quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Polícia: Resumo biographico do aventureiro Corte Real (1824)


A 15 de Agosto de 1824, João Cândido Baptista de Gouveia envia a Olímpio Joaquim de Oliveira, Oficial Maior da Secretaria da Polícia, algumas informações que este lhe havia pedido. 

A terceira destas é uma nota, a nº 3, contendo a história do aventureiro Corte Real e ao contrários das outras duas notas, refere quase todo o percurso de vida deste vigarista profissional, “cavalheiro d'indústria”, como lhe chama eufemisticamente, entre Portugal, França e Brasil, cobrindo-a pelo menos desde a Guerra Peninsular e com mais detalhe a partir de início de 1814, e pelos dez anos seguintes.

O estilo picaresco, já antigo na história da literatura europeia, é dominante nesta nota policial e faz elevar o texto a um nível superior. Ainda que João Cândido se refira a Corte Real como 'famigerado heroe' ou como 'cavalheiro', nota-se a falta de qualquer elemento redentor face ao protagonista.

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«Nota n.º 3 – Resumo biographico do aventureiro Corte Real – Este celebre impostor pôde durante o periodo da campanha da Peninsula, por isso que fallava alguma cousa Inglez, introduzir-se com o Commissario em chefe do Exercito Inglez, e por actos de baixeza conseguio por fim ser empregado no departamento dos transportes, assignalando-se sempre pela sua conduta irregular, e repetidos calotes, que de vez em quando lhe attrahião seus dissabores. 


Na occasião da entrada do Exercito Alliado em França acompanhou, este então Comissario conductor de bagagem, a Divisão Ingleza que entrou no sul da França, e ali o nosso cavalheiro d'indústria quis passar por filho d'Albion, entre os seus concidadãos, e por filho de um Milord entre os credulos Francezes! Bem depressa porem foi reconhecido por hum impostor, e teve de figurar tristemente entre todo o Exercito que com desprezo o olhava, já pela sua má conducta, e já pelo despresivel ardil de que se valera para merecer alguma consideração. Alguns calotes, e ganhos feitos com ladroeiras as jogos de hasard, habilitárão o nosso heroe a dirigir-se até Paris, onde quis figurar com a mesma conhecida impostura, e conseguio passar por pessoa distincta entre alguns credulos Parisienses; por fim á sombra das introducções, e conhecimentos adquiridos, enganou uma Senhora Parisiense de alguma fortuna, e com ella pertendeo desposar-se; mas as pesquisas da Policia, onde se dirigio o offendido Pai a queixar-se do nosso cavalheiro, o obrigou a deixar aquella capital, theatro das suas falcatruas, sem dizer adeos aos amigos.

Voltando ao Exercito o despedirão por incapaz e indigno do serviço, não lhe valendo de nada a sua nimia condescendencia para com o Deputado Comissario da sua brigada, que por vezes o encarregava das suas cartas amorosas para as condescendentes Languedocianas. Este revez não esperado de huma adversa fortuna, põe em criticas circunstancias o cavalheiro Corte Real, e cresce o seu apuro por effeito de teimosas instancias de alguns implacaveis credores, que tendo notas promissorias e letras passadas por elle, em consequencias de dinheiro de emprestimos, pertendem o embolso e o ameação com prisão, segundo as leis de França, que são severas para os fraudulentos devedores. Não resiste o heroe a tanto afan, e para evitar questões salda as suas contas fugindo para o Porto, e em seguida para Lisboa, conservando-se e, modesto incognito até ao anno de 1817.

Salvador, 1885

Nova carreira projecta o insigne cavalheiro, e para isso atravessa o Occeano, para em climas remotos deixar renome. He a Bahia a primeira cidade brasileira que pisa, e envergando o uniforme e insignias de Major da Engenharia Ingleza, apresenta-se ao incredulo Conde de Palma, que o recebe com toda a lhaneza e affabilidade, e lhe franqueia a sua casa. Vasto tempo se oferece então ao nosso Quixote, que cheio de honras e obsequios, se vê com tudo vazio de meios pecuniários, e mui propinquo a vender a farda e dragonas que tanta ventura lhe acarretárão! Não desanima com tudo, e fertil em engenho rapinante, emprehende logo uma subscrição para illuminar a cidade como, então moderno invento, do gaz carbonico. Subscrevem os Baihanos com aquella generosidade que lhes he caracteristica, e empolga o cavalheiro avultada somma, aprazando noite para as curiosas experiencias. 
Aqui descorçoa o heroe vendo chegar a noite fatal do funesto ensaio, mas a fortuna lhe depára hum chimico Brasileiro que consegue ministrar-lhe algum gaz hydrogeneo; afouto emprehende a operação, e sem idêa ou conhecimento algum do invento; apresenta meia duzia de lanternas, perante toda a população da Bahia que sollicita esperava pela tão desejada experiencia; pega.se fogo ao gaz, mas oh desventura! No mesmo momento se apaga e avapora, obrigando a assuada e voeria dos circunstantes ao insigne heroe a avoporar-se juntamente com o seu gaz, para salvar as costellas de huma tão merecida maçada.

