terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Campo da Real Tapada: Maio de 1790


No Campo da Real Tapada, na Ajuda, (referido também como de Alcântara) teve lugar de 20 a 30 de Maio de 1790 um exercício, ou brinco militar, como se dizia popularmente, onde se reuniram várias unidades, de infantaria e artilharia, sob o comando do tenente-general Luís António Guilherme de Valeré [Guillaume Louis Antoine de Valleré, 1727-1797, na foto, em cima]. 

Transcrito pelo ContAlm Celestino Soares nos seus Quadros Navaes, apresento uma descrição do campo de manobras da Real Tapada, na Ajuda. Antes, algumas observações que podem ajudar à compreensão do texto.

Na verdade, a descrição versa apenas sobre as manobras do Regimento de Infantaria de Minas (depois de Freire, de Lisboa, o futuro infantaria 4) e o 1.º regimento da Armada (que dá origem, com o 2.º, à Brigada Real de Marinha, em 1797, e ao Regimento de Infantaria de Lisboa, em 1801). 

Antes das manobras, o tenente general Valeré recebeu algumas instruções para as movimentações em brigada. A indicação que após a saída de Minas e do 1.º da Armada deste campo, o mesmo seria ocupado pelo Regimento de Infantaria de Setúbal, pelo que é de imaginar que o campo foi usado no adestramento dos vários regimentos do Governo d’Armas da Corte, com fortes preocupações de adestrar as movimentações de brigadas.

Fica a pequena coincidência que são membros do 2.º Regimento da Armada Real que vêm a formar o Regimento de Infantaria de Lisboa, o 24.º da infantaria de linha portuguesa, para permitir 12 brigadas completas, conforme a doutrina de 1801, com 4 batalhões cada.

Brinco
As manobras, especialmente as que ocorreram a 10 de Maio, consistiram na tomada de um reduto, construído para o efeito, por uma brigada, com uso das companhias de granadeiros (então 2 por regimento – em 1796, a segunda delas é substituída pela de Caçadores) como uma espécie de infantaria ligeira, na vanguarda. É de destacar a muito pormenorizada descrição do reduto que foi construído, com termos muito especializados, dando conta também do forte trabalho técnico que a artilharia e a engenharia vinham fazendo um pouco por todo o país.

Três meses depois, é organizado o Campo da Porcalhota [LER MAIS], com 2 brigadas de infantaria e uma de cavalaria, mais artilharia de Estremoz e da Corte.
Nos anos seguintes, a da Charneca de Sintra, em 1793 (presumivelmente com os 6 regimentos que constituíam o Exército Auxiliar ao Roussilhão) e finalmente o campo do Quadro, próximo da Azambuja, em 1798, onde as companhias de caçadores (criadas em 1796) fazem a sua estreia operacional, organizados em dois batalhões provisórios, prenúncio do seu uso posterior, após 1808.
Falaremos destas noutra ocasião.

TRANSCRIÇÃO

Primeiro campo de manobras, Lisboa, 18 de Maio de 1790 (cópia) – Havendo-se assignalado o sitio de Belem para ponto de reunião da Brigada composta dos dous Regimentos de infanteria de Minas e primeira Armada que, com dous destacamentos dos Regimentos de Artilheria da Côrte e Estremoz deviam acampar na Real Tapada d’Ajuda ás ordens do Tenente General Guilherme Luiz Antonio de Valeré: marcharam elles com effeito a 24 de Abril pela manhã para o dito sitio. Alli se formaram em columna, na frente da qual marchava o Quartel Mestre General do Campo, o Sargento Mór Engenheiro Theodoro Marques, com os seus ajudantes, e após estes os Porta-machados do Regimento de Minas, seguidos do General do Campo, com seu Ajudante General, e consecutivamente o Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha, com o Sargento Mór e Ajudante da Brigada; aos quaes todos precedia o destacamento d’Artilheria d’Estremoz com o seu parque. Seguia-se logo o Regimento de Minas, levando entre as suas Companhias de Granadeiros os Artilheiros, que servião duas peças de calibre de 3: e o destacamento de Artilheria da Côrte, com o seu parque, que constava de 8 peças de calibre de 6, e 2 obuzes: e em ultimo lugar hia o Regimento da primeira Armada com outro Corpo d’Artilheria tambem aos lados. 

Nesta forma subio toda a Brigada pela calçada d’Ajuda para ser vista por S. M. e AA. que a esperavam na janellas do Paço; e tendo entrado na Real Tapada, ahi se acampou em huma só linha, da mesma fórma que marchára, menos o corpo avançado d’Artilheria d’Estremoz que se postou em huma eminencia que domina aquelle lugar. Todos os dias que decorreram até 10 de Maio, em que se havia de executar o ataque, e tomada de hum reducto, construido na frente do primeiro acampamento, se empregárão na limpeza e regulação do Campo, e na direcção, e construcção de duas Flexas, que cubrião as frentes das guardas do Campo dos dous Regimentos d’Infanteria, e no exercicio pratico do serviço do Campo. Cada hum dos ditos Regimentos teve a honra de manobrar na presença das Pessoas Reaes, não só unidos, mas tambem separados; S. M. se dignou sempre de mandar agradecer aos Officiaes e Officiaes inferiores o desvelo que mostravão por satisfazer as suas respectivas obrigações.

N’aquelle meio tempo pois foi construido o sobredito reducto, ao qual se fizerão dous redentes, cobrindo-se a cortina que medeava entre elles com hum revelim, pelo qual tambem era defendida a entrada do mesmo reducto, que se guarneceo com cavallinhos de friza, tendo, aonde se julgava havia de ser atacado, seu parapeito, banqueta, berma, fosso, estrada cuberta e explanada: e explicado o uso de cada huma destas partes de fortificação em geral aos soldados que as defendião, se procedeo no dia 10 ao ataque, pelo modo seguinte.

