sábado, 16 de março de 2024

Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808

 


DOCUMENTO 44

I-29, 16, 45

CAMPOS, José de Abreu. Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808. [S.l.], [s.d.]. 54 p.

Cóp. Ms.

Cat. Linhares n.º 171.

Coleção Linhares.

 Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: Seção de Manuscritos

 

Memória de tudo o que se passou enquanto no tempo em que servi de Juiz do Povo em 1808.

Em o dia 24 de fevereiro de 1808, estando na Praça do Comércio do meio dia para a uma hora, chegou-se a mim Francisco de Mendonça Arrais [d]e Mello [Procurador da cidade], que serve de escrivão da Câmara e disse-me agora acabo de passar as ordens necessárias para fosse tomar parte do lugar de Juiz do Povo, em consequência da moléstia do atual, e estimo encontrá-lo para lho intimar; propus-lhe todos os inconvenientes que tinha para não servir semelhante lugar, respondeu-me que a lei me obrigava, e que por força o havia de ser, pois assim o determinava o General em Chefe: Chegando a casa achei a cópia do aviso que consta do documento n.º 1, e carta de ofício n.º 2.

Em o dia 25 pelas nove horas da manhã apareceu em minha casa o Escrivão do Povo Alexandre António Duarte, com o contínuo da Casa dos Vinte e Quatro Felisberto Manuel Rodrigues, e com um grande maço de papéis fechados, e uma carta do Juiz do Povo Manuel António de Figueiredo, o que consta do documento n.º 1, e depois de eu ler a dita carta, disse-me o escrivão que, de ordem do seu juiz me vinha entregar aquele maço de papéis, ao que respondi não tomava conta deles porque andava em diligência de me dispensarem do lugar, e com esta resposta levou o maço dos papéis, e [2] foi-se embora.

Em o dia 26 pelas duas horas recebi uma Portaria do Senado na qual me determinava que no dia 27 fosse a Casa dos Vinte e Quatro tomar posse dos papéis e vara como do documento n.º 4, vendo isto passei a casa do conde de Novion [João Victor, comandante da guarda real de polícia] e pedi-lhe me fizesse obséquio de falar ao general para me dispensar do lugar para que tinha sido nomeado respondeu-me que isso não fazia ele porque acabava de informar as minhas boas qualidades ao general Junot; e passou este mau homem a dizer-me que eu passava a ser Juiz do Povo debaixo de um governo de energia, e capaz, e que não era o governo podre que tinha acabado, não foi preciso mais nada para eu me retirar, e nunca mais procurá-lo, lembrado da ingratidão que ele praticava contra quem o tinha feito gente.

Em o dia 27 pela manhã no Senado disseram-me que o tribunal mandava deitar as armas reais abaixo, em consequência da ordem do General em Chefe, respondi que enquanto não tivesse uma muito positiva para isso certamente o não faria, esta resposta foi dada diante do escrivão da Câmara, oficial maior, e alguns dos procuradores dos mesteres; passado poucas horas recebi uma carta do oficial maior dizendo que o senhor Guião decidia que deitasse as armas abaixo da minha vara, como se vê [3] do documento n.º 5; isto a tempo que eu estava para ir a Casa dos Vinte e quatro tomar a posse, fui primeiramente a casa de Francisco António Herman, e falando-lhe disse que eu era o novo Juiz do Povo que ia tomar posse do lugar em consequência do aviso expedido por ele, de ordem do General em Chefe, e como S. Ex.ª tinha determinado deitar abaixo as armas da nação, e estas condecoravam a Insígnia do meu lugar, e no outro dia me devia apresentar ao General em Chefe, que me determinasse como devia ir, e fazendo uma pequena pausa respondeu-me que usasse da minha insígnia como estava em todas as funções do meu ministério, mas quando fosse ao general Junot que não levasse vara, e que ele daria parte do motivo por que eu a não levava, retirando-me fui para a Casa dos Vinte e Quatro e aí achei todos menos o juiz dispensado, e me foi apresentado o dito maço de papeis, a vara, e uma carta de oficio à Casa dos Vinte e Quatro como do documento n.º 6, e abrindo o dito maço de papeis achei a portaria n.º 7 e os mapas n.º 8 e n.º 9, e feito o auto de posse, todos igualmente deram provas de satisfação que tinham de eu tomar aquele lugar, e a mim tão pouca me acompanhava.

No dia 28 pelas nove horas fui a casa do general Junot com o meu escrivão mas sem vara na forma de insinuação, e dando parte quem [4] era veio logo o dito General e depois de nos cumprimentarmos disse ele que se tinha deliberado a confirmar a nomeação que o Senado tinha feito pelas boas informações q de mim tinha, e do muito que me amava o Povo, isto talvez para me por a sua fação, eu, lançando mão de tantos obséquios, disse-lhe que as circunstâncias do Povo eram as mais tristes que se podiam imaginar, pois estavam sem meios alguns de subsistir e se S. Ex.ª me dava licença eu tinha que por na sua presença uma representação a respeito da contribuição, para o que esperava que S. Ex.ª me nomeasse dia, e hora para lha entregar, e Casa dos Vinte e Quatro me acompanharia a esse fim, determinou o dia três de Março disse-lhe que S. Ex,ª não devia reparar o eu ir sem a insígnia do meu lugar, porque em consequência das ordens que tinha havido para retirarem as armas da nação, e a minha insígnia as tinha, havia recorrido ao senhor Herman para me dar as instruções necessárias a este fim, ele o tinha assim determinado, e que daria parte a S. Ex.ª, respondeu-me que se deliberaria o que havia de ser. Dali passei a casa do conselheiro Guião [João José de Faria da Costa Abreu Guião?], intitulado vice-presidente do Senado, a dar-lhe parte do que tinha passado contra a Ordem que tinha recebido do oficial maior da secretaria do Senado sobre mandar-me deitar as armas abaixo, respondeu-me esta bem, disse-lhe [5] que o general me tinha tratado muito bem, e em consequência eu tinha aproveitado a ocasião, e contei-lhe tudo o que tinha passado a respeito da representação, ao que me respondeu está bem. Dali fui a casa de Pedro de Mello Breyner o qual não achei em casa. Dirigi-me a casa do conde de Sampaio, a quem falei e me expressou os sentimentos de humiliação, que todos deveríamos ter, até que a providência se lembrasse de nós. Fui a casa do principal Castro com quem estive, e me recomendou muito sossego e moderação pois as circunstâncias assim o exigiam. Eu que chego a casa desta digressão imediatamente recebo a carta de Guião, como do Documento n.º 10.

Em o dia 3 de março pelas dez horas da manhã ajuntei-me com os deputados da Casa e fomos ao general Junot. Este nos veio falar, e eu lhe entreguei a representação n.º 11 na presença de toda a casa, respondeu-me que a entrada de um exército, e a sua sustentação, era muito dispendiosa, que ele já tinha feito os seus ofícios para o imperador, e à vista daquela representação novamente o tornava a fazer, e que ele esperava que S. M. I. e R. a modificasse em parte, que no todo não podia ser, e disse mais que ele se achava muito agradecido ao Povo pelo sossego que tinha tido no Carnaval, e terem obedecido ao seu Edital, e nos acompanhou até a porta. Persuadiu-se este homem que era obediência aos [6] editais o sossego do povo, quando isto nascia da desgraça em que todos se achavam em uma escravidão, e ausentes do seu soberano.

No dia 4 fui ao Senado apresentar-me, e levar uma cópia da representação que tinha entregado a Junot como do n.º 11, e ali fui repreendido pelo conselheiro Guião no mesmo tribunal por ter dado ao general a representação fazendo tudo contra a carta que ele me tinha mandado, que eu tinha sido muito altanado quando tinha estado da outra vez no lugar por culpa do príncipe, isto era rancor antigo que este homem me tinha porque em primeiro lugar não há assento na Casa dos Vinte e Quatro que obrigue o Juiz do Povo a dar parte no Senado dos requerimentos, ou representações, que dirija ao trono em benefício público, e muitas vezes pelas torturas que o mesmo Senado faz ao povo, como seria possível chegar a verdade a presença do soberano, se se consentisse semelhante freio, mas o rancor deste tribunal contra mim vem do príncipe me encarregar do arranjo que eu fiz para a sustentação da Guarda Real da Policia, e outras coisas mais, e depois de eu responder aos insultos que me disse, entreguei a representação n.º 12 para me saber entender com a portaria porque a achei bastantemente confusa, e disse-me que me mandariam a resposta. [7]

Em o dia 5 recebi a carta de ofício n.º 13, e fiquei mais descansado para não viver entalado.

Em o dia 9 recebi a carta de ofício n.º 14 para a coleta dos ofícios que se lembraram não vinham no mapa.

No dia 10 principiou-se a contribuição na sala da espera da Casa dos Vinte e Quatro, com sentinelas francesas à porta para haver sossego, eu tive a honra de que o meu assento e do meu escrivão, publicamente fosse por baixo do retrato de S. A. R. e seus augustos antecessores os quadros que ornavam a sala, e os reposteiros das portas tiveram sempre as armas reais.

Em o dia 14 fiz o ofício para ver se modificava a contribuição dos ofícios como do n.º 15, respondeu-se-me como do ofício n.º 16, e em consequência tornei a mandar chamar os juízes dos ofícios, e mandei fazer novas derramas, excluindo alguns das relações, e que

Modificassem no todo e com efeito no todo dos ofícios se fez o abatimento demais de sete contos de reis.

Em o dia 26 recebi participação como do n.º 17.

Em o dia 2 de abril cheio de compunção de tanta desgraça que via sem poder remediar porque do Senado vinha uma relação de cada bairro, ruas, e o número [8] da porta, o nome do indivíduo, para eu coletar na forma das instruções, fiz o ofício a favor das mulheres da Ribeira, e lugares do sal, veio a portaria como se desejava, e se vê do n.º 18.

Em o dia 4 recebo a copia do aviso do General em Chefe, como do n.º 19, e a Portaria do Senado n.º 20 a obrigar-me a fazer o que aminha vontade não pedia, e alem disto continuamente estava a receber recados a apressar-me com a contribuição pois era preciso que entrasse dinheiro no cofre: estes recados trazia o procurador dos místeres, Francisco Monteiro Pinto, que era o que vinha da parte do tribunal tomar sentido no que se fazia e apreçar, disto eram testemunhas o meu escrivão, os escriturários João Baptista Abondano, José Pedro Azedo, Joaquim José Pereira Pitta, Manoel Lázaro Tavares, Luiz Inácio, e o contínuo Felisberto Manuel Rodrigues, trabalhando todos os dias desde as nove horas da manhã, até as dez, e onze da noite e isto por uns poucos de meses.

Em o dia 27 recebi a ordem para remeter a relação do que eu tinha coletado aos ofícios, o que fiz como se vê do n.º 21.

Em o dia 28 remeti para o Senado a relação n.º 22.

 

Em o dia 30 mandou-me chamar [9] por um oficial militar Pedro Lagarde para me achar as dez horas nas casas da Intendência, o que fiz pela primeira vez, e aparecendo o língua Jorge Escarniche [Scarnichia?] disse-me que o senhor Intendente se admirava de eu o não ter ido procurar, respondi-lhe que as obrigações a que me achava ligado a respeito da contribuição de guerra me não dava lugar para poder cumprimentar pessoa alguma, e disse-me que queria lhe desse uma relação de todos os acontecimentos da cidade por semana, respondi-lhe que o lugar que eu ocupava não tinha a meu cargo semelhante obrigação mas só sim representar as necessidades públicas, disse-me que queria fosse falar com ele todos os domingos que era dia em que não havia contribuição para o informar de tudo que o povo necessitava, respondi-lhe que era preciso abrir as obras públicas a fim de dar de comer aos desgraçados, pois não tinham meios, nem com que matar a fome, que os acometia, respondeu-me por agora não se pode cuidar nisso, a seu tempo, e retirei-me.

 

Em o 8 de Maio fui a casa do Intendente na forma da ordem, e vindo com o dito língua perguntou-me que havia de novo, disse-lhe que muita falta de pão, e que me constava morria gente de fome, respondeu-me que todas as providências estavam dadas para haver abundância, e perguntou-me novamente se o povo tinha entregado todas as armas que ele tinha mandado entregar, respondi-lhe que tudo estava entregue, que o povo português era um povo muito obediente a qualquer ordem, e que podia estar seguro que o povo tinha entregado todas as suas armas, e com isto ficou muito satisfeito, e dizendo-me que me era muito afeto, e que esperava eu não faltasse ali todos os domingos como me tinha dito, e disse mais que lhe constava eu trazia ainda as armas reais na minha vara e que logo devia tirá-las, respondi-lhe com o que tinha passado com o Herman em 27 de Fevereiro e como isto era um engano em que eles estavam porque aquelas armas eram da nação, disse-me que como a casa real usava delas deveriam logo ser tiradas e que deveria ser suprida pela águia, disse-lhe que me parecia impróprio, porque todas as nações tinham o seu distintivo, que estava persuadido que a Itália sendo governada pelo imperador teria diverso estandarte, respondeu-me que não deviam existir, propus-lhe que como o governo determinava que não deviam existir estas armas, então que tínhamos outras de que usar, e sempre ficava distinguindo-se a nação, disse-me qual era, respondi-lhe as armas da cidade, perguntou-me como eram, disse-lhe que era um navio, determinou-me que as pusesse logo, que ele o mandava, respondi-lhe que tudo tinha formalidade; e todo o meu trabalho era não pôr a Águia, e embaraçar este passo.

 

Em o dia 16 recebi um aviso do Senado para me achar no dia 17 do meio-dia para a meia hora no tribunal de capa e volta (p11), e o meu escrivão para acompanhar a presença do general como se vê do Documento n.º 23.

 

Em o dia 17 fui para o Senado com o meu escrivão na conformidade do aviso recebido, donde achei quase todos os membros daquele tribunal, e logo que deu uma hora mandaram-se chegar as seges, e todas seguidas fomos para o quartel general e entrando nas salas era uma multidão de gente de todas as classes, e estados, que não se podiam conhecer, depois disto apareceu Pedro de Mello Breyner, que nesta ocasião fez de mestre de cerimónias, e chegou aporta que dividia a sala grande, da sala de entrada e chamou pelo Senado da Câmara o fez entrar para a sala grande, e logo apareceu o general Junot precedido de todos os conselheiros do governo tanto franceses, como portugueses, e logo se chegou o principal Deão e leu a sua oração, e acabada, seguiu-se o conde da Ega, depois continuou o conselheiro João José de Faria das Costa Abreu Guião, e seguiu-se o Chanceler Mor do Reino Manuel Nicolau Esteves Negrão, acabado levantou a voz o general Junot e fez a sua oração em francês, finalizada principiou [12] por entre todos a conversar com algumas pessoas, e com isto se concluiu este grande cortejo.

 

Em o dia 21 recebi do conselheiro João José de Faria das Costa Abreu Guião, um aviso para eu me achar na Junta dos Três Estados, e o meu escrivão, e lá me comunicaria o que tinha de ordem superior a dizer-me, como se vê do documento n.º 24.

 

Em o dia 22 pelas sete horas da manhã recebi hum recado do desembargador Francisco Duarte Coelho, que tinha negócio de muita ponderação que tratar comigo, e que quando eu fosse para a missa passasse por sua casa, às dez horas quando saí fui por lá mandou-me dizer que estava à missa que esperasse um bocado, respondi que eu também ia à missa que à vinda falaríamos o que fiz, e mandando-me entrar para a sua livraria estava com ele Timóteo Verdier [Timóteo Lecussan Verdier], e logo se ajuntaram o desembargador Filipe Ferreira de Araújo e Castro, e um bacharel chamado Fulano Moira (p12), e principiaram a dizer-me que na minha mão estava a felicidade da nação, que esta tinha perdido a ocasião de melhorar no tempo da aclamação do senhor rei D. João Quarto, e como agora se oferecia esta ocasião era preciso aproveitá-la, para o que eles tinham arranjado um papel para me servir de guia a eu felicitar uma nação por quem eu representava, para o que eles me mandariam uma cópia em limpo, e então soube que no outro dia era eu chamado para dar o meu voto sobre o pedir um novo rei, e que de tarde mo mandariam, fiquei imediatamente perturbado, e vindo procurar o meu letrado não achei em casa, de tarde mandou-me chamar a sua casa Timóteo Verdier, o que fiz e achei lá o dito desembargador Filipe Ferreira, e mais um Macedinho, filho de Agostinho José de Macedo, Professor de Filosofia, que me dizem foi secretário da legação de D. Lourenço de Lima, na embaixada de França e me disseram que não tinham tido tempo de ter posto o papel a limpo o que fariam, e a toda a hora que estivesse pronto mo trariam a minha casa, e retirei-me desconfiado disto, neste mesmo dia pela meia noite apareceu-me em minha casa o dito desembargador Filipe, e mais o tal Macedinho com três papéis dois em português, e um em francês, e me disseram era igual aos dois, e me pediam muito que olhasse que deles provinha a felicidade da nação, e se retirarão, sendo o da cópia n.º 25.

