quarta-feira, 9 de maio de 2018

Transcripto: Manuel dos Santos Pedroso


"Manuel dos Santos Pedroso, pai do Conquistador das Missões, nasceu em 1738, na vila de N. S. da Luz de Curitiba, sendo filho legítimo de Miguel Luís Correia e de sua mulher Maria Alves Pedroso 35 ). Muito moço, ainda, como grande número de curitibanos de seu tempo, transferiu-se para o Rio Grande, em cujas campanhas, como tropeiro, exerceu a sua actividade. Percorrendo esse vasto território, adquiriu grande conhecimento prático do Continente, sendo, por este motivo, quando da Demarcação do Tratado de Santo Ildefonso, em 1783, designado com o posto de alferes de milícias, juntamente com Bernardo Antunes Maciel, para o lugar de prático, ou vaqueano, da 1' divisão demarcadora de que era comissário o Brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara.

Manuel dos Santos, que acompanhou toda a campanha da Demarcação, iniciada em 5 de Fevereiro de 1784, junto ao arroio Chuí, fez parte da 1- Partida que, sob a direcção do Dr. José de Saldanha, ficou incumbida de «reconhecer a linha divisória desde Monte Grande até à entrada do rio Peperi-guaçú, no Uruguai». 36) 
Determinado pelos demarcadores de 1750, depois de exaustiva controvérsia, que deu lugar a dúvidas sobre sua localização exacta, foi o Peperi-guaçú descoberto e localizado por Manuel dos Santos Pedroso, que prestou com isto relevante serviço à Demarcação, por ser esse o limite, no rio Uruguai, entre as possessões portuguesas e espanholas, de acordo com o artigo oitavo do respectivo Tratado.

Terminada a Demarcação, pelos serviços relevantes que prestara, foi-lhe concedida uma sesmaria de terras, no distrito do Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte, erguido em 1787.

Nessas terras teve Manuel dos Santos uma estância grandemente povoada de gado, tornando-se um dos estancieiros mais ricos da região. Faleceu em 18 de Maio de 1798, com 60 anos de idade, deixando testamento transcrito no livro citado. Diz, nesse testamento, ser solteiro, mas que deixava «por herdeiros os três rapazes António, Manuel e Salvador, filhos de uma mulher por nome Isabel Maria, aos quais se deve entregar o que ficar, depois de cumprido o testamento; os constitui por herdeiros por haver criado em sua casa, e eles o terem acompanhado e feito as suas vontades. 37) Como se vê, não os reconhecia por filhos; mas, nos diversos assentos de baptismo dos filhos do conquistador' Manuel dos Santos Pedroso, existentes nos livros respectivos de Cachoeira, encontra-se a filiação deste, como no de «Isabel, nascida a 25 de Setembro de 1804, filha do Tenente Manuel dos Santos Pedroso e de Micaela Maria, guarani, neta paterna de Manuel dos Santos Pedroso e de Isabel Maria, china das Missões». 38)

Três anos após a morte do pai, Maneco Pedroso, como era conhecido, sabendo que fora declarada guerra contra os espanhóis, à frente de 20 homens, na maior parte peões de sua própria estância, apresentou-se «voluntàriamente na guarda avançada de S. Pedro ao Capitão de Dragões Comandante Francisco Barreto Pereira Pinto, oferecendo-se para o serviço de guerra». Sendo por este mandado «atacar a guarda fronteira de São Martinho», o executou prontamente «fazendo retirar os espanhóis que ali se achavam». 39) 

Expulsos os inimigos daquele posto, mandou o capitão Barreto ocupar a mesma guarda por um destacamento português. E como Pedroso falasse correntemente o guarani, incumbiu-o ainda o capitão Barreto que, com os mesmos 20 homens de sua partida, seguisse até Missões, para persuadir os índios se revoltassem, tornando-se vassalos portugueses. Indo a vários povos, conseguiu que se manifestassem favoráveis a esse projecto até os próprios corregedores que hipotecaram sua adesão, por cartas, ao Capitão Francisco Barreto.
Terminadas essas diligências, Maneco Pedroso voltou à sua estância, tendo deixado de patrulha na estância de São Pedro, sete de seus companheiros. Aliciando mais gente, quatro dias depois, em princípios de Agosto, voltou à guarda de São Pedro, tendo aí o Capitão Barreto posto sob o seu comando uma partida de 40 homens com a qual deveria auxiliar José Borges do Canto, que marchara para a conquista de Missões.. Ao chegar ali, já Canto, no dia anterior, havia tomado o acampamento espanhol, esperando a capitulação do Tenente de Governador, D. Francisco Rodrigo, que se deu no dia 13 de Agosto. Não sendo necessários os seus serviços, mandou Canto que Maneco Pedroso, com sua gente fosse guarnecer os passos do Rio Uruguai, não só para forçar essa capitulação, como para evitar viessem ao governador recursos que, em carta interceptada do governador geral de Missões, eram prometidos a D. Rodrigo.

Evitou Pedroso fossem enviados esses auxílios, apreendendo algumas carretas carregadas de alfaias da igreja de São Nicolau e géneros dos armazéns que o administrador do Povo pretendera passar para a margem ocidental do Uruguai.
Nesse meio tempo, tendo capitulado, com todas as honras da guerra, e levando consigo «140 espanhóis de armas, 10 peças de artilharia e uma carreta com petrechos de guerra», seguia D. Rodrigo para o Uruguai, tendo-se a ele já incorporado um grande número de espanhóis de outros Povos. Temendo, o que era muito provável, «que este corpo de gente armada chegasse ao Uruguai e se reunisse a outro número de espanhóis, cuja passagem para o lado de cá poderia favorecer, abusando do indulto da mesma capitulação», e que «seríamos obrigados a evacuar as Missões e perdermos o trabalho desta conquista, que tínhamos conseguido com tanta felicidade, visto a pouca gente nossa que então lá havia, diz Maneco Pedroso em sua Memória 40) «me pus em marcha com 20 homens, afim de lhe tomar o armamento e fazê-lo retroceder, o que pratiquei no Povo de São Luís, aonde a encontrei, sem embargo da capitulação, que alegava o mencionado Tenente-de-Governador haver ajustado com o citado José Borges do Canto».
Doeu aos bravos de Canto esse gesto de Pedroso, aliás fundado em justos receios, que vinha quebrar a palavra empenhada «pelo dragão desertor, capitão da conquista». «Esta acção, diz Gabriel Ribeiro, nos foi muito sensível». D. Rodrigo, conduzido prisioneiro até São Miguel, onde já se achava o Sargento-Mor Castro Morais, teve a sua prisão confirmada, «porque quem tinha feito aquela capitulação não eram os oficiais, e por consequência o dito Santos mandava preso para o Rio Pardo ao dito Tenente-Coronel». 41) Dando parte da conquista e levando uma carta de D. Rodrigo para o Governador Cabral da Câmara, seguiu Gabriel Ribeiro para o Rio Grande, onde encontrou já doente o Governador, que faleceu meses depois. Mesmo assim, mandou este «que fosse preso Manuel dos Santos Pedroso pelo insulto feito ao dito D. Francisco, Governador que tinha sido daqueles Povos, o que não se efetuou com a morte do dito Governador, que foi dali a poucos dias; mas antes, depois de ter dado esta ordem, o mesmo Governador o condecorou com o posto de Tenente de Milícias, «conforme proposta de Patrício da Câmara, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados por Maneco Pedroso. 42)

