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| Cacilhas |
[Memórias de Francisco José de Almeida, soldado Liberal]
23.7.1833 | «Os combates e bombardeamento à cidade do Porto, esse baluarte invencível da liberdade, sucediam-se sem interrupção. O valor e constância com que os miguelistas eram repelidos, e o desdém e a indiferença com que eram recebidas as suas bombas e granadas, tirara aos sitiantes toda a esperança de vencimento, e isso fazia com que perdes, sem a força moral no razão direta em que os sitiados a ganhavam.
O governo do Porto resolveu alargar as suas operações e vir sobre Lisboa, se fosse possível. Para comandar tão arrojada expedição, era necessário nomear um herói, e por isso foi para esse fim nomeado o Conde de Vila Flor, que tinha a seu serviço o valor, e a vitória.
Organizada a expedição, pequena em número de homens grande porém em valor e heroicidade, veio desembarcar ao Algarve, e marchou até ao Alfeite com mais rapidez, do que poderia contar se, chegando ali no dia 23 de julho de 1833, à 1 hora da tarde.
Nesse mesmo dia, pela manhã, tinha eu atravessado o Tejo para a outra banda, com o fim de apresentar-me, logo que a expedição chegasse àquele ponto, como voluntário, o que fiz incorporando-me ao batalhão de caçadores n.º 2, de que era comandante o sr. Romão José Soares, e na companhia, de que era capitão o sr. Silva, hoje general.
A divisão, ou expedição, compunha-se de mil e tantos homens, com duas peças de artilheria de montanha, servidas pelos bravos académicos, entre os quais se contavam o meu nobre amigo José Silvestre Ribeiro, o sargento Pina Cabral, Leitão, Coelho de Campos. Mattos e Carvalho e outros, e de 9 ou 11 lanceiros, mal montados, e comandados pelo destemido e simpático oficial Lopes, conhecido pelo cognome de Russo.
A força dividiu-se em duas colunas, marchando uma para o lado da Piedade, e outra, a de que eu fazia parte, tomou o caminho do Caramujo, vindo postar-se aquém da da [sic] ponte de Mutela. Na nossa frente, e além da ponte. estava postada uma força respeitável de cavalaria n.º 7, a qual, depois do fraco tiroteio que teve lugar na Cova da Piedade e de 3 ou 4 tiros do castelo de Almada, fez três direita e evadiu-se pela azinhaga que vai a Almada. Desembaraçada a frente, marchámos até Cacilhas, encontrando, juntas ao poço, 2 peças voltadas para a nossa frente, e que eu, ainda que queira, não posso dizer como é que foram voltadas para o lado contrário, tal foi a rapidez com que foram tomadas!
Chegámos ao cais de Cacilhas. A desordem dos miguelistas era completa: os soldados queriam embarcar de tropel nos poucos barcos que haviam [sic], e ameaçavam com tiros os que estavam ao largo e conduziam o batalhão de voluntários realistas, de Sintra, que cobardemente obrigava os barqueiros a retrogradar, abandonando assim os seus camaradas a quem ia para socorrer!
No cais, brigando com um cavalo que queria obrigar a embarcar, estava um oficial, que depois me disseram que um soldado do 3 de infantaria tinha dito ser Telles Jordão, e a quem, por isso, o comandante Romão José Soares acutilara no lugar onde hoje, na cortina do cais, existe uma cruz, para mostrar que foi ali que teve o seu merecido fim o tirano da torre de S. Julião.
Veio a noite, e aquele simulacro de combate cessara, ficando mais gente prisioneira do que era aguda que a tinha aprisionada!
E, fugindo, felizmente. para Lisboa o filho de Telles Jordão, veio, todo alterado e horrorizado, espalhar nos bravos que cá estavam, o terror dos fracos que estavam lá, para depois, por prudência, fugirem todos.
O louco entusiasmo que nessa noite se desenvolveu naquele sítio entre as falanges liberais, o grande número de prisioneiros que se haviam feito, e sobretudo a excessiva liberdade a que os soldados se entregaram, foram cousas que poderiam ser altamente funestas para o final bom êxito da expedição, se o inimigo pensasse mais em avançar do que em retirar!
O que nessa noite se passou é de todos sabido e é, por isso, ocioso repeti-lo; e mesmo porque o entusiasmo, a alegria e franqueza, que nessa noite se manifestou em Almada e Cacilhas, não é possível descrever-se e nem se acreditaria hoje.»
Francisco José de Almeida, Apontamentos da vida d'um homem obscuro: escriptos por elle mesmo, Lisboa, Typ. de João Carlos d'ascensão Almeida, 1880. pp. 170-172
Imagem: Cacilhas vista do Tejo, xilogravura. Autor: João Pedroso, 1846. Revista O Panorama, n° 18, 1847.

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