Formados os Regimentos em batalha no segundo Campo, para onde precedentemente tinhão marchado, de cada hum delles se destinou por Companhias hum certo numero de praças que havião de ser os defensores do reducto, e em quanto estes se dirigião para a sua fortificação, marchavam os atacantes em tres columnas em ordem inversa á roda de toda a Tapada pra o lugar do ataque, havendo-se separado as Companhias de Granadeiros dos dois Regimentos para cubrirem as frentes das duas columnas. N’esta forma marchárão até encontrarem os postos avançados da guranição, que sendo desalojados pelas Companhias de Granadeiros, se retirávão em boa ordem para o interior da Praça. Protegidas as columnas, que marchávão na rectaguarda, pelos granadeiros, tiverão ellas tempo para se desenvolver, e formar em batalha no terreno que rodeava a fortificação; e immeditamente em ordem graduada atacárão a esta segundo as direcções das capitães dos redentes, avançando sempre até cubrirem a frente dos Granadeiros, os quaes para divertirem os sitiados, forão ataca-los pela direcção que fazia o angulo saliente da parte oriental; ajudou este estratagema os ataques formalisados, de sorte que então foi entrada a Fortaleza, sem que perdesse o acordo o seu commandante o capitão de minas D. Fernando Antonio de Noronha, pois o teve para se retirar em boa ordem até à eminencia que primeiramente occupára a artilheria d’Estremoz, sem embargo de o terem perseguido em toda a retirada, os granadeiros, que para este fim havião rodeado todo o contorno da fortificação.

Acabado este ensaio militar, passárão as tropas por diante de S. M. e AA. que, com huma grande multidão de pessoas da primeira nobreza, e outras gerarchias, estivérão presentes a este divertido espectaculo, por motivo do qual acudio igualmente immenso povo. Hé inexplicavel o contentamento que n’essa occasião mostrárão as pessoas reaes: tanto assim que, depois de terem os differentes corpos chegado ao terreno dos seus acampamentos, quizérão S. M. e AA. por bondade sua, testemunhar-lhes com carinhosas demonstrações de gosto a satisfação  que lhes causára o acerto com que acabavão de manobrar. N’aquelle dia não houve hum só accidente que perturbasse a alegria geral: o que assás prova o grande acordo dos officiaes nos seus mandamentos, e a boa vontade dos soldados na sua obediência. O general do campo agradeceo depois, em nome da rainha, aos officiaes o bem que tinhão servido n’este ensaio, expressando que a maior gloria de hum soldado era ver que o seu soberano se mostrava contente do seu bom serviço.

O dia seguinte, 11 do corrente, se empregou em reciprocos cumprimentos, despedindo-se os officiaes huns dos outros com uma cordealidade e ternura, de que talvez ha poucos exemplos entre os corpos militares. E depois de terem os dois Regimentos enfeitados os seos chapeos com ramos colhidos n’aquelle sitio, segundo a vontade de S. A. R. o principe N. S. sahio d’ali a brigada para se restituir aos seus respectivos quarteis, offerecendo huma divertida vista e ar de alegria com que voltávão os dois regimentos, seguidos de hum grande numero de carros todos enramados com as suas respectivas bagagens. Na tapada fórão elles revezados pelo regimento d’infanteria de Setubal.

Fonte: Quadros Navais, pp. 93-95


* * *

Em Maio de 1789, um ano antes, tinha havido na mesma tapada vários exercícios militares
O órgão oficial da corte, a Gazeta de Lisboa, publicou notícias desse campo de manobras.

LISBOA 26 de Maio.
Havendo a nossa Corte determinado que os Regimentos da Guarnição dessa capital , menos os de embarque, com os de Cascaes e Setubal, se acampassem dous a dous alternadamente em bellica disposição na Real Tapada, no dia 18 do corrente huma Brigada, composta dos Regimentos d'Infanteria de Peniche, e Albuquerque, e hum Destacamento de Artilheria, com 4 canhões, e 2 obuzes, depois de ter , com aquelles nos intervallos dos Regimentos , e estes nos lados, passado por baixo das janellas do Real Palacio d'Ajuda, aonde se achavão S.M. e AA., assentou o seu arraial, com esta mesma formalidade, no lugar indicado, debaixo do mando d'Antonio Franсо d'Abreu, Coronel do primeiro dos sobreditos Regimentos. No dia 22, achando-se ahi toda a Brigada formada em batalha, S. M. e AA. passarão pela frente, e forão recebidas com tres descargas geraes de mosqueteria e artilheria. O Principe N. S. depois andou examinando todo o campo com muita miudeza, e entrou a pé nas fileiras, mostrando por este modo que não he menos instruido na Arte Militar do que nas outras sciencias, a que se tem applicado com grande fruto. Tão satisfeito ficou S. A. R. de ver os bem executados movimentos da referida Brigada , que deo huma grande porção de dinheiro para se repartir pelas Tropas: acção que caracteriza a singular generosidade de que he dotado.
(Gazeta de Lisboa, n.º 21, 26 de Maio de 1789.)


LISBOA 12 de Junho.
Tendo S. M. e AA , e toda a Corte no dia 8 do corrente de tarde concorrido á Tapada Real, aonde se achava disposta para levantar o campo a Brigada formada dos dous Regimentos de Peniche e Albuquerque, entrou ahí ás 5 horas a segunda , destinada para a revezar, comporta dos Regimentos de Cascaes e Lippe; e depois de terem ambas estas Brigadas, após huma salva d'artilheria, dado as competentes descargas de alegria , sahio a primeira para se recolher aos seus respetivos quarteis , e a segunda procedeo logo a formar o seu acampamento. A assistencia da Real Familia, e da primeira Nobreza que a acompanhava , como tambem a boa ordem das tropas, tornárão esta militar scena summamente brilhante
e vistosa.

(Gazeta de Lisboa, Suplemento ao n.º 23, 12 de Junho de 1789.)


* * *

Ordem de Batalha

General do Campo
Tenente General Guilherme Luiz Antonio de Valeré

Quartel Mestre General do Campo
Sargento Mór Engenheiro Theodoro Marques

Brigada de Infantaria
Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha 
- Regimento de Infantaria de Minas (Lisboa) *
- 1.º Regimento de Infantaria da Armada **

- destacamentos dos Regimentos de Artilharia da Corte e de Estremoz.

Forças Oponentes (Reducto)
Capitão D. Fernando Antonio de Noronha

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Notas

* O futuro Regimento de Infantaria n.º 4, em 1806, começou por ser o Terço Novo da Côrte em 1659, tendo tomado, ao longo da sua história, o nome de alguns dos seus comandantes: Marquês de Minas, Conde do Prado, Gomes Freire. 
** Extinto em 1797, muitos dos seus quadros, assim como do 2.º regimento da Armada, foram integrados na Brigada Real de Marinha. Os restantes entraram no novo Regimento de Infantaria de Lisboa, depois n.º 10, quando o mesmo foi criado em 1801, como 24.º regimento da linha, de forma a permitir o embrigadamento de todos os corpos.