Tomou o Tenente Pedroso a defesa do sector do rio Uruguai, destacando em São Borja, de onde socorria a toda a região, tendo vários encontros com os espanhóis. Numa série sucessiva de combates, ora num, ora noutro ponto da costa e, passando mesmo para a margem oposta, a combater os inimigos. Pedroso até o fim da guerra foi um dos mais fortes elementos para a consolidação da conquista. Terminada a guerra e publicada a 24 de Dezembro a proclamação da paz, voltou à sua estância, entregando-se à criação de gados, em que se tornou abastado. Fora promovido a Capitão de Milícias.

Na campanha de 1811-1812, já com o posto de Sargento-Mor de Milícias, Manuel dos Santos Pedroso, que organiza uma partida de veteranos da guerra das Missões, põe-se à disposição do Marechal Joaquim Xavier Curado, que comanda as forças brasileiras, e que a 1.º de Janeiro de 1811 se encontra no acampamento de São Diogo, à margem direita do rio Ibirapuitã. Pedroso é designado pelo Comando Geral para fazer parte do corpo do Coronel Francisco das Chagas Santos, que chefia as Missões Orientais, tendo seu quartel-general em São Borja. Da partida de Pedroso fazem parte seu irmão Tenente António dos Santos Pedroso, Manuel Carvalho da Silva e Bento Manuel Ribeiro, então Furriel e depois Marechal do Império, e irmão de Gabriel Ribeiro de Almeida. 43)

A 7 de Agosto acampou Pedroso com a sua força em São Xavier, costa do Quaraí, e 10 dias depois ocupava a praça de Belém, sem grande resistência. Deste posto mandou várias patrulhas assolar o território do inimigo. Bento Manuel, com cinco homens, vai à coxilha do Lunarejo e toma 400 cavalos aos platinos, mas perseguido por força superior, abandona a presa e regressa ao acampamento. António dos Santos, irmão do Sargento-Mor, em 24 de Agosto, segue até as proximidades de Corrientes, onde comete várias depredações, e o Capitão Joaquim Félix da Fonseca, da mesma partida, ocupa Mandizobí.

A 30 de Agosto, o Furriel Bento Manuel e o Ajudante Manuel Carvalho, mandados por Pedroso, atacam a praça de Paisandú, que é heroicamente defendida pelo Capitão Francisco Bicudo, natural do Rio "Pardo, e mestiço de paulista e de índia de Missões.
Levam consigo 55 homens, entre os quais António Padilha, cognominado, pelos chefes, de «Valentão». Contava a praça 200 uruguaios, sob o comando de Bicudo que, depois de uma hora de defesa verdadeiramente heróica, foi morto por Padilha. Perderam os defensores de Paisandú 30 mortos e 30 feridos e a partida de Bento Manuel três mortos e um ferido, apreendendo quatro canhões, 50 clavinas e cavalhada.
Em Setembro, ainda em Belém, manda Pedroso destacamentos seus que atacam Curuzú-quatiá, e que, não obstante uma guarnição argentina de 600 homens, foi tomada, pela segunda vez, pelaforça desse Sargento-Mor. No dia 19 «os 72 homens que ocupam Curuzú-quatiá são atacados por 700 argentinos e dois canhões e entrincheiram-se num forte, onde lutam 1 1/2 hora, repelindo os assaltantes e fazendo-lhes vinte e tantos mortos, com a perda somente de três mortos; os atacantes retiram-se a uma légua de distância da vila. O Major Pedroso, sabendo dessas ocorrências, passa nesta mesma data o rio Uruguai com o Tenente Polycarpo Pires Machado e 50 e tantos homens para socorrer os sitiados, porém no mesmo dia 19 já os encontra de regresso. Com a retirada dos brasileiros a força argentina, reforçada por mais 300 homens, reocupa Curuzú-quatiá». 44)
Pedroso, em 28 de Setembro, ocupa Paissandú, com uma força de 200 homens. Voltando novamente a Belém, deixa aquela praça sob o comando do Tenente-Coronel uruguaio Benito Chain, que a abandona à aproximação de 1.500 argentinos, que a ocupam.

Em 20 de Outubro é assinada uma convenção de paz em Montevidéu, entre o governo argentino e os delegados do Vice-Rei Elio, que declara que o auxílio português fora prestado por solicitação sua. Não concorda, porém, com a convenção, o Conde de Rio Pardo, Comandante em Chefe da forças brasileiras, que ocupa Maldonado.
Entre os oficiais gravemente feridos no ataque de Curuzúquatiá contava-se o Tenente António dos Santos Pedroso, irmão de Maneco Pedroso, que ficou prisioneiro dos argentinos. Quando estes souberam que era irmão do Sargento-Mor, o degolaram em Corrientes. 45)

Vários acontecimentos de vulto, centralizados pela acção de Pedroso transcorrem ainda em 1811. O valente D. José Artigas que, daí em diante, encarnará a alma livre de seu povo, procurando lançar os alicerces de uma Pátria, realiza o êxodo histórico, tentando passar o Uruguai com 1.900 famílias, com que fundará Purificación. No Salto, Pedroso tenta impedir essa passagem, mas diante da superioridade do inimigo retira-se sem combater.

Dias depois, em 19 de Dezembro, Manuel Pinto Carneiro da Fontoura, 46) rio-grandense, ao serviço de Artigas, ataca no Arapeí o Capitão Joaquim Félix da Fonseca, que é socorrido por Pedroso.

Contava Carneiro da Fontoura 952 homens e a força brasileira só dispunha de 190. Situando-se no passo de Itapevi foi aí Pedroso atacado pelos uruguaios que o transpõem depois de duas horas de luta. O Major Pedroso, procurando observar o armistício, parlamentou com os atacantes. Nessa ocasião foi assinada uma convenção em que se estatuía que as forças uruguaias acampassem em Belém, até passarem à outra margem do Uruguai, enquanto as brasileiras se situariam junto ao arroio do Espinilho.

