quinta-feira, 25 de julho de 2019

Memórias: Expedição do Algarve, Junho de 1833 (coronel João Pedro Soares Luna)



«[...] Nós estavamos no mês de Junho de 1833. Falava-se de uma expedição. Diferentes eram as opiniões a tal respeito: uns olhavam uma tal operação como inútil, visto que o reino todo estava ocupado pelas forças do tirano, mas esta opinião, necessariamente deverá ter a sua origem nas almas fracas e indignas da glória que só pertence às almas nobres, àquelas que não especulam com a nação, àquelas que apreciam mais a honra que a poltronice. Totalmente oposta era a opinião daqueles a quem hoje se nos chama = irracionais, inimigos da ordem, desordeiros, republicanos, e … nós, que não tendo a vida para contrato, mas sim para a dedicarmos à pátria, ansiosos desejávamos que se tentasse algum meio que proporcionasse à nação a ocasião de se desafrontar, pois que então tínhamos forças bastantes para defender a Cidade Eterna [Porto], e igualmente para um tal fim. Diversas eram igualmente as opiniões acerca do destino da expedição, mas seja-me permittido dizer, em tais casos todas as opiniões devem ser ouvidas por aquele que comanda, e ele só deliberar depois a que melhor convier adoptar. Ao passo que, julgo conveniente o então se espalharem todas essas opiniões com o fim de ter o inimigo incerto acerca de qual delas se adoptará, o que o obrigará a ser-lhe necessário uma força tal que talvez não possa pôr em acção.
[...]

Decidiu-se pois o sair a expedição; eu tive a glória de ser nomeado para fazer parte dela, permitindo-se-me levar cinquenta dos meus nobres companheiros: igualmente recebi ordem para levar quatro peças de artilharia de montanha, para o que deveria imediatamente passar ao trem dos Congregados, e tornar a receber o material competente daquelas; material que já havia entregado. Passei logo a cumprir esta ordem, mas já então não achei nada do que me convinha receber, graças às previdentes ordens que havia recebido para fazer a dita entrega... Quem comanda, desgraçadamente está sempre convencido que nunca erra...

Não me foi necessário nomear os dignos académicos que me deveram acompanhar. Sabido por eles que eu marchava, e que se me permitia levar uma parte do bravo corpo do meu comando, voluntária e espontaneamente se me ofereceram a maior parte dos valentes académicos. Foi para mim bem sensível o não poder nomear todos os oferecidos, depois da preenchido o número que me foi marcado. Feita pois a nomeação marchámos para a Foz, aonde se me apresentou o 2.° Tenente José Maria de Pina, comandando alguns artilheiros de linha, todos para ficarem debaixo do meu comando. (*)

(*) Recordo-me que por eu ter declarado que podia passar sem aquela força, o que efectivamente aconteceu logo, fazendo recolher parte dela ao seu corpo; o comandante geral de Artilharia me oficiou a esse respeito, fazendo-me responsável por toda e qualquer falta que houvesse em razão ao não ter artilheiros, mas eu nada tinha a recear, porