu sustento. Igoalmente pelo segundo, para ser naturalisado, o que tãobem requeri em 2? de Março ao Dez.or Leite: bem que conforme as ordenações, bastasse justificar da m.a residencia de 10 annos, para ser naturalisado pela lei, e me fazer reconhecer vassalo de S. A. R.

Logo que // Logo que chegou à minha noticia o Edital da policia, da mesam data de 6 de Fev.ro, requeri à Intendencia em 9 para ter attestação de innocente, e pssar como tal p.a Caparica, a fim de me livrar da odiosa prisão na qual gemia no meio de criminosos; e tomar as providencias q.e me fossem convenientes. A dita passagem me foi concedida e se fez em 4 de Março.

Em 31, fez-se intimação p.a sahirmos do reino, dentro de 15 dias de baixo de penas de prizão, e não querendo ir para França me dirigi ao Almirante inglez que me concedeo passagem para Londres de baixo da condição de ter passaporte do Ministro da sua corte em Lisboa. Em 4 de Abril requeri o d.to passaporte que não houve meio de alcançar, negando-se a todos em geral.

Em 16 do d.to mez fomos avisados à noite, com hum pretexto vão de no acharmos no dia 17 antes das 6 horas da madrugada à revista no Porto Brandão. Aqui fomos cercados pela tropa e sem nos consentir de irmos buscar as nossas bagagens (se não depois de m.tos rogos, a alguñs de as mandar vir) fomos violentamente embarcados p.a Paço d'Arcos. Este acto violento foi praticado por hum Tenente João Maldonado do 4.º Regimento de Inf.a e hum official de justiça do Juiz de fora de Almada, auxiliados por hum cadete sargento do Reg.mto 19 Inf.a, chamado Joaquim . . . . . . a quem agora se mandou dar bauxa. Este cadete praticou comigo os maiores insultos publicos, não só por palavras, mas ainda até a se atreverde querer me fazer retardar de embarcar, com a sua bengala. Escandalisado, recorri ao Tenente que chegou a dar a sua aprovação a estes desatinos. O official que mandava na Trafaria, tinha porem tido a politica contraria de deixar a cada hum do seo districto, a liberdade de ir buscar o fatto: e o Cap.m Tavares usou tãobem de toda a politica p.a com todos.

Passámos a noite no rio, com hum temporal forte, e em 18, chegámos a Paço-darcos e Cascaes, onde fomos aquartelados no forte de N.a S.ra da Luz. Privado assim de toda a m.a bagagem, vi me reduzido a pasar até sem cama, e sem outra roupa senão aquella que levava vestida. Fiz todas as diligencias; às quaes concorrerão o Cap.m Tavares e o juiz de fora de Cascaes, porem não cheguei a recebela, senão em 30 d'Abril, […] m.to gasta, e achando os meus botins [?] arrombados; e roubado por mais de 20 moedas de roupa […]. Dei a relação do roubo ao d.to juiz: fiz constar do arrombamento pelos officiaes de justiça: requeri inquirição e averiguação em Almada protestando // protestando contra o Tenente e official de justiça, das perdas e damnos causados por sua culpa e despotismo: nada pude descobrir.

Em 20 de Abril, havendo segunda intimação, requeri a S. A: R. para ser remettido para Inglaterra, e não p.a França, dando os meos motivos.

Em 24, em razão de huma grave molestia que fiz, e me tem durado por dois mezes e meio, por insinuação do Medico, e vendo que com facilidade se dava a homenagem, mesmo a individuos de condição ordinarias e sem privilegio, requeri de balde, a d.ta homenagem à Intendencia; o que me determinou a fazer igual requerimento em 8 de Junho a S. A. R. juntando certidão do Medico repeti o mesmo em 27, ao Intendente, tãobem com certidão. Este foi despachado a requerer *a Regencia.

EM 7 d'Agosto, requerimento à Intendencia, para ter attestação como não havia crime contra mim, e só motivo politico na minha detenção, declarando que era ao fim de alcançar passaporte do Ministro Britânico: e despacho de 11 foi que não tinha lugar.

EM 28 d'Outubro requerimento a S. A. R. para pedir o meio soldo, e ser aggregado nas Ilhas, ou mandado para Londres; o qual dirigi por tres vias differentes, das quaes aos dois Secretarios d'Estado do Governo.

No mesmo dia, à occasião da revista de inspeição feita em Cascaes para conhecer os militares capazes daquella guarnição, dirigi hum officio e Memorial ao Ex.mo Marechal-general Wellington.

No dia 25 de Nov.bro por motivo da terceira intimação para sermos prontos a embarcar para França, sobre hum transporte que dáva o Almirante inglez, fiz outro requerimento a S. A. R. e ao dito Almirante p.a não ser transportado para a d.ta terra; representando os meos justos motivos e os meos sentimentos: Este he o nono ao Governo que tera ficado sem despaxo.

Em 4 de Dezembro, fomos avizados , para embarcar em 6.

*

Assim me acho privado do recurso da deffeza que todas as leis naturaes, civis, e politicas dão ao citadão para non ver a sua onra manchada. M.tos portuguezes gozárão delle, e eu não, por ter nascido // nascido francez, achando-me porem nas circunstancias favoraveis do Decreto de 22 de 8.bro de 1808.

Assim por esta sorte de condescendencia com as preocupações populares que se sabe me perseguem há tanto tempo, se me tem feito suspeito ao Governo Britanico, de tal sorte que me supoem criminoso por não mostrar a minha justificação; e não só este me tem negado até aqui os passaportes, mas ainda me tem tirado a minha unica ressurção, as modicas mezadas de que gozava havia 15 anos passados, por causa de serviços civis e militares feitos a aquella Potencias, os quaes me tinhão merecido a confiança e a proteição dos seos Ministros em Corsica e Lisboa, como posso provar.

Tenho mesmo perdido o atrazado das mezadas, por falta de zelo do meo sollicitador, e por intriga, porque o General e o Almirante inglezes tornarão, na sua costumada justiça a admittir as mezadas, e empregado, ao Cirurgião Anicel [?] que o tinha sido peloa francezes, provando que tinha sido chamado, à João Cezar filho preso tinha sido civilmente no mesmo exercito, e concedendo o atrazado à irmã deste a qual cazou com hu~official do mesmo.