Recife, 1865

Corrido e amedrontado deixa este novo alfarache e Bahia, e passa a Pernambuco a tentar nova fortuna: he acolhido pelo General, e vai morar para casa do Ajudante General Telles, filho da Ilha da Madeira, homem de instrução e de bom caracter. Aqui se preparávão grandes infortunios para o nosso aventureiro. A farda Ingleza que tão proveitosa lhe foi nos olhos do Consul Britannico, que dabalde procura no Almanack militar o nome do cavalheiro Corte Real: julga a proposito mandalo chamar, e lhe declara que por attenção ao seu protector Telles he que não procidia a mandar-lhe dar uma surra, mas que tomasse cautela, que logo que tornasse a vestir hum uniforme que lhe não competia, e reclamava ao Governo para ser punido com todo o rigor! A estas expressivas palavras perdeu o accordo o famigerado heroe, e correu a acoitar-se na casa do seu patrono, a quem por muito tempo occultou o sucesso. Condoido o honrado Telles de ver sem emprego a este sevandeja, lhe propõe ser empregado no quartel General, e pressupondo-o entendido na sua arte consegue fazelo encarregar de traçar o acampamento nos campos de Iguaraçu, por occasião dos suspeitos movimentos militares naquella capitania. He então que de todo se desmascara este heroe, e mostra a sua ignorancia até dos rudimentos mathematicos, attrahindo o justo desprezo e rizo de todos os Pernambucanos. A tudo porem resiste esta cara de estanho, e tranquillo passa seus dias até que nova castastrofe dá a conhece-lo de todo. Hum dia em que Telles sahio de serviço montado em hum fogoso cavallo, toma este a freio nos dentes, e o leva de encontro a hum muro, onde bate com a cabeça de seu dono, aponto que he levado sem sentidos para casa do General por ser a mais proxima, julgando todos que Telles estava morto: aos ouvidos de Corte Real chega a noticia do sucesso, e eis que incontinente marcha para casa, e trata de empalmar o dinheiro e trastes de valor que encontra. Recobra Telles os sentidos, por effeito da operação de trepano, faz testamento e aponta os diversos legados, que procurados em seguida não apparecem, nem tão pouco o dinheiro nem cousas de valor. Buasca-se o heroe mas este já estava a salvo levando comsigo a publia execração de todos os Pernambucanos.


Depois deste roubo infame apportou no Rio o insigne Corte Real, dando-se por medico afamado e tomando o nome Albuquerque: ali continuou a omesmo trilho e soube ganhar affecto de huma Senhora rica, que o recomendou ao Ministro Villa Nova Portugal. Conseguio este biltre obter logo emprego de Major do estado maior, e como fallava Inglez foi empregado em huma legação diplomatica!! Os acontecimentos politicos que obrigarão Sua Majestade a voltar a Portugal, accaretárão igualmente muitos parasytas para a Europa, veio entre elles o nosso famigerado heroe, que á sua chegada quis distinguir-se constituindo-se orador dos caffés a favor do systema existente. Requereu ser empregado diplomaticamente, mas o conhecimento da sua vida escandalosa que todos publicavão o affastou dos empregos. Tornou-se então inimigo daquelle systema, e appareceu constantemente na companhia do Alferes Bellem, e de hum certo Lage, até que pôde evadir-se, porque quizerão dar-lhe consideração fasendo-o procurar.

Desde que sua Majestade foi restituido aos seus inauferiveis direitos, appareceo Corte Real constantemente com os Corvos [José de Andrade Corvo & Francisco de Andrade Corvo, oficiais de cavalaria], e Sá [João de Sá Pereira Soares; os tês associados como agentes de Beresford, e denunciantes supostos da conspiração de Gomes Freire], dignos emulos de tão conspicuo heroe, e ainda hoje os visita a miudo; tem huma pensão do estado, e grandes esperanças de ser empregado diplomaticamente, por isso que se diz valido do Excelentissimo Marquez de Palmella. He provavel que o obtenha, no momento em que o merito e bom comportamento nada conseguem! Está actualmente vivendo em huma Hospedaria com o celebre Coronel Canavarro.»

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Fonte
João Cândido Baptista de Gouveia, Polícia Secreta dos Últimos Tempos do Senhor Dom João VI e sua Continuação até Dezembro de 1826, Lisboa: Imp. Candido Augusto Silva Carvalho, 1835. pp. 98-102.

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