terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Campo da Real Tapada: Maio de 1790


No Campo da Real Tapada, na Ajuda, (referido também como de Alcântara) teve lugar de 20 a 30 de Maio de 1790 um exercício, ou brinco militar, como se dizia popularmente, onde se reuniram várias unidades, de infantaria e artilharia, sob o comando do tenente-general Luís António Guilherme de Valeré [Guillaume Louis Antoine de Valleré, 1727-1797, na foto, em cima]. 

Transcrito pelo ContAlm Celestino Soares nos seus Quadros Navaes, apresento uma descrição do campo de manobras da Real Tapada, na Ajuda. Antes, algumas observações que podem ajudar à compreensão do texto.

Na verdade, a descrição versa apenas sobre as manobras do Regimento de Infantaria de Minas (depois de Freire, de Lisboa, o futuro infantaria 4) e o 1.º regimento da Armada (que dá origem, com o 2.º, à Brigada Real de Marinha, em 1797, e ao Regimento de Infantaria de Lisboa, em 1801). 

Antes das manobras, o tenente general Valeré recebeu algumas instruções para as movimentações em brigada. A indicação que após a saída de Minas e do 1.º da Armada deste campo, o mesmo seria ocupado pelo Regimento de Infantaria de Setúbal, pelo que é de imaginar que o campo foi usado no adestramento dos vários regimentos do Governo d’Armas da Corte, com fortes preocupações de adestrar as movimentações de brigadas.

Fica a pequena coincidência que são membros do 2.º Regimento da Armada Real que vêm a formar o Regimento de Infantaria de Lisboa, o 24.º da infantaria de linha portuguesa, para permitir 12 brigadas completas, conforme a doutrina de 1801, com 4 batalhões cada.

Brinco
As manobras, especialmente as que ocorreram a 10 de Maio, consistiram na tomada de um reduto, construído para o efeito, por uma brigada, com uso das companhias de granadeiros (então 2 por regimento – em 1796, a segunda delas é substituída pela de Caçadores) como uma espécie de infantaria ligeira, na vanguarda. É de destacar a muito pormenorizada descrição do reduto que foi construído, com termos muito especializados, dando conta também do forte trabalho técnico que a artilharia e a engenharia vinham fazendo um pouco por todo o país.

Três meses depois, é organizado o Campo da Porcalhota [LER MAIS], com 2 brigadas de infantaria e uma de cavalaria, mais artilharia de Estremoz e da Corte.
Nos anos seguintes, a da Charneca de Sintra, em 1793 (presumivelmente com os 6 regimentos que constituíam o Exército Auxiliar ao Roussilhão) e finalmente o campo do Quadro, próximo da Azambuja, em 1798, onde as companhias de caçadores (criadas em 1796) fazem a sua estreia operacional, organizados em dois batalhões provisórios, prenúncio do seu uso posterior, após 1808.
Falaremos destas noutra ocasião.

TRANSCRIÇÃO

Primeiro campo de manobras, Lisboa, 18 de Maio de 1790 (cópia) – Havendo-se assignalado o sitio de Belem para ponto de reunião da Brigada composta dos dous Regimentos de infanteria de Minas e primeira Armada que, com dous destacamentos dos Regimentos de Artilheria da Côrte e Estremoz deviam acampar na Real Tapada d’Ajuda ás ordens do Tenente General Guilherme Luiz Antonio de Valeré: marcharam elles com effeito a 24 de Abril pela manhã para o dito sitio. Alli se formaram em columna, na frente da qual marchava o Quartel Mestre General do Campo, o Sargento Mór Engenheiro Theodoro Marques, com os seus ajudantes, e após estes os Porta-machados do Regimento de Minas, seguidos do General do Campo, com seu Ajudante General, e consecutivamente o Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha, com o Sargento Mór e Ajudante da Brigada; aos quaes todos precedia o destacamento d’Artilheria d’Estremoz com o seu parque. Seguia-se logo o Regimento de Minas, levando entre as suas Companhias de Granadeiros os Artilheiros, que servião duas peças de calibre de 3: e o destacamento de Artilheria da Côrte, com o seu parque, que constava de 8 peças de calibre de 6, e 2 obuzes: e em ultimo lugar hia o Regimento da primeira Armada com outro Corpo d’Artilheria tambem aos lados. 