Não tenho deixado de representar e de sollicitar de todos os modos a este respeito as autoridades e Agentes Britanicos, e mesmo ao Ministerio em 6 e 14 de 8.bro, 2 e 10 de 9.bro 1808, 6 de Janeiro, e 22 d'8.bro de 1809. A impressão he m.to forte e sem apparecer justificado não posso esperar nada, para me ser restituido este onrozo beneficio de S. M. Britanica, e ver-me livre de novo perigo.

A minha situação à entrada dos francezes  foi esta: o Real Erario ficára me devendo a quantia de 302$400 […] que na conformidade dos Avizos Regios de 8 de Julho de 1801, e 4 de Fevereiro de 1803, devia eu receber sobre as despezas extraordinarias da Guara real da policia, de 1803 até 20 de 7.bro de 1806 que entrei no exercicio de Capitão; à execução dos quaes Avizos se opunha havia tempo, o Ex.mo Presidente do Real Erario Luiz de Vasconcellos. A quantia de 120$000 para os meos soldos atrazados de Julho até Nov.bro de 1807. A de 30$000 das mezadas que recebia do bolsinho de S. A. R. de Serembro ate Dez.bro de 1807. E se me devia a quantia de 43$850 dos soccorros inglezes de 1.º de Janeiro até maio de 1807. Por total de 4.96$250. Não falo de todos os atrazados e perdas que seguirão até o dia da minha prizão; de sorte que fiquei em total necessidade, e obrigado a me valer para o meo sustento, dos meos am.os. Bem se sabe que não tinha outros meios, não so para subsestir, mas ainda para // para assistir à minha Mai e a minha Irmã pobres na m.a funesta terra natal, e em consideração das quaes S. A. R. me tinha concedido a mezada do bolsinho.

Forte de Cascaes em 23 de Dez.bro de 1809

Laz.o M.a B.do de Grosson de Truc

P. S. Hoje 24 do dito, pelo Juiz de fora de Cascaes se tem communicado aos francezes detidos no Forte, a Relação dos que conforme às ordens de S. A. R. deverão embarcar p.a França: e devo graças a D.s de me não achar neste numero, e pela justiça que nisso alcanço do Governo que finalmente não me tem reputado por – suspeito. Quera D.a permittir que inteiramente sejão reconhecidos os meus sentimentos e que triumpha totalmente dos meus inimigos. 

G. de Truc

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Excerpt: Bartholomew Português, pirate

 


«Another bold attempt like this, nor less remarkable, I shall also give you. A certain pirate of Portugal, thence called Bartholomew Portugues, was cruising in a boat of thirty men and four small guns from Jamaica, upon the Cape de Corriente, in Cuba, where he met a great ship from Maracaibo and Carthagena, bound for the Havana, well provided with twenty great guns and seventy men, passengers and mariners; this ship he presently assaulted, which they on board as resolutely defended. The pirate escaping the first encounter, resolved to attack her more vigorously than before, seeing he had yet suffered no great damage: this he performed with so much resolution, that at last, after a long and dangerous fight, he became master of it. The Portuguese lost only ten men, and had four wounded; so that he had still remaining twenty fighting men, whereas the Spaniards had double the number. Having possessed themselves of the ship, the wind being contrary to return to Jamaica, they resolved to steer to Cape St. Anthony, (which lies west of Cuba,) there to repair and take in fresh water, of which they were then in great want.


Being very near the cape above said, they unexpectedly met with three great ships coming from New Spain, and bound for the Havana; by these, not being able to escape, they were easily retaken, both ship and pirates, and all made prisoners, and stripped of all the riches they had taken but just before. The cargo consisted in one hundred and twenty thousand weight of cocoa nuts, the chief ingredient of chocolate, and seventy thousand pieces of eight. Two days after this misfortune, there arose a great storm, which separated the ships from one another. The great vessel, where the pirates were, arrived at Campeachy, where many considerable merchants came and saluted the captain; these presently knew the Portuguese pirate, being infamous for the many insolencies, robberies, and murders he had committed on their coast; which they kept fresh in their memory.


The next day after their arrival, the magistrates of the city sent to demand the prisoners from on board the ship, in order to punish them according to their deserts; but fearing the captain of the pirates should make his escape, (as he had formerly done, being their prisoner once before,) they judged it safer to leave him guarded on shipboard for the present, while they erected a gibbet to hang him on the next day, without any other process than to lead him from the ship to his punishment; the rumor of which was presently brought to Bartholomew Portugues, whereby he sought all possible means to escape that night. With this design he took two earthen jars, wherein the Spaniards carry wine from Spain to the West Indies, and stopped them very well, intending to use them for swimming, as those unskilled in that art do corks or empty bladders. Having made this necessary preparation, he waited when all should be asleep; but not being able to escape his sentinel's vigilance, // he stabbed him with a knife he had secretly purchased, and then threw himself into the sea with the earthern jars before mentioned; by the help of which, though he never learned to swim, he reached the shore, and immediately took to the woods, where he hid himself for three days, not daring to appear, eating no other food than wild herbs.

Those of the city next day made diligent search for him in the woods, where they concluded him to be. This strict inquiry Portugues saw from the hollow of a tree, wherein he lay hid; and upon their return he made the best of his way to Del Golpho Triste, forty leagues from Campeachy, where he arrived within a fortnight after his escape; during which time, as also afterwards, he endured extreme hunger and thirst, having no other provision with him than a small calabaca with a little water, besides the fears of falling again into the hands of the Spaniards. He ate nothing but a few shell fish, which he found among the rocks near the sea-shore; and being obliged to pass some rivers, not knowing well how to swim, he found at last an old board, which the waves had driven ashore, wherein were a few great nails; these he took, and with no small labor whetted on a stone, till he had made them like knives, though not so well; with these, and nothing else, he cut down some branches of trees, which with twigs and osiers he joined together, and made as well as he could a boat to waft him over the rivers. Thus arriving at the Cape of Golpho Triste, as was said, he found a vessel of pirates, comrades of his own, lately come from Jamaica.


To these he related all his adversities and misfortunes, and withal desired they would fit him with a boat and twenty men, with which company alone he promised to return to Campeachy, and assault the ship that was in the river, by which he had been taken fourteen days before. They presently granted his request, and equipped him a boat accordingly. With this small company he set out to execute his design, which he bravely performed eight days after he left Golpho Triste; for being arrived at Campeachy, with an undaunted courage, and without any noise, he assaulted the said ship. Those on board thought it was a boat from land that came to bring contraband goods, and so were in no posture of defence; which opportunity the pirates laying hold of, assaulted them so resolutely, that in a little time they compelled the Spaniards to surrender.