Não obstante essa convenção, foi Pedroso novamente atacado, mas depois de um hora e meia de luta, ficou senhor do campo com a retirada do inimigo, que teve 40 homens mortos. Pedroso teve seis mortos e nove feridos, retirando depois da acção para as cercanias do Jarau, onde estabeleceu o seu quartel.
Destacado ora em um, ora em outro ponto, onde eram exigidas a sua assistência e vigilância, Pedroso esteve muito tempo guarnecendo Paissandú, de onde em Junho de 1812 se retirou fazendo junção com o Coronel Joaquim de Oliveira Álvares, no arroio de Santo António. Publicado o convénio de paz, a que se seguiu o armistício Rademaker, assinado a 26 de Maio de 1812, contra a vontade do D. Diogo de Souza, que não queria reconhecê-lo, por haver aquele emissário, na própria opinião de Dom João VI, exorbitado das ordens que recebera, quando seu exército se preparava para obter decisiva vitória, acatando, no entanto, a deliberação do conselho de oficiais generais, retirou a 13 de Julho. Dividido em duas colunas de observação, as tropas portuguesas foram postar-se parte em Bagé e outra em Conceição.

Terminada a campanha, Manuel dos Santos Pedroso, cujos feitos se tornaram memoráveis, e que foi citado com os maiores louvores em ordens do dia do quartel general do exército, teve a sua promoção a Tenente-Coronel de milícias. Voltando novamente à sua estância de criação, ali estava quando, em 1816, é chamado pelo governador do Rio Grande, marquês de Alegrete, para a campanha levada contra D. José Artigas, de que resultou a incorporação da Cisplatina.

Em fins de 1815, convocado pelo Tenente-General Patrício da Câmara, Pedroso apresta-se para a nova campanha, mobilizando seus veteranos companheiros de milícias que, nas folgas da paz, eram licenciados para entregar-se aos amanhos do campo e da lavoura. Recebe para isto grande cópia de armamento e munições.
É designado para auxiliar imediato o Capitão Gabriel Ribeiro de Almeida que, em princípios de Março de 1816, juntamente com Pedroso, que se encontra em Porto Alegre, recebem ordens do próprio Marquês de Alegrete. Em caminho, quando se dirigia a seu acampamento, contraiu varíola, falecendo poucos dias depois, isto é, em meados de Março de 1816. 47)

Maneco Pedroso não foi casado, mas deixou nove filhos naturais que houvera, em sua estância, de várias índias guaranis, «chinas das Missões», com quem convivera. Constam os respectivos batismos dos livros de Rio Pardo, Cachoeira e Santa Maria.

De Manuela Francisca Noghay, guarani, são filhos: Maria, baptizada em Santa Maria em 10-1-1801, e Maria, em 6-10-806; de mãe incógnita: Manuela, baptizada no Rio Pardo, em 8-7-1801; de Micaela Maria, guarani: Isabel, baptizada em Cachoeira, em 25-9-804; de Maria Simão, guarani: Manuel dos Santos Pedroso, de conhecida descendência no Estado, baptizado em S. Maria em 8-8-806, e outro Manuel baptizado em Cachoeira em 15-7-809; de Tomasia Maria, guarani, as filhas: Maria, baptizada em 10-9-807, Emerenciana, em 15-8-808 e Maria em 15-7-809, todas em Santa Maria. 48)

NOTAS

35) Test. de Manuel dos Santos Pedroso. 1.º Liv. de óbitos de Cachoeira. (1779-1826) Cam. Ecl. do Bisp. de Santa Maria.
36) Diário Resumido. Dr. José de Saldanha. 147, Diário Geral. cit.
37) Test. Cit. 1.º L. de óbitos de Cachoeira.
38) 2.º Liv. de baptismos de Cachoeira. (1799-1810) Bisp. S. Maria.
39) Memórias de M. dos Santos Pedroso. B. N. I, 31, 26, 2, n9 3.
40) Memória, cit. B. N. — I, 37, 2, n< 3' Arq. Nac. Corresp. Gov.
41) Memória, cit. Gabriel Ribeiro de Almeida. Rev. Inst. H. Bras. Vol. V.
42) Idem, ibidem.
43) Seguimos no relato dos acontecimentos da campanha a documentação publicada pela Rev. do Arq. Públ. do Rio Grande do Sul. (24 volumes). Celso Schroeder, operoso pesquisador rio-grandense, servindo-se dos mesmos elementos, assina interessantes efemérides dessa campanha, que facilitam a pesquisa. Celso Schroder. A Campanha do Uruguai. (1811-1812) Rev. Inst. Hist. R. G. Sul. Ano XIV. 1° Trim. 1934, pág. 115
44) Celso Schroeder. Campanha, cit.
45) Rev. Arq. Públ. R. G. do Sul. Vol. 19, pág. 94.
46) O Capitão Manuel Pinto Carneiro da Fontoura nasceu no Triunfo, em 20 de Setembro de 1771, sendo filho legítimo do Capitão Miguel Pedroso Leite, natural de São Paulo, um dos quatro Capitães paulistas da leva de 1762, e de Inocência Pereira Pinto, filha legítima do Coronel Francisco Barreto Pereira Pinto, Comandante do Rio Pardo. Grande amigo e compadre do chefe dos Orientais, Manuel Pinto combateu sob suas ordens, comandando uma coluna de orientais em que havia grande número de riograndenses, entrando em vários combates, entre os quais o acima referido. Mais tarde deshouve-se com Artigas, de cujo exército era Tenente-Coronel. e foi degolado, por ordem do chefe dos Orientais, a 22 de Fevereiro de 1814. Era casado com Ana Joaquim de Jesus, natural de Santa Catarina e deixou uma filha de nome Inocência, nascida no Rio Pardo a 2 de Março de 1802.
47) Em Efemérides Brasileiras, pelo Barão do Rio Branco, ed. Revista pelo prof. Basílio de Magalhães, Rio, 1938, registra-se a morte de Pedroso a 5 de Abril de 1816. Em nota manuscrita do punho do próprio Rio Branco, em poder do erudito mestre Dr. Rodolfo Garcia, consta que o falecimento se deu em 26 de Abril. A carta acima referida de Gabriel Ribeiro a Patrício (Arq. Públ. R. G. do Sul, pasta 1816), é datada da freguesia da Cachoeira em 24 de Março desse ano. Diz Gabriel que "marchei de Porto Alegre a servir na partida de que era Comandante o falecido Tenente-Coronel Manuel dos Santos, e por vir por outro caminho diferente do que ele seguiu, nesta freguesia é que vim a saber de seu falecimento". Pode-se, assim retificar as datas acima.
48) Cam. Ecl. do bispado de Santa Maria. 2" Livro de baptismos de Cachoeira (1799-1810)."


Transcrito de:
- Aurélio Porto, História das Missões Orientais do Uruguai, 2.ª edição revista e melhorada pelo padre Luís Gonzaga Jaeger, S.J. SEGUNDA PARTE, Selbach & Cia., Porto Alegre, 1954. (Coleção JESUÍTAS NO SUL DO BRASIL, VOLUME IV).  - pp. 293-301.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Resumo Official das Operações da Expedição as Ordens do Excellentissimo Duque da Terceira, desde o seu desembarque no Algarve, até á sua definitiva entra da em Lisboa

Castelo de Almada, circa 1835. Artista: Grunewald.