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Bibliografia

- SOARES, Contra Almirante Joaquim Pedro Celestino, Quadros Navais (VII Parte), Col. Documentos n.º 12, Ed. Ministério da Marinha, Lisboa, 1973. pp.91-93

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Polícia: Resumo biographico do aventureiro Corte Real (1824)


A 15 de Agosto de 1824, João Cândido Baptista de Gouveia envia a Olímpio Joaquim de Oliveira, Oficial Maior da Secretaria da Polícia, algumas informações que este lhe havia pedido. 

A terceira destas é uma nota, a nº 3, contendo a história do aventureiro Corte Real e ao contrários das outras duas notas, refere quase todo o percurso de vida deste vigarista profissional, “cavalheiro d'indústria”, como lhe chama eufemisticamente, entre Portugal, França e Brasil, cobrindo-a pelo menos desde a Guerra Peninsular e com mais detalhe a partir de início de 1814, e pelos dez anos seguintes.

O estilo picaresco, já antigo na história da literatura europeia, é dominante nesta nota policial e faz elevar o texto a um nível superior. Ainda que João Cândido se refira a Corte Real como 'famigerado heroe' ou como 'cavalheiro', nota-se a falta de qualquer elemento redentor face ao protagonista.

*

«Nota n.º 3 – Resumo biographico do aventureiro Corte Real – Este celebre impostor pôde durante o periodo da campanha da Peninsula, por isso que fallava alguma cousa Inglez, introduzir-se com o Commissario em chefe do Exercito Inglez, e por actos de baixeza conseguio por fim ser empregado no departamento dos transportes, assignalando-se sempre pela sua conduta irregular, e repetidos calotes, que de vez em quando lhe attrahião seus dissabores. 


Na occasião da entrada do Exercito Alliado em França acompanhou, este então Comissario conductor de bagagem, a Divisão Ingleza que entrou no sul da França, e ali o nosso cavalheiro d'indústria quis passar por filho d'Albion, entre os seus concidadãos, e por filho de um Milord entre os credulos Francezes! Bem depressa porem foi reconhecido por hum impostor, e teve de figurar tristemente entre todo o Exercito que com desprezo o olhava, já pela sua má conducta, e já pelo despresivel ardil de que se valera para merecer alguma consideração. Alguns calotes, e ganhos feitos com ladroeiras as jogos de hasard, habilitárão o nosso heroe a dirigir-se até Paris, onde quis figurar com a mesma conhecida impostura, e conseguio passar por pessoa distincta entre alguns credulos Parisienses; por fim á sombra das introducções, e conhecimentos adquiridos, enganou uma Senhora Parisiense de alguma fortuna, e com ella pertendeo desposar-se; mas as pesquisas da Policia, onde se dirigio o offendido Pai a queixar-se do nosso cavalheiro, o obrigou a deixar aquella capital, theatro das suas falcatruas, sem dizer adeos aos amigos.

Voltando ao Exercito o despedirão por incapaz e indigno do serviço, não lhe valendo de nada a sua nimia condescendencia para com o Deputado Comissario da sua brigada, que por vezes o encarregava das suas cartas amorosas para as condescendentes Languedocianas. Este revez não esperado de huma adversa fortuna, põe em criticas circunstancias o cavalheiro Corte Real, e cresce o seu apuro por effeito de teimosas instancias de alguns implacaveis credores, que tendo notas promissorias e letras passadas por elle, em consequencias de dinheiro de emprestimos, pertendem o embolso e o ameação com prisão, segundo as leis de França, que são severas para os fraudulentos devedores. Não resiste o heroe a tanto afan, e para evitar questões salda as suas contas fugindo para o Porto, e em seguida para Lisboa, conservando-se e, modesto incognito até ao anno de 1817.

Salvador, 1885

Nova carreira projecta o insigne cavalheiro, e para isso atravessa o Occeano, para em climas remotos deixar renome. He a Bahia a primeira cidade brasileira que pisa, e envergando o uniforme e insignias de Major da Engenharia Ingleza, apresenta-se ao incredulo Conde de Palma, que o recebe com toda a lhaneza e affabilidade, e lhe franqueia a sua casa. Vasto tempo se oferece então ao nosso Quixote, que cheio de honras e obsequios, se vê com tudo vazio de meios pecuniários, e mui propinquo a vender a farda e dragonas que tanta ventura lhe acarretárão! Não desanima com tudo, e fertil em engenho rapinante, emprehende logo uma subscrição para illuminar a cidade como, então moderno invento, do gaz carbonico. Subscrevem os Baihanos com aquella generosidade que lhes he caracteristica, e empolga o cavalheiro avultada somma, aprazando noite para as curiosas experiencias. 
Aqui descorçoa o heroe vendo chegar a noite fatal do funesto ensaio, mas a fortuna lhe depára hum chimico Brasileiro que consegue ministrar-lhe algum gaz hydrogeneo; afouto emprehende a operação, e sem idêa ou conhecimento algum do invento; apresenta meia duzia de lanternas, perante toda a população da Bahia que sollicita esperava pela tão desejada experiencia; pega.se fogo ao gaz, mas oh desventura! No mesmo momento se apaga e avapora, obrigando a assuada e voeria dos circunstantes ao insigne heroe a avoporar-se juntamente com o seu gaz, para salvar as costellas de huma tão merecida maçada.

Recife, 1865

Corrido e amedrontado deixa este novo alfarache e Bahia, e passa a Pernambuco a tentar nova fortuna: he acolhido pelo General, e vai morar para casa do Ajudante General Telles, filho da Ilha da Madeira, homem de instrução e de bom caracter. Aqui se preparávão grandes infortunios para o nosso aventureiro. A farda Ingleza que tão proveitosa lhe foi nos olhos do Consul Britannico, que dabalde procura no Almanack militar o nome do cavalheiro Corte Real: julga a proposito mandalo chamar, e lhe declara que por attenção ao seu protector Telles he que não procidia a mandar-lhe dar uma surra, mas que tomasse cautela, que logo que tornasse a vestir hum uniforme que lhe não competia, e reclamava ao Governo para ser punido com todo o rigor! A estas expressivas palavras perdeu o accordo o famigerado heroe, e correu a acoitar-se na casa do seu patrono, a quem por muito tempo occultou o sucesso. Condoido o honrado Telles de ver sem emprego a este sevandeja, lhe propõe ser empregado no quartel General, e pressupondo-o entendido na sua arte consegue fazelo encarregar de traçar o acampamento nos campos de Iguaraçu, por occasião dos suspeitos movimentos militares naquella capitania. He então que de todo se desmascara este heroe, e mostra a sua ignorancia até dos rudimentos mathematicos, attrahindo o justo desprezo e rizo de todos os Pernambucanos. A tudo porem resiste esta cara de estanho, e tranquillo passa seus dias até que nova castastrofe dá a conhece-lo de todo. Hum dia em que Telles sahio de serviço montado em hum fogoso cavallo, toma este a freio nos dentes, e o leva de encontro a hum muro, onde bate com a cabeça de seu dono, aponto que he levado sem sentidos para casa do General por ser a mais proxima, julgando todos que Telles estava morto: aos ouvidos de Corte Real chega a noticia do sucesso, e eis que incontinente marcha para casa, e trata de empalmar o dinheiro e trastes de valor que encontra. Recobra Telles os sentidos, por effeito da operação de trepano, faz testamento e aponta os diversos legados, que procurados em seguida não apparecem, nem tão pouco o dinheiro nem cousas de valor. Buasca-se o heroe mas este já estava a salvo levando comsigo a publia execração de todos os Pernambucanos.