Being masters of the ship, they immediately weighed anchor and set sail from the port, lest they should be pursued by othet vessels. This they did with the utmost joy, seeing themselves possessors of so brave a ship; especially Portugues, who by a second turn of fortune was become rich and powerful again, who was so lately in that same vessel a prisoner, condemned to be hanged: with this purchase he designed greater things, which he might have done, since there remained in the vessel so great a quantity of rich merchandise, though the plate had been sent to the city. But while he was making his voyage to Jamaica, near the Isle of Pinos, on the south of Cuba, a terrible storm arose, which drove against the Jardines Rocks, where she was lost ; but Portugues with his companions escaped in a canoe, in which he arrived at Jamaica, where it was not long ere he went on new adventures, but was never fortunate after.»


The history of the Buccaneers of America; by Exquemelin, A. O. (Alexandre Olivier); Ringrose, Basil, d. 1686; Raveneau de Lussan; Mountauban, de, 1650?-1700; Perkins, Oliver L

Online: https://archive.org/details/historybuccanee02perkgoog

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Memórias de António Ribeiro da Fonseca Relativas ao Período entre 1828 e 1834 (excerto)


«[…] Assentando porem praça voluntariamente no 1.º de Janeiro de 1826, em pouco tempo fui promovido a cabo d'esquadra, por concurso num exame vago em arithemetica ; em novembro do mesmo ano marchei para a campanha, recolhi ao meu regimento, artilheria n.º 4, em 1827; matriculei-me no primeiro ano mathematico, n'aquelle mesmo anno; e, em principios de 1828 fui promovido a furriel.

Até aqui parece que a sorte me sorria, chegou porem o dia 29 de abril d'aquelle mesmo anno, segundo anníversario da Carta Constitucional, e em logar de uma parada geral para solemnisar aquelle dia, o general Gabriel Antonio Franco de Castro, governador das armas do Porto, ordenou que os corpos da guarnição da cidade, ficassem retidos nos quartéis, á excepção da guarda real de policia, que juntamente com a ralé, espalhada pelas ruas da cidade, aclamaram o Sr. D. Miguel, rei absoluto, insultando ao mesmo tempo os liberaes que encontravam.

Ao toque de recolher do mesmo dia, a minha companhia, seguida das outras companhias, e infanteria 18, todos aquartelados no mesmo quartel, saimos para a parada, ainda que sem os nossos officiaes, fizemos uma manifestação armada dos nossos sentimentos, dando vivas a EI-Rei o Senhor D. Pedro IV, e á Carta, Constitucional; apparecendo porem os officiaes do meu. regimento, e de infanteria 18, trataram de conter o nosso enthusiasmo, mandando-nos recolher á caserna.

Na verdade, os officiaes dos dois corpos eram liberaes, todavia contiveram os seus subordinados de todas as vezes que saíram para a parada armados, e com a mesma manifestação. Eu sabia que cavallaria 12, caçadores 11, e um batalhão de infanteria 12, resto da guarnição da cidade, tinham promettido annuír ao nosso grito, mas infelizmente nem se mexeram; o batalhão de caçadores 11, esse foi unir-se ao general, para supplantar os dois corpos, no caso que chegassem a sair do quartel de S. Ovídio. N'uma palavra nada conseguimos: amanheceu e cessamos com o nosso enthusiasmo.

No dia seguinte, 30 de abril, o meu coronel recebeu ordem do quartel general, para ali me mandar apresentar; sendo apresentado ao proprio general, mandou-me desarmar, e metter na prisão da Casa Pia, onde encontrei já prezos alguns officiaes inferiores do 18.

No dia seguinte fomos onze algemados, mettidos no centro de uma companhia de caçadores 11, com armas carregadas á nossa vista, e conduzidos para o Castello de S. João da Foz. A nossa sorte estava determinada pelos artigos de guerra, nada mais havia a esperar. O batalhão de infanteria 12 foi mandado para a sua praça, Chaves, o regimento de infanteria 6 foi para o Porto.

No dia 16 de Maio, o referido regimento 6 sublevou-se, e com os seus officiaes, correu ao campo de S. Ovidio, onde se lhe uniram, o meu regimento e infanteria 18, e mais tarde cavallaria 12.

O general, acompanhado por caçadores 11, ainda foi ao campo de S. Ovidio arengar aos corpos sublevados, tentando contel-os, mas, receiando que o resultado lhe fosse funesto, fugiu da cidade acompanhado peta policia, caçadores 11, o major Rosa [possivelmente Bernardino Mascarenhas da Rosa, que vem posteriormente a comandar Cavalaria de Chaves, como tenente coronel], de cavallaria 12, e alguns poucos cavallos d'este regimento. O batalhão 11, abandonou o general em Penafiel, e veio apresentar-se ao Porto.

No dia seguinte, 17 de Maio, logo pela manhã, correu ao castello da Foz o tenente coronel de cavallaria 12 (conde do Casal ultimamente [José de Barros e Abreu Sousa Alvim, 1º barão e 1º conde do Casal]) com alguns officiaes e sargentos do mesmo corpo, a soltar-me e aos meus dez companheiros das prisões do Castello.

Depois d'estes acontecimentos, entrei em operações de campanha, até á desgraçada retirada para a Galliza. Desarmados, á entrada daquela provincia acompanhei o meu regimento, até Chantode e iria ao fim do mundo, não somente em vista dos meus sentimentos liberaes, mas tambem porque em Portugal me esperava o carrasco.

Achando-nos porem n'aqueIla localidade com toda a esperança de marchar para a Corunha, e ali embarcar para qualquer parte do globo, em consequencia de uma ordem de Fernando VII, toda a força portugueza foi separada dos seus officiaes, metida no centro de um regimento hespanhol, e conduzida á raia de Portugal e entregue ao regimento de cavallaria N.º 6, que para nos acostumar, nos foi distribuindo algumas espadeiradas durante a marcha para Chaves, onde ficamos presos no forte de S. Francisco.