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor, — A irregularidade das communicações, que tiverão lugar entre a Secretaria d'Estado dos Negocios da Guerra , e o meu Quartel General, no decurso dos movimentos rapidos, que me foi necessario executar, tanto no Algarve, como no Além-Tejo até Lisboa, não me tendo permittido ter o Governo ao corrente do progresso das mesmas operações, julgo do meu dever levar ao conhecimento de Sua Magestade Imperial o Senhor Duque DE BRAGANÇA, Regente em Nome da Rainha, a Historia resumida desta Campanha, por me persuadir, que só assim posso cumprir com a obrigação, e gratidão, em que me acho penhorado para com as Tropas, que tive a honra de Commandar, e a cujo valor, e constancia devo o successo colhido.

No dia 24 de Junho proximo passado a. Divisão do meu Commando na força constante do Mappa numero I, efectuou o seu desembarque na Praia situada entre o Forte de Cacella, e a Bateria do Monte Gordo, tendo alguns tiros da Esquadra calado as Baterias daquelle ponto, da Costa , e não se apresentando ninguem na Praia para disputar o desembarque, que se achou completamente terminado pela meia noite. Em quanto o desembarque se efectuava, a Guarnição de Villa Real de Santo Antonio tinha abandonado aquella Villa na direcção de Alcoutim, e tendo o Visconde de Mollelos reunido a Guarnição, que tinha em Tavira, Faro, e visinhanças, e postado esta força na margem direita do Almarge para esperar naquelle ponto a marcha das minhas Tropas.

Na madrugada de 25 começou a Divisão a sua marcha sobre Tavira, continuando-a sem encontrar resistencia até ao Almarge, onde achou a força do Visconde de Mollelos occupando as alturas da margem direita do rio, que ali passa. Alguns atiradores estendidos nos flancos da Columna começárão a repellir os do inimigo; e a marcha não interrompida da Divisão para a frente foi suficiente para pôr o inimigo em plena derrota, na qual abandonou huma peça de Artilheria de calibre 6. A nossa perda neste encontro foi apenas de hum Oficial ferido, o Major David, de cujos talentos, valor, e serviços, huma molestia subsequente privou desgraçadamente o Exercito alguns dias depois; e dous Soldados feridos.

O inimigo na sua fuga precipitada atravessou Tavira sem fazer alto; e só suspendêo a sua marcha, quando chegou a Faro; de maneira que, ao entrar em Tavira, achei aquella Cidade inteiramente abandonada pelos rebeldes.

D’alli expedi o Coronel de Milicias de Béja, Domingos de Mello Breyner para Villa Real, encarregando-o do Governo Militar daquella Villa, e Povoações visinhas ao longo do Guadiana, e dando-lhe instrucções, e meios para o immediato armamento de Corpos de Voluntarios para apoiar a manifestação dos sentimentos de Fidelidade dos Povos daquellas partes. Deixei em Tavira os feridos, os doentes, algumas praças cançadas da primeira marcha, e o Destacamento de Lanceiros da Rainha ainda apeados: e no Governo Militar de Tavira, com instrucções, e meios analogos aos acima referidos, deixei o Major de Cavallaria Rezende.

De Tavira marchei para Olhão no dia 26, e alli a minha Divisão foi recebida com o maior enthusiasmo pela Povoação, cujo amor, e fidelidade a Sua Magestade, e ao Governo Constitucional, são na verdade dignos do maior elogio. Com a minha chegada a Olhão, o Visconde de Mollelos continuou a sua retirada sobre S. Bartholomeu de Messines.

No dia 27 entrei em Faro; e alli veio tambem a Esquadra de Sua Magestade Fidelissima, e nella o Duque de Palmella, que tomou immediatamente conta do Governo Civil da Provincia, segundo as instrucções, que lhe havião sido dadas. E em recolher alguns meios indispensaveis para o progresso da marcha, como, cavallos para os Oficiaes montados, e algumas bestas de primeira necessidade para transportes, empreguei o resto daquelle dia, e huma parte do dia 28.

Na tarde de 28 a segunda Brigada do Commando do Brigadeiro Antonio Pedro de Brito marchou para Loulé, com ordem de pernoitar naquella Villa, e reunir no dia seguinte á primeira Brigada no sitio de Quarteira sobre a estrada de Silves.

No dia 29 marchárão a primeira Brigada de Faro, e a segunda de Loulé, ao sitio de Quarteira, onde ambas acampárão.

Em Quarteira recebi a noticia de que parte das forças existentes no Algarve, que se achava de Guarnição em Albufeira, Lagos, Sagres etc. se tinha reunido em Silves, e com algumas peças de Artilheria marchava acceleradamente sobre S. Bartholomeu de Messines para se reunir ao Visconde de Mollelos, o qual já tinha abandonado aquelle ponto, e continuado a sua retirada por S. Marcos da Serra para Santa Clara.

Puz-me immediatamente em marcha para S. Bartholomeu, cobiçoso de achar ainda alli esta força fugitiva; porém a minha diligencia foi baldada; porque, chegando a S. Bartholomeu no dia 30, achei que o inimigo tinha passado muito além desta Villa, tendo alli abandonado 3 peças de calibre 3, cujos reparos tinha inutilisado; e bem assim huma quantidade de polvora, que apenas havia tido tempo de lançar em alguns poços.

Assim, em 6 dias, contados do momento do desembarque da Divisão no Algarve, esta Província estava livre dos rebeldes, o Governo intruso tinha sido abjurado por todas as Povoações; grande numero de Oficiaes, e Soldados, especialmente d'Artilheria, servião já nas nossas fileiras; todas as baterras da Costa, e suas munições, todo o material de guerra da Provincia tinha cahido em nosso poder; e toda a força dos oppressores tinha sido arrojada além das Serras de Monchique e Caldeirão. 


Toda a Divisão do meu Commando se achava em S. Bartholemeu, á excepção dos doentes, e Lanceiros desmontados, que estavão em Tavira, e do Batalhão de Atiradores da Rainha, que ficáva de Guarnição em Faro com o Governador Lima para protecção dos Depositos alli existentes, e para se refazer de alguns objectos, de que carecia.


S. Bartolomeu de Messines.

A celeridade dos movimentos até alli executados não me tinha permittido reunir os meios indispensaveis para huma serie de operações, que me afastasse mais do centro dos meus recursos. As minhas reservas de polvora tinhão ficado em Faro; alli tinha ficado igualmente a artilheria de montanha, e a de campanha tornada já aos rebeldes; era portanto necessario reunir todos estes meios, e por isso fiz alto em S. Bartholomeu, passando para Faro as Ordens precisas, para chamar á Divisão todos estes objectos, o que era facilitado naquelle ponto pelo transito por agua até á Cidade de Silves.

Foi durante este alto, que o benemerito Major José Pedro de Mello, com o Alferes Couceiro, e 5 cavallos, que eu tinha mandado no dia 2 a reconhecer, o que se passava em S. Marcos da Serra, onde os meus exploradores erão interceptados, foi alliardilosamente capturado pelas Ordenanças armadas, que o Visconde de Mollelos tinha feito reunir, e que, em consequencia deste desagradavel acontecimento, mandei áquella Povoação hum destacamento de Caçadores, com a apparição do qual as Ordenanças se retirávão, levando comsigo os poucos habitantes de S. Marcos, e deixando a povoação deserta; destacamento, que regressou a S. Bartholomeu na manhã do dia 3.