Depois deste roubo infame apportou no Rio o insigne Corte Real, dando-se por medico afamado e tomando o nome Albuquerque: ali continuou a omesmo trilho e soube ganhar affecto de huma Senhora rica, que o recomendou ao Ministro Villa Nova Portugal. Conseguio este biltre obter logo emprego de Major do estado maior, e como fallava Inglez foi empregado em huma legação diplomatica!! Os acontecimentos politicos que obrigarão Sua Majestade a voltar a Portugal, accaretárão igualmente muitos parasytas para a Europa, veio entre elles o nosso famigerado heroe, que á sua chegada quis distinguir-se constituindo-se orador dos caffés a favor do systema existente. Requereu ser empregado diplomaticamente, mas o conhecimento da sua vida escandalosa que todos publicavão o affastou dos empregos. Tornou-se então inimigo daquelle systema, e appareceu constantemente na companhia do Alferes Bellem, e de hum certo Lage, até que pôde evadir-se, porque quizerão dar-lhe consideração fasendo-o procurar.

Desde que sua Majestade foi restituido aos seus inauferiveis direitos, appareceo Corte Real constantemente com os Corvos [José de Andrade Corvo & Francisco de Andrade Corvo, oficiais de cavalaria], e Sá [João de Sá Pereira Soares; os tês associados como agentes de Beresford, e denunciantes supostos da conspiração de Gomes Freire], dignos emulos de tão conspicuo heroe, e ainda hoje os visita a miudo; tem huma pensão do estado, e grandes esperanças de ser empregado diplomaticamente, por isso que se diz valido do Excelentissimo Marquez de Palmella. He provavel que o obtenha, no momento em que o merito e bom comportamento nada conseguem! Está actualmente vivendo em huma Hospedaria com o celebre Coronel Canavarro.»

* * *

Fonte
João Cândido Baptista de Gouveia, Polícia Secreta dos Últimos Tempos do Senhor Dom João VI e sua Continuação até Dezembro de 1826, Lisboa: Imp. Candido Augusto Silva Carvalho, 1835. pp. 98-102.

domingo, 4 de novembro de 2018

Reforma do Exercito Português (Agosto de 1715)


Sua Majestade, que Deos guarde, querendo aliviar aos povos de alguns dos tributos que lhes havia imposto com a occasiaõ da guerra, foy servido ordenar por Decreto de 10 do presente mez de Agosto, que se reformasse o seu exercito, ficando aquelle numero de Infanteria, & Cavallaria que fosse preciso para guarnição das Praças fronteyras, & que dos trinta & quatro Regimentos de Infanteria de lotação de 600 praças cada hum que havia no Reyno, se formassem vinte Regimentos de 500 homens cada hum, repartidos em dez companhias de 40 praças cada huma, inclusos os Officiaes dellas, além dos dous Regimentos da Armada Real, & da Junta do Commercio, que são da lotação de mil homens cada hum & do da Cidade do Porto, os quaes por não serem pagos pela repartição das Fronteyras, ficaõ na mesma forma em que se achaõ, importando por este modo toda a Infanteria em doze mil & seiscentos homens.

Em quanto à Cavallaria foy tambem o dito Senhor servido, que dos vinte regimentos de Cavallaria que havia de lotação de 480 cavallos cada hum, se escolhessem tres mil, & delles se formassem dez Regimentos de 300 cavallos, repartidos em dez companhias, tendo cada h~ua trinta, inclusos os Officiaes, & assim mais dous soldados desmontados para supprirem as faltas dos que adoecerem.

Os Regimentos de Cavallaria se hão de formar pela maneyra seguinte: dos dous, que há na Corte, se hao de escolher doze companhias, & do Alentejo haõ de vir oyto para complemento das vinte, que nesta Provincia da Estremadura haõ de ficar perfazendo dous Regimentos.
Dos da Provincia do Alentejo, & dos do Reyno do Algarve se haõ de formar 48 tropas, as 8 que hão de vira para a Corte, & as 40 que haõ de ficar naquella Provincia em 4 Regimentos.
Dos dous Regimentos que há na Provincia da Beyra, se haõ de escolher doze tropas, que com 8 que haõ de hir da Provincia do Minho, fazem 20 para os dous Regimentos de Cavallariam que ficaõ na dita Provincia.
Na de Tras os Montes há tres Regimentos de Cavallaria, dos quaes se haõ de escolher 16 tropas, & da Provincia do Minho haõ de hir 4, para tambem fazer o conjunto de dous Regimentos que naquella Provincia haõ de ficar.
No Reyno do Algarve, & na sobredita Provincia do Minho naõ fica Cavallaria alguma.

EM QUANTO A INFANTERIA
Ficaraõ cinco Regimentos em Lisboa, & Provincia da Estremadura.
No do Alentejo sete.
Na da Beyra dous.
Na de Tras os Montes dous.
Na do Minho dous.
E no Reyno do Algarve dous.
Foy tambem S. Mag. Servido fazer merce a todos os Officiaes, que ficaõ reformados de que vençaõ a metade dos seus soldos em quanto não forem accómodados aos postos que vagarem das mesmas graduçoens, para o que haõ de ter preferencia a outros quaesquer opositores.

OS OFFICIAES QUE SUA MAGESTADE NOMEOU PARA os ditos Regimentos, são os seguintes.

Coroneis para a Cavallaria da Corte
Antonio de Miranda Henriques
Jacintho Borges de Castro

Coroneis para a Infantaria da mesma
Antonio de Brito de Menezes
Pedro Gonçalves da Camara
D. Joaõ da Silveyra
Alvaro Pereyra de Lacerda
Ignacio Xavier Vieyra Matozo

Coroneis para a Cavallaria do Alentejo
Conde dos Arcos D. Thomas de Noronha
Manoel Lobo da Sylva
Andrè de Azavedo
Martim Affonso Maria (?)

Coroneis para a Infanteria da dita Provincia
Rodrigo Cesar de Mernezes
O Conde da Ericeyra Dom Luiz Carlos de Menezes
D. Luiz Manoel
D. Felippe de Alarcaõ
D. Fernando de la Cueva (?)
Francisco de Azevedo e Sylva
Estevaõ Caldeira

Coroneis de Cavallaria para a Beyra
Antonio da Cunha Souto-mayor
Gonçalo Pires Bandeyra

Coroneis de Infanteria para a mesma Provincia
Manoel Esteves Feyo
Joseph B???????

Coroneis de Cavallaria para Tras os Montes
Felippe de Sousa de Carvalho
Sebastiaõ da Cunha Souto-mayor

Coroneis para a Infanteria da dita
Gonçalo Teyxeyra de Mesquita
Luis Vahia Monteyro.

Coroneis de Infanteria para o Minho
Jacinto Lopes Tavares
Joseph de Mello

Coroneis de Infanteria para o Algarve
Joseph de Fonseca
Manoel Freire de Andrade

Tenentes Coroneis para a Cavallaria
Duarte Sodrè da Gama Pereyra
Antonio Botelho Mouraõ
Joaõ Soares Pegado
Joaõ de Roxas de Vasconcellos
D. Luis Botelho
Antonio Pinheyro de Magalhaens
Joseph Pimenta Estaço
Leonardo de Torres
Manoel Nunes Leytaõ
D. Joseph Gomes Belorado (?)

Sargentos mayores para a Cavallaria
Antonio da Rocha Pacheco
D. Lourenço de Amorim
Manoel da Costa Pimentel
Francisco Joseph Sarmento
Luis Machado
Joaõ Cordeyro Fialho
Andrè Pequeno
Luis Fialho
Manoel da Costa
Antonio Lobo da Cunha

Tenentes Coroneis para a Infanteria
Joseph Caetano de Meyreles
Affonso de Torres da Sylva
Manoel Ribeyro Malafaya
Gaspar Velozo
Joaõ Fernandes Nabo
Joaõ de Oliveyra da Fonseca
Pantaleão Teyxeyra Leal
Simão dos Santos
Joaõ Gomes de Abreu Barbosa
Francisco Xavier Pereyra
Duarte Teyxeyra Chaves
Bento Pereyra de Castro
Manoel Homem Pessoa
Antonio Serrão Diniz
Pedro Mendez
Thomé Freyre de Bulhoens
Diogo da Mata Chaves
Domingos Barbosa da Costa

Sargentos mayores.
Domingos do Amaral Valente
Alvaro Joseph de Serpa de Souto mayor
Manoel Rebello de Mendonça
Fernando de Mesquita
Antonio da Sylva Furtado
Sebastiaõ Pinto
Joaõ da Costa Freyre
Pedro Pinto
Manoel Freyre de Brito
Pantaleaõ de Oliveyra
Francisco Teyxeyra de Macedo
Thomàs de França de Lis
Mathias Coelho de Sousa
Thomàs Henriques de Figueyredo
Luis Pegado da Sylva
Manuel de Abreu da Mota
Sebastiaõ de Seyxas da Fonseca
Pedro Monteyro de Macedo
Joseph da Costa
Francisco Alvares Velozo.


INFANTARIA
“[...] dos trinta & quatro Regimentos de Infanteria de lotação de 600 praças cada hum que havia no Reyno, se formassem vinte Regimentos de 500 homens cada hum, repartidos em dez companhias de 40 praças cada huma.”

Estremadura – 5 regimentos
Alentejo – 7 
Beira – 2
Trás os Montes – 2 
Minho – 2 
Algarve – 2

“[...], importando por este modo toda a Infanteria em doze mil & seiscentos homens.”

CAVALARIA
“ […] dos vinte regimentos de Cavallaria que havia de lotação de 480 cavallos cada hum, se escolhessem tres mil, & delles se formassem dez Regimentos de 300 cavallos, repartidos em dez companhias, tendo cada h~ua trinta.”

“Os Regimentos de Cavallaria se hão de formar pela maneyra seguinte: dos dous, que há na Corte, se hao de escolher doze companhias, & do Alentejo haõ de vir oyto para complemento das vinte, que nesta Provincia da Estremadura haõ de ficar perfazendo dous Regimentos.
Dos da Provincia do Alentejo, & dos do Reyno do Algarve se haõ de formar 48 tropas, as 8 que hão de vira para a Corte, & as 40 que haõ de ficar naquella Provincia em 4 Regimentos.
Dos dous Regimentos que há na Provincia da Beyra, se haõ de escolher doze tropas, que com 8 que haõ de hir da Provincia do Minho, fazem 20 para os dous Regimentos de Cavallariam que ficaõ na dita Provincia.
Na de Tras os Montes há tres Regimentos de Cavallaria, dos quaes se haõ de escolher 16 tropas, & da Provincia do Minho haõ de hir 4, para tambem fazer o conjunto de dous Regimentos que naquella Provincia haõ de ficar.
No Reyno do Algarve, & na sobredita Provincia do Minho naõ fica Cavallaria alguma.”

Estremadura – 2 regimentos
Alentejo – 4 
Beira – 2
Trás os Montes – 2

* * *

Fonte
- Gazeta de Lisboa, n.º 4, 31 de Agosto de 1715, pp. 22-24

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Transcripto: Manuel dos Santos Pedroso


"Manuel dos Santos Pedroso, pai do Conquistador das Missões, nasceu em 1738, na vila de N. S. da Luz de Curitiba, sendo filho legítimo de Miguel Luís Correia e de sua mulher Maria Alves Pedroso 35 ). Muito moço, ainda, como grande número de curitibanos de seu tempo, transferiu-se para o Rio Grande, em cujas campanhas, como tropeiro, exerceu a sua actividade. Percorrendo esse vasto território, adquiriu grande conhecimento prático do Continente, sendo, por este motivo, quando da Demarcação do Tratado de Santo Ildefonso, em 1783, designado com o posto de alferes de milícias, juntamente com Bernardo Antunes Maciel, para o lugar de prático, ou vaqueano, da 1' divisão demarcadora de que era comissário o Brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara.