Fomos conduzidos, sempre presos para o Porto, e d'ali embarcamos para Cascaes, aonde nos foi distribuido um pão diariamente, dando-se-nos o pomposo titulo de prisioneiros de guerra! Ainda tiveram a humanidade, de dar a cada presioneíro uma enxerga e uma manta.

Passado pouco tempo, fomos conduzidos para Estremoz, onde nos foi distribuída a competente enxerga, manta, um pão, um rancho, e 20 reis diarios pagos quinzenalmente; porem também principiaram para os chamados prisioneiros, os trabalhos mais abjectos, dando comtudo hospital aos doentes. Porem com toda esta humanidade, por duas vezes tentaram envenenar-nos, e eramos victimas constantes do mais fero despotismo; se narrasse os episódios da minha desgraçada historia durante seis annos de prisão, muito teria que escrever, mas como são aguas passadas, e de que ninguem se lembra, a não ser algum dos pobres presos, que ainda vivem, limitar-me-hei a dizer que de Estremoz, fomos mudados para Elvas, aonde tambem nos deram uma enxerga, ou uma esteira de tabúa, uma manta e um rancho, se rancho se podia chamar, porem os 20 reis diarios acabaram, e para supprir esta falta, lançaram-nos correntes aos pés; as coisas cada vez se iam tornando peores para os miguelistas, mas para os presos as calamidades aumentavam.

Marchamos bem algemados em conductas de 50 presos, pois que eramos mais de 300 para Almeida.

Ali tudo se acabou para nós, menos os trabalhos. Nem enxerga ou esteira, nem manta, nem rancho, nem pão, nem 20 reis, e nem hospital para os doentes) nada absolutamente nada; os que morriam enterravam-se no fosso, porque malhados (era o nosso titulo) não podiam ser enterrados em sagrado. Assim vivemos desde 22 de Fevereiro até 18 de Abril de 1834.

Este dia 18 de Abril, de eterna recordação para mim, foi aquelle em que nos resgatamos das differentes prisões d'aqueIla praça. Defendi Almeida com os meus companheiros de prisão, e infortunios, que eram mais de 2000, ainda que com poucos officiaes, e muitos paizanos que ali estavam presos, até á conclusão da guerra; depois do que fui mandado servir para o primeiro batalhão de artilheria no Porto.

Organisados em 1834 os dois regimentos de artilheria de 16 baterias cada um, fui chamado á secretaria do regimento pelo major o faIlecido general José Gerardo Ferreira Passos, que me ordenou em nome do coronel (tambem já faIlecido, o visconde d'Ovar [António da Costa e Silva, 1.º Barão e 1.º Visconde de Ovar]), que escrevesse a minha historia desde que assentei praça.

No fim de três dias entreguei o meu trabalho, e fui promovido a 2.º sargento. para a 1.ª bateria a cavaIlo, com o qual marchei para Hespanha. 

Aqui teem os meus camaradas, as razões que houve para que eu, em 1835, só fosse 2.º sargento.

[...]

Elvas, 12 de Janeiro de 1879.

António Ribeiro da Fonseca

Tenente Coronel reformado.»


* * *

Retirado de Boletim do Arquivo Histórico Militar, 8.º volume, Famalicão, 1938, pp. 75-77.

Agradecimentos à Biblioteca do Exército.


Imagens:

Porta da Fortificação de de Almeida - ligação

Praça da República, antigamente Largo de S. Ovídio - ligação 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808 - Parte II


Memória de tudo o que se passou enquanto no tempo em que servi de Juis do Povo em 1808.
[Parte II: 14/3 - 22/5/1808]

[Continua da Parte I]

Em o dia 14 fiz o Officio para ver semo ???/??? a Contribuição dos Officios como do n.º 15, respondeuseme como do Officio n.º 16, e em consequencia tornei amandar chamar os Juizes dos Officios, emandei fazer novas derramas, excluindo alguns das Relaçoens, e que  mo diticassem (??? p7) notodo e com effeito notodo dos Officios se fez o abatimento demais de sete contos de reiz.

Em o dia 26 recebi partecipação como do n.º 17.

Em o dia 2 de Abril cheio de compunçaõ detanta desgraça que via sem poder remediar porque do Senado vinha huma Relação de cada Bairro, Ruas, e o numero daport= // daporta, o nome do individuo, para eu coletar na forma das instroçoens, fiz o Officio a favor das Mulheres da Ribeira, e lugares do Sal, veio a Portaria como se dezejava, e seve do n.º 18.

Em o dia 4 recebo a copia do Avizo do General em Chefe, como do n.º 19, e a Portaria do Senado n.º 20 aobrigarme a fazer o que aminha vontade naõ pedia, e alem disto continuamente estava areceber recados a apreçarme com a Contribuiçaõ pois era precizo que entrace dinheiro no Cofre: estez recados trazia o Procurador dos Misteres, Francisco Monteiro Pinto, que hera o que vinha da parte do Tribunal tomar sentido no que sefazia e ápreçar, disto heraõ testemunhas omeu Escrivaõ, os Escriturarios Joaõ Baptista e Bundano (p8), Jose Pedro Azedo, Joaquim Joze Pereira Pitta, Manoel Lazaro Tavares, Luiz Ignacio, e o Continuo Felisberto Manoel Rodrigues, trabalhando todos os dias desde as nove horaz damanhãm, athe as dez, e onze da noite e isto por huns poucos de mezes.

Em o dia 27 recebi a Ordem para remetter a Relação do que eu tinha colletado aos Officios, o que fiz como seve do n.º 21.
Em o dia 28 remeti para o Senado a Relação n.º 22.

Em o dia 30 mandoume chamr por hum Offecial Militar Pedro Lagarde para me achar as dez horas nas Cazas da Intendencia, o que fiz pela primeira vez, e aparecendo o lingoa Jorge Escarniche diceme que o Senhor Intendente se ad'mirava de eu o não ter hido procurar, respondilhe que as obrigacoens a que me achava ligado a respeito da Contribuição de Guerra me não deva lugar para poder comprimentar pessoa alguma, e diceme que queria lhe dese huma Relação de todos os acontecimentos da Cidade por semana, respondilhe que olugar que eu ocupava não tinha a meu Cargo semelhante obrigaçaõ mas só sim reprezentar as nessecidades Publicas, diceme que queria foce falar com elle todos os Domingos que era dia em que naõ havia Contribuição para o informar detudo que o Povo nessecitava, respondilhe que era precizo abrir as Obras Publicas afim de dar de comer aos desgraçados, pois naõ tinhaõ meios, nem com que matar a fome, que os acometia, respondeume por agora nãosepode cuidar nisso, a seu tempo, e retireime.