 

Em o dia 23 pelas onze horas na conformidade do aviso recebido fomos para a Junta dos Três Estados e ao entrar da porta do tribunal disse-me o conselheiro Guião que não entrasse com a vara que a deixasse ficar de fora [14] (Persuado-me que foi por terem ainda as armas reais, porque nos dias seguintes em que foram os ministros, e procurador da cidade entraram com elas e não se lhe disse nada) e entrando achei na mesa na parte esquerda o conde de Ega, o conde de Almada, o conde de Castro Marim filho, o conde de Peniche, D. Francisco Xavier de Noronha, o desembargador do Paço José António Pereira Leite, e pela parte direita o principal Miranda, o principal Noronha, o chanceler da Relação Lucas de Seabra da Silva, o conselheiro vice presidente do Senado João José de Faria da Costa Abreu Guião, o conselheiro do mesmo tribunal Luís Coelho Ferreira do Vale, o juiz do povo José de Abreu Campos, e o seu escrivão Alexandre António Duarte, e no topo da mesa Isidoro José Botto Moniz da Silva, que servia de secretário da mesma, e logo principiou o conde da Ega dizendo que tínhamos sido ali chamados para assinar o voto geral da nação em consequência da graça que nos queria fazer S. M. I. e R. de ouvir os nossos desejos, e sentimentos, e lendo a carta que diziam tinha mandado a deputação, e rompendo imediatamente com a sua oração, e voto que em suma dizia que as nossas circunstâncias exigiam um soberano e que desejavam fosse imediatamente S. M. I. e R. [15] dando-nos a sorte de Itália, e quando as nossas circunstâncias geográficas o não permitissem nos desse um príncipe de suas escolha que nos conservasse nossas leis, nossos privilégios, nossa religião. & e perguntando o dito conde pelas suas graduações todos responderam conforme entenderam e perguntando o dito conde o meu parecer, imediatamente disse o conselheiro Guião está conforme, ao que respondi que tinha de propor, e disse senhores que poderei eu dizer sendo um homem leigo e falto de todos os conhecimentos perante uma assembleia tão respeitável, e tão iluminada como são V. Ex.as e Senhorias, e muito menos não vindo eu preparado para este fim, porém direi que eu não tomo sobre mim o peso de decidir pelo meu voto a sorte de uma nação inteira para o futuro sem que primeiro esta seja ouvida nas pessoas de seus procuradores que são os deputados da Casa dos Vinte e quatro e sendo-lhe este negócio comunicado, e ouvindo os seus pareceres, a isto respondeu o conselheiro Guião que o negócio de que se tratava não devia ser comunicado, mas sim ali decidido, ao que respondi se a causa é geral parece que todos devem ser ouvidos, e se é particular então seja decidida por V. Ex.as, e Senhorias como bem lhe parecer, mas se o meu voto seja necessário para solenizar esta ação torno a dizer que não decido sem que primeiro seja ouvida a Casa dos Vinte e Quatro [16] nas pessoas dos seus vogais, e não ser preciso o meu voto então nada tenho a dizer, disse o conde de Ega que o voto geral da nação era aquele que se acabava de publicar, a isto respondi como pode isso ser se ontem à meia noite foram a minha casa diversas pessoas, e me entregaram estes papéis, e puxando por eles peguei em o que era na língua portuguesa, disse-me o conselheiro Guião que lho desse para ele ler, ao que eu respondi que também o sabia ler, era o papel n.º 25 que lancei mão dele para mostrar que aquele não era, nem podia ser o voto geral da nação porque este papel é em tudo diferente do que V. Ex.ª diz é o voto geral da nação, e demais eu não adoto a maior parte do que ele contém, porque os meus sentimentos são muito diferentes, e da maior parte da nação, principalmente do povo de que eu sou juiz cujos sentimentos não são outros que não sejam ver aqui o seu antigo soberano, disseram alguns da mesa que tinham tido daqueles papéis em carta fechada, e disse mais o dito conde que aquele papel não admitia votos separados somente se devia assinar e demais que eu estava vencido em votos e que um voto só nada valia uma vez que todos estavam conformes (tal era o terror que ele tinha infundido no coração de todos) a isto respondi que queria que o meu voto fosse [17] separado, ainda que fosse um despropósito à vista do que tão sabiamente estava decidido, e sem mais nada assentaram de quem se havia encarregar da fatura do Voto geral ficando os quatro que tinham levado as suas orações em o dia 17 de Maio no cumprimento dos Tribunais, e Grande do Reino, que foi o Conde da Ega, o Chanceler Mor do Reino, o Vice Presidente do Senado o Conselheiro Guião, e ajuntaram-se em casa do Principal Miranda para todos quatro concordarem sobre algumas pequenas dúvidas que alguns deles tiveram, e ficámos avisados para no dia 25 pelas onze horas ali nos acharmos para se aprovar, e assinar, e depois pediu-me o Conde da Ega se confiava dele aquele Papel que me tinham entregado em (um?) Francês, dei-lho imediatamente nos retirámos todos, dali daí para casa do meu Letrado a dar-lhe parte do que me tinha sucedido, e pedindo-lhe me fizesse um Voto para eu apresentar na Junta no dia para que ficámos avisados debaixo de todos os sentimentos de fidelidade, na tarde mandou-me chamar o desembargador Francisco Duarte Coelho que quando saísse fosse por sua casa o que fiz e achei todos os do dia antecedente e disseram-me tudo quanto se tinha passado dizendo-me que tinha-me portado como homem de bem opondo-me às proposições do Conde da Ega, perguntei quem o tinha feito ciente de tanta coisa, disse o desembargador Felipe Ferreira que tinha sido o [18] conde de Peniche com quem tinha estado, e principiaram-me a persuadir que não perdesse de vista as instruções que ele me tinha levado pois dela se cogitava a felicidade da Nação, e saindo todos perguntaram para onde ia respondi para a Casa do Vinte e quatro, para a Contribuição disseram-me que fosse com eles por casa de Carrion de Nizas que me queria falar disseram-me que ele estava a dormir e nisto levaram até à noite, e por fim apareceu o dito Nizar e principiaram a falar em francês de que eu nada entendi e por fim conheci que eles pretendiam entreter-me para não falar com pessoa alguma porque por várias vezes me perguntaram se tinha falado ao meu letrado, a que sempre lhe respondi que não, porque eu não o queria comprometer, e outra porque não queria que eles conhecessem os meus sentimentos por isso lho neguei e a finado/final retirei-me eles ainda ficaram: pela meia hora depois da meia noite recebi um aviso do conselheiro Guião como se vê do n.º 26 em contrário ao que se tinha determinado dizendo que no dia 24 nos devíamos ajuntar para acelerar os votos e subirem à presença de S. M. I. e R., não pude sossegar um instante porque tudo o que tinha tratado com o meu letrado de me fazer o voto no outro dia estava transtornado por ser aquela hora e eu não lho poder comunicar.

 

Em o dia 24 pelas cinco horas da manhã indo a sair para casa [19] do letrado ao abrir da porta vejo uma carta por baixo da porta pego nela vejo que era para mim, abro-a acho uma letra desconhecida fechada com obreia preta, continha o ameaço da minha vida caso assinasse algum papel, inquieto o meu espírito com isto parto imediatamente àquela mesma hora para casa do conselheiro Guião e mandei-lhe recado que se levantasse que me era preciso logo falar-lhe apresentei-lhe a carta e disse-lhe que eu queria imediatamente a minha demissão porque eu não tornava à Junta dos Três estados, respondeu-me que fosse que tudo se havia remediar em bem que não desse algum passo para a minha infelicidade, e que se eu queria a minha demissão que falasse ao General em Chefe e que me pedia muito não faltasse e saindo vindo eu ao pé do Colégio dos Nobres encontrei o que administra a minha fábrica Mathias dos Santos e disse-me (…) vinha em sua procura porque está lá um ajudante do general Junot em sua procura e está esperando que chegue, venho a casa intima-me uma ordem do general para às nove horas me achar no seu quartel, vesti-me e fui e mandei recado que estava ali às ordens de S. Ex.ª mandou-me dizer que esperasse e nisto tive até às onze horas quando apareceu o dito Junot, e lavando-me para a sala grande perguntou-me se eu falava francês, disse-lhe que não, e principiando a falar em português disse-me que tendo em tão bons créditos lhe parecia impossível andar associado com cabeças revolucionárias e inquietadoras [20] duvidando cumprir com o que tão justamente se fazia, respondi-lhe que S. Ex.ª estava mal informado porque eu não merecia o nome revolucionário o que muito estranhava, que o meu lugar era de representação que não era como particular, e demais eu não podia assinar contra a vontade daqueles por quem representava, mal lhe disse isto puxou pelo papel em francês que tinha pedido o Conde da Ega, e principiando a gritar e com palavras injuriosas perguntou-me quem me tinha dado aquele papel, respondi-lhe que não sabia a este tempo já eu estava desacordado disse-me ele que este papel é feito por Verdier, a que eu nada disse, e cheio de cólera novamente principiou a insultar-me e eu respondi-lhe, a isto oiço uma vez por detrás de mim, dá licença que chegue, e olhando eu para ali vi que era José de Seabra da Silva (a quem neste momento me parece devo a vida) e disse-me vossa Mercê conhece-me, respondi muito bem, e voltando-se para Junot disse este homem é de honra, e de verdade, e o que ele disser é assim, eu não o conheço, mas tenho dele boas informações e conheci a sua família, e virando para mim disse, todos nós somos portugueses, eu sou português, V. M.ce é português, e aqui o amigo também o é, a que respondeu Junot, já muito brando certamente eu já estou condecorado em Portugal, e disse-me Junot são horas de sair para a Junta dos Três Estados, vá e espero que não tenha mais dúvidas, a isto lhe [21] apresentei a carta anónima que tinha recebido, e lendo-a mais o Seabra, disse-me Junot que daquelas tinha mais de cem, e que até agora tinha a sua cabeça sã, e que não fizesse caso dela, que quando tivesse mais alguma que fizesse impressão que fosse ter com ele, que me tiraria da cabeça, e saindo fui à Casa dos Vinte e quatro vestir-me de capa, e volta (?) para ir para a junta onde achei outra carta anónima também ameaçando-me a vida: cada vez mais consternado estava o meu aflito coração, fomos para a Junta, e entrando, e deixando a vara de fora da porta disse que eu tinha sido chamado ao quartel general aonde tinha sido repreendido, e admoestado em consequência da queixa e papéis que lhe tinha entregado o senhor conde da Ega, e puxei pela carta que tinha achado na Casa dos Vinte e quatro, e apresentei-a, e vendo-a alguns disse Lucas de Seabra que aquela letra era a mesma que costumava aparecer nos pasquins e levantando-se o conde da Ega lendo o papel que traziam feito que com pouca diferença era o mesmo em que tinham assentado e perguntando a todos estes se encolheram e nada disseram, a mim não me perguntaram nada, e eu nada disse, pois não tinha o voto que tinha mandado fazer, e dizendo o Conde da Ega que era preciso pôr-se em limpo a isto se ofereceu o conselheiro Guião dizendo que se queriam que ele o escrevesse que tinha nisso muito gosto e nesta ação se ocuparam três o conde da Ega dizendo, [22] o conselheiro Guião escrevendo, e o secretário Moniz aparando penas, acabado que foi se principiou a assinar, o conde da Ega como deputado mais antigo, e fazia de presidente, o principal Miranda, o principal Noronha como deputados do clero, o conde de Almada e o conde de Castro Marim filho como deputados da mesma Junta, o conde de Peniche, e D. Francisco Xavier de Noronha como deputados da nobreza, o Chanceler Mor do Reino, e o Chanceler da Relação como representante da magistratura, o vereador conselheiro do Senado João José de Faria da Costa Abreu Guião, e o conselheiro do Senado Luiz Coelho Ferreira do Vale como vereadores do mesmo Senado, e passando para eu assinar disse que primeiro devia assinar o desembargador Leite, respondeu não assinava porque estava ali como fiscal da Junta e não como vogal, ao que respondi muito me admira que V. S. não seja vogal para assinar, quando ontem votou e o seu voto foi o mais eloquente, e moroso, e que também acaba de aprovar o que se assina e por consequência o deve assinar, porém como a justa proposição era minha todos disseram que como fiscal não devia assinar, e pegando eu na pena disse em alta voz, eu vou assinar, mas o faço obrigado, e por me dizerem estou vencido em votos, e por me não chamarem cabeça, e sócio de revolucionários e salvar o direito da minha vida e assinei, seguiu-se o meu escrivão, e também a carta de agradecimento à deputação portuguesa [23] pelos seus bons ofícios que tinham feito à nação e junto a S. M. I. e R. e disse ao conde da Ega eu tenho a honra de V. Ex.ª me conhecer há muitos anos, e sabe se eu sou capaz de me [as]sociar com cabeças revolucionárias e inquietadoras, e o conde disse que todos deveriam ir acompanhar a entrega daquele papel à casa do general e ao sair da dita Junta me entregou um correio o aviso do intendente de polícia Pedro Lagarde, como se vê no documento n.º 27, acompanhei a casa de Junot o tal congresso, e não estava em casa, ficou o conde da Ega à espera dele para lhe entregar a tal papelada e todos os mais saíram e eu fui para casa do Lagarde com o meu escrivão e aí fui perguntado pelo dito Lagarde servindo de língua Jorge Escarniche se conhecia quem me tinha entregado os papéis que tinha lido na Junta, e se conhecia a letra da carta que tu tinha dado ao general Junot, e eu tirei da algibeira a outra que tinha recebido na Casa dos Vinte e quatro, e apresentei-lhe e ele ma pediu, e depois disse-me se eu tinha algum papel na algibeira que o queria ver, e dando-lhe eu todos os papéis que tinha comigo pôs-se em exame e averiguações de letras e vendo o que eles continham tornou a dar-mos, e daí perguntou-me quais eram os sentimentos da nação respondi que se ma dava licença diria a verdade, e disse se o grande Naopleão quisesse que o seu nome ficasse eternizado nos corações dos portugueses era restituir-lhe seu antigo soberano, ao que respondeu que isso era [24] impossível e jamais se uniria o governo da América ao da Europa, respondi não é crime na nação nem em mim o termos semelhantes sentimentos, e desejos, mas sim louvável, porque tenho a certeza de que S. M. I. e R. se regozijaria em encontrar iguais sentimentos nos seus vassalos, nada mais me quis ouvir levantando-se me mandou embora, o que eu não esperava pois julgava ali ficar, e quando cheguei a casa achei o voto que eu tinha mandado fazer ao letrado como se vê da cópia n.º 28 cujo ignorava o que me tinha acontecido, pois julgava como eu lhe tinha dito que era para o dia 25, e depois lhe contei o sucedido.

 

Em o dia 26 recebi um aviso do conselheiro Guião para me achar na Junta dos Três Estados no dia 27 como se vê do n.º 29.