Manuel dos Santos, que acompanhou toda a campanha da Demarcação, iniciada em 5 de Fevereiro de 1784, junto ao arroio Chuí, fez parte da 1- Partida que, sob a direcção do Dr. José de Saldanha, ficou incumbida de «reconhecer a linha divisória desde Monte Grande até à entrada do rio Peperi-guaçú, no Uruguai». 36) 
Determinado pelos demarcadores de 1750, depois de exaustiva controvérsia, que deu lugar a dúvidas sobre sua localização exacta, foi o Peperi-guaçú descoberto e localizado por Manuel dos Santos Pedroso, que prestou com isto relevante serviço à Demarcação, por ser esse o limite, no rio Uruguai, entre as possessões portuguesas e espanholas, de acordo com o artigo oitavo do respectivo Tratado.

Terminada a Demarcação, pelos serviços relevantes que prestara, foi-lhe concedida uma sesmaria de terras, no distrito do Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte, erguido em 1787.

Nessas terras teve Manuel dos Santos uma estância grandemente povoada de gado, tornando-se um dos estancieiros mais ricos da região. Faleceu em 18 de Maio de 1798, com 60 anos de idade, deixando testamento transcrito no livro citado. Diz, nesse testamento, ser solteiro, mas que deixava «por herdeiros os três rapazes António, Manuel e Salvador, filhos de uma mulher por nome Isabel Maria, aos quais se deve entregar o que ficar, depois de cumprido o testamento; os constitui por herdeiros por haver criado em sua casa, e eles o terem acompanhado e feito as suas vontades. 37) Como se vê, não os reconhecia por filhos; mas, nos diversos assentos de baptismo dos filhos do conquistador' Manuel dos Santos Pedroso, existentes nos livros respectivos de Cachoeira, encontra-se a filiação deste, como no de «Isabel, nascida a 25 de Setembro de 1804, filha do Tenente Manuel dos Santos Pedroso e de Micaela Maria, guarani, neta paterna de Manuel dos Santos Pedroso e de Isabel Maria, china das Missões». 38)

Três anos após a morte do pai, Maneco Pedroso, como era conhecido, sabendo que fora declarada guerra contra os espanhóis, à frente de 20 homens, na maior parte peões de sua própria estância, apresentou-se «voluntàriamente na guarda avançada de S. Pedro ao Capitão de Dragões Comandante Francisco Barreto Pereira Pinto, oferecendo-se para o serviço de guerra». Sendo por este mandado «atacar a guarda fronteira de São Martinho», o executou prontamente «fazendo retirar os espanhóis que ali se achavam». 39) 

Expulsos os inimigos daquele posto, mandou o capitão Barreto ocupar a mesma guarda por um destacamento português. E como Pedroso falasse correntemente o guarani, incumbiu-o ainda o capitão Barreto que, com os mesmos 20 homens de sua partida, seguisse até Missões, para persuadir os índios se revoltassem, tornando-se vassalos portugueses. Indo a vários povos, conseguiu que se manifestassem favoráveis a esse projecto até os próprios corregedores que hipotecaram sua adesão, por cartas, ao Capitão Francisco Barreto.
Terminadas essas diligências, Maneco Pedroso voltou à sua estância, tendo deixado de patrulha na estância de São Pedro, sete de seus companheiros. Aliciando mais gente, quatro dias depois, em princípios de Agosto, voltou à guarda de São Pedro, tendo aí o Capitão Barreto posto sob o seu comando uma partida de 40 homens com a qual deveria auxiliar José Borges do Canto, que marchara para a conquista de Missões.. Ao chegar ali, já Canto, no dia anterior, havia tomado o acampamento espanhol, esperando a capitulação do Tenente de Governador, D. Francisco Rodrigo, que se deu no dia 13 de Agosto. Não sendo necessários os seus serviços, mandou Canto que Maneco Pedroso, com sua gente fosse guarnecer os passos do Rio Uruguai, não só para forçar essa capitulação, como para evitar viessem ao governador recursos que, em carta interceptada do governador geral de Missões, eram prometidos a D. Rodrigo.

Evitou Pedroso fossem enviados esses auxílios, apreendendo algumas carretas carregadas de alfaias da igreja de São Nicolau e géneros dos armazéns que o administrador do Povo pretendera passar para a margem ocidental do Uruguai.
Nesse meio tempo, tendo capitulado, com todas as honras da guerra, e levando consigo «140 espanhóis de armas, 10 peças de artilharia e uma carreta com petrechos de guerra», seguia D. Rodrigo para o Uruguai, tendo-se a ele já incorporado um grande número de espanhóis de outros Povos. Temendo, o que era muito provável, «que este corpo de gente armada chegasse ao Uruguai e se reunisse a outro número de espanhóis, cuja passagem para o lado de cá poderia favorecer, abusando do indulto da mesma capitulação», e que «seríamos obrigados a evacuar as Missões e perdermos o trabalho desta conquista, que tínhamos conseguido com tanta felicidade, visto a pouca gente nossa que então lá havia, diz Maneco Pedroso em sua Memória 40) «me pus em marcha com 20 homens, afim de lhe tomar o armamento e fazê-lo retroceder, o que pratiquei no Povo de São Luís, aonde a encontrei, sem embargo da capitulação, que alegava o mencionado Tenente-de-Governador haver ajustado com o citado José Borges do Canto».
Doeu aos bravos de Canto esse gesto de Pedroso, aliás fundado em justos receios, que vinha quebrar a palavra empenhada «pelo dragão desertor, capitão da conquista». «Esta acção, diz Gabriel Ribeiro, nos foi muito sensível». D. Rodrigo, conduzido prisioneiro até São Miguel, onde já se achava o Sargento-Mor Castro Morais, teve a sua prisão confirmada, «porque quem tinha feito aquela capitulação não eram os oficiais, e por consequência o dito Santos mandava preso para o Rio Pardo ao dito Tenente-Coronel». 41) Dando parte da conquista e levando uma carta de D. Rodrigo para o Governador Cabral da Câmara, seguiu Gabriel Ribeiro para o Rio Grande, onde encontrou já doente o Governador, que faleceu meses depois. Mesmo assim, mandou este «que fosse preso Manuel dos Santos Pedroso pelo insulto feito ao dito D. Francisco, Governador que tinha sido daqueles Povos, o que não se efetuou com a morte do dito Governador, que foi dali a poucos dias; mas antes, depois de ter dado esta ordem, o mesmo Governador o condecorou com o posto de Tenente de Milícias, «conforme proposta de Patrício da Câmara, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados por Maneco Pedroso. 42)

Tomou o Tenente Pedroso a defesa do sector do rio Uruguai, destacando em São Borja, de onde socorria a toda a região, tendo vários encontros com os espanhóis. Numa série sucessiva de combates, ora num, ora noutro ponto da costa e, passando mesmo para a margem oposta, a combater os inimigos. Pedroso até o fim da guerra foi um dos mais fortes elementos para a consolidação da conquista. Terminada a guerra e publicada a 24 de Dezembro a proclamação da paz, voltou à sua estância, entregando-se à criação de gados, em que se tornou abastado. Fora promovido a Capitão de Milícias.