Em o 8 de Maio fui a Caza do Intendente na forma da Ordem, e vindo com o dito lingoa preguntoume que havia de novo, dicelhe que muita falta de Paõ, e que me constava moria gente de fome, respondeume que todas as providencias estavaõ dadas para haver abundancia, e preguntoume novamente se o Povo tinha entregado todas as armas que elle tinha mandado entregar, respondilhe que tudo estava entregue, que o Povo Portuguez era hum Povo muito obediente a qualquer Ordem, e que podia estar seguro que o Povo tinha entregado todas as suas Armas, e com isto ficou muito satisfeito, e dizendome que me era muito afecto, e que esperava eu naõ faltace ali todos os Domingos como me tinha dito, e dice mais q. lhe constava eu trazia ainda as Armas Reaes na minha vara e que logo devia tiralas, respondilhe com o que tinha passado com o Herman em 27 de Fevereiro e como isto hera hum engano em que elles estavaõ porque aquelas Armas eraõ da Nasção, dice-me que como a Caza Real uzava dellas deveriaõ logo ser tiradas e que deveria ser suprida pela Aguia, dicelhe que meparecia improprio, porque todas as Nascoens tinhaõ oseu destintivo, que estava persuadido que a Italia sendo governada pelo Imperador teria diverso Estandarte, respondeume que naõ deviaõ exestir, propuslhe que como o Governo determinava que naõ deviaõ exestir estas Armas, antão que tinhamos outras de que uzar, e sempre ficava destinguindose a Nasçaõ, diceme qual era, respondilhe as Armas da Cidade, proguntoume como eraõ, dicelhe que era hum Navio, detriminoume que as puzese logo, que elle omandava, respondilhe que tudo tinha formalidade; e todo o meu trabalho era naõ por a Aguia, e embaraçar este passo.

Em o dia 16 recebi hum Avizo so Senado para me achar no dia 17 do meio dia para a meia hora no Tribunal de Capa e volta (p11), e o meu Escrivaõ para acompanhar a prezença do General como seve do Documento n.º 23.

Em o dia 17 fui para o Senado com omeu Escrivaõ na conformidade do Avizo recebido, donde achei quaze todos os membros daquele Tribunal, e logo que deu huma hora mandaraõ se chegar as seges, e todas seguidas fomos para o Quartel General e entrando nas Salas era huma multidão de gente detodas as claçes, e estados, que naõ se podiaõ conhecer, despois disto apareceo Pedro de Mello Brainer, que nesta ocaziaõ fez de Mestre de Ceremonias, e chegou aporta que devedia a Sala grande, da sala de entrada e chamou pelo Senado da Camara o fez entrar para a Sala grande, e logo ápareceo o General Junot precedido de todos os Conselheiros do Governo tanto Francezes, como Portuguezes, e logo se chegou o Principal Deaõ e leu a sua oraçaõ, e acabada, seguiçe o Conde da Ega, depois continuou o Conselheiro Joaõ Joze de Faria das Costa Abreu Guiaõ (p11), e seguiçe o Chanceler Mor do Reino Manoel Nicolao Esteves Negraõ, acabado levantou a voz o General Junot e fez a sua oraçaõ em Francez, finalizada prencipiou //  Prencipiou por entre todos a conversar com algumas pessoas, e com isto se concluio este grande cortejo.

Em o dia 21 recebi do Conselheiro  Joaõ Joze de Faria das Costa Abreu Guiaõ, hum Avizo para eu me achar na Junta dos Trez Estados, e o meu Escrivaõ, e lá me comunicaria o que tinha de Ordem superior a dizerme, como seve do Documento n.º 24.

Em o dia 22 pelas sste horas da manhãm recebi hum recado do Dezembargador Francisco Duarte Coelho, que tinha negocio demuita ponderacaõ que tratar comigo, e que quandoeu fosse para a Missa passace por sua Caza, as dez horas quando sahi fui por lá mandoume dezer que estava a Missa que esperace hum bucado, respondi que eu taõ bem hia a Missa que a vinda falariamos o que fiz, e mandandome entrar para a sua livraria estava com elle Thimoteo Verdié, e logo se ajuntaraõ o Dezembargador Felipe Ferreira de Araujo e Castro, e hum Bacharel chamado Fulano Moira (p12), e principiaraõ a dizerme que na minha mam estava a felecidade da Nasçaõ, que esta tinha perdido a occaziaõ de milhorar notempo da Aclamação do Senhor Rey D. Joaõ Quarto, e como agora se offerecia esta occaziaõ hera precizo aproveitalla, para o que elles tinhaõ aranjado hum Papel para me servir deguia a eu felecitar huma Nasçaõ por quem eu reprezentava, para o que elles me mandariaõ huma Copia em limpo, e antaõ sobe que no outro dia hera eu chamado para dar o meu Votto sobre o pedir hum novo Rey, e que detarde mo mandariaõ, fiquei  emediatamente perturbado, e vindo procurar o meu letrado naõ achei em caza, detarde mandoume chamar a sua caza Themoteo Verdié, o que fiz e achei lá o dito Dezembargador Felipe Ferreira, emais hum Macedinho, filho de Agostinho Joze de Macedo, Professor de Felozofia, que medizem foi Secratario da Legação de D. Lourenço de Lima, na Embaixada de França eme diceraõ que naõ tinhaõ tido tempo deter posto o apel a limpo o que fariaõ, e a toda a hora q. estivese prompto mo trariaõ a minha caza, e retireime desconfiado disto, m este mesmo dia pela meia noite apareceume em minha caza o dito Dezembargador Felipe, e mais o tal Macedinho com tres papeis does em Portuguez, e hum em Francez, e me diceraõ era igual aos does, e me pediaõ muito que olhace que delez provinha a felecidade da Nasçaõ, e se retiraraõ, sendo o da Copia n.º 25.

[CONTINUA]

Transcrição: Jorge Quinta-Nova

DOCUMENTO 44
I-29, 16, 45
CAMPOS, José de Abreu. Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808. [S.l.], [s.d.]. 54 p.
Cóp. Ms.
Cat. Linhares n.º 171.
Coleção Linhares.