No mesmo dia 3 de Julho vim no conhecimento de que o General Mollelos se tinha retirado por S. Martinho das Amoreiras até Gravão, onde convergem as estradas, que vem do Algarve por Almodovar e Ourique, e por Santa Clara, a ultima das quaes o inimigo tinha devastado na sua passagem com huma barbaridade verdadeiramente atroz. Fui alli igualmente instruido de que o Coronel Breyner, ou antes os Voluntarios, que ele havia reunido, com hum destacamento de 50 Atiradores da Rainha, que lhe havia mandado de Faro o Duque de Palmella, tinhão avançado sobre Mertola; e reunindo a si huma Guerrilha de Serpa e visinhanças, projectavão, ou tinhão executado hum movimento sobre Béja, que alvoroçada sacudio o jugo com a sua aproximação.

Julgando então conveniente aproximar-me desta pequena força, e do caminho mais curto para Béja e Campo d'Ourique por Almodovar, determinei-me a vir occupar de novo Loulé, como ponto de partida para além das Serras; por isso que estando assim muito mais proximo de Faro, e sendo o termo de Loulé abundante em cavalgaduras, poderia mais facilmente reunir os transportes para as reservas e Artilheia, assim como para alguns viveres indispensaveis para fornecer a Divisão nas marchas desprovidas a travez da Serra, e efectuei este movimento, vindo occupar Loulé na manhã do dia 4.

Em quanto fazia preparar em Faro, e reunir em Loulé os objectos acima mencionados, tres movimentos diversos se me oferecião para continuar as minhas operações; e as noticias, que os meus emissarios recolhião na frente, devião decidir a minha escolha entre elles.

Erão estes movimentos: primeiro, penetrar em Além Tejo directamente pela estrada de Almodovar: segundo, seguir para o mesmo fim a estrada de S. Marcos: terceiro, ganhar a margem do Guadiana, e avançar por Mertola sobre Béja, movimento este, que me obrigava a huma marcha retrógrada por Tavira, unico caminho praticavel entre Loulé e Mertola; qualquer porém que fosse o movimento, a fazer, só poderia começar quando estivessem reunidas a Artilheria, e os transportes.

No dia 7 de Julho, estando efectivamente prompta a maior parte dos meus meios, e dispondo-me eu definitivamente a penetrar no Além-Téjo pela estrada de Almodovar por me constar que o inimigo tinha as suas forças em Messejana, Gravão e Castro Verde, recebi a noticia da completa derrota, e captura da Esquadra rebelde pela Esquadra de Sua Magestade Fidelissima, e ao mesmo tempo hum Oficio do Duque de Palmella, em que me pedia, instantemente aproximasse de Lagos, huma força consideravel para pôr o Almirante em estado de desembarcar, e organizar o grandissimo numero de prisioneiros, que tinha produzido a captura da Esquadra, e passasse eu mesmo a Lagos para combinar com o Almirante o plano ulterior de operações, no qual a derrota total da Esquadra devia necessariamente ter huma influencia.

Em quanto com o meu Estado Maior me dirigia a Lagos, assentei dispôr a Divisão pela maneira seguinte: A 1.ª Brigada occupando S. Bartholomeu de Messines; a 2.ª, marchando sobre Albufeira para dalli vir a Lagos, sendo necessario: a Artilheria, e Corpo Academico ficando em Loulé promptos a marchar na direcção, que se lhes indicasse: finalmente o Coronel Breyner tendo ordem de occupar Mertola com a força, de que dispunha, reforçada por hum novo destacamento de Atiradores da Rainha, dos quaes o maior numero, continuou a permanecer em Faro.


Chegado a Lagos no dia 8 fui testemunha ocular dos brilhantes resultados da victoria alcançada pelo Almirante Visconde do Cabo de S. Vicente; e as Guarnições dos Navios a prezados tendo manifestado da maneira a mais positiva a sua adhesão á Causa de Sua Magestade, contra a qual tinhão servido de máo grado, de accordo com o Almirante engrossei as fileiras da Divisão com huma parte dos Soldados da Brigada Real da Marinha, voluntariamente nellas alistados, e em vista das circumstancias, resolvi immediatamente penetrar no Alemtejo pela estrada de S. Marcos e Santa Clara. Para este fim reuni os Corpos da Divisão em S. Bartholomeu de Messines no dia 10, e no dia 12 estavão naquella Villa igualmente reunidos todos os meios de guerra e munições de bôca indispensaveis para transpor a Serra, e operar em Alemtéjo; e devendo este movimento alongar-me mais e mais do Algarve, fiz partir para Faro o Brigadeiro Brito, encarregando-o interinamente do Governo das Armas desta Provincia.

No dia 13 marchei de S. Bartholomeu sobre S. Marcos, em 14 estabeleci o Campo junto a Santa Clara, o em 15 junto a Gravão, onde fez alto a Divisão por todo o dia 16 para reunir a artilheria de Campanha e os foguetes que vinhão huma marcha na retaguarda.

Igreja Matriz de Garvão

No campo de Gravão [Garvão] me foi confirmada a noticia dos acontecimentos de Béja, sabendo que o Visconde de Mollelos instruido em Messejana da revolta daquella Cidade contra o governo intruso, e da pequena força que alli se achava, marchára sobre Beja, que a referida pequena força evacuou á primeira noticia da sua marcha , e occupava aquella Cidade, onde as suas tropas tinhão cometido os maiores horrores, e onde se lhe devião unir alguns reforços avultados.

Penalisado em extremo da sorte dos leaes habitantes de Béja, resolvi com tudo aproveitar-me do erro que o inimigo havia comettido de deixar descoberta a estrada da Capital, e cheio de confiança na audacia dos dignos Oficiaes, e incançaveis Soldados da Divisão, e no valor de huns e outros, tantas vezes experimentado, esperando muito dos bons desejos dos Povos, á medida que me aproximasse da Capital, adoptei a resolução de deixar em Béja o Visconde de Mollelos com as suas forças, e os seus reforços, e certo de ganhar sobre elle ao menos duas marchas, vir arvorar as Bandeiras de Sua Magestade Fidelissima nas margens do Tejo, e segundo as circumstancias nas proprias Torres da Capital. Convencido porém, de que hum movimento tão atrevido só devia produzir completo resultado, quando as almas de todos os cooperadores se penetrassem da sua alta importancia, convoquei em Messejana, onde estabeleci o meu Quartel General na noite de 17, os Brigadeiros e Commandantes dos Corpos da Divisão, com os Chefes das Repartições do meu Estado Maior, e expondo-lhes de huma maneira singela o meu projecto e as minhas esperanças, sem lhes dissimular os riscos, nem as dificuldades, tive a satisfação de ver estes intrepidos e valentes Camaradas, adoptarem unanimes as minhas idéas, e prestarem-se com a força da convicção a segui-las contentes e enthusiasmados; e apenas no dia seguinte 18, os Soldados percebêrão que deixando á direita a estrada d'Aljustrel, tomavamos a de Alvalade, as vozes, a Almada, a Lisboa, corrêrão de bôca em bôca, nas fileiras, e fizerão esquecer ao Soldado as fadigas, as privações, e o trabalho.