 

Em o dia 27 fomos para a Junta à hora determinada e entrando com a mesma cerimónia de largar a vara estavam todos os do dia antecedente menos o desembargador Leite e aí se apresentaram dois papéis iguais ao outro que se tinha assinado, dizendo-se que era um para subir à presença de S. M. I. e R. e outro para ficar na Torre do Tombo, e outro para ser remetido aos da deputação que se acham juntos so imperador, e principiando a manda-los assinar disse eu que primeiro deviam ser lidos antes que se assinassem, respondeu-me o conde da [25] Ega que logo se liam, e continuando assinar tornei a suplicar que fossem lidos, a isto disse o conde da Ega o senhor Juiz do Povo é muito zeloso e escrupuloso, e me admira tenha a lembrança de julgar que um congresso tão respeitoso fizesse um papel que não fosse igual ao outro, e demais eu acho-me autorizado para tudo isto ao que eu nada respondi e depois de todos assinarem, também assinei e o meu escrivão, e mandando-se abrir a porta do tribunal, entrou o corpo do clero o qual tinha sido chamado por aviso da secretaria para virem assinar o papel, que eles tinham feito, dizendo o conde da Ega eram os votos da nação, e principiando com a sua exortação ao estado do clero, ponderando-lhe muito as nossas circunstâncias, e depois lhe leu o tal voto e lhe disse viesse assinar, e chamando-os pelas suas graduações, e hierarquias, achava-se neste grandioso corpo, arcebispos, bispos, principais, monsenhores, cónegos da Patriarcal, cónegos da Basílica de Santa Maria, priores mores, e alguns prelados de de comunidades (?), os quais todos assinaram sem dúvida alguma, e se concluiu esta ação ficando avisados para que nos dia 28 pelas dez horas ali nos acharmos, e como achei duas cartas anónimas uma pré, outra contra o sistema francês, quando vim da Junta dos Três Estados, fui a casa do Herman para lhas entregar o que fiz e como estava Pedro de Mello Breyner presente, leu uma, e o Herman outra e disse o Herman que era impossível contentar a todos que cada um [26] desejava como bem lhe parecia, que quando ele aqui tinha estado, diversos sujeitos lhe tinham dito desejavam que viesse os franceses a Portugal, os quais talvez agora não dissessem tal porque hum tinha ido degradado para fora de Lisboa, e outro tinha a pagar uma contribuição de doze mil cruzados, o degradado soube eu que era Verdier porque havia dois dias tinha saído, o outro não soube quem era, e chegando a casa achei a carta de ofício n.º 30, e o aviso n.º 31, para eu expedir as ordens aos deputados da Casa dos Vinte e quatro na dita conformidade, o que determinei se fizesse.

Em o dia 28 fomos para a Junta mais tarde da hora determinada, e quando entrámos sem a vara já estava um grande corpo de nobreza, e logo o conde da Ega fez a sua costumada oração dedicada à nobreza, e lhe leu o voto chamado da nação e principiou a chamá-los pela ordem da corte para assinarem, compunha-se este grandioso corpo de marqueses, condes (entre estes o conde de Rio Maior pegando na pena disse em voz alta eu vejo a maior parte de nobreza assinada neste papel e o resto pronto a assinar, razão porque me vejo obrigado [a] assinar o que não devo assinar, e assinou), viscondes, barões, e o corpo dos nobres que aí se achavam que ao todo seriam setenta a oitenta pessoas, no assinar houve uma grande questão entre o visconde de Fonte Arcado, e José de Seabra [27] da Silva, sobre qual deveria assinar primeiro, cedeu José de Seabra deixando-se ficar quase para último, e concluída esta ação ficámos avisados para no dia trinta pelas dez horas ali nos acharmos.

Em o dia 30 fomos na forma determinada, e largando a vara foi logo admitido o corpo do Senado, e Casa dos Vinte e Quatro, o conde da Ega com a sua costumada exortação, e acabada que foi leu o voto e findo chamou o corpo do Senado para assinar; e depois os vogais da Casa dos Vinte e Quatro e todos assinaram, ao meio dia foram admitidos os tribunais a quem depois o conde da Ega leu uma oração e depois o dito voto e foram chamados os tribunais separados para assinarem principiando pelo Conselho de Guerra, Desembargo do Paço, Conselho Geral do Santo Ofício, Conselho da Fazenda, Conselho do Ultramar, Mesa da Consciência e Ordens, Real Junta do Comércio, Relação, Erário, Casa de Bragança, e depois de saírem os tribunais apareceu uma nova carta para a deputação mais acrescentada que a outra em agradecimento e assentaram que se devia ir entregar aquele papel todos os que tinham levado o outro (menos o desembargador Leite pois esse logo que assinou com o tribunal tinha saído) e não estando o general em casa ficaram os três deputados da Junta dos Três Estados encarregados da sua entrega e se finalizou esta desgraçada ação, do documento n.º 32 consta todo o referido passado da Junta dos [28] Três Estados, e com o intendente Lagarde.

Em o dia 4 de junho recebi a carta de ofício como do n.º 33, e a cópia do aviso n.º 34 para mandar deitar abaixo as armas da vara, e mandando convocar todos os vogais da Casa e em conferência se determinou que se observasse o determinado o que logo mandei fazer à vara que passa de um a outro juiz, e não na minha que eu tinha em casa porque aí sempre quis conservar este padrão de fidelidade deixando ficasr os reposteiros da Casa em elas, e sempre postos nos seus lugares.

Em o dia 16 de junho memorável e em que as tropas de Marengo, Jena e Austerlitz, não só tremeram, mas até largaram as armas e fugiram, por um pequeno sussurro sucedeu tão grande lavarinto, eu estava dentro da igreja, e a tempo que o principal pegava na custódia, senti um grande sussurro à porta da igreja e de repente me pareceu escurecia o ar, e lembrei-me de tremor de terra, e a tempo que me levantei e olhei para a porta vi darem muita pancada, e logo a guarda de granadeiros que estava junta à capela mor carregarem as armas, a isto me retirei para a capela do sacramento e meti-me por trás do altar na escada da tribuna até que passou aquele grande labarinto, e com grande custo lembrando-me de quem ia acompanhar me animei a sair, e na volta na rua Áurea principiou novo sussurro em que não houve maior [29] desordem.

Em o dia 26 fui adiante de Sacavém visitar Agostinho de Oliveira Guimarães, à sua quinta, e como eu todos os dias que podia, enquanto esteve em Lisboa ia à noite para sua casa, e com a sua família chorávamos a nossa desgraça e situação, e passando pelo lugar de Sacavém mandou o francês governador da terra examinar a casa do sobredito quem eu era, e que ia ali fazer, disseram-lhe que era o juiz do povo de Lisboa que em razão de compadre o ia visitar, mandou sindicar (?) se tu tinha ido ali fomentar algum levantamento, tais eram as vistas que os amigos traziam em mim.

Em o dia 7 de julho foi à Casa dos Vinte e Quatro procurar-me Francisco Xavier de Sepúlveda, comissário da Ribeiro no Lazareto, propondo-me que seria muito bom fazer-se um levantamento, e que ninguém tinha proporções para o formar como eu, porque tinha o povo todo à minha determinação, eu desconfiei destas proposições não esperadas, disse-lhe que me dissesse quais eram as suas tenções, respondeu-me que seria bom escrever eu uma carta à Junta Central de Madrid para dar os primeiros socorros, e que ele se encarregava da carta para a fazer entregar e que para este entrega se fazer precisava-se trezentos mil reis para despesas, eu estava desconfiado com o homem por ver que no meio de toda esta conversa falava-me muito nos franceses que estavam na outra banda donde ele [30] assistia, e também dos portugueses que governavam am aquele distrito, eu que andava desconfiado, desconfiei não fosse algum exame que me queriam fazer, disse ao dito Sepúlveda que em outra ocasião falaríamos, e que eu queria pensar melhor no caso, e o despedi.

Em o dia 9 recebi a portaria do Senado para formar a relação dos que não tinham pago o primeiro terço da contribuição para serem sequestrados como se vê do documento n.º 35 o que se fez e fui remetendo para o tribunal, e o Senado mandando logo proceder aos ditos sequestros.

Em o dia 13 tornou a aparecer i dito Sepúlveda na Casa dos Vinte e Quatro e diante dos escriturários, e contínuo entrou a falar na dita revolução com todo o descaramento, e perguntando-me que tinha eu resolvido, respondi-lhe esta Casa conserva o antigo brasão de nunca ser falso aos seus soberanos, e mandei-o com esta resposta embora, entraram todos comigo que me não fiasse naquele homem que certamente dava todas as ideias de ser espia, o mesmo que eu pensava dele.

Em o dia 16 veio a minha casa procurar-me o negociante Filipe Ribeiro Felgueiras pessoa do meu conhecimento e homem de honra e disse-me que ele tinha em o seu armazém duas peças de artilharia de calibre de nove, e muita bala própria, e metralha, montada em carretas, e alguma pólvora, [31] caso eu tivesse determinado alguma coisa que contasse com elas às minhas ordens, e deu-me notícias do estado do nosso exército da província, e dos seus movimentos, e vendo ele a satisfação que eu tive da notícias que me deu, me prometeu dar-me notícias de todos os movimentos que ele fazia em nosso benefício.

Em o dia 18 torna o mencionado Sepúlveda novamente a cometer-me o dito levantamento, mas sempre vinha com o protesto de eu ser cabeça, e que na minha mão estava o fazer-se esta operação e não esperar que viesses os da província fazê-lo, respondi-lhe que me não tornasse ali com semelhantes proposições, porque só me fiava em Deus, e não nos homens.

Em o dia 27 recebi do Senado o ofício n.º 26, e o aviso n.º 37, para não se fazer a procissão de voto pela meia noite do dia próprio, passei as ordens necessárias, já isto tudo era medo nos franceses, porque já se falava muito nos cem meninos perdidos, a quem eles segundo as suas circunstâncias tinham todo o respeito, e o dito Felgueiras todas as ocasiões que tinha notícias certa do exército combinado ia-me dando parte de que vinha se aproximando a nossa redenção, e felicidade.

Em o dia 5 de agosto fomos pelas dez horas da manhã para a Penha de França assistir à missa na forma da resolução do ofício do Senado.

Chegou o dia 16 dia [32] que apareceu mais brilhante aos nossos olhos pela falta do quartel general pois sai de madrugada para o campo aparecendo nas esquinas a notícia da sua saída, mas anunciandos fosse qual fosse a sua sorte ele tornaria a nós, ficando no seu lugar o general Travó que vinha do governo de Oeiras.

Em o dia 18 mandou-me chamar o conselheiro Guião que lhe fosse falar ao Senado fui, e então me disse que me haviam de mandar chamar da Junta do Governo, e que estivesse eu pronto porque não tinha havido tempo para se fazer aviso, e vi pelo que ele me disse que era preciso o povo estivesse tranquilo e que seria bom buscar algum meio de o tranquilizar, e quase me deu a entender alguma proclamação minha, e vindo para a Casa dos Vinte e Quatro de me pôr pronto até que veio um correio chamar-me, fui à Ribeiras das Naus, e na sala do Almirantado encontrei o general Travó, Luite (?), Herman, Lagarde, o secretário do governo, o conde da Ega, o principal Castro, Pedro de Mello Breyner, Francisco de Azevedo Coutinho, João José Guião, o abade do convento de S. Bento, António Rodrigues de Oliveira, e eu, e o meu escrivão, perguntou-me Pedro de Mello Breyner qual seria o meio do povo estar sossegado, respondi que o meio estava na mão do governo, não andar todos os dias com proclamações, nem editais que isso em lugar de os aquietar pelo contrário mais os punha [33] em inquietação, e que o senhor Lagarde em o dia antecedente tinha ido ao monte de S. Catarina, e Adro das Chagas, espancar quem estava ali vendo o mar, expondo-se asi (?), e aqueles desgraçados, e que o povo no meio de tanto flagelo devia ter alguma liberdade, ao menos de falar e não andar a prender a quem o fazia e eu tinha andado atrás da sege a observar tudo isto, e por isso é que o dizia, e disse mais V. Ex.ª sabe belamente que aqueles dois sítios sempre foram em todos os tempos para o povo, de inverno para tomar o sol, e de versão para tomar o fresco, pois não servia somente para observar a esquadra inglesa como o senhor Lagarde tinha dito àquela gente que ali estava, chamando-lhes marotos e mandriões, depois se puseram todos a falar em francês e daí disse Pedro de Mello para todos os de fora da Junta que tínhamos ali sido chamados afim de se arranjarem as coisas todas na melhor ordem e que quando tornasse a ser preciso se passaria novamente aviso, e todos se retiraram, e deste modo me livrei de me obrigarem a pôr algum papel o que eu não fazia.

Em o dia 19 parou a concorrências da contribuição, e sempre os ofícios pagaram do primeiro terço o que mostra a relação n.º 38, assim como da mesma se vê quanto não chegaram a pagar, da relação n.º 39 se vê quanto pagaram do primeiro terço as lojas, e lugares de venda pública da cidade assim como da mesma se vê os que não chegaram a pagar, do n.º 40 se vê a relação do termo tanto de um como de outro artigo. [34]

Em o dia 20 foi à Casa dos Vinte e Quatro Gaspar Pessoa Tavares e fazendo-me protesto da maior fidelidade, e que seu filho se achava no exército comandado pelo general Bacelar me apresentou os documentos, e oferta que consta do n.º 41.

Em o dia 22 foi João José Guião procurar-me à Casa dos Vinte e Quatro e apeou-se, eu desci abaixo a falar-lhe, disse-me se sabia alguma novidade, respondi-lhe que corria de facto Junot ter sido desbaratado, ao que respondeu afetando muita alegria logo que você saiba a certeza mande-mo dizer porque havemos de fazer muita função, e retirou-se.

Em o dia 31 veio a minha casa o prior da freguesia de Sacavém, e disse-me que nós ficávamos roubados e que estes homens estavam em capitulação, e que viu o modo em que havia de embaraçar isto, respondi-lhe que visse se me trazia um nós abaixo-assinados para eu poder fazer alguma coisa, disse-me que ia fazer aprontá-lo.

Em o dia 2 de setembro pela manhã aparece-me o dito prior muito triste dizendo-me que todas aquelas pessoas que tinham dito estavam prontos a assinar todos tinham duvidado na ocasião, disse-lhe que ainda havia um meio que era ir ter ao exército com o general Bernardim [35] Freire de Andrade, e se ele dissesse que eu lhe fosse falar que prontamente me achava determinado, disse-me que ia, e me traria a resposta.

Em o dia 4 pelas três horas da tarde mandou-me chamar o general Beresford à casa de António José Batista Salez, aonde tinha sido aquartelado, pela uma da tarde, falei ao dito general, e depois fiquei com João Belle falando a respeito do estado das coisas, e este foi ter com o dito general participar-lhe as minhas ponderações, este me disse que seria muito bom procurar um meio de os generais convencionados se meterem em questão para ver se podia anular a convenção, e que o general queria que eu me encarregasse de saber o que os franceses tinham feito nos passos reais depois da Convenção de Sintra, em aquela mesma noite fui ao palácio das Necessidades saber se tinham ali cometido das suas diabruras, e soube que até tinham trazido de resto algumas sacas cheias de lã de colchões, o ser chamado a cada do dito Salez consta do documento n.º 42.

Em o dia 5 de madrugada fui ao Palácio de Queluz e procurei diversos para saber do estado da coisa, achei extraordinários procedimentos e como vi eu não podia dar conta desta comissão vim para o general Beresford disse-lhe o que tinha achado e para melhor se saber o que eles tinham feito seria bom chamar os almoxarifes, o que se fez, chegando a casa achei o prior de Sacavém que vinha da [35] Encarnação donde estava o exército português, e me disse que o general Freire me mandava dizer que visto eu estar na determinação de trabalhar a benefício de todo este reino que fosse primeiramente falar ao general Dalrymple, que estava na Quinta de S. Pedro em Sintra, e a o depois fosse ter com ele a Mafra para onde partia logo, neste tempo entraram para me quererem falar o beneficiado Alexandre da Silva Coutinho, Hilário José Quaresma, e Luís António Rebelo, ambos negociantes, e sem saberem da minha determinação entraram a propor-me as circunstâncias presentes que exigiam que eu fizesse todo o possível a nosso benefício, disse-lhes tinha determinado sair de Lisboa a tratar deste negócio, pediram-me se lhe era possível o poder-me acompanhar, eu lhe disse que sim, e determinei sair no seguinte dia pelas quatro horas da manhã, para Sintra conforme a insinuação que tinha, fui aprontando no resto do dia os papéis necessários.

Em o dia 6 pelas quatro horas sai de casa e fui a casa do dito Quaresma como tinha justo juntar-me com os ditos para fazer a determinada jornada, tomámos o caminho de Sintra, e à Ponte Pedrinha foi preciso passar pelo acampamento francês, e ao depois passar pelas guardas avançadas a Massamá, e chegando ao Papel estava já o exército inglês, e logo mais adiante encontrei um dragão de Chaves, e perguntei se o general inglês estava em Sintra, disse-me o dragão que tinha passado para Oeiras, e que tinha passado de [37] noite para lá, e não havendo caminho de sege dali para Oeiras sem passar pelas guardas avançadas, e exército francês, procurei um guia para ir a pé por dentro do acampamento inglês e mandei a sege sair a Paço de Arcos, aqui nos dividimos, o prior de Sacavém foi para Mafra dar parte ao general Freire, os dois negociantes vieram dentro da sege dar volta por Queluz, e eu, e o beneficiado fomos a pé, e chegando a Oeiras, fomos para o palácio do Marquês de Pombal aonde estava o general Dalrymple, o qual me veio logo falar e me serviu de língua o dito negociante que comigo ia Luís António Rebelo, pediu o general lhe traduzisse o ofício que eu levava para me poder responder, o que o dito Rebelo fez cujo é o do n.º 43, e depois de ler respondeu em francês que el Rei seu amo o tinha mandado a Lisboa para promover os interesses de Portugal, e da sua soberania, e que tinha mandado um general para Lisboa a fim de examinar o embarque que eles faziam e que estivesse descansado que eles não poderiam levar nada mais do que aquilo que lhe era permitido como bagagem, quando Dalrymple falou comigo e me deu a resposta achava-se um general francês presente que estava ali de reféns, saímos e procurámos o caminho de Mafra, e pernoitámos em casa do prior de Cheleiros porque já o gado não podia andar.

Em o dia 7 de setembro chegámos a Mafra e fomos logo ao quartel-general que era no Palácio falei ao general e a todos os [38] mais oficiais que ali se achavam participei-lhes o que tinha passado com o general inglês, e depois convoquei-os para virem a Lisboa, ao que me respondeu o general chefe que tinha um exército incapaz de entrar em Lisboa, que estava falto de subordinação, e que seria mais o estrago que fizesse nos portugueses, que nos próprios franceses, fez-me ver a correspondência que tinha tido com o general inglês, que a leu Aires Pinto, pela qual vi que o dito general o ameaçava, dizendo que tinha trinta mil homens para fazer cumprir com o que se tinha comprometido, entreguei-lhe o ofício n.º 44, por fim disse-me que ele ia a Oeiras ao quartel-general inglês, e que esperava por ele ali o que fiz, participei-lhe como primeira autoridade portuguesa, o que Gaspar Pessoa me tinha oferecido, respondeu-me que ele já o tinha participado a mesma oferta, chegou em o dia oito de tarde, e falando-lhe disse-me que o general inglês estava teimoso, e que tivesse paciência já agora era melhor perder alguma coisa, do que ir arruinar a cidade mas que não fosse eu para Lisboa que a minha vida corria muito risco e em esta ocasião.

Em o dia 9 pela manhã alevantei-me determinado a vir para Lisboa pois estava com muito cuidado não sucedesse alguma diabrura do povo porque estava bastantemente inquieto, e fui ter com o general Freire, e disse-lhe que eu me retirava para Lisboa, e que eu estava de acordo falar ao almirante Cotton [39] a ver se se lhe podia dar algum remédio, respondeu-me que fizesse o que me parecesse mas que visto eu estar na resolução de ir para Lisboa que me apresentasse ao general Beresford para me dar uma guarda para a porta, mas que contivesse o povo com todo o sossego, em este mesmo dia pelas cinco horas da tarde cheguei a Lisboa e entrando em casa, logo Jerónimo Lourenço Botelho a dar-me parte que o general Tiabó [Jean-Pierre Travot? ou Paul-Charles-François Thiébault?] tinha dito em aquele mesmo dia no seu quartel em casa de Jacome Ratton que eu devia ser assassinado donde quer que eu estivesse, retirei-me de casa, e pernoitando por casa de alguns amigos, mas sempre trabalhando, e também achei em casa duas cartas de João José Guião que me queria falar, como se vê do n.º 45, e n.º 46.

Em o dia 10 pela manhã fui ao Senado falar-lhe, queria saber de mim o que tinha feito, e para que tinha saído sem lho participar, respondi-lhe que a pressa não me tinha dado lugar e que tinha recebido ordem do general Freire, por isso tinha saído de repente (eu não lhe participei a minha saída porque não tinha nele toda a confiança pelas antecedências), disse-me que Pedro de Mello Breyner me queria falar e que fosse eu a sua casa, disse-lhe que lá iria, mas fazendo tenção de não por lá os pés, porque o povo falava bastantemente nele, e eu que tinha recebido o aviso da determinação do general Tiabó não me fiava de ir a parte alguma, em este mesmo dia apareceu o edital da reclamação único efeito que tirei dos meus trabalhos [40]  pois muitas coisas se reclamaram, e poucas se entregaram.

No dia 11 de setembro fui a bordo da nau do almirante que estava defronte de Paço de Arcos, levando comigo um língua chamado João Redge, negociante, e conduzindo-me o dito almirante Cotton para a câmara e depois de sentados entreguei-lhe o ofício n.º 47, e o língua explicando-lhe o que ele continha, disse-me que sentia tanto os males de Portugal como se fossem próprios, porque ele era muito amigo dos portugueses estava na mão de S. Ex.ª porque todos assentavam que ele não tinha parte em aquela capitulação, respondeu-me que ele a tinha assinado, e ficando eu bastantemente triste, porque se iam acabando as minhas esperanças, levantou-se e pegando-me na mão disse-me que tivesse paciência que as coisas não haviam de ser tão feias como eu pensava, e disse-me mais que ele julgava que os franceses não tinham feito tanto mal em Portugal como eu dizia, porque eu era o primeiro que me ia ali queixar, respondi que não se admirasse S. Ex.ª disso, porque o meu ofício era o representar pelo todo por isso eu era o primeiro, e talvez o único, despedi-me, e retirei-me.

Em o dia 12 fui a cada do procurador da Casa/Coroa João António Salter de Mendonça, e disse-lhe que me levava a importuná-lo certo escrúpulo de consciência, porque eu já tinha feitos estas e outras diligências a fim de melhorar [41]  a nossa infeliz sorte, e como eu já tinha feito todos os possíveis e nada tinha obtido apenas a reclamação que isso de nada valia, porque os franceses não só deixavam de entregar os roubos mas continuavam no mesmo, e a estragar tudo, por isso procurava sua Senhoria a fim de entrepor os seus ofícios como procurador da Coroa, respondeu-me que se lhe tinha acabado a procuração, e demais que a sua procuração era para as coisas ordinárias, e que para as extraordinárias era sempre preciso participá-lo a sua Alteza, e como o havia ele fazer, e nisto mais esmorecido ia ficando porque ia achando todas as portas fechadas; e participando isto ao meu letrado disse-me não importa, tome toda a autoridade, e como ninguém a tem, faça-se senhor dela fazem-se uns ofícios para certos tribunais.

Em o dia 13 mandei entregar três ofícios como do documento n.º 48, um à Junta dos Três Estados, outro à Real Junta do Comércio, e outro do Desembargo do Paço, da sua entrega consta do documento n.º 49, em este mesmo dia falou-me Manuel Francisco da Cruz negociante meu conhecido, com António Pereira de Figueiredo, e Pedro Jorge, oficiais da secretaria que tinham estado em Mafra com o general Bernardim Freire de Andrade, e que ele me mandava dizer fosse a bordo da nau do almirante Cotton, e que lhe entregasse  os papéis que constam do documento n.º 50, em este dia ferviam as queixas de todas as partes dos procedimentos dos franceses, mandei buscar certidões a Almada, ao Lumiar, ao Depósito [42] Público, e à Casa da Moeda, e mandei fazer outra representação para levar ao Cotton, a fim de anular a Convenção, e tratei com os ditos sujeitos de ir ter com eles ao cais de Belém para irmos a bordo.

Em o dia 14 de setembro, fomos para bordo da nau do almirante e serviu de língua o dito oficial da secretaria Pedro Jorge, entreguei-lhe os papéis remetidos pelo general Freire, e o meu ofício como consta do documento n.º 51, e lendo respondeu que Portugal não perdia tanto quanto julgava, porque Inglaterra tinha feito grandes despesas no bloqueio deste porto, respondi-lhe que não duvidava mas que os portugueses se tinham sofrido todos os incómodos de que ele era sabedor também tinha sido por conservar ilesa a amizade que havia entre Portugal, e Inglaterra, disse-me não obstante isso a perda de Portugal é menor do que eu pensava, porque a bela cidade ficam sem o menor prejuízo, o sangue poupado, e por consequência não é tão considerável como julgais porque o vosso comércio fica livre, e logo todos os prejuízos serão remunerados, eu estava ardendo com estas respostas, pois todas eram alheias do meu pensar, disse-lhe que eu me julgava um perfeito português, e como tal amante dos ingleses, por serem os únicos aliados do meu soberano, e me custava muito ouvior censurar os mais portugueses sobre o procedimento dos generais britânicos neste reino, é verdade que eles dizem que devem uma grande parte da sua liberdade a S. M. Britânica [43], a V. Ex.ª, e os senhores generais do exército, mas também dizem que conhecem que se os franceses vão impunidos pelos crimes que cometeram, e os roubos que fizeram, são auxiliados pelo exército britânico, esperava eu uma resposta forte, mas não sucedeu assim, porque disse-me se eu fosse português também diria o mesmo, e que já ia mandar fazer à vela a primeira divisão, não lhe disse mais nada do que despedir-me e retirei-me, cheguei a terra fui logo acabar de aprontar o ofício n.º 52, e fiz logo entregá-lo a ele a bordo da sua nau, antes que ele mandasse sair a primeira divisão, e fiquei justo com oficial da secretaria António Pereira de Figueiredo para irmos no seguinte dia de madrugada a Mafra levar a resposta do acontecimento ao general Freire.

Em o dia 15 pelas quatros horas partimos para Mafra, e chegando fomos para o quartel-general, e falando ao dito a primeira coisa que disse foi já sei que tem feito seus ofícios aos tribunais, e puxando da algibeira por um papel mostrou-me o ofício que eu tinha feito à Real Junta do Comércio, que o tinha mandado o secretário da mesma junta para ele ver, e depois dizendo-lhe o que tinha passado com o almirante Cotton se admirou muito de ele não responder ao seu ofício, e me desenganou dizendo não se remediava nada o que estava feito, estava feito, e logo recebi a notícia depois de jantar por um correio que recebeu o general que se tinha levantado a bandeira portuguesa, e se tinha feito o último embarque [44] destes assassino, e neste instante ficou a minha alma tranquila do susto em que andava de poder ficar em minha casa, o que não fazia desde o dia 6 de setembro, convidou-me o general Freire para ir ao campo com ele ver passar revista ao seu exército, o que eu muito gostei por ver aquele arranjo, e acabada retirei-me para Lisboa, aonde encontrei a maior alegria que eu jamais vi, e em casa achei um convite para ir no dia imediato assistir a um Te Deum do Senado em a sua igreja de Santo António.

Em o dia 16 fui para a igreja de Santo António e assisti com o corpo do Senado a uma missa cantada, e Te Deus e depois fomos para a Casa do Despacho donde se determinou o fazer-se uma procissão de voto anual em memória da nossa restauração, e depois o conselheiro Guião pegando em uns papéis deu-mos para eu ler e assinar, continha a reclamação das assinaturas da petição de rei, e eu duvidei a assinar dizendo que como eu tinha protestado contra a violência que me tinham feito naquela ação não tinha que reclamar, disseram-me todos os mais conselheiros, e procuradores da cidade que não tinha dúvida o eu reclamar a minha assinatura não obstante o que eu tinha feito, assinei, e na mesma ocasião se determinou a grande festa do Senado, e a esta função já assisti com a vara que tinha com as armas reais. [45]

Em o dia 17 fiz Casa dos Vinte e Quatro para determinar a função pertencente à dita Casa e ofícios a ela anexos, e se determinou o que consta do termo n.º 53 e em consequência determinei a função, e a preparar-se todo o necessário para ela.

Em o dia 19 em consequência das queixas que me foram presentes fiz o ofício ao Senado que consta do n.º 54 a fim de se dar providências sobre o excesso a que iam subindo os víveres cujas providências eram as que se tinham dado na entrada do exército francês, e constam do edital n.º 55, mas não sucedeu assim porque no dia 20 apareceu o edital n.º 56, todo em contrário às providências anteriores.

Em o dia 23 fiz o ofício n.º 57, aos governadores do reino, pelas repetidas queixas que tinha tido desde a saída dos franceses, de não quererem aceitar a moeda francesa, e espanhola, tanto nas estações públicas, como nas particulares, isto por pessoas de todas classes pois até para o necessário alimento não tinham quem lho vendesse sem um grande desconto nesta moeda, de tarde fui à quinta do marquês de Abrantes, aonde se achava aquartelado o general Dalrymple e lhe entreguei o ofício n.º 58 e de lá vim pelas Picoas e entreguei a D. Miguel Pereira Forjaz, o ofício n.º 59, para o fazer entregar ao general Bernardim Freire de Andrade, que estava em Belas.

Em o dia 24 fui assistir à festa, e Te Deum na Sé, e para este fim tive [46] uma carta de participação, depois fui a casa de Francisco António Ferreira, aonde se achava aquartelado o marechal Laguna, espanhol, e lhe entreguei o ofício n.º 60, e pelo correio remeti para Espanha o ofício n.º 61 para ser entregue ao general Balesta.

Em o dia 25 em consequência da portaria n.º 62 fomos assistir todos os três dias, e tarde, em segundo disse-me o conselheiro Guião que tinha sido chamado à Secretaria de Estado para certa coisa, e que Saltez [João António Salter de Mendonça?] lhe dissera me dissesse não fizesse a função que tinha determinado a Casa porque não era justo que os ofícios pagassem coisa alguma para ela, e logo conheci que a intriga era manejada por ele Guião.

Em o dia 27 fiz a representação n.º 63 com o documento n.º 53 dentro e fui entregá-lo à Junta do Governo porque na tarde do dia antecedente tinha falado ao Salter e ele me disse que fizesse uma representação para se determinar, em esta mesma tarde falei ao marquês das Minas para este mesmo fim, respondeu-me que lá veria isso, falei a D. Miguel Pereira Forjaz disse-me é verdade que Salter falou hoje nisso mas como não é coisa da minha repartição não me importou, pedi-lhe que quando se lesse a minha representação que esperava que fizesse da sua parte o que pudesse porque era um desdouro para a Casa dos Vinte e Quatro o deixar de fazer semelhante ação. [47]

Em o mesmo dia 27 estando na igreja de S. António me entregaram o aviso para eu entregar no Senado o que logo ali entreguei ao dito Guião e abrindo deu-mo a ler e vi que determinava que o Senado deferisse como entendesse, bem entendido que não se pediria por derrama às corporações; deferiu o Senado no dia 28 como se vê da portaria lançada na representação n.º 63 na qual vi a alçada do Juiz do Povo suprimida porque vendo eu o livro de receita e despesa da Casa acho nela algumas funções de ações de graças, e pedidas as suas despesas às corporações, vendo agora totalmente desbaratada a minha jurisdição, mas ficando bem conhecendo donde emanava a intriga.

Em o dia 28 fui assistir à festa do Corpo da Nobreza na igreja de S. Domingos, aonde concorri os três dias pois tinha tido para isso uma participação.

Em o dia 29 fiz a juntar os vogais da Casa dos Vinte e Quatro para lhe participar o acontecido, e neste ajuntamento foi meu parecer que não se fizesse a função de ação de graças, visto que ela havia emportar, e como devia ser ao depois o embolso, a isto disse o Procurador dos Mesteres Alexandre José dos Reis que a festa se havia de fazer, que no Senado se tinha dito, que a festividade por força se havia de fazer, e não se pediria por força nada às corporações, mas sim o que de sua livre vontade quiserem dar, conhecendo eu logo que esta manejo era para me aterrarem, ou para eu fazer uma festa em que ficasse envergonhado [48] por falta de meios, e eu ficar totalmente arruinado, e não se lembrarem de que eu teria amigos que não me deixassem ficar mal, e principiando a votar determinou a Casa que se fizesse a festa da mesma sorte que determinado estava como se vê do termo n.º 64, expediram-se as cartas às corporações na forma determinada na portaria, toda esta intriga vinha nascida da emulação que João José Guião tinha, da determinação da festa da Casa, talvez persuadido que as minhas ideias fossem deitar abaixo a função do Senado, porém enganava-se porque eu só que eu só queria com a devida decência dar graças ao Omnipotente de nos vermos livres de semelhante flagelo.

Em o dia 2 de outubro fui [à] Ajuda assistir à festa, e Te Deum, que mandaram fazer os governadores do reino, os quais assistiram, e como eu não tinha ido assistir à função que se tinha feito em aquela igreja no domingo de Páscoa, aonde tinha ido um grande concurso, era justo que fosse a esta aonde me achei só, além dos generais, e estado maior, e alguns oficiais do exército das províncias do norte.

Em o dia 3 foi o primeiro da função da Casa dos Vinte e Quatro no Convento dos Religiosos de S: Paulo Primeiro Eremita, oficiou em os três dias o arcebispo de Lacedemónia, junto ao altar da parte do evangelho estavam as cadeiras para os governadores do reino, e na quadratura da capela-mor estava o estado do clero, o cruzeiro o corpo da nobreza [49] de ambos os sexos, e no corpo da igreja o povo, da parte do evangelho os convidados, e do lado oposto o Senado, Casa dos Vinte e Quatro, e por detrás os cabeças das corporações, todos de capa e volta, no cruzeiro da parte do evengelho fora do arco, estava uma tribuna aberta em que no primeiro dia esteve o corpo dos generais, e mais oficiais que tinham estado na capela da Patriarcal, e no terceiro esteve o general Beresford, e seus ajudantes, e também somente o general Freire, e seus ajudantes, terminando neste dia a função com um grande Te Deum.

Em o dia 8 fui a casa de João Bella [João Bell?], que servia de cônsul inglês, pedir-lhe me fizesse o obséquio de mandar entregar ao almirante Cotton o ofício n.º 65 de que se encarregou, e depois passei à casa do general do exército do sul o conde de Castro Marim, entreguei ao seu ajudante de ordens, o ofício n.º 66, não lhe falei porque estava gravemente molesto.

Em o dia 22 recebi o aviso para ir ao Senado no dia 24 para assinar o voto da procissão como se vê do documento n.º 67.

Em 31 de outubro recebi uma carta do almirante Cotton em resposta ao ofício de agradecimento que tinha feito a qual se vê no documento n.º 68.

Em o dia 6 de novembro veio a minha casa um correio e disse-me que o secretário do general inglês tinha grande precisão de me falar da parte do mesmo general [50] e como se achava bastantemente ocupado em negócios de serviço quisesse eu falar-lhe em sua casa, e ensinando-me o correio donde era disse-lhe que lá iria, e como me tinha mandado dizer que fosse às sete horas da noite fui, e em lugar do secretário inglês achei-me com Francisco Sodré intérprete do dito general disse-me que o general sentia muito o eu não o ter visitado, e que tinha certo negócio comigo respeito a Dalrymple e que estava muito bem visto de S. M. Britânica, e enfim estimo que esteja a ponto de fazer a sua felicidade, disse-lhe que me dissesse quando, e a que hora poderia fazer o meu cumprimento ao general, respondeu-me amanhã do meio dia para uma hora, e ficando certo nisto retirei-me.

Em o dia 7 fui com o meu escrivão a casa do barão da Quintela para cumprimentar o general Boras [Harry Burrard], e procurando Francisco Sodré este me apresentou ao dito general donde recebi todo o bom acolhimento distinguindo-me com muito obséquio, e entre este foi um, o perguntar-me donde morava que me queria pagar a visita que muito estimava, disse-lhe adonde morava, e perguntei ao Sodré se S. Ex.ª tinha alguma coisa a dizer-me que lho perguntasse respondeu-me que como S. Ex.ª me queria visitar então mo diria fiz a minha despedida e saindo no princípio da escada disse-me o Sodré o general tem a propor-lhe o negócio de fazer um papel em que aprova tudo quanto se fez na evacuação dos franceses desta cidade, e em que [51] diga que todos os papéis que tinha feito em contrário era mal informado, a isto propus-lhe as minhas dúvidas, entrou então com promessas, e proteções, respondi-lhe como mostra o documento n.º 69, imediatamente fui a casa de Cipriano Ribeiro Freire, dar-lhe parte deste acontecimento e para ele fazer presente aos governadores do reino, como mostra o mesmo documento, o certo é que o dito general foi chamado para Inglaterra e nunca se verificou a tal visita, julgo foi efeito da resposta que tinha dado ao dito Sodré que fez de agente do dito general.

Em 10 de dezembro tendo eu recebido uma carta de Manuel Pereira Ramos da cidade do Porto, e com um requerimento dentro para eu entregar aos governadores do reino em que pedia a graça de facultarem licença para se organizar um regimento de negociantes daquela praça para defesa da mesma fui esperar D. Miguel Pereira Forjaz para entregar o dito requerimento em este tempo entrou D. Francisco Xavier de Noronha e disse-me tem por cá alguma coisa, disse-lhe que estava à espera do secretário Forjaz para lhe entregar um requerimento que tinha recebido do Porto para a organização de um corpo de voluntários  da corporação do comércio para defesa daquela cidade, respondeu-me está bem, e perguntou-me quando acabava o lugar, disse-lhe que no fim deste mês, disse-me em alta voz que não podia ser porque eu devia continuar no lugar, respondi-lhe que me achava doente, e cansado, respondeu-me que muito eu disse aquilo porque as [52] circunstâncias exigiam a minha continuação, que ele era contrário à consulta que o Senado tinha feito pedindo a continuação dos quatro procuradores dos misteres, e não obstante o não vir consultado na dita consulta o governo é que o há de reconduzir, respondi que apesar da repugnância que tinha a este lugar, uma vez que o Estado precisava da minha continuação, eu estava pronto.

Em o dia 19 indo a casa de Cipriano Ribeiro Freire levar o resto dos mapas, e instruções da contribuição, que me tinham sido pedidos, disse-me o dito Freire quando era o dia da nova eleição, respondi depois de amanhã, disse-me que eu devia ficar pois as circunstâncias eram bastante críticas, respondi-lhe da mesma forma que tinha dito a D. Francisco quando me fez a mesma pergunta, e disse-lhe, eu amanhã hei de ir pedir licença aos governadores do reino para a nova eleição como é costume, e assim também entregar uma representação sobre o desaforo com que os franceses, e mais indivíduos sujeitos a estados de Bonaparte, se estão armando como se fossem nacionais, respondeu-me que era muito bem feito, e que ele havia de ir ao governo que esperasse por ele para levar o papel para dentro.

Em o dia 20 fui ao governo e quando entrou o secretário Freire entreguei a representação n.º 70, e igualmente por ela participar o dia da eleição, e a faculdade para a fazer, trouxe-me a resposta quanto à eleição que se fizesse [53] com todo o sossego, e como eu tinha mandado pedir que me determinassem, caso houvesse alguma dúvida, a quem havia de recorrer para me decidir, disse-me que fosse ao marquês das Minas, e a respeito da minha representação que se passavam imediatamente as ordens para se providenciar tudo.

Em o dia 21 procedi a nova eleição como é costume e não obstante os grandes embaraços que havia nas corporações pela recondução geral que tinha havido no ano anterior, todos os vogais da Casa me ajudaram e se fez tudo na forma dos alvarás por onde se rege a dita Casa, emendando as torturas que algumas corporações tinham feito no meio desta desordem, e tudo feito com o maior sossego, ficando eleitos como se vê da relação n.º 71.

Em o dia 22 fui apresentá-los aos governadores do reino, e às mais pessoas do costume.

Em o dia 29 fiz ajuntar os deputados da Casa para dar contas da despesa, e receita da festa de ação de graças, mostrei-lhe documentalmente que a sua importância tinha chegado a quantia 2,576$560 reis, e tinha recebido voluntariamente dos ofícios conforme as suas relações reais 1, 506$190, ficando por indemnizar de 1,070$370, respondeu-se-me com o termo n.º 72.

Em o dia 31 fiz a entrega do lugar na forma do costume, aprovando-se-me todas as minhas contas, e dando graças ao Altíssimo de ter escapado, [54] tanto ao pesado governo francês, como das intrigas domésticas dos partidistas, e mãos portugueses.

Esta fiel, verdadeira, e exata exposição dirige-se somente a fazer patente a escrupulosidade, prudência, zelo, e medidas que tomei, em um tempo, em que a fidelidade do trono, e o amor da pátria exigiam a mais sisuda circunspeção, esperando e suplicando submissamente o perdão de algum descuido certo de que, havendo-o, é só erro de entendimento e não da vontade.

sábado, 20 de maio de 2023

Relação de oficiais nomeados para a Legião Constitucional Lusitana (Maio de 1821)


[Força expedicionária do Exército Português que atuou em Salvador, no âmbito da Guerra da Independência Brasileira]


N.º 107.

Secretaria do Ajudante General do Exercito em 28 de Maio de 1821.

ORDEM DO DIA.

Declara-se a Promoção seguinte.

Por Portaria de 26 do corrente.


Legião Constitucional Lusitana.

Coronel Comandante , o Tenente Coronel do Batalhão de Caçadores n.º 9, João de Gouveia Osório.


1.º Batalhão.

Tenente Coronel, o Major do Regimento de Infantaria n.º4 Vitorino José de Almeida Serrão.

Major, o Capitão do Regimento de infantaria n.º 16, José Joaquim de Almeida.

Ajudante com a Patente de Tenente, o Ajudante com a Patente de Alferes do Regimento de Infantaria n.º 21, José Joaquim de Queiroga.

Quartel Mestre, o Quartel Mestre do Regimento de Infantaria n.º 1, João António de Sousa.

Cirurgião Mor, o Ajudante de Cirurgia do Regimento de Infantaria n.º 24, António Fernandes Velho.

Ajudante de Cirurgia, o Ajudante de Cirurgia do Regimento de Artilharia n.º 1, Domingos José Gomes e Pinho.

Capelão, Frei António de Santo Tomás.

Capitão da 1.ª Companhia, O Tenente Ajudante do Regimento de Infantaria n.º 6 , Francisco de Panla Barros.

Capitão da 2,ª Companhia, o Tenente do Regimento de infantaria n.º 24, Francisco de Magalhães Cerveira.

Capitão da 3.ª Companhia, o Tenente do Regimento de infantaria n.º 8, Luís Veloso Boquete. Capitão da 4.ª Companhia, o Tenente do Regimento de infantaria n.º 9, João Carneiro Rangel.

Capitão da 5.ª Companhia, o Tenente do Regimento de infantaria n.º 24, Manuel António Ferreira de Aragão.

Capitão da 6.ª Companhia, o Tenente do Regimento de infantaria n.º 1, Anselmo José Mendes.

Tenentes, o Alferes do Regimento de Infantaria n.º 4, Francisco da Silva; o Alferes do Regimento de Infantaria n.º 14, Nuno Alvares de Andrade ; o Alferes do Regimento de Infantaria n.º 16, Raimundo Alves Martins; o Alferes do Regimento de Infantaria n.º 18, José Ferreira da Silva Lima; o Alferes, do Regimento de Infantaria n.º 22, Teotónio Cláudio de Melo ; e o Alferes de Infantaria com exercício de Ajudante do Regimento de Milícias de Torres Vedras, José Maria Taborda.

Alferes, o 1.º Sargento do Regimento de Infantaria n.º 4, João Pais; o 1.º Sargento do Regimento de Infantaria n.º 17, António Raimundo de Carvalho; o 1.º Sargento do Regimento de Infantaria n.º 23, Manuel Jacinto; o Cadete Porta Bandeira do Regimento de Infantaria n.º 5, António Máximo Homem; o Cadete do Regimento de Infantaria N .º 10, Domingos Rodrigues de Carvalho; e o Cadete do Regimento de Infantaria n.º 16, Manuel Spínola de Vasconcelos,


2.º Batalhão.

Tenente Coronel, o Major do Batalhão de Caçadores n.º 2, Joaquim António de Almeida. ' ,

Major, o Capitão do Regimento de Infantaria n.º 4, Tomás Joaquim D'Ordaz.

Ajudante com a Patente de Tenente, o Alferes do Batalhão de Caçadores n.º 12, José Moreira Lopes.

Quartel Mestre, o Quartel Mestre do Batalhão de Caçadores n.º 2, Manuel Vitorino Sardinha.

Cirurgião Mor, o Ajudante de Cirurgia do Corpo da Guarda Real da Policia, Joaquim António dos Santos Teixeira.

Ajudante de Cirurgia, o Ajudante de Cirurgia do Batalhão de Caçadores n.º 2, Florindo António de Azevedo.

Capitão da 1ª Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 22, João Pinto Vilas Lobos. Capitão da 2.ª Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 17, Dinis Salustiano das Neves.

Capitão da 3.a Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 8, João Henriques de Paiva.

Capitão da 4.ª Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 6, Paulo Correia Coutinho.

Capitão da 5.ª Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 1, Francisco Xavier António Ferreira.

Capitão da 6.ª Companhia, o Tenente do Regimento de Infantaria n.º 4, José Maria Inocêncio.

Tenente, o Alferes do Regimento de Infantaria n.º 1, Caetano Gomes da Silva, contando a antiguidade deste posto de 18 de Dezembro de 1820.

Tenentes, os Alferes do Regimento de Infantaria n.º 16, José Manuel da Cruz, e António Manuel Barruncho; o Alferes do Regimento de infantaria n.º 17, Romão Jerónimo Cayola; e os Alferes do Regimento de Infantaria n.º 24, Roque Landeiro da Nóbrega, e Diogo Manuel Calado.

Alferes, o 1.º Sargento do Regimento de infantaria n.º 13, Carlos Vieira da Silva; o Sargento Ajudante do Regimento de Infantaria n.º 21, António Pereira de Azevedo; o 1.º Sargento do Regimento de Infantaria n.º 22, Nicolau António Vieira; o Cadete do Regimento de Infantaria n.º 14, António Joaquim da Fonseca Monteiro; o Cadete Porta Bandeira do Regimento de Infantaria n.º 16, Miguel José de Oliveira; e o Cadete do mesmo Regimento, Francisco Raimundo de Morais Sarmento.


Companhia de Artilharia

Capitão, o 1.º Tenente do Regimento de Artilharia n.º 1, António José da Silva Leão.

Primeiro Tenente, o 2.º Tenente do Regimento de Artilharia n.º 3, José Maria Barreto.

Segundos Tenentes, os Primeiros Sargentos do Regimento de Artilharia n.º 4, Francisco de Carvalho Pinto, e Domingos Francisco de Oliveira.


* * *

N.º 124.

Secretaria do Ajudante General do Exercito em 17 de Junho de 1821.

ORDEM DO DIA.

Faz-se publico ao Exercito, que por Portaria da Regência do Reino, em Nome de El-Rei o Senhor D. João VI., datada de 14 do corrente, foi mandado contar a antiguidade a todos os Oficiais da Legião Constitucional Lusitana, de 15 de Maio próximo passado. 



Imagem

Igreja e Convento de São Francisco de Assis, Salvador, Bahia, Brasil, fotografia de Adelano Lázaro, retirada da Wikicommons.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Relação dos oficiais do Estado Maior e Corpo Militar de 1.ª Linha (Rio de Janeiro, 1799)


Pessoas que ocupam os empregos e ofícios de maior consideração e dependência nas varias repartições de administração pública desta cidade.