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: Seção de Manuscritos

sábado, 22 de agosto de 2020

Transcripto: Os Dois Cavaleiros Portugueses (Torres Novas, 1834), por Cláudio de Chaby

 

A seguinte transcrição diz respeito a um episódio da Guerra Civil, contado por Cláudio de Chaby. Passa-se no início de 1834, em Torres Novas, e ilustra a monstruosidade do conflito civil  e, ao mesmo tempo, a perseverança do soldado português.

«Conservamos indelével a lembrança de um facto, por nós em parte presenciado, quando aos quatorze annos faziamos numero em campanha, das fileiras de um regimento do exercito constitucional. Era o dia 25 de Janeiro de 1834, a villa de Torres Novas então occupada por forças do exercito contrario, nas quaes entravam, cremos, alguns soldados do regimento de cavallaria de Chaves, caiu, quasi por surpreza, em poder das tropas pessoalmente commandadas pelo general marquez de Saldanha. O inimigo retirou sobre Santarem; o general Saldanha ordenou a perseguição da retirada, e ao nosso regimento, infantaria n.º 3, em marcha violenta, coube o auxiliar a cavallaria, que seguiu sobre os passos dos fugitivos.

Dispersos por extensos olivaes, procuravam escapar-se os dragões de Chaves a toda a brida, sendo de perto perseguidos pelos lanceiros da rainha; mas não soffrendo os animos portuguezes de alguns d'aquelles soldados, a vergonha de serem pelas costas tocado pelo ferro do inimigo, com a espada em punho volvem á frente, illustrando-se muitos em singulares combates, por uma briosa defensa até á morte.

Entre elles, um, depois de haver trocado com o adversarios varios golpes, com pulso robuto consegue de um bóte fazer voar pedaços a lança do competidor; este substitue a lança pela espada, e apeleja renova-se com tenacidade, terminando quando ambos, depois de horrivelmente mutilados, já sem forças, se deslizam dos cavallos baqueando exsangues sobre o solo!

Os rostos, os troncos e membros destes dois valentes, foram litteralmente cobertos de pontos no hospital da villa, e por uma fatal irreflexão, collocados os dois feridos em leitos contiguos.

No dia immediato, através de pequenas fendas que lhes deixavam a immensidade dos pontos pela qual tinham envolvidas cabeças e caras, lobrigam-se e quasi instinctivamente se reconhecem; abandonam então os leitos e agridem-se, despedaçam-se os apparelhos, rasgam-se de novo as feridas, e por ellas com o resto do sangue se lhes escôam as vidas, caindo cadaveres hum junto ao outro.

Em todo este procedimento singular dos dois soldados portugueses, há alguma coisa de repugnante e feroz, que parece ultrapassar os limites, para assim dizer da valentia racional; mas quanto não há tambem de respeitavel?»

* * *

Saiba mais sobre Cláudio de Chaby aqui [abre janela]


Transcrito de

CHABY, Claúdio de, Excerptos Históricos e Colleção de Documentos Relativos à Guerra Denominada de Peninsula e às Anteriores de 1801 e do Roussillon e Cataluña, (Volume I), Lisboa, Imprensa Nacional, 1863. pp. 247-248.

Imagem

- "Escola Prática de Polícia vista do Castelo", Torres Novas, com a vista dos extensos Olivais em torno da terra. Retirado da Wikicommons em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Escola_Pr%C3%A1tica_de_Pol%C3%ADcia_vista_do_Castelo.jpg

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Memórias: Vária Fortuna de um Soldado Português (J. J. Cunha Fidié)


João José da Cunha Fidié nasceu em Lisboa, provavelmente em 1789, filho de Fernando António Fidié. Assenta praça de cadete no Regimento de Infantaria n.º 10 (Lisboa) em 6 de Janeiro de 1809 e é promovido a alferes nesse mesmo ano, a 29 de Dezembro. A 15 de Outubro de 1814 é promovido a tenente. A determinada altura, transfere-se para o Regimento de Infantaria n.º 15 (2.º de Olivença).
A 6 de Fevereiro de 1818 é promovido a capitão e, cinco meses depois, a 15 de Junho, a major ajudante de ordens do novo governador da Madeira.
Em Dezembro de 1821 é nomeado governador de armas do Piauí. Desembarcou em Oeiras em Agosto de 1822. Comanda as forças portuguesas na batalha de Jenipapo, a 13 de Março de 1823.
Em 1825, tornou-se o comandante militar do Real Colégio Militar, tendo ocupado o lugar de diretor frequentemente.

Falece no posto de tenente general a 20 de Junho de 1858.

Tem a Cruz de Guerra, 1.º Classe por 4 campanhas, e as medalhas de distinção das batalhas de Albuera e Vitória.

A seguinte transcrição é da "Introdução" ao seu livro Vária Fortuna de um Soldado Português, publicado em 1850, com modernização da ortografia (ligação do livro em pdf no final):


* * *

INTRODUÇÃO

A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram, 
Com que em tio duro estado me deitaram.
Cont. Lus. Cant. 7, Est. 81. 


Quando a Pátria oprimida pelo jugo estrangeiro, que avassalou quase toda a Europa, quebrou os ferros que a algemavam, e restaurou a sua independência, ainda que imberbe, e só com algum conhecimento das línguas Francesa, Latina, e Inglesa (A) corri a alistar-me no numero dos seus defensores no Regimento de Infantaria n.° 10, onde fui cadete e oficial. Durante os seis anos que existiu a luta sanguinolenta, que restituiu Portugal à lista das Nações independentes, seguindo sempre as Bandeiras sob que me tinha alistado (B), em todas as ocasiões combati o inimigo, quer isolado, quer ao lado dos meus camaradas, como mostra o Documento n.° 45.

(A) Posto que me considerasse só com princípios das mencionadas línguas, contudo o conhecimento que da ultima possuía, utilizou ao Serviço; pois separando-se os Batalhões do Regimento em 1809, e comandando o 1.º o Tenente Coronel inglês Oliver, lhe servi de intérprete, como bem sabem os antigos oficiais daquele Regimento, e mesmo os de Infantaria n.º 4 , e caçadores n.º 10.