No dia 19 pernoitou a Divisão junto ao lugar dos Bairros, e pondo-se em marcha na madrugada de 20, passou o Sado no váo de Porto d'El Rei, estabelecendo se a noite o Campo no Val de Ferreira.

Alcácer do Sal, visto da outra margem do rio Sado.

No dia 21, proseguindo a nossa marcha até á proximidade d'Alcacer, pertendeo o inimigo cobrir a entrada com huma pequena partida de Voluntarios Realistas, por isso que ignorante da rapidez do meu movimento, julgava unicamente que huma partida de guerrilhas marchava a ataca-lo. Este pequeno troço foi logo dispersado, ficando quasi todo prizioneiro, e escapando unicamente alguns fugitivos, que levárão a Setubal o terror e a noticia da aproximação de Tropas Regulares. A Villa de Alcacer recebeo a Divisão com o maior enthusiasmo, e tendo esta descançado alli algumas horas, veio acampar nos montados vizinhos á Quinta de Palma.

No dia 22 encontrei o inimigo em posição na frente de Setubal; e alguns tiros de artilheria dirigidos sobre a minha columna em marcha annunciárão a sua intenção de esperar o combate: porém a columna continuando a avançar com passo accelerado, e coberta nos seus flancos por alguns atiradores, o inimigo começou logo a sua retirada, que eu persegui atravez da Villa de Setubal até á Quinta Esteval sobre a estrada de Azeitão, fazendo-lhe hum numero considerabilíssimo de prizioneiros, tanto Oficiaes como Soldados, e recebendo hum grande numero de Praças apresentadas. Os Castellos de S. Filippe e Torre do Outão abrírão as suas portas e arvorárão o Estandarte da Lealdade; e eu, depois de haver dado as providencias indispensaveis para a manutenção da ordem na Villa, vim pernoitar com a Divisão junto da Quinta do Esteval sobre a estrada d'Azeitão, em quanto huma companhia de Infanteria era destacada pela estrada de Palmélla, devendo na manhã seguinte reunir-se em Azeitão á sua respectiva Brigada.

Quinta do Esteval, entre Setúbal e Palmela.

Neste meio tempo as notícias da minha entrada em Alcacer, da derrota da força do Commando do Brigadeiro Freitas em frente de Setubal, erão pelos fugitivos levadas á Capital; e o Duque do Cadaval fazia apressadamente passar a Almada huma parte da Guarnição de Lisboa, comprehendidos nella 3 Esquadrões de Cavallaria, e confiava o Commando desta força ao General Telles Jordão, predestinado a encontrar alli a morte, depois de testemunhar a derrota e completa debandada dos seus soldados.

As 3 leguas de areal, que separão Azeitão do Lugar d'Amora, forão transitadas pela Divisão na manhã de 23, sem dívizar posto algum do inimigo, e apenas naquelle ponto da estrada apparecêrão as suas avançadas de Cavallaria, as quaes logo que presentirão a nossa presença se retirárão, e pelos paizanos, que vierão da frente, soube que a primeira posição occupada pelo inimigo era a das colinas, que dominão a baixa de Corroios do lado d'Almada.

Alli tinha o inimigo estabelecido huma linha d'Atiradores; e tendo eu estendido alguns Caçadores sobre as flancos da columna, continuei a minha marcha, retirando-se os Atiradores inimigos de altura em altura até penetrar na estrada escavada, que por entre as barreiras do Alfeite desemboca no Valle da Piedade.
Cova da Piedade (c. 1900)

Este Valle, prolongamento da enseiada do Téjo por traz de Cacilhas limita ao Sul as alturas de Almada, e oferece hum pequeno Campo plano, onde vem desembocar de hum lado a estrada, que eu seguia, e do outro as estradas do Pragal na esquerda, de Almada no centro, e de Cacilhas por Mutella na direita.

He ali que o inimigo, conhecendo que me era superior em Cavallaria, pertendia attrahir a minha Columna para tirar partido daquella arma, manobra esta que eu tinha previsto pelo conhecimento prévio do terreno, confirmando-me nesta idéa a fraqueza da resistencia opposta até alli, á minha marcha. Com efeito apenas os meus flanqueadores estendidos no Valle tinhão desalojado os do inimigo, e a testa de Columna desembocava no mesmo Valle pela estrada do Alfeite, dous Esquadrões de Cavallaria lançados da estrada de Cacilhas carregárão com todo o impeto de quem conta com huma Victoria certa; porém os meus Atiradores reunindo á Columna com o maior sangue frio e presteza, e os Batalhões de Caçadores Numeros 2 e 3 do Commando do Coronel Romão e Major Vasconcellos, ambos á voz do Brigadeiro Schwalback repellírão este ataque com tal denodo e acerto que a Cavallaria inimiga, sofrendo huma grande perda, fugio em completa debandada cobrindo-se contra o meu fogo com os armazens da Cova da Piedade.

Mallograda assim a esperança do inimigo, tudo indicou que ele só cogitava de retirada; e por isso deixando o Regimento 6.° de Infanteria cobrindo as estradas do Pragal e Almada, que o inimigo tinha cortado, prosegui com o resto da força direito a Cacilhas para cortar ao inimigo a retirada, occupando todas as avenidas, que descem de Almada, com Companhias destacadas do 3.° Regimento de Infanteria.

Na entrada do Lugar de Mutella, enfiando hum dos ramaes da estrada, tinha o inimigo colocado 2 peças de campanha; mas a Columna, desprezando o seu fogo, correo sobre ellas á baioneta, e as peças forão tomadas. Progredi então sem obstaculo até ao Caes de Cacilhas, onde a minha testa de Columna penetrou com a ultima luz da tarde.

Cacilhas (c. 1900)

He impossivel descrever o espectaculo que apresentava aquelle Lugar: Infanteria, Cavallaria, Artilheria, Bagagens, Generaes, Officiaes e Soldados, se precipitavão confusamente nos barcos proximos ao Caes, confusão que augmentada ainda pela escuridade da noite, apresentava à imagem de hum verdadeiso cahos; mas honra seja dada aos generosos triumphadores da usurpação, a baioneta do Soldado que provocara e debellara o inimigo na carga embotou-se para o inimigo vencido; as nossas espadas entrárão nas bainhas, e os vencidos confundidos com os vencedores parecião meia hora depois irmãos de ha muito reconciliados.

Como porém existisse ainda huma força na Villa e Castello d'Almada, fiz contramarchar a Columna; e deixando sobre o Cáes de Cacilhas a conveniente Guarda, avancei pela calçada de Almada até a entrada daquella Villa, e caminho que conduz ao Castello; mas como fosse completamente noite, a victoria estivesse decidida, e eu quizesse poupar o sangue dos meus Soldados, o dos desgraçados vencidos, e as desordens inseparaveis da entrada violenta de huma Povoação, especialmente de noite, o Brigadeiro Schwalback, que Commandava a testa de Columna, mandou o seu Ajudante de Campo, o Alferes Jorge, como Parlamentario, intimar á pequena força que existia em Almada, que depozesse as armas; mas causa-me horror dize-lo, o Parlamentario, a despeito de todas as Leis da guerra, foi accomettido pelos Cavalleiros rebeldes, e recolheo a Columna ferido mortalmente.

Permaneci nas posições, que occupava, até á primeira luz do dia 24, no qual progredi sobre Almada, donde a pequena força inimiga se tinha dissipado, e apresentado em parte, e cujo Castello se rendeo á primeira intimação, ficando a sua guarnição prisioneira de guerra, e depondo as armas na Esplanada.

Alli recebi a notícia de que o Duque do Cadaval e toda a Guarnição de Lisboa, tinhão evacuado a Cidade, a qual livre do jugo que a opprimia, tinha proclamado o Governo de Sua Magestade Fidelissina; e no momento em que a Bandeira da Rainha era inaugurada no Castello d'Almada, as Salvas d'Artilheria da margem do Norte, annunciavão que a mesma suspirada inauguração tinha lugar nos muros da Capital.

Os habitantes de Lisboa estendião os braços aos meus Soldados, eu corri a elles na tarde do mesmo dia 24, sendo-me impossivel exprimir o enthusiasmo com que forão recebidas as Tropas, e o enthusiasmo com que o Povo elevava até ao Ceo os Nomes da Rainha, da Carta, e o de Sua Magestade Imperial o Duque Regente.

Retrato de António José de Sousa Manuel de Meneses Severim de Noronha, Duque da Terceira, pelo pintor britânico John Simpson, em 1835.


Deos guarde a V. Ex.ª. Quartel General em Lisboa, 29 de Julho de 1833. = Illustrissimo e Excelentissimo Senhor Agostinho José Freire. = Duque da Terceira.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Campo da Porcalhota: Setembro e Outubro de 1790


Com vista a reunir as forças militares do governo d’armas da Corte (Lisboa) e adestrá-las, realizou-se um campo de manobras na Porcalhota (hoje, o centro da Amadora), entre 23 de setembro e 22 de outubro de 1790, comandado pelo marechal de campo (hoje, major general) conde de Oeynhausen, Karl von Oyenhausen-Gravenburg (1739-1793) [na foto em cima]

A revolução francesa ainda incipiente na sua direção alterava o equilibrio europeu e inspirava o Exército Português a preparar-se para o que aí viesse. Este campo, assim como o realizado no Campo da Real Tapada, em Alcântara, em maio do ano anterior, fez ressurgir o hábito após algumas décadas, desde o último em Olhos de Água, em 1767. O bom hábito repetir-se-á em 1798 na Azambuja, com números nunca vistos de tropas envolvidas, em 1802, na Azambuja, e em 1806, em Vila Viçosa.



Com base na publicação desta descrição nos Quadros Navais do contra almirante Celestino Soares, adaptou-se o texto à ortografia moderna onde essencial à boa leitura, assim como notas essenciais para a identificação dos intervenientes e unidades:

Campo de manobras na Porcalhota, 23 de setembro [de 1790], (copia). – «Tendo-se por ordem suprema determinado que houvesse hum novo ensaio militar no campo da Porcalhota, no qual entrassem os regimentos de cavallaria de Mecklemburgo, e Castello Branco, e os de infanteria de Lancastre, Peniche, Lippe e Cascaes, com dois destacamentos dos de artilheria da côrte, e Estremoz, para manobrarem debaixo do mando do marechal de campo conde de Oeynhausen: ante ontem pela manhã se acampou ali este corpo de exercito depois de terem os regimentos de Mecklemburgo, Lippe e Cascaes, puxados pelo dito marechal, passado pelo real palacio de Queluz para serem vistos por S[ua]. M[ajestade]. e AA[altezas]., que depois se dignaram de vir ao campo para ver ali formada esta tropa, a qual logo que as reaes pessoas se retiraram procedeu a armar barracas.

26 de setembro: Depois que no dia 23 de setembro se acampou na Porcalhota debaixo do mando do marechal de campo conde de Oeynhausen, o primeiro corpo de exercito, dividido em tres brigadas, huma composta dos regimentos de Mecklemburgo e Castello Branco, commandada pelo brigadeiro João d’Ordaz de Queiroz (que desde o dia 25 de setembro ficou subdivivida em duas, huma commandada pelo dito brigadeiro, e a outra pelo brigadeiro conde de S. Lourenço) e duas d’infanteria, a da direita composta dos regimentos de Cascaes e Peniche, commandada pelo brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha, e a da esquerda, composta dos regimentos de Lippe e Lancastre, commandada pelo brigadeiro Luiz de Miranda Henriques, com o parque d’artilheria, commandado pelo sargento mór Henrique de Chateauneuf: os primeiros dias se empregárão na limpeza e regulação do campo.  

No dia 28 se formou esta tropa em linha de parada, para esperar a chegada de S. M. e AA. depois do que fez a infanteria fogo de alegria.
  
No dia seguinte trabalhou a brigada de cavallaria, e no primeiro de outubro a segunda das d’infanteria. 

A 5 se executou a primeira manobra geral, cuja supposição era que o inimigo vinha atacar a frente do campo, depois de ter constrangido todos os pontos avançados a recuar, e que a tropa devia recobrar todos os seus postos acoçado que fosse o inimigo, julgando-se inatacaveis os flncos do campo. 

Nos dias 6 e 8 trabalharam as brigadas separadamente.  

No dia 9 houve outra manobra geral, em que se moveo o exercito por columnas para tomar huma posição parallela ao lado em que se esperava a marcha das forças inimigas. No dia 12 houve um exercicio de todo o corpo de exercito.  

A terceira manobra geral se executou no dia 16, depois de se ter o campo augmentado com os dois regimentos de cavallaria de Caes e Alcantara: suppunha-se n’esta manobra que o inimigo estava postado no terreno entre Carenque e Ponte-Pedrinha, e que o general queria d’ali lança-lo fóra para formar no mesmo sítio o seu campo. Todas estas manobras, a que S. M. e AA. assistirão, com huma grande multidão de povo, se executárão completamente, da mesma sórte que os outros exercicios; e no dia 22 se levantou o campo.  


Em quanto durou foi S. M. servida mandar, desde 25 de setembro, duas vezes por semana, dar huma ração de tres quartas de carne e huma de arroz a todos aquelles que recebião pão da real fazenda, e desde o primeiro dia pão e ração extraordinaria aos cirurgiões e ajudantes dos seis primeiros regimentos, e soldo dobrado aos alferes, tenenetes e capitães, dos mesmos.»