Na campanha de 1811-1812, já com o posto de Sargento-Mor de Milícias, Manuel dos Santos Pedroso, que organiza uma partida de veteranos da guerra das Missões, põe-se à disposição do Marechal Joaquim Xavier Curado, que comanda as forças brasileiras, e que a 1.º de Janeiro de 1811 se encontra no acampamento de São Diogo, à margem direita do rio Ibirapuitã. Pedroso é designado pelo Comando Geral para fazer parte do corpo do Coronel Francisco das Chagas Santos, que chefia as Missões Orientais, tendo seu quartel-general em São Borja. Da partida de Pedroso fazem parte seu irmão Tenente António dos Santos Pedroso, Manuel Carvalho da Silva e Bento Manuel Ribeiro, então Furriel e depois Marechal do Império, e irmão de Gabriel Ribeiro de Almeida. 43)

A 7 de Agosto acampou Pedroso com a sua força em São Xavier, costa do Quaraí, e 10 dias depois ocupava a praça de Belém, sem grande resistência. Deste posto mandou várias patrulhas assolar o território do inimigo. Bento Manuel, com cinco homens, vai à coxilha do Lunarejo e toma 400 cavalos aos platinos, mas perseguido por força superior, abandona a presa e regressa ao acampamento. António dos Santos, irmão do Sargento-Mor, em 24 de Agosto, segue até as proximidades de Corrientes, onde comete várias depredações, e o Capitão Joaquim Félix da Fonseca, da mesma partida, ocupa Mandizobí.

A 30 de Agosto, o Furriel Bento Manuel e o Ajudante Manuel Carvalho, mandados por Pedroso, atacam a praça de Paisandú, que é heroicamente defendida pelo Capitão Francisco Bicudo, natural do Rio "Pardo, e mestiço de paulista e de índia de Missões.
Levam consigo 55 homens, entre os quais António Padilha, cognominado, pelos chefes, de «Valentão». Contava a praça 200 uruguaios, sob o comando de Bicudo que, depois de uma hora de defesa verdadeiramente heróica, foi morto por Padilha. Perderam os defensores de Paisandú 30 mortos e 30 feridos e a partida de Bento Manuel três mortos e um ferido, apreendendo quatro canhões, 50 clavinas e cavalhada.
Em Setembro, ainda em Belém, manda Pedroso destacamentos seus que atacam Curuzú-quatiá, e que, não obstante uma guarnição argentina de 600 homens, foi tomada, pela segunda vez, pelaforça desse Sargento-Mor. No dia 19 «os 72 homens que ocupam Curuzú-quatiá são atacados por 700 argentinos e dois canhões e entrincheiram-se num forte, onde lutam 1 1/2 hora, repelindo os assaltantes e fazendo-lhes vinte e tantos mortos, com a perda somente de três mortos; os atacantes retiram-se a uma légua de distância da vila. O Major Pedroso, sabendo dessas ocorrências, passa nesta mesma data o rio Uruguai com o Tenente Polycarpo Pires Machado e 50 e tantos homens para socorrer os sitiados, porém no mesmo dia 19 já os encontra de regresso. Com a retirada dos brasileiros a força argentina, reforçada por mais 300 homens, reocupa Curuzú-quatiá». 44)
Pedroso, em 28 de Setembro, ocupa Paissandú, com uma força de 200 homens. Voltando novamente a Belém, deixa aquela praça sob o comando do Tenente-Coronel uruguaio Benito Chain, que a abandona à aproximação de 1.500 argentinos, que a ocupam.

Em 20 de Outubro é assinada uma convenção de paz em Montevidéu, entre o governo argentino e os delegados do Vice-Rei Elio, que declara que o auxílio português fora prestado por solicitação sua. Não concorda, porém, com a convenção, o Conde de Rio Pardo, Comandante em Chefe da forças brasileiras, que ocupa Maldonado.
Entre os oficiais gravemente feridos no ataque de Curuzúquatiá contava-se o Tenente António dos Santos Pedroso, irmão de Maneco Pedroso, que ficou prisioneiro dos argentinos. Quando estes souberam que era irmão do Sargento-Mor, o degolaram em Corrientes. 45)

Vários acontecimentos de vulto, centralizados pela acção de Pedroso transcorrem ainda em 1811. O valente D. José Artigas que, daí em diante, encarnará a alma livre de seu povo, procurando lançar os alicerces de uma Pátria, realiza o êxodo histórico, tentando passar o Uruguai com 1.900 famílias, com que fundará Purificación. No Salto, Pedroso tenta impedir essa passagem, mas diante da superioridade do inimigo retira-se sem combater.

Dias depois, em 19 de Dezembro, Manuel Pinto Carneiro da Fontoura, 46) rio-grandense, ao serviço de Artigas, ataca no Arapeí o Capitão Joaquim Félix da Fonseca, que é socorrido por Pedroso.

Contava Carneiro da Fontoura 952 homens e a força brasileira só dispunha de 190. Situando-se no passo de Itapevi foi aí Pedroso atacado pelos uruguaios que o transpõem depois de duas horas de luta. O Major Pedroso, procurando observar o armistício, parlamentou com os atacantes. Nessa ocasião foi assinada uma convenção em que se estatuía que as forças uruguaias acampassem em Belém, até passarem à outra margem do Uruguai, enquanto as brasileiras se situariam junto ao arroio do Espinilho.

Não obstante essa convenção, foi Pedroso novamente atacado, mas depois de um hora e meia de luta, ficou senhor do campo com a retirada do inimigo, que teve 40 homens mortos. Pedroso teve seis mortos e nove feridos, retirando depois da acção para as cercanias do Jarau, onde estabeleceu o seu quartel.
Destacado ora em um, ora em outro ponto, onde eram exigidas a sua assistência e vigilância, Pedroso esteve muito tempo guarnecendo Paissandú, de onde em Junho de 1812 se retirou fazendo junção com o Coronel Joaquim de Oliveira Álvares, no arroio de Santo António. Publicado o convénio de paz, a que se seguiu o armistício Rademaker, assinado a 26 de Maio de 1812, contra a vontade do D. Diogo de Souza, que não queria reconhecê-lo, por haver aquele emissário, na própria opinião de Dom João VI, exorbitado das ordens que recebera, quando seu exército se preparava para obter decisiva vitória, acatando, no entanto, a deliberação do conselho de oficiais generais, retirou a 13 de Julho. Dividido em duas colunas de observação, as tropas portuguesas foram postar-se parte em Bagé e outra em Conceição.