(B) Aqueles mesmos Oficiais de Infantaria n.º 10, poderiam certificar, se necessário fosse, a minha dedicação ao serviço, ainda o mais trabalhoso e arriscado; e que por não me querer separar do Regimento e ir para Elvas, preferi o serviço debaixo do fogo, no 1.° cerco da Praça de Badajoz, sofrendo febres intermitentes, e que, quando marchámos para a Batalha d'Albuera, no caminho e entre giestas, curti uma sezão: depois do que me uni ao Regimento, entrando na ação do seguinte dia; e á noite fui de piquete para a borda do rio, que separava o nosso campo, do campo inimigo; o que tudo obrigou o Coronel, então o Ex.mo Conde Resende, a oferecer-me logo que voltámos ao 2.º cerro da mesma praça,uma Comissão ao Porto, afim de conduzir recrutas, na convicção, de que os novos ares e exercício, restabeleceria, como aconteceu, a minha saúde. assaz danificada; cuja Comissão agradecido aceitei, tendo tido o Coronel a deferência de me dar um outro Oficial mais moderno, (o Alferes Pedro Passos) confiando-me portanto a Comissão. Estes mesmos Oficiais estarão lembrados, de que pelos excessos no serviço, durante a campanha, por duas ocasiões sofri graves pneumonias, a que a idade e construção física pode resistir: e as Informações semestres que devem existir na Secretaria da Guerra, poderão certificar o conceito que mereci aos diferentes Chefes dos Corpos em que servi, tanto durante a campanha como depois.

Finda a guerra, o primeiro serviço extraordinário que se me apresentou, foi pretender servir na Divisão dos Voluntários Reais de El-Rei, para o que por duas diferentes ocasiões me ofereci, não sendo aceito o meu primeiro oferecimento, por se haverem igualmente oferecido outros Tenentes mais antigos, e que por isso tiveram preferência, e foram promovidos a Capitães; não tendo tido também lugar o segundo, sem acesso, (devido ao muito desejo que tinha de servir em quanto moço, e onde mais útil fosse), por não se admitirem oficiais nos mesmos postos.

O segundo serviço extraordinário que se me apresentou, foi em 1817, na Divisão Portuguesa Auxiliadora, e para o qual também me ofereci; mas dizendo-se-me que não se permitia a ida de oficiais avulsos, requeri ao Ex.m° Marechal  Beresford o trocar com  Diogo Honorato de Brito, então Tenente do Regimento N.° 15, o que obtive, mas não sem grande dificuldade, e já bem tarde, pois só na noite da véspera do dia que a Expedição levantou ferro, e saiu a Barra, é que a ordem para a minha passagem chegou ao Comandante do Regimento de Infantaria N.° 7, aquartelado em Setúbal, e no qual me achava servindo. Marchei pois imediatamente, e quando na manhã seguinte cheguei a Lisboa, já os transportes que conduziam a Divisão, estavam de barra a fora ; motivo porque julguei dever expor o acontecido ao Marechal General Beresford , diligenciando obter ir depois, no transporte que devia conduzir o resto da Tropa destinada para o Rio: — tendo-me ouvido aquele General, disse-me com bom modo; e muito pausadamente como quem refletia, e conhecia a minha situação, e razão que tinha para alcançar o que pedia: — eu pensei que estava pronto, os oficiais que hão de acompanhar o resto da Tropa estão já nomeados, ser-me-ia muito desagradável apresentar no Rio de Janeiro, a Sua Majestade o Snr. D. João. VI, um Batalhão, com um Oficial de menos: fazendo uma pausa maior, aproveitei a ocasião, e pedindo-lhe licença, disse-lhe respeitoso e decidido; pois bem, eu estou pronto, eu vou embarcar, ás ordens de V. Ex.ª; e fazendo a. devida vénia deixei o dito Marechal: no fim da salta voltei os olhos para ver se ainda se achava no mesmo lugar, ou se se havia retirado; e vendo que ainda lá estava, voltando-me, fiz-lhe um atencioso comprimento, e saí daquela sala, tendo tido a satisfação de observar certo ar no Marechal, que indicava parecer-lhe extraordinária a minha repentina resolução, em tais circunstâncias; e de quem estava com muita curiosidade de ver, se com efeito eu ia embarcar; o que efectuei, destacando naquela Divisão para o Rio de Janeiro no Regimento n.° 15, onde servi como Tenente, e depois como Capitão de Granadeiros, em 1817 e 1818; tendo porém sido obrigado a embarcar, por estas circunstâncias, que de mim não dependeram, sem roupa, sem dinheiro, e só com o fato que tinha vestido; nem mesmo ter tido tempo, de despedir-me da minha família; pois dirigindo-me, como me cumpria, a bordo da Fragata Príncipe D. Pedro, que comboiava os transportes, e que ainda se achava no rio, na qual ia o Comandante da Divisão, o Ex.mo Marquês de Angeja, este me acolheu com a sua costumada afabilidade, me deu mesa, e roupa para uso da viagem, tratando-me mais como amigo, do que como súbdito; circunstâncias que sempre me tornaram grata a sua memoria.

Em 1819 e 1820 servi na Ilha da Madeira na qualidade de Ajudante de Ordens da pessoa do Governador o Ex.mo Sebastião Xavier Botelho, em cujo exercício mereci geral favor, e o conceito que dá a conhecer a nota n.º 2. 

Em 1821 fui nomeado para o Governo das Armas da Província do Piauí, e por essa ocasião deveria ter recebido um posto, e uma ajuda de custo (C) porém a urgência do serviço fez com que se expedisse ordem ao Comandante da Charrua Gentil Americana, destinada para o Pará, para me receber a seu bordo, e conduzir-me diretamente à Cidade de S. Luís do Maranhão: não podendo pois demorar-me para receber um e outro, como era de Lei, e sempre se praticou, e se verificou ainda com os Oficiais que, compuseram a Divisão Constitucional Lusitana, enviada à Bahia: antepondo pois o bem da Pátria ao meu próprio, parti sem mais recursos, do que as comedorias a bordo, e a Carta Regia da minha nomeação. Sem querer dar importância estes e outros serviços mais relevantes; como mostram os Documentos n.os 3 — 4 — 5 — 40 — 41 — 42 — e que á exceção do 1.º, em resumo ofereci à judiciosa consideração do atual Ministro da Guerra, como se vê da exposição junta com o n.° 20, serviços aqueles tão extraordinários, e de tal ventura e valia, que merecendo a qualificação de — quase sem exemplo — pelo respetivo Ministro da Guerra, como mostramos Documentos n.° 3 – 5 — 41 — e 42 — foram aprovados com honrosas, e não vulgares expressões, pelo Punho Régio; considerando-os de honra; brio, inteligência e apurada lealdade, Documento n.º 29 (D).