Vice-Rei do Estado do Brasil, o Ill.mo e Ex.mo Sr. D. José de Castro, conde de Rezende. No seu palácio

Ajudante das ordens de S. Ex.
O Ill.mo e Ex. Sr. D. Luiz Benedito de Castro, conde do Rezende. Em palácio 
0 Brigadeiro de cavalaria Gaspar José de Matos e Lucena. Rua da Ajuda. 
O Ill.mo Sr. D. Manoel Benedito de Castro, Capitão. 

Oficiais empregados na execução das ordens da sala. 
O Capitão Francisco Manoel da Silva Mello. Rua da Misericórdia
O segundo tenente José Lopes da Costa. Junto ao Carmo.

Oficiais empregados na secretaria particular de S. Ex.
O tenente-coronel José de Oliveira Barbosa. Rua Direita. 
O tenente-coronel José Constantino Lobo Botelho. Rua do Piolho.

Secretaria de Estado. 
Secretario, o coronel de milícias, Sebastião da Cunha Azevedo. À Misericórdia. 
Oficial maior, José Pereira Leão. Praia de D. Manoel. 

Escriturários
João Baptista Alvarenga. Rua do Ouvidor. 
Manoel José de Azevedo. Rua de Mata Cavalos. 
Domingos José Rosa. À Carioca.
 
CORPO MILITAR.

Esquadrão [de Cavalaria] da Guarda de S. Ex. [o Vice Rei]

Sargento mor Comandante, José Botelho de Lacerda. Rua do Ouvidor.

1.ª Companhia
Capitão, o Illmo. Sr. D.  José Benedito de Castro. Palácio.
Tenente, João Fernando da Silva. Rua do Cotovelo.
Alferes, [...]

2.ª Companhia
Capitão, [...]
Tenente, Custodio da Silva Leite. Rua da Misericórdia.
Alferes, José Fernandes de Moura. Rua dos Ourives.

Cirurgião mor, André da Costa. Rua dos Pescadores.
Capelão, o Reverendo Manoel da Silva Campelo. Defronte de S. José.
Picador, Luiz António. Lampadosa.
Ferradores, António Marques. Ao quartel.
Francisco Pereira Correia. O mesmo.

Oficiais agregados à plana da Corte.
O Brigadeiro Vicente José de Velasco Molina. Com diligência em Buenos Ayres.
O Capitão Manoel Rodrigues Silvano. Com diligência na real fazenda de Santa Cruz.

Regimentos de linha por suas antiguidades na ordem de serviço.


1.º Regimento [de Infantaria] do Rio.

Coronel, o tenente general Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara. Governador do Rio Grande.
Tenente Coronel, João de Barros Pereira do lago Soares de Figueiredo Sarmento. Santa Rita.
Sargento mor, José Joaquim de Lima e Silva. Rua do aquartelamento.

1.ª Companhia de granadeiros
Capitão, António Caetano de Castro.
Tenente, Francisco da Costa Vianna.
Alferes, João Manoel da Fonseca Silva.

2.ª Companhia.
Capitão, Francisco Xavier Inácio.
Tenente, João Manuel de Melo.
Alferes, José Pedro da Silva.

Companhia do Coronel, 1.ª de fuzileiros.
Tenente, João Manuel dos Santos.
Alferes, Joaquim António de Sousa.

2.ª [Companhia] Tenente Coronel.
Tenente, Francisco de Mello da Gama.
Alferes, António Luiz Pereira.

3.ª [Companhia] do Major.
Tenente, José Francisco da Costa Padrão.
Alferes, Francisco de Lima da Silva.

4.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, [...]
Tenente, Joaquim da Silva de Carvalho.
Alferes, Amador de Lemos.

5.ª. [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, o Illmo. Sr. D. Manoel Benedicto de Castro.
Tenente, José António da Silva Guimarães.
Alferes, Luiz Gomes Anjos.

6.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, Francisco Xavier do Rego.
Tenente, Francisco António da Silva.
Alferes, Domingos Esteves dos Reis.

7.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, Albino dos Santos Pereira.
Tenente, José Pedro de Magalhães.
Alferes, Manoel de Sousa Pires.

8.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, Luiz Carlos da Costa.
Tenente, João Antonio Villas Boas.
Alferes, Francisco José Lisboa.

Pequeno Estado Maior.
Ajudante, Manoel António da Fonseca Costa.
Quartel mestre, Paulo Rodrigues Monção.
Capelão, o Reverendo Anacleto Pinto Gomes.
Cirurgião mór, Antonio Januario Passos.
Ajudantes do dito, Antonio Jose de Araujo.
Felizardo Jose de Araujo.
Pedro dos Santos Ventura.
Tambor mor, João Chrisostimo de Almeida.

Oficiais agregados a este regimento.
O Tenente coronel, Joaquim Xavier Curado.
Sargento mor, O Exmo. Sr. D. Luiz Benedito de Castro.
O Capitão, D. José Pedro da Camara.
O Capitão, Simão Lopes Velado de Larre.
O Quartel mestre, Tomé Bernardo da Veiga.

2.º Regimento [de Infantaria] do Rio.

Coronel, António Joaquim de Velasco e Molina.
Tenente coronel, José Thomaz Brum.
Sargento mor, João Pedro Duarte.

1.ª Companhia de Granadeiros.
Capitão, Sebastião José do Amaral.
Tenente, José Álvaro Marques.
Alferes, António de Amorim Lima.

2.ª Companhia de Granadeiros.
Capitão, Cláudio José da Silva.
Tenente, Teodoro Lazaro de Sá.
Alferes, Silvestre Manoel de Vargas.

Companhia do Coronel, 1.ª de fuzileiros.
Tenente, José Leite Teles.
Alferes, Francisco de Paula Freire.

2.ª do tenente Coronel.
Tenente, Félix Teixeira da Silva.
Alferes, Ignacio José Gomes.

3.ª do Major.
Tenente, Marcello Máximo Telles.
Alferes, José da Cunha Maciel.

4.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, Miguel da Silva Ramos.
Tenente, Joaquim Guedes Quinhones.
Alferes, João Nunes Cordeiro.

5.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, António José Castrioto.
Tenente, José Miguel Correia de Castro.
Alferes, Bento de Araújo Freitas.

6.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, António Lopes de Barros.
Tenente, Luiz de Seixas Sotto Maior.
Alferes, José Diogo de Oliveira.

7.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, José António de Mendonça.
Tenente, Feliz de Seixas Sotto Maior.
Alferes, Jerónimo Braz de Sampaio.

8.ª [Companhia de Fuzileiros]
Capitão, [...]
Tenente, [...]
Alferes, António Carlos Correia de Lemos.

Pequeno Estado Maior.
Ajudante. Manoel dos Santos de Carvalho.
Quartel mestre, o Capitão Francisco Rodrigues Correia.
Capelão, o Reverendo José Vieira Lima.
Cirurgião mor, Luiz Caetano da Costa.
Ajudantes do dito, Manoel Joaquim.
Joaquim Sardinha.
Manoel Ricardo.
João Manoel.
Tambor mor, José Félix.

Oficiais agregados a este Regimento.
O tenente coronel, Manoel Alves do Couto Reis.
Ajudante, Reginaldo José da Costa.
O tenente, Joaquim José Burich.
Dito, Antonio de Moraes,
Dito, Caetano Leite Pereira de Mello.
O alferes, Simplicio Alves Coutinho.
Dito, Francisco José Silvano.

Regimento de Artilharia.

Coronel, António Joaquim de Oliveira.
Tenente coronel, José de Oliveira Barbosa.
Sargento mor, Joaquim Gomes de Campos.

Companhia de Bombeiros.
Capitão, [...]
1.º tenente, António Duarte Nunes.
2.º tenente, José Gomes da Fonseca.

Companhia de Mineiros.
Capitão, Manoel Francisco dos Santos.
1.º tenente, Bernardo Henriques de Miranda.
2.º tenente, José Custodio de Almeida Bessa.

Companhia de artífices.
Capitão, Lourenço Caetano da Silva.
1.º tenente, João Cosme Damião.
2.º tenente, Francisco de Paula Cardoso.

2.ª [Companhia de Artilheiros] do Tenente Coronel.
1.º tenente, Joaquim do Vale Silva.
2.º tenente, Manoel Borges do Nascimento.

3.ª [Companhia de Artilheiros] do Major.
1.º tenente, Elesbão José da Silva.
2.º tenente,

4.ª [Companhia de Artilheiros]
Capitão, José dos Reis e Oliveira.
1.º tenente, Francisco de Macedo.
2.º tenente, José Lopes da Costa.

5.ª [Companhia de Artilheiros]
Capitão, António de Sousa Sepúlveda.
1.º tenente, João Pacheco Lourenço de Castro.
2.º tenente, Miguel de Oliveira.

6.ª [Companhia de Artilheiros]
Capitão, Anastácio Correia Vasques.
1.º tenente, António José Pinto da Cunha.
2.º tenente, Miguel dos Santos Maia.

7.ª [Companhia de Artilheiros]
Capitão, Francisco Manoel da Silva e Mello.
1.º tenente, Francisco Rodrigues da Silva.
2.º tenente, [...]

Pequeno Estado maior.
Ajudante, o Capitão João José Nunes Carneiro.
Quartel mestre, Manoel Coelho Saldanha.
Capelão, o Reverendo António Ferreira de Andrade.
Cirurgião mor, Thomaz Gomes de Gouveia.
Ajudante do dito, Joaquim José da Costa.
Francisco Bonifácio da Fonseca.
João José da Silva Xarém.
Manoel Luiz de Santa Ana.
Tambor mor, Francisco Borges.

Oficiais agregados a este Regimento.
O Tenente, Francisco de Oliveira Cunha.
O 2.º Tenente, João Vieira Xavier Lopes.

3.º Regimento [de Infantaria] do Rio.

Coronel, Camilo Maria Toncelet.
Tenente coronel, João Alberto de Miranda.
Sargento mor, Vicente Ferreira Portugal de Vasconcelos.

1.ª Companhia de Granadeiros.
Capitão, Francisco de Gama Lobo Coelho.
Tenente, João Bernardo Coimbra.
Alferes, Ildefonso Rodrigues do Prado.

2.ª Companhia de Granadeiros.
Capitão, Miguel José Barradas.
Tenente, Silverio Dias de Campos.
Alferes, José Rodrigues Janeiro.

Companhia do Coronel, 1.ª de fuzileiros.
Tenente, [...]
Alferes, Filipe de S. Tiago Vieira.

2.ª [Companhia de Fuzileiros] do tenente Coronel.
Tenente, António José da Silva
Alferes, [...]

3.ª [Companhia de Fuzileiros] do Major.
Tenente, Francisco Pereira de Castro e Mello.
Alferes, Luiz Manoel da Silva Pais.

4.ª Companhia.
Capitão, Aureliano de Sousa e Oliveira.
Tenente, Jacinto de Mello.
Alferes, José Joaquim da Cunha Azeredo.

5.ª Companhia.
Capitão, António João Torres.
Tenente, [...]
Alferes, [...]

6.ª Companhia.
Capitão, Silvestre Correia de Mesquita.
Tenente, [...]
Alferes, Bartolomeu Rodrigues Garcia.

7.ª Companhia.
Capitão, José Joaquim da Silva.
Tenente, Manoel da Costa Freitas Freire.
Alferes, Luiz Gomes da Cruz.

8.ª Companhia.
Capitão, Henrique de Mello.
Tenente, António da Costa Barros.
Alferes, João Gomes Correia.

Pequeno Estado maior.
Ajudante. João Ferreira da Rocha.
Quartel mestre, Joaquim Gomes Ataíde.
Capelão, o Reverendo Manoel Gomes dos Santos.
Cirurgião mor, Patrício José da Cunha.
Ajudantes do dito, Simão José de Araújo.
Francisco José de Araújo.
Manoel de Oliveira Candelária.
Agostinho Francisco Barbosa.
Tambor mor, Bartolomeu José Marques.

Oficiais agregados a este regimento.
O Sargento mor, Luiz Sotero da Costa.
O Capitão, José Nunes Ferreira.
O Tenente, Miguel Pires de Sousa.

* * *

Fonte
Revista do IHGB, Tomo XXI, 1858, Rio de Janeiro, Tipografia Brasiliense, pp. 70-80 [com adaptações]

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Diário Justificativo de Lazare-Marie-Bernard de Grosson de Truc

 


GROSSON DE TRUC

O capitão de infantaria Lazare-Marie-Bernard de Grosson de Truc (nomes próprios grafados em português como Lázaro Maria Bernardo) nasceu em 1761 em Marselha, no seio da pequena nobreza da cidade, filho de Jean Batiste Bernard Grosson de Truc. 

É bastante provável que tenha estudado direito, mas o que é certo é que, por sua própria admissão, deixou a França em 1792 e se alistou no Roll's Regiment, entre 1794 e 1797, um regimento britânico inicialmente formado por suíços, mas também logo depois, por emigrados franceses. A unidade atuou principalmente no teatro mediterrânico, entre Nápoles e Sardenha. Foi com este regimento que aportou a Lisboa, em maio de 1797, passando à disponibilidade e ficando em Portugal.

Se não é certo o que fez entre 1797 e 1801, sabemos que foi promovido a ajudante de infantaria da Guarda Real de Polícia (GRP), de Lisboa.

Em junho de 1806, passa a capitão efetivo (era agregado desde data incerta, mas possivelmente novembro de 1805), e recebe o comando da 3.ª companhia de infantaria da GRP, que era responsável pela área em torno da praça da Figueira, na baixa de Lisboa.

Em 16 de agosto do ano seguinte, passa ao Regimento de Infantaria n.º 7, de Cascais, no mesmo posto. Pouco mais de 2 meses depois, a corte e o governo real transferem-se de armas e bagagens para o Brasil e, meros dias depois, os franceses entram em Lisboa.

* * *

Grosson de Truc é preso em Lisboa, a 26 de setembro de 1808, por membros da GRP, com o apoio de soldados espanhóis, ficando preso no Aljube (?) e depois transferido (Trafaria) para a fortaleza de Cascais, com ordem iminente de transporte para França. É principalmente neste período que o autor se foca, pela natureza dos documentos, permitindo-nos a nós uma perspetiva privilegiada de um ator da pequena cena histórica, uma engrenagem mínima do complexo sistema geral.


MANUSCRITO

Este texto é um texto jurídico, próprio do autor, que além de oficial do Exército, teria formação de leis, tendo exercido após 1815. Oferece, no entanto, também pela sua natureza, elementos memorialistas na perspetiva de um emigré ao serviço do Príncipe Regente entre vésperas da invasão franco-espanhola de 1807 até os dias finais de 1809, preso em Cascais e expetante de ter que sair do país. [VERIFICA Luz].

Encontrei este manuscrito digitalizado de documentos na guarda do Arquivo Histórico de Itamaraty, com a cota AHI-REE-00729. Foi dirigida a alguém que o pudesse apoiar e patrocinar no Rio de Janeiro.

No Arquivo Histórico Militar, temos a indicação dada no livro mestre de Infantaria n.º 7, que o oficial passou ao serviço francês a 20 de Fevereiro de 1808, a mesma data do desmantelamento do Exército Português. 

* * *

Grosson de Truc nega sempre a sua culpa, requerimento atrás de requerimento, às dezenas, e o seu comportamento posterior decerto indica um desprezo pelo regime de Napoleão, pois em 1815 é capitão do estado maior do novo governador da Córsega e, nome do rei Luís XVIII. É notado nessa ocasião por ser muito desajeitado – principalmente com a espada a interferir na normal mobilidade, e desabituado do uniforme, e com alguns 60 anos de idade (teria 53 anos, mas vai dar ao mesmo, quando o que queremos é mostrar que tem idade a mais para o posto).

Ter-se-á reformado como chefe de batalhão no exército francês da restauração.