Fonte: Quadros Navais, pp. 93-95


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Ordem de Batalha

Comandante
Marechal de campo Conde de Oeynhausen

Brigadas de Cavalaria
(Brigadeiros João d’Ordaz de Queiroz + Conde de S. Lourenço)
- Regimento de Cavalaria de Mecklemburgo [n.º 4, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria de Castelo Branco [n.º 10, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria do Cais (Lisboa) [n.º 7, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria de Alcântara [n.º 1, pós 1806]

Brigada de Infantaria da Direita
(Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha)
- Regimento de Infantaria de Cascais [n.º 19, pós 1806]
- Regimento de Infantaria de Peniche [n.º 13, pós 1806]

Brigada de Infantaria da Esquerda
(Brigadeiro Luiz de Miranda Henriques)
- Regimento de Infantaria de Lippe (Lisboa) [n.º 1, pós 1806]
- Regimento de Infantaria de Lencastre (Lisboa) [n.º 16, pós 1806]

Para as manobras foram formados 2 batalhões de Granadeiros, tirados dos regimentos de infantaria. 

Parque de Artilharia
(Sargento Mor Henrique de Chateauneuf)
- destacamentos dos Regimentos de Artilharia da Corte [n.º 1, pós 1806] e de Estremoz [n.º 3, pós 1806], formando um corpo de 3 companhias de artilheiros, com o seguinte material: uma peça de 12, 6 de 6, e 12 de campanha de 3, 2 obuses e l morteiro.

EFETIVOS TOTAIS: 4,214


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Bibliografia

- GUIMARÃES, J. Ribeiro, Summario de varia historia: Narrativas, lendas, biographias, descripcões de templos e monumentos, estadisticas, costumes, civis, politicos e religiosos de outras eras (Volume 4), Rolland & Semiond, 1874. pp. 166- 178;

- SOARES, Contra Almirante Joaquim Pedro Celestino, Quadros Navais (VII Parte), Col. Documentos n.º 12, Ed. Ministério da Marinha, Lisboa, 1973. pp. 93-95

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Manuscripto: Goltz e a falta de Uniformidade do Exército em 1802


As ordens de 1802 do Conde de Goltz, então Marechal do Exército e Comandante em Chefe, para que cesse a falta de uniformidade militar:

Illmo. e Exmo. Snr. – O Principe Regente Nosso Senhor tendo me manifestado a mim Marechal, e General Commandante dos seus Exercitos, o seu Particular Desagrado a respeito da negligencia, irrigularidade e indecencia com que se apresentão muitos Officiaes; Foi servido ordenar-me fizesse observár maiz estrictamente huma disciplina exacta, e regular nos uniformes do seu Exercito.

Em consequencia encarrego a V. Ex.ª como Governador da Provincia de Alem-Tejo de dar immediatamente em toda a extenção do seu Governo Ordens tão positivas, como sevéras a todos os Córpos, e Regimentos de Infantaria, Cavallaria, e Artilharia, Ligião, Engenharia, e Milicias & para que todo o militar de qualquer Arma, ou Graduação que seja se vista conforme os Modéllos dos uniformes que se áchão adoptados para os seus respectivos Córpos por anteriores disposições; as quais ficão em pleno vigor athé nóva Rezolução de sua Alteza Real.

Tendo observado com verdadeiro dissabor que muitos Officiaes alterão os seus unifórmes acrescentando-lhes distinctivos arbitrários; advirto a todo o Exercito em geral, e todos os Individoos que o fórmão em particular que semelhantes irrigularidades serão punidas exemplarmente huma vêz que continuem a manifestár-se.

Os Senhores Officiaes, e Cadetes devem dár o exemplo tanto para a sobordinação, como para o asseio, e por consequência lhes ordeno de não se apartarem em couza alguma dos seus uniformes ainda mesmo em bagatellas de qual quer genero, e por mais triviaes que sejão.

Recomendo muito asseio do Soldado, obrigando a que se lave, e penteie todas as manhãas, que vista nos Domingos Camiza lavada, e que faça a barba nos dias em que entra de guarda.Todos os penteados, e módas a despeito de Cabellos tanto em topé//topetes, como em marrafas ficão prohibidos, destinando-se esta prohibição particularmente aos senhores Officiaes, e Cadetes, cujo penteado deve ser sempre Militar, e decente; e por esta razão se ordena positivamente que os senhores Officiaes, Cadetes, e Soldados átem o Cabello em distancia de dous dêdos da Núca, fazendo um rabicho da grossura de hum dêdo. Enquanto ao topete, e fáces [?] se conformarão ao uniforme prescripto nos seus Córpos, e naquelles em que este artigo não se achár ainda regulado me darão parte immediatamente os seus Chefes ou Commandantes respectivos.

O Soldado trará o pescocinho uniforme, atado convenientemente, e sem augmentar-lhe o volume.

Aos chefes e officiaes pertence vigiar que os seus soldados se apresentem em todo o tempo, e lugares vestidos da maneira mais propria e decente.
As gravatas, e lenços tufádo, ou de almofáda, ficão prohinidos aos senhores Officiaes, e Cadetes.
Os Distinctivos bizarros de que muitos Cadetes uzão, não dévem ser tolerados devendo trazer o uniforme exacto dos seus Córpos, ou Regimentos, sendo-lhes tão somente permetido usár pano mais fino.
Os Chefes, Coroneis, e Officiaes Superiores dos Córpos, e Regimentos darão a ésta Ordem huma execução prompta, e inteira, punindo com a prizão aquelles que a élla não se sujeitárem.V. Ex.ª tomará as medidas mais eficazes [?] para que a vontade de sua Alteza real seja sem demóra, e pontualmente estebelecida e executáda como aqui se determina.
D. Guarde a V. Ex.ª m. ann. Quartel General de Buenos Ayres, 20 de Março de 1802.Sr. Fernando da Costa de Ataide Teive

P.S.Como todos os Corpos, e Regimentos dévem conformar-se segundo a presente Ordem, estreitamente ao que se determinou, e regulou anteriormente deve entender-se que aquelles que tem Cabellos Cortados // os conservarão da mesma maneira, observando huma exacta uniformidade nelles. Os Chefes, os Coroneis, e os Commandantes dos Córpos, ou Regimentos, me representarão todo e qualq quer inovamento que quiserem fazer a este respeito nos seus respectivos Córpos, ou regimentos, e não o poderão fasendo algum pôr em execução sem previamente receberem huma Ordem por escrito.

Deos Guarde a V. Ex.ª Quartel General de Buenos Ayres em 20 de Março de 1802. = Conde de Goltz

António Xavier Pereira de Silva, Oficial da Secretaria

Fonte:
- Arquivo Histórico Militar, 1.ª Divisão,  13.ª Secção,  Caixa 12, n.º 3