(C) Não obstante haver constantemente requerido o embolso da ajuda de custo, ainda não foi possível recebê-la, apesar de constar que chegou a minutar-se Decreto para uma ajuda de custo de 500$000 que não consta recebesse, como não recebi, por ter já seguido viagem.

(D) “Custa acreditar, que tendo o atual Ministro declarado na Câmara dos Srs. Deputados no dia 12 de Abril do ano passado — que entendia não devia fazer favor a parentes ou amigos, nem devia negar a justiça quando ela fosse reclamada: que tendo sido obrigado a decidir uma pretensão que lhe estava afecta como Ministro, ele não havia de indeferi-la quando a justiça estava da parte do pretendente, todavia ajuda: esta pretensão não teve decisão!

Em 1825 fui nomeado 1.° Comandante do Real Colégio Militar, que por vezes dirigi na ausência do diretor; em 1837 fui encarregado da sua direção, por se haver suprimido provisoriamente este lugar, e nesse mesmo armo, pelo restabelecimento dele. fui nomeado diretor, por Decreto de 10 de Fevereiro, como tudo mostra o Documento n.° 10. Havendo sido exonerado deste lugar, por Decreto de 5 de Setembro de 1848, e convencido que por esta decisão o meu Credito ficava prejudicado, julguei dever ilibá-lo, requerendo, como me cumpria, e se vê pelos seguintes requerimentos, a que juntei alguns documentos, cujos originais existem na Secretaria dos Negócios do Reino, unidos ao decretamento dos meus serviços, e pelo qual se vê, que no Brasil, e em apuradas circunstâncias, pude conseguir desempenhar os meus deveres, como convinha à Dignidade Real, à honra e crédito da Nação, e do Governo; desprezando os meus particulares interesses, como além doutros) mostram os Documentos n.º 3 e 5, e cuja importância dá bem a conhecer o Documento n.° 42.

Nestes Reinos, e nos exercícios em que tenho estado empregado, já na qualidade de sub-diretor do Arsenal do Exercito Libertador na Muito Heróica Cidade do Porto, como se vê nos Documentos n.º 3 e 42, já antes, e depois daquela época, no serviço do Real Colégio Militar, sendo ainda 1.º Comandante, e servindo no impedimento do, diretor, mereci a aprovação dos respetivos Ministros, Documentos n.º 3 — 9 — e 10 — assim como a geral, e afetuosa consideração dos Alunos, como é bem notório, tendo também tido a ventura de obter, não só afeição, mas o favor, e lisonjeiro conceito dos antigos Empregados, como se depreende do conteúdo na carta junta com o n.º 12; conhecendo-se também pelo penúltimo § da carta com o n.º 14 o modo porque outro Empregado no Corpo Instrutivo, considerei: o meu costumado exercer no serviço do Estabelecimento, devendo ainda declarar, que mereci tanto favor aquele antigo Lente (autor da carta) que achando-se na Secretaria da Guerra, com o respetivo Ministro em 1833, logo depois do falecimento do 2.º diretor do Real Colégio Militar, e vendo que o mesmo Ministro de mim se não lembrava, e que por isso me não mandaria retirar da Comissão em que me achava no Porto, lhe falou em meu favor, resolvendo-se por isso o mesmo Ministro a mandar-me apresentar imediatamente em Lisboa, restituindo-me logo ao meu lugar de 1.º Comandante, e encarregando-me da Direção do Estabelecimento, recomendando-me, que nele restabelecesse o seu antigo e regular andamento; o que tudo será fácil de provar, vendo-se as ordens que se expediram, e ouvindo os antigos Empregados.

Pela mesma carta se vê também, que comparado o meu serviço no Colégio, com o de outro Chefe daquele Estabelecimento; além dos três de que só tenho feito menção em alguns dos meus requerimentos se conhece as vicissitudes a que estão sujeitos os homens, principalmente aqueles que timbram em seguir um sistema sisudo, e invariável, como lhes cumpre, sendo fieis aos seus princípios, como essenciais qualidades em todo o serviço, principalmente no militar, aonde mais facilmente se pode comprometer o crédito do Governo, a honra, e proveito da Nação. E de quanta ventura não precisão aqueles, que firmes em seus princípios de honra e verdade, são muitas vezes forçados a mostrar por qualquer modo, a sua desaprovação a atos inconsiderados!... resultando disto, não poucas vezes, consequências desagradáveis, e das quais sabem aproveitar-se aqueles que têm algum interesse cm que elas apareçam, e mesmo se generalizem, e obtenham publicidade, para melhor produzirem o desejado efeito; achando também quem as abrace e proteja, mesmo sem as acreditar, concorrendo deste modo para que o efeito seja mais eficaz, danificando assim, ainda que temporariamente, acredito de quem (possuindo bons direitos à consideração pública) descansa na sua convicção intima, e na firme e inabalável constância: com que sempre trilhou o caminho da honra, e procurou o da gloria, e bem da Pátria.

Não obstante a convição de que o publico me fazia justiça, e a segurança da minha consciência não me era possível desvanecei a ideia que constantemente me ocupava, de ser necessário que uma Comissão de inquérito tomasse conhecimento dos negócios relativos ao tempo da minha gerência no Colégio; e por isso vi com grande satisfação, nomeado um sisudo General para o Inspecionar (assim como a outros Estabelecimentos o ano passado) não me constando que o mesmo General, achasse cousa alguma que pudesse prejudicar-me.

Pelo que tenho a honra de oferecer ao Publico, parece-me evidente, que se procurou menoscabar a minha reputação, ofenderam-se meus direitos, e preferiu-se a presunção da capacidade de quem ainda não havia prestado serviços daquela natureza, á certeza que resulta de serviços já prestados. Felix qui potest rerum cognoscere causas !!!

* * *

Fonte
"Introducção" in: João José da Cunha Fidié, Vária Fortuna d'um Soldado Portuguez,  Lisboa, Tip. Alexandrina Amelia de Salles, 1850. pp. 3-9. O livro pode ser encontrado na internet, com possibilidade de baixar o pdf, em https://books.google.pt/books?id=CQ8-AQAAMAAJ [abre em novo separdor].