Nesta forma subio toda a Brigada pela calçada d’Ajuda para ser vista por S. M. e AA. que a esperavam na janellas do Paço; e tendo entrado na Real Tapada, ahi se acampou em huma só linha, da mesma fórma que marchára, menos o corpo avançado d’Artilheria d’Estremoz que se postou em huma eminencia que domina aquelle lugar. Todos os dias que decorreram até 10 de Maio, em que se havia de executar o ataque, e tomada de hum reducto, construido na frente do primeiro acampamento, se empregárão na limpeza e regulação do Campo, e na direcção, e construcção de duas Flexas, que cubrião as frentes das guardas do Campo dos dous Regimentos d’Infanteria, e no exercicio pratico do serviço do Campo. Cada hum dos ditos Regimentos teve a honra de manobrar na presença das Pessoas Reaes, não só unidos, mas tambem separados; S. M. se dignou sempre de mandar agradecer aos Officiaes e Officiaes inferiores o desvelo que mostravão por satisfazer as suas respectivas obrigações.

N’aquelle meio tempo pois foi construido o sobredito reducto, ao qual se fizerão dous redentes, cobrindo-se a cortina que medeava entre elles com hum revelim, pelo qual tambem era defendida a entrada do mesmo reducto, que se guarneceo com cavallinhos de friza, tendo, aonde se julgava havia de ser atacado, seu parapeito, banqueta, berma, fosso, estrada cuberta e explanada: e explicado o uso de cada huma destas partes de fortificação em geral aos soldados que as defendião, se procedeo no dia 10 ao ataque, pelo modo seguinte.

Formados os Regimentos em batalha no segundo Campo, para onde precedentemente tinhão marchado, de cada hum delles se destinou por Companhias hum certo numero de praças que havião de ser os defensores do reducto, e em quanto estes se dirigião para a sua fortificação, marchavam os atacantes em tres columnas em ordem inversa á roda de toda a Tapada pra o lugar do ataque, havendo-se separado as Companhias de Granadeiros dos dois Regimentos para cubrirem as frentes das duas columnas. N’esta forma marchárão até encontrarem os postos avançados da guranição, que sendo desalojados pelas Companhias de Granadeiros, se retirávão em boa ordem para o interior da Praça. Protegidas as columnas, que marchávão na rectaguarda, pelos granadeiros, tiverão ellas tempo para se desenvolver, e formar em batalha no terreno que rodeava a fortificação; e immeditamente em ordem graduada atacárão a esta segundo as direcções das capitães dos redentes, avançando sempre até cubrirem a frente dos Granadeiros, os quaes para divertirem os sitiados, forão ataca-los pela direcção que fazia o angulo saliente da parte oriental; ajudou este estratagema os ataques formalisados, de sorte que então foi entrada a Fortaleza, sem que perdesse o acordo o seu commandante o capitão de minas D. Fernando Antonio de Noronha, pois o teve para se retirar em boa ordem até à eminencia que primeiramente occupára a artilheria d’Estremoz, sem embargo de o terem perseguido em toda a retirada, os granadeiros, que para este fim havião rodeado todo o contorno da fortificação.

Acabado este ensaio militar, passárão as tropas por diante de S. M. e AA. que, com huma grande multidão de pessoas da primeira nobreza, e outras gerarchias, estivérão presentes a este divertido espectaculo, por motivo do qual acudio igualmente immenso povo. Hé inexplicavel o contentamento que n’essa occasião mostrárão as pessoas reaes: tanto assim que, depois de terem os differentes corpos chegado ao terreno dos seus acampamentos, quizérão S. M. e AA. por bondade sua, testemunhar-lhes com carinhosas demonstrações de gosto a satisfação  que lhes causára o acerto com que acabavão de manobrar. N’aquelle dia não houve hum só accidente que perturbasse a alegria geral: o que assás prova o grande acordo dos officiaes nos seus mandamentos, e a boa vontade dos soldados na sua obediência. O general do campo agradeceo depois, em nome da rainha, aos officiaes o bem que tinhão servido n’este ensaio, expressando que a maior gloria de hum soldado era ver que o seu soberano se mostrava contente do seu bom serviço.

O dia seguinte, 11 do corrente, se empregou em reciprocos cumprimentos, despedindo-se os officiaes huns dos outros com uma cordealidade e ternura, de que talvez ha poucos exemplos entre os corpos militares. E depois de terem os dois Regimentos enfeitados os seos chapeos com ramos colhidos n’aquelle sitio, segundo a vontade de S. A. R. o principe N. S. sahio d’ali a brigada para se restituir aos seus respectivos quarteis, offerecendo huma divertida vista e ar de alegria com que voltávão os dois regimentos, seguidos de hum grande numero de carros todos enramados com as suas respectivas bagagens. Na tapada fórão elles revezados pelo regimento d’infanteria de Setubal.

