sábado, 23 de dezembro de 2017

Campo da Porcalhota: Setembro e Outubro de 1790


Com vista a reunir as forças militares do governo d’armas da Corte (Lisboa) e adestrá-las, realizou-se um campo de manobras na Porcalhota (hoje, o centro da Amadora), entre 23 de setembro e 22 de outubro de 1790, comandado pelo marechal de campo (hoje, major general) conde de Oeynhausen, Karl von Oyenhausen-Gravenburg (1739-1793) [na foto em cima]

A revolução francesa ainda incipiente na sua direção alterava o equilibrio europeu e inspirava o Exército Português a preparar-se para o que aí viesse. Este campo, assim como o realizado no Campo da Real Tapada, em Alcântara, em maio do ano anterior, fez ressurgir o hábito após algumas décadas, desde o último em Olhos de Água, em 1767. O bom hábito repetir-se-á em 1798 na Azambuja, com números nunca vistos de tropas envolvidas, em 1802, na Azambuja, e em 1806, em Vila Viçosa.



Com base na publicação desta descrição nos Quadros Navais do contra almirante Celestino Soares, adaptou-se o texto à ortografia moderna onde essencial à boa leitura, assim como notas essenciais para a identificação dos intervenientes e unidades:

Campo de manobras na Porcalhota, 23 de setembro [de 1790], (copia). – «Tendo-se por ordem suprema determinado que houvesse hum novo ensaio militar no campo da Porcalhota, no qual entrassem os regimentos de cavallaria de Mecklemburgo, e Castello Branco, e os de infanteria de Lancastre, Peniche, Lippe e Cascaes, com dois destacamentos dos de artilheria da côrte, e Estremoz, para manobrarem debaixo do mando do marechal de campo conde de Oeynhausen: ante ontem pela manhã se acampou ali este corpo de exercito depois de terem os regimentos de Mecklemburgo, Lippe e Cascaes, puxados pelo dito marechal, passado pelo real palacio de Queluz para serem vistos por S[ua]. M[ajestade]. e AA[altezas]., que depois se dignaram de vir ao campo para ver ali formada esta tropa, a qual logo que as reaes pessoas se retiraram procedeu a armar barracas.

26 de setembro: Depois que no dia 23 de setembro se acampou na Porcalhota debaixo do mando do marechal de campo conde de Oeynhausen, o primeiro corpo de exercito, dividido em tres brigadas, huma composta dos regimentos de Mecklemburgo e Castello Branco, commandada pelo brigadeiro João d’Ordaz de Queiroz (que desde o dia 25 de setembro ficou subdivivida em duas, huma commandada pelo dito brigadeiro, e a outra pelo brigadeiro conde de S. Lourenço) e duas d’infanteria, a da direita composta dos regimentos de Cascaes e Peniche, commandada pelo brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha, e a da esquerda, composta dos regimentos de Lippe e Lancastre, commandada pelo brigadeiro Luiz de Miranda Henriques, com o parque d’artilheria, commandado pelo sargento mór Henrique de Chateauneuf: os primeiros dias se empregárão na limpeza e regulação do campo.  

No dia 28 se formou esta tropa em linha de parada, para esperar a chegada de S. M. e AA. depois do que fez a infanteria fogo de alegria.
  
No dia seguinte trabalhou a brigada de cavallaria, e no primeiro de outubro a segunda das d’infanteria. 

A 5 se executou a primeira manobra geral, cuja supposição era que o inimigo vinha atacar a frente do campo, depois de ter constrangido todos os pontos avançados a recuar, e que a tropa devia recobrar todos os seus postos acoçado que fosse o inimigo, julgando-se inatacaveis os flncos do campo. 

Nos dias 6 e 8 trabalharam as brigadas separadamente.  

No dia 9 houve outra manobra geral, em que se moveo o exercito por columnas para tomar huma posição parallela ao lado em que se esperava a marcha das forças inimigas. No dia 12 houve um exercicio de todo o corpo de exercito.  

A terceira manobra geral se executou no dia 16, depois de se ter o campo augmentado com os dois regimentos de cavallaria de Caes e Alcantara: suppunha-se n’esta manobra que o inimigo estava postado no terreno entre Carenque e Ponte-Pedrinha, e que o general queria d’ali lança-lo fóra para formar no mesmo sítio o seu campo. Todas estas manobras, a que S. M. e AA. assistirão, com huma grande multidão de povo, se executárão completamente, da mesma sórte que os outros exercicios; e no dia 22 se levantou o campo.  


Em quanto durou foi S. M. servida mandar, desde 25 de setembro, duas vezes por semana, dar huma ração de tres quartas de carne e huma de arroz a todos aquelles que recebião pão da real fazenda, e desde o primeiro dia pão e ração extraordinaria aos cirurgiões e ajudantes dos seis primeiros regimentos, e soldo dobrado aos alferes, tenenetes e capitães, dos mesmos.»

Fonte: Quadros Navais, pp. 93-95


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Ordem de Batalha

Comandante
Marechal de campo Conde de Oeynhausen

Brigadas de Cavalaria
(Brigadeiros João d’Ordaz de Queiroz + Conde de S. Lourenço)
- Regimento de Cavalaria de Mecklemburgo [n.º 4, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria de Castelo Branco [n.º 10, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria do Cais (Lisboa) [n.º 7, pós 1806]
- Regimento de Cavalaria de Alcântara [n.º 1, pós 1806]

Brigada de Infantaria da Direita
(Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha)
- Regimento de Infantaria de Cascais [n.º 19, pós 1806]
- Regimento de Infantaria de Peniche [n.º 13, pós 1806]

Brigada de Infantaria da Esquerda
(Brigadeiro Luiz de Miranda Henriques)
- Regimento de Infantaria de Lippe (Lisboa) [n.º 1, pós 1806]
- Regimento de Infantaria de Lencastre (Lisboa) [n.º 16, pós 1806]

Para as manobras foram formados 2 batalhões de Granadeiros, tirados dos regimentos de infantaria. 

Parque de Artilharia
(Sargento Mor Henrique de Chateauneuf)
- destacamentos dos Regimentos de Artilharia da Corte [n.º 1, pós 1806] e de Estremoz [n.º 3, pós 1806], formando um corpo de 3 companhias de artilheiros, com o seguinte material: uma peça de 12, 6 de 6, e 12 de campanha de 3, 2 obuses e l morteiro.

EFETIVOS TOTAIS: 4,214


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Bibliografia

- GUIMARÃES, J. Ribeiro, Summario de varia historia: Narrativas, lendas, biographias, descripcões de templos e monumentos, estadisticas, costumes, civis, politicos e religiosos de outras eras (Volume 4), Rolland & Semiond, 1874. pp. 166- 178;

- SOARES, Contra Almirante Joaquim Pedro Celestino, Quadros Navais (VII Parte), Col. Documentos n.º 12, Ed. Ministério da Marinha, Lisboa, 1973. pp. 93-95

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