* * *

DIARIO JUSTIFICATIVO

Em consequencia da ordem do 7.mo Regimento d'Inf.ª do dia 27 de Nov.bro de 1807, sobre outra do General Gomes Freire, em execução daquella por elle recebida da Secretaria de Estado, a qual posso (…), fui hum dos officiaes que se offerecerão e persistirão na offerta, p.a acompanhar a S.A.R. por onde fosse; e posso mostrar a Relação.

Tres embarcações devião ser aprontadas em Setubal, em 3 outros dias conforme o ajuste do corregedor com o General Gomes Freire. Ao termo prefixo, o d.to General annunciou q.e não havia embarcação. Deixo de falar da fala que fez à tropa, na mesma tarde do dia 27, e em consequencia daqual, muitos mudarão de resolução.

Em todas as relações seguintes, dadas no regimento, o meo nome vai no numero daquelles officiaes q.e recusavão de continuar o serviço militar com o governo francez.


[1808]

Em 31 de janeiro de 1808, alcancei licença do d.to General p.a ir para Lisboa sollicitar o mesmo.

Persisti nestes sentimentos por requerimentos de 21 e 28 de Fevereiro, e de 8 de Junho, juntando certidão de cirurgião: e fui finalmente apontado pelo Inspector geral D. Thomas de Noronha, p.a ser reformado com as m.as onras, sem soldo; o que não teve effeito, pelos acontecimentos que seguirão.

Entretanto de 10 de Março até 7 de Abril, fui mandado em diligencia no Algarve, por ordem do g.al Gomes Freire, na qual a minha conduta está bem conhecida de todos aquelles com quem tive de tratar, e principalmente pelo Ex.mo Marquez Monteiro Mor, e pelos RR. Arcediagos  Leitão (…), em Faro.

Voltei p.a Lisboa em 26 de Abril, p.a continuar as muitas sollicitações, para excusar-me do serviço.

Hé no mez de Maio que principiárão as minhas maiores desgraças que fazem a assunção de huma justificação separada.

Em 16 de Julho, os officiaes do regimento que se não derão prontos, tiverão licença para recolher nas suas casas, da qual aproveitei, continuando a vencer soldo que todos cobrarão até Setembro (e eu só até Junho) sendo-lhes depois pago todo o attrazado desde a sahida dos francezes, mesmo a aquelles officiaes que quizerão continuar // continuar com elles, e forão apontados.

Em 14 de Agosto, e 7 de Setembro, fiz officio ao meo Brigadeiro chefe do Regimento, para me offerecer para o serviço de S. A. R. cada vez que o corpo a se reunir; do que lhe supliquei me avisasse logo.

Em 11[?] de Setembro me apresentei ao General Hope, p.a o mesmo fim.

Em 15 tendo sido insultado pelo povo, e gravemente ferido, fiz officio ao mesmo, p.a o mesmo fim. Em 18 ao Major-general Beresford, e em 22 ao General Dalrymple.

Em 27, a minha casa foi attacada à mão armada, por algu~s individuos de Guarda Real da policia, e soldados Espanhoes, e me tirarão varios objectos. Isto se praticou na minha ausencia, e sem ordem superior.

Em 28, participei o succedido ao Ajudante do Intendente geral da Policia a quem ele deome communicação da carta, o que não foi com tudo sufficiente para embaraçar que eu fosse prezo em 29, n'huma casa particular aonde passava a noite, por huma escolta da mesma Guarda auxiliada de bastantes soldados Espanhoes e povo em tumulto, a pezar de não exhinir ordem p.a assim o fazer, e ser investido da m.a farda e distinctivos, e requerer de ser apresentado ao S.or General. Assim fui conduzido das 8 horas da tarde, até 1 hora da madrugada, à presença do novo Commandante da d.ta Guarda, na sua casa insultado e ameaçado por soldados de ambos os corpos, e por dois cadetes que depois soube serem sobrinhos do mesmo Commandante; em perigo das bayonetas espanholas apontadas sobre o meo peito: Mandado depois à presença do Intendente que não me deou audiencia, e remettido para a cadeia da cidade, à sua ordem, quando agora vasa pedia selo à do S.or General das armas, meo juiz natural.

No dia 8 de Outubro, o d.to Intendente mandou o seu Ajudante a receber de mim huma declaração a respeito porque modo me achava neste reino. Detalhei nesta toda a minha vida desde a minha chegada em 20 de Junho de 1797; os empregos e postos que tenho seguido, a m.a conduta neste resolução. Me refiro à d.ta declaração, p.a todas as maiores clarezas que se entenderem de mim, assim como aos officios , memorial, rol de testemunhas e relação de serviços que dirigi na mesma datta (…/....) d.to Ajudante, para serem juntos à Declaração.

O Intendente deou conta ao Governo e não duvidou em fazer-me assegurar publicam.te por varias vezes, que a conta estava favoravel, tendo // tendo remettido todos os meos papeis.

Em 5, 9, 25 e 32 de Outubro fiz constar da minha prisão e impedimento ao meo Chefe, remettendo p.a o Regimento a certidão de prezo; dando me pronto logo que fosse em liberdade. Me foi respondido por officios de ? E 6 de 9.bro devia apresentar-me pessoalmente e mostrar-me livre por sentença a Conselho de Guerra, p.a ser admittido, o que não podia ser sem aqueles requisitos conforme as ordens circulares, à respeito dos officiaes indiciados e pertencentes aos varios regimentos.

Na datta de 6  d'Outubro requeri tãobem ao Governo ao fim que (…) constar ao meo regimento, e não me prejudicassea d.ta prizão, por não haver crime. Repeti o mesmo requerimento em 20.

Em 22, entre os varios desgostos e insultos que tenho tido que dissimular no meo cativeiro, conto que me foi apresentada por hum Cap.m Barret ao serviço inglez, huma portaria da Intendencia para que eu fosse remettido p.a ir servir em soldado à S. M. Britânica, ou nas tropas espanholas, e o meo nome se viou confundido com aquelle de varios sujeitos sem nascimento, nem qualidade, e da ultima plebe.

Representei por officio de 22, dirigido ao Ajudante da Intendencia, declarando porem ser pronto p.a servir aó à S. A. R. em qualquer parte que me determinasse: Foi antão a portaria revogada e deou-se outra sem que o meo nome figurasse tão impropriamente nesta.

Sobre o meo requerimento do mesmo dia, tanto à Intendencia, como ao General das armas, para ser remettido com a culpa, ao meo regim.to a fim de satisfazer ao Decreto de 30 de Setembro, e ser remettido a Conselho de Guerra justificativo, sahirão despaxos de 25 e 29, p.a requerer immeditamente a S. A. R.

Em 16 de Nov.bro fiz novo requerimento a S. A. R., pedindo copia da m.a declaração de 2 de Outubro, e de ser remettido em conselho de guerra regimental, aliás solto como innocente; e por interim me fosse dado o meo semio soldo na forma da lei de 23 de Abril de 1790.


[1809]

Por requerimentos de 6 e 28 de Fev.ro de 1809, tornei a pedir a S. A. R. o conselho de guerra ou de ser remettido à Commisão de inconfidencia, requerendo novamente o meo/meio soldo, ou os necessarios e usitados [?] socorros p.a o meu sustento. Igoalmente pelo segundo, para ser naturalisado, o que tãobem requeri em 2? de Março ao Dez.or Leite: bem que conforme as ordenações, bastasse justificar da m.a residencia de 10 annos, para ser naturalisado pela lei, e me fazer reconhecer vassalo de S. A. R.

Logo que // Logo que chegou à minha noticia o Edital da policia, da mesam data de 6 de Fev.ro, requeri à Intendencia em 9 para ter attestação de innocente, e pssar como tal p.a Caparica, a fim de me livrar da odiosa prisão na qual gemia no meio de criminosos; e tomar as providencias q.e me fossem convenientes. A dita passagem me foi concedida e se fez em 4 de Março.

Em 31, fez-se intimação p.a sahirmos do reino, dentro de 15 dias de baixo de penas de prizão, e não querendo ir para França me dirigi ao Almirante inglez que me concedeo passagem para Londres de baixo da condição de ter passaporte do Ministro da sua corte em Lisboa. Em 4 de Abril requeri o d.to passaporte que não houve meio de alcançar, negando-se a todos em geral.

Em 16 do d.to mez fomos avisados à noite, com hum pretexto vão de no acharmos no dia 17 antes das 6 horas da madrugada à revista no Porto Brandão. Aqui fomos cercados pela tropa e sem nos consentir de irmos buscar as nossas bagagens (se não depois de m.tos rogos, a alguñs de as mandar vir) fomos violentamente embarcados p.a Paço d'Arcos. Este acto violento foi praticado por hum Tenente João Maldonado do 4.º Regimento de Inf.a e hum official de justiça do Juiz de fora de Almada, auxiliados por hum cadete sargento do Reg.mto 19 Inf.a, chamado Joaquim . . . . . . a quem agora se mandou dar bauxa. Este cadete praticou comigo os maiores insultos publicos, não só por palavras, mas ainda até a se atreverde querer me fazer retardar de embarcar, com a sua bengala. Escandalisado, recorri ao Tenente que chegou a dar a sua aprovação a estes desatinos. O official que mandava na Trafaria, tinha porem tido a politica contraria de deixar a cada hum do seo districto, a liberdade de ir buscar o fatto: e o Cap.m Tavares usou tãobem de toda a politica p.a com todos.

Passámos a noite no rio, com hum temporal forte, e em 18, chegámos a Paço-darcos e Cascaes, onde fomos aquartelados no forte de N.a S.ra da Luz. Privado assim de toda a m.a bagagem, vi me reduzido a pasar até sem cama, e sem outra roupa senão aquella que levava vestida. Fiz todas as diligencias; às quaes concorrerão o Cap.m Tavares e o juiz de fora de Cascaes, porem não cheguei a recebela, senão em 30 d'Abril, […] m.to gasta, e achando os meus botins [?] arrombados; e roubado por mais de 20 moedas de roupa […]. Dei a relação do roubo ao d.to juiz: fiz constar do arrombamento pelos officiaes de justiça: requeri inquirição e averiguação em Almada protestando // protestando contra o Tenente e official de justiça, das perdas e damnos causados por sua culpa e despotismo: nada pude descobrir.

Em 20 de Abril, havendo segunda intimação, requeri a S. A: R. para ser remettido para Inglaterra, e não p.a França, dando os meos motivos.

Em 24, em razão de huma grave molestia que fiz, e me tem durado por dois mezes e meio, por insinuação do Medico, e vendo que com facilidade se dava a homenagem, mesmo a individuos de condição ordinarias e sem privilegio, requeri de balde, a d.ta homenagem à Intendencia; o que me determinou a fazer igual requerimento em 8 de Junho a S. A. R. juntando certidão do Medico repeti o mesmo em 27, ao Intendente, tãobem com certidão. Este foi despachado a requerer *a Regencia.

EM 7 d'Agosto, requerimento à Intendencia, para ter attestação como não havia crime contra mim, e só motivo politico na minha detenção, declarando que era ao fim de alcançar passaporte do Ministro Britânico: e despacho de 11 foi que não tinha lugar.

EM 28 d'Outubro requerimento a S. A. R. para pedir o meio soldo, e ser aggregado nas Ilhas, ou mandado para Londres; o qual dirigi por tres vias differentes, das quaes aos dois Secretarios d'Estado do Governo.

No mesmo dia, à occasião da revista de inspeição feita em Cascaes para conhecer os militares capazes daquella guarnição, dirigi hum officio e Memorial ao Ex.mo Marechal-general Wellington.

No dia 25 de Nov.bro por motivo da terceira intimação para sermos prontos a embarcar para França, sobre hum transporte que dáva o Almirante inglez, fiz outro requerimento a S. A. R. e ao dito Almirante p.a não ser transportado para a d.ta terra; representando os meos justos motivos e os meos sentimentos: Este he o nono ao Governo que tera ficado sem despaxo.

Em 4 de Dezembro, fomos avizados , para embarcar em 6.

*

Assim me acho privado do recurso da deffeza que todas as leis naturaes, civis, e politicas dão ao citadão para non ver a sua onra manchada. M.tos portuguezes gozárão delle, e eu não, por ter nascido // nascido francez, achando-me porem nas circunstancias favoraveis do Decreto de 22 de 8.bro de 1808.

Assim por esta sorte de condescendencia com as preocupações populares que se sabe me perseguem há tanto tempo, se me tem feito suspeito ao Governo Britanico, de tal sorte que me supoem criminoso por não mostrar a minha justificação; e não só este me tem negado até aqui os passaportes, mas ainda me tem tirado a minha unica ressurção, as modicas mezadas de que gozava havia 15 anos passados, por causa de serviços civis e militares feitos a aquella Potencias, os quaes me tinhão merecido a confiança e a proteição dos seos Ministros em Corsica e Lisboa, como posso provar.

Tenho mesmo perdido o atrazado das mezadas, por falta de zelo do meo sollicitador, e por intriga, porque o General e o Almirante inglezes tornarão, na sua costumada justiça a admittir as mezadas, e empregado, ao Cirurgião Anicel [?] que o tinha sido peloa francezes, provando que tinha sido chamado, à João Cezar filho preso tinha sido civilmente no mesmo exercito, e concedendo o atrazado à irmã deste a qual cazou com hu~official do mesmo.

Não tenho deixado de representar e de sollicitar de todos os modos a este respeito as autoridades e Agentes Britanicos, e mesmo ao Ministerio em 6 e 14 de 8.bro, 2 e 10 de 9.bro 1808, 6 de Janeiro, e 22 d'8.bro de 1809. A impressão he m.to forte e sem apparecer justificado não posso esperar nada, para me ser restituido este onrozo beneficio de S. M. Britanica, e ver-me livre de novo perigo.

A minha situação à entrada dos francezes  foi esta: o Real Erario ficára me devendo a quantia de 302$400 […] que na conformidade dos Avizos Regios de 8 de Julho de 1801, e 4 de Fevereiro de 1803, devia eu receber sobre as despezas extraordinarias da Guara real da policia, de 1803 até 20 de 7.bro de 1806 que entrei no exercicio de Capitão; à execução dos quaes Avizos se opunha havia tempo, o Ex.mo Presidente do Real Erario Luiz de Vasconcellos. A quantia de 120$000 para os meos soldos atrazados de Julho até Nov.bro de 1807. A de 30$000 das mezadas que recebia do bolsinho de S. A. R. de Serembro ate Dez.bro de 1807. E se me devia a quantia de 43$850 dos soccorros inglezes de 1.º de Janeiro até maio de 1807. Por total de 4.96$250. Não falo de todos os atrazados e perdas que seguirão até o dia da minha prizão; de sorte que fiquei em total necessidade, e obrigado a me valer para o meo sustento, dos meos am.os. Bem se sabe que não tinha outros meios, não so para subsestir, mas ainda para // para assistir à minha Mai e a minha Irmã pobres na m.a funesta terra natal, e em consideração das quaes S. A. R. me tinha concedido a mezada do bolsinho.

Forte de Cascaes em 23 de Dez.bro de 1809

Laz.o M.a B.do de Grosson de Truc

P. S. Hoje 24 do dito, pelo Juiz de fora de Cascaes se tem communicado aos francezes detidos no Forte, a Relação dos que conforme às ordens de S. A. R. deverão embarcar p.a França: e devo graças a D.s de me não achar neste numero, e pela justiça que nisso alcanço do Governo que finalmente não me tem reputado por – suspeito. Quera D.a permittir que inteiramente sejão reconhecidos os meus sentimentos e que triumpha totalmente dos meus inimigos. 

G. de Truc

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Excerpt: Bartholomew Português, pirate

 


«Another bold attempt like this, nor less remarkable, I shall also give you. A certain pirate of Portugal, thence called Bartholomew Portugues, was cruising in a boat of thirty men and four small guns from Jamaica, upon the Cape de Corriente, in Cuba, where he met a great ship from Maracaibo and Carthagena, bound for the Havana, well provided with twenty great guns and seventy men, passengers and mariners; this ship he presently assaulted, which they on board as resolutely defended. The pirate escaping the first encounter, resolved to attack her more vigorously than before, seeing he had yet suffered no great damage: this he performed with so much resolution, that at last, after a long and dangerous fight, he became master of it. The Portuguese lost only ten men, and had four wounded; so that he had still remaining twenty fighting men, whereas the Spaniards had double the number. Having possessed themselves of the ship, the wind being contrary to return to Jamaica, they resolved to steer to Cape St. Anthony, (which lies west of Cuba,) there to repair and take in fresh water, of which they were then in great want.


Being very near the cape above said, they unexpectedly met with three great ships coming from New Spain, and bound for the Havana; by these, not being able to escape, they were easily retaken, both ship and pirates, and all made prisoners, and stripped of all the riches they had taken but just before. The cargo consisted in one hundred and twenty thousand weight of cocoa nuts, the chief ingredient of chocolate, and seventy thousand pieces of eight. Two days after this misfortune, there arose a great storm, which separated the ships from one another. The great vessel, where the pirates were, arrived at Campeachy, where many considerable merchants came and saluted the captain; these presently knew the Portuguese pirate, being infamous for the many insolencies, robberies, and murders he had committed on their coast; which they kept fresh in their memory.


The next day after their arrival, the magistrates of the city sent to demand the prisoners from on board the ship, in order to punish them according to their deserts; but fearing the captain of the pirates should make his escape, (as he had formerly done, being their prisoner once before,) they judged it safer to leave him guarded on shipboard for the present, while they erected a gibbet to hang him on the next day, without any other process than to lead him from the ship to his punishment; the rumor of which was presently brought to Bartholomew Portugues, whereby he sought all possible means to escape that night. With this design he took two earthen jars, wherein the Spaniards carry wine from Spain to the West Indies, and stopped them very well, intending to use them for swimming, as those unskilled in that art do corks or empty bladders. Having made this necessary preparation, he waited when all should be asleep; but not being able to escape his sentinel's vigilance, // he stabbed him with a knife he had secretly purchased, and then threw himself into the sea with the earthern jars before mentioned; by the help of which, though he never learned to swim, he reached the shore, and immediately took to the woods, where he hid himself for three days, not daring to appear, eating no other food than wild herbs.

Those of the city next day made diligent search for him in the woods, where they concluded him to be. This strict inquiry Portugues saw from the hollow of a tree, wherein he lay hid; and upon their return he made the best of his way to Del Golpho Triste, forty leagues from Campeachy, where he arrived within a fortnight after his escape; during which time, as also afterwards, he endured extreme hunger and thirst, having no other provision with him than a small calabaca with a little water, besides the fears of falling again into the hands of the Spaniards. He ate nothing but a few shell fish, which he found among the rocks near the sea-shore; and being obliged to pass some rivers, not knowing well how to swim, he found at last an old board, which the waves had driven ashore, wherein were a few great nails; these he took, and with no small labor whetted on a stone, till he had made them like knives, though not so well; with these, and nothing else, he cut down some branches of trees, which with twigs and osiers he joined together, and made as well as he could a boat to waft him over the rivers. Thus arriving at the Cape of Golpho Triste, as was said, he found a vessel of pirates, comrades of his own, lately come from Jamaica.


To these he related all his adversities and misfortunes, and withal desired they would fit him with a boat and twenty men, with which company alone he promised to return to Campeachy, and assault the ship that was in the river, by which he had been taken fourteen days before. They presently granted his request, and equipped him a boat accordingly. With this small company he set out to execute his design, which he bravely performed eight days after he left Golpho Triste; for being arrived at Campeachy, with an undaunted courage, and without any noise, he assaulted the said ship. Those on board thought it was a boat from land that came to bring contraband goods, and so were in no posture of defence; which opportunity the pirates laying hold of, assaulted them so resolutely, that in a little time they compelled the Spaniards to surrender.


Being masters of the ship, they immediately weighed anchor and set sail from the port, lest they should be pursued by othet vessels. This they did with the utmost joy, seeing themselves possessors of so brave a ship; especially Portugues, who by a second turn of fortune was become rich and powerful again, who was so lately in that same vessel a prisoner, condemned to be hanged: with this purchase he designed greater things, which he might have done, since there remained in the vessel so great a quantity of rich merchandise, though the plate had been sent to the city. But while he was making his voyage to Jamaica, near the Isle of Pinos, on the south of Cuba, a terrible storm arose, which drove against the Jardines Rocks, where she was lost ; but Portugues with his companions escaped in a canoe, in which he arrived at Jamaica, where it was not long ere he went on new adventures, but was never fortunate after.»


The history of the Buccaneers of America; by Exquemelin, A. O. (Alexandre Olivier); Ringrose, Basil, d. 1686; Raveneau de Lussan; Mountauban, de, 1650?-1700; Perkins, Oliver L

Online: https://archive.org/details/historybuccanee02perkgoog

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Memórias de António Ribeiro da Fonseca Relativas ao Período entre 1828 e 1834 (excerto)


«[…] Assentando porem praça voluntariamente no 1.º de Janeiro de 1826, em pouco tempo fui promovido a cabo d'esquadra, por concurso num exame vago em arithemetica ; em novembro do mesmo ano marchei para a campanha, recolhi ao meu regimento, artilheria n.º 4, em 1827; matriculei-me no primeiro ano mathematico, n'aquelle mesmo anno; e, em principios de 1828 fui promovido a furriel.

Até aqui parece que a sorte me sorria, chegou porem o dia 29 de abril d'aquelle mesmo anno, segundo anníversario da Carta Constitucional, e em logar de uma parada geral para solemnisar aquelle dia, o general Gabriel Antonio Franco de Castro, governador das armas do Porto, ordenou que os corpos da guarnição da cidade, ficassem retidos nos quartéis, á excepção da guarda real de policia, que juntamente com a ralé, espalhada pelas ruas da cidade, aclamaram o Sr. D. Miguel, rei absoluto, insultando ao mesmo tempo os liberaes que encontravam.

Ao toque de recolher do mesmo dia, a minha companhia, seguida das outras companhias, e infanteria 18, todos aquartelados no mesmo quartel, saimos para a parada, ainda que sem os nossos officiaes, fizemos uma manifestação armada dos nossos sentimentos, dando vivas a EI-Rei o Senhor D. Pedro IV, e á Carta, Constitucional; apparecendo porem os officiaes do meu. regimento, e de infanteria 18, trataram de conter o nosso enthusiasmo, mandando-nos recolher á caserna.

Na verdade, os officiaes dos dois corpos eram liberaes, todavia contiveram os seus subordinados de todas as vezes que saíram para a parada armados, e com a mesma manifestação. Eu sabia que cavallaria 12, caçadores 11, e um batalhão de infanteria 12, resto da guarnição da cidade, tinham promettido annuír ao nosso grito, mas infelizmente nem se mexeram; o batalhão de caçadores 11, esse foi unir-se ao general, para supplantar os dois corpos, no caso que chegassem a sair do quartel de S. Ovídio. N'uma palavra nada conseguimos: amanheceu e cessamos com o nosso enthusiasmo.

No dia seguinte, 30 de abril, o meu coronel recebeu ordem do quartel general, para ali me mandar apresentar; sendo apresentado ao proprio general, mandou-me desarmar, e metter na prisão da Casa Pia, onde encontrei já prezos alguns officiaes inferiores do 18.

No dia seguinte fomos onze algemados, mettidos no centro de uma companhia de caçadores 11, com armas carregadas á nossa vista, e conduzidos para o Castello de S. João da Foz. A nossa sorte estava determinada pelos artigos de guerra, nada mais havia a esperar. O batalhão de infanteria 12 foi mandado para a sua praça, Chaves, o regimento de infanteria 6 foi para o Porto.

No dia 16 de Maio, o referido regimento 6 sublevou-se, e com os seus officiaes, correu ao campo de S. Ovidio, onde se lhe uniram, o meu regimento e infanteria 18, e mais tarde cavallaria 12.

O general, acompanhado por caçadores 11, ainda foi ao campo de S. Ovidio arengar aos corpos sublevados, tentando contel-os, mas, receiando que o resultado lhe fosse funesto, fugiu da cidade acompanhado peta policia, caçadores 11, o major Rosa [possivelmente Bernardino Mascarenhas da Rosa, que vem posteriormente a comandar Cavalaria de Chaves, como tenente coronel], de cavallaria 12, e alguns poucos cavallos d'este regimento. O batalhão 11, abandonou o general em Penafiel, e veio apresentar-se ao Porto.

No dia seguinte, 17 de Maio, logo pela manhã, correu ao castello da Foz o tenente coronel de cavallaria 12 (conde do Casal ultimamente [José de Barros e Abreu Sousa Alvim, 1º barão e 1º conde do Casal]) com alguns officiaes e sargentos do mesmo corpo, a soltar-me e aos meus dez companheiros das prisões do Castello.

Depois d'estes acontecimentos, entrei em operações de campanha, até á desgraçada retirada para a Galliza. Desarmados, á entrada daquela provincia acompanhei o meu regimento, até Chantode e iria ao fim do mundo, não somente em vista dos meus sentimentos liberaes, mas tambem porque em Portugal me esperava o carrasco.

Achando-nos porem n'aqueIla localidade com toda a esperança de marchar para a Corunha, e ali embarcar para qualquer parte do globo, em consequencia de uma ordem de Fernando VII, toda a força portugueza foi separada dos seus officiaes, metida no centro de um regimento hespanhol, e conduzida á raia de Portugal e entregue ao regimento de cavallaria N.º 6, que para nos acostumar, nos foi distribuindo algumas espadeiradas durante a marcha para Chaves, onde ficamos presos no forte de S. Francisco.

Fomos conduzidos, sempre presos para o Porto, e d'ali embarcamos para Cascaes, aonde nos foi distribuido um pão diariamente, dando-se-nos o pomposo titulo de prisioneiros de guerra! Ainda tiveram a humanidade, de dar a cada presioneíro uma enxerga e uma manta.

Passado pouco tempo, fomos conduzidos para Estremoz, onde nos foi distribuída a competente enxerga, manta, um pão, um rancho, e 20 reis diarios pagos quinzenalmente; porem também principiaram para os chamados prisioneiros, os trabalhos mais abjectos, dando comtudo hospital aos doentes. Porem com toda esta humanidade, por duas vezes tentaram envenenar-nos, e eramos victimas constantes do mais fero despotismo; se narrasse os episódios da minha desgraçada historia durante seis annos de prisão, muito teria que escrever, mas como são aguas passadas, e de que ninguem se lembra, a não ser algum dos pobres presos, que ainda vivem, limitar-me-hei a dizer que de Estremoz, fomos mudados para Elvas, aonde tambem nos deram uma enxerga, ou uma esteira de tabúa, uma manta e um rancho, se rancho se podia chamar, porem os 20 reis diarios acabaram, e para supprir esta falta, lançaram-nos correntes aos pés; as coisas cada vez se iam tornando peores para os miguelistas, mas para os presos as calamidades aumentavam.

Marchamos bem algemados em conductas de 50 presos, pois que eramos mais de 300 para Almeida.

Ali tudo se acabou para nós, menos os trabalhos. Nem enxerga ou esteira, nem manta, nem rancho, nem pão, nem 20 reis, e nem hospital para os doentes) nada absolutamente nada; os que morriam enterravam-se no fosso, porque malhados (era o nosso titulo) não podiam ser enterrados em sagrado. Assim vivemos desde 22 de Fevereiro até 18 de Abril de 1834.

Este dia 18 de Abril, de eterna recordação para mim, foi aquelle em que nos resgatamos das differentes prisões d'aqueIla praça. Defendi Almeida com os meus companheiros de prisão, e infortunios, que eram mais de 2000, ainda que com poucos officiaes, e muitos paizanos que ali estavam presos, até á conclusão da guerra; depois do que fui mandado servir para o primeiro batalhão de artilheria no Porto.

Organisados em 1834 os dois regimentos de artilheria de 16 baterias cada um, fui chamado á secretaria do regimento pelo major o faIlecido general José Gerardo Ferreira Passos, que me ordenou em nome do coronel (tambem já faIlecido, o visconde d'Ovar [António da Costa e Silva, 1.º Barão e 1.º Visconde de Ovar]), que escrevesse a minha historia desde que assentei praça.

No fim de três dias entreguei o meu trabalho, e fui promovido a 2.º sargento. para a 1.ª bateria a cavaIlo, com o qual marchei para Hespanha. 

Aqui teem os meus camaradas, as razões que houve para que eu, em 1835, só fosse 2.º sargento.

[...]

Elvas, 12 de Janeiro de 1879.

António Ribeiro da Fonseca

Tenente Coronel reformado.»


* * *

Retirado de Boletim do Arquivo Histórico Militar, 8.º volume, Famalicão, 1938, pp. 75-77.

Agradecimentos à Biblioteca do Exército.


Imagens:

Porta da Fortificação de de Almeida - ligação

Praça da República, antigamente Largo de S. Ovídio - ligação 

sábado, 22 de agosto de 2020

Transcripto: Os Dois Cavaleiros Portugueses (Torres Novas, 1834), por Cláudio de Chaby

 

A seguinte transcrição diz respeito a um episódio da Guerra Civil, contado por Cláudio de Chaby. Passa-se no início de 1834, em Torres Novas, e ilustra a monstruosidade do conflito civil  e, ao mesmo tempo, a perseverança do soldado português.

«Conservamos indelével a lembrança de um facto, por nós em parte presenciado, quando aos quatorze annos faziamos numero em campanha, das fileiras de um regimento do exercito constitucional. Era o dia 25 de Janeiro de 1834, a villa de Torres Novas então occupada por forças do exercito contrario, nas quaes entravam, cremos, alguns soldados do regimento de cavallaria de Chaves, caiu, quasi por surpreza, em poder das tropas pessoalmente commandadas pelo general marquez de Saldanha. O inimigo retirou sobre Santarem; o general Saldanha ordenou a perseguição da retirada, e ao nosso regimento, infantaria n.º 3, em marcha violenta, coube o auxiliar a cavallaria, que seguiu sobre os passos dos fugitivos.

Dispersos por extensos olivaes, procuravam escapar-se os dragões de Chaves a toda a brida, sendo de perto perseguidos pelos lanceiros da rainha; mas não soffrendo os animos portuguezes de alguns d'aquelles soldados, a vergonha de serem pelas costas tocado pelo ferro do inimigo, com a espada em punho volvem á frente, illustrando-se muitos em singulares combates, por uma briosa defensa até á morte.

Entre elles, um, depois de haver trocado com o adversarios varios golpes, com pulso robuto consegue de um bóte fazer voar pedaços a lança do competidor; este substitue a lança pela espada, e apeleja renova-se com tenacidade, terminando quando ambos, depois de horrivelmente mutilados, já sem forças, se deslizam dos cavallos baqueando exsangues sobre o solo!

Os rostos, os troncos e membros destes dois valentes, foram litteralmente cobertos de pontos no hospital da villa, e por uma fatal irreflexão, collocados os dois feridos em leitos contiguos.

No dia immediato, através de pequenas fendas que lhes deixavam a immensidade dos pontos pela qual tinham envolvidas cabeças e caras, lobrigam-se e quasi instinctivamente se reconhecem; abandonam então os leitos e agridem-se, despedaçam-se os apparelhos, rasgam-se de novo as feridas, e por ellas com o resto do sangue se lhes escôam as vidas, caindo cadaveres hum junto ao outro.

Em todo este procedimento singular dos dois soldados portugueses, há alguma coisa de repugnante e feroz, que parece ultrapassar os limites, para assim dizer da valentia racional; mas quanto não há tambem de respeitavel?»

* * *

Saiba mais sobre Cláudio de Chaby aqui [abre janela]


Transcrito de

CHABY, Claúdio de, Excerptos Históricos e Colleção de Documentos Relativos à Guerra Denominada de Peninsula e às Anteriores de 1801 e do Roussillon e Cataluña, (Volume I), Lisboa, Imprensa Nacional, 1863. pp. 247-248.

Imagem

- "Escola Prática de Polícia vista do Castelo", Torres Novas, com a vista dos extensos Olivais em torno da terra. Retirado da Wikicommons em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Escola_Pr%C3%A1tica_de_Pol%C3%ADcia_vista_do_Castelo.jpg