Terminada a campanha, Manuel dos Santos Pedroso, cujos feitos se tornaram memoráveis, e que foi citado com os maiores louvores em ordens do dia do quartel general do exército, teve a sua promoção a Tenente-Coronel de milícias. Voltando novamente à sua estância de criação, ali estava quando, em 1816, é chamado pelo governador do Rio Grande, marquês de Alegrete, para a campanha levada contra D. José Artigas, de que resultou a incorporação da Cisplatina.

Em fins de 1815, convocado pelo Tenente-General Patrício da Câmara, Pedroso apresta-se para a nova campanha, mobilizando seus veteranos companheiros de milícias que, nas folgas da paz, eram licenciados para entregar-se aos amanhos do campo e da lavoura. Recebe para isto grande cópia de armamento e munições.
É designado para auxiliar imediato o Capitão Gabriel Ribeiro de Almeida que, em princípios de Março de 1816, juntamente com Pedroso, que se encontra em Porto Alegre, recebem ordens do próprio Marquês de Alegrete. Em caminho, quando se dirigia a seu acampamento, contraiu varíola, falecendo poucos dias depois, isto é, em meados de Março de 1816. 47)

Maneco Pedroso não foi casado, mas deixou nove filhos naturais que houvera, em sua estância, de várias índias guaranis, «chinas das Missões», com quem convivera. Constam os respectivos batismos dos livros de Rio Pardo, Cachoeira e Santa Maria.

De Manuela Francisca Noghay, guarani, são filhos: Maria, baptizada em Santa Maria em 10-1-1801, e Maria, em 6-10-806; de mãe incógnita: Manuela, baptizada no Rio Pardo, em 8-7-1801; de Micaela Maria, guarani: Isabel, baptizada em Cachoeira, em 25-9-804; de Maria Simão, guarani: Manuel dos Santos Pedroso, de conhecida descendência no Estado, baptizado em S. Maria em 8-8-806, e outro Manuel baptizado em Cachoeira em 15-7-809; de Tomasia Maria, guarani, as filhas: Maria, baptizada em 10-9-807, Emerenciana, em 15-8-808 e Maria em 15-7-809, todas em Santa Maria. 48)

NOTAS

35) Test. de Manuel dos Santos Pedroso. 1.º Liv. de óbitos de Cachoeira. (1779-1826) Cam. Ecl. do Bisp. de Santa Maria.
36) Diário Resumido. Dr. José de Saldanha. 147, Diário Geral. cit.
37) Test. Cit. 1.º L. de óbitos de Cachoeira.
38) 2.º Liv. de baptismos de Cachoeira. (1799-1810) Bisp. S. Maria.
39) Memórias de M. dos Santos Pedroso. B. N. I, 31, 26, 2, n9 3.
40) Memória, cit. B. N. — I, 37, 2, n< 3' Arq. Nac. Corresp. Gov.
41) Memória, cit. Gabriel Ribeiro de Almeida. Rev. Inst. H. Bras. Vol. V.
42) Idem, ibidem.
43) Seguimos no relato dos acontecimentos da campanha a documentação publicada pela Rev. do Arq. Públ. do Rio Grande do Sul. (24 volumes). Celso Schroeder, operoso pesquisador rio-grandense, servindo-se dos mesmos elementos, assina interessantes efemérides dessa campanha, que facilitam a pesquisa. Celso Schroder. A Campanha do Uruguai. (1811-1812) Rev. Inst. Hist. R. G. Sul. Ano XIV. 1° Trim. 1934, pág. 115
44) Celso Schroeder. Campanha, cit.
45) Rev. Arq. Públ. R. G. do Sul. Vol. 19, pág. 94.
46) O Capitão Manuel Pinto Carneiro da Fontoura nasceu no Triunfo, em 20 de Setembro de 1771, sendo filho legítimo do Capitão Miguel Pedroso Leite, natural de São Paulo, um dos quatro Capitães paulistas da leva de 1762, e de Inocência Pereira Pinto, filha legítima do Coronel Francisco Barreto Pereira Pinto, Comandante do Rio Pardo. Grande amigo e compadre do chefe dos Orientais, Manuel Pinto combateu sob suas ordens, comandando uma coluna de orientais em que havia grande número de riograndenses, entrando em vários combates, entre os quais o acima referido. Mais tarde deshouve-se com Artigas, de cujo exército era Tenente-Coronel. e foi degolado, por ordem do chefe dos Orientais, a 22 de Fevereiro de 1814. Era casado com Ana Joaquim de Jesus, natural de Santa Catarina e deixou uma filha de nome Inocência, nascida no Rio Pardo a 2 de Março de 1802.
47) Em Efemérides Brasileiras, pelo Barão do Rio Branco, ed. Revista pelo prof. Basílio de Magalhães, Rio, 1938, registra-se a morte de Pedroso a 5 de Abril de 1816. Em nota manuscrita do punho do próprio Rio Branco, em poder do erudito mestre Dr. Rodolfo Garcia, consta que o falecimento se deu em 26 de Abril. A carta acima referida de Gabriel Ribeiro a Patrício (Arq. Públ. R. G. do Sul, pasta 1816), é datada da freguesia da Cachoeira em 24 de Março desse ano. Diz Gabriel que "marchei de Porto Alegre a servir na partida de que era Comandante o falecido Tenente-Coronel Manuel dos Santos, e por vir por outro caminho diferente do que ele seguiu, nesta freguesia é que vim a saber de seu falecimento". Pode-se, assim retificar as datas acima.
48) Cam. Ecl. do bispado de Santa Maria. 2" Livro de baptismos de Cachoeira (1799-1810)."


Transcrito de:
- Aurélio Porto, História das Missões Orientais do Uruguai, 2.ª edição revista e melhorada pelo padre Luís Gonzaga Jaeger, S.J. SEGUNDA PARTE, Selbach & Cia., Porto Alegre, 1954. (Coleção JESUÍTAS NO SUL DO BRASIL, VOLUME IV).  - pp. 293-301.