Fonte: Quadros Navais, pp. 93-95


* * *

Em Maio de 1789, um ano antes, tinha havido na mesma tapada vários exercícios militares
O órgão oficial da corte, a Gazeta de Lisboa, publicou notícias desse campo de manobras.

LISBOA 26 de Maio.
Havendo a nossa Corte determinado que os Regimentos da Guarnição dessa capital , menos os de embarque, com os de Cascaes e Setubal, se acampassem dous a dous alternadamente em bellica disposição na Real Tapada, no dia 18 do corrente huma Brigada, composta dos Regimentos d'Infanteria de Peniche, e Albuquerque, e hum Destacamento de Artilheria, com 4 canhões, e 2 obuzes, depois de ter , com aquelles nos intervallos dos Regimentos , e estes nos lados, passado por baixo das janellas do Real Palacio d'Ajuda, aonde se achavão S.M. e AA., assentou o seu arraial, com esta mesma formalidade, no lugar indicado, debaixo do mando d'Antonio Franсо d'Abreu, Coronel do primeiro dos sobreditos Regimentos. No dia 22, achando-se ahi toda a Brigada formada em batalha, S. M. e AA. passarão pela frente, e forão recebidas com tres descargas geraes de mosqueteria e artilheria. O Principe N. S. depois andou examinando todo o campo com muita miudeza, e entrou a pé nas fileiras, mostrando por este modo que não he menos instruido na Arte Militar do que nas outras sciencias, a que se tem applicado com grande fruto. Tão satisfeito ficou S. A. R. de ver os bem executados movimentos da referida Brigada , que deo huma grande porção de dinheiro para se repartir pelas Tropas: acção que caracteriza a singular generosidade de que he dotado.
(Gazeta de Lisboa, n.º 21, 26 de Maio de 1789.)


LISBOA 12 de Junho.
Tendo S. M. e AA , e toda a Corte no dia 8 do corrente de tarde concorrido á Tapada Real, aonde se achava disposta para levantar o campo a Brigada formada dos dous Regimentos de Peniche e Albuquerque, entrou ahí ás 5 horas a segunda , destinada para a revezar, comporta dos Regimentos de Cascaes e Lippe; e depois de terem ambas estas Brigadas, após huma salva d'artilheria, dado as competentes descargas de alegria , sahio a primeira para se recolher aos seus respetivos quarteis , e a segunda procedeo logo a formar o seu acampamento. A assistencia da Real Familia, e da primeira Nobreza que a acompanhava , como tambem a boa ordem das tropas, tornárão esta militar scena summamente brilhante
e vistosa.

(Gazeta de Lisboa, Suplemento ao n.º 23, 12 de Junho de 1789.)


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Ordem de Batalha

General do Campo
Tenente General Guilherme Luiz Antonio de Valeré

Quartel Mestre General do Campo
Sargento Mór Engenheiro Theodoro Marques

Brigada de Infantaria
Brigadeiro D. Francisco Xavier de Noronha 
- Regimento de Infantaria de Minas (Lisboa) *
- 1.º Regimento de Infantaria da Armada **

- destacamentos dos Regimentos de Artilharia da Corte e de Estremoz.

Forças Oponentes (Reducto)
Capitão D. Fernando Antonio de Noronha

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Notas

* O futuro Regimento de Infantaria n.º 4, em 1806, começou por ser o Terço Novo da Côrte em 1659, tendo tomado, ao longo da sua história, o nome de alguns dos seus comandantes: Marquês de Minas, Conde do Prado, Gomes Freire. 
** Extinto em 1797, muitos dos seus quadros, assim como do 2.º regimento da Armada, foram integrados na Brigada Real de Marinha. Os restantes entraram no novo Regimento de Infantaria de Lisboa, depois n.º 10, quando o mesmo foi criado em 1801, como 24.º regimento da linha, de forma a permitir o embrigadamento de todos os corpos.

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Bibliografia

- SOARES, Contra Almirante Joaquim Pedro Celestino, Quadros Navais (VII Parte), Col. Documentos n.º 12, Ed. Ministério da Marinha, Lisboa, 1973. pp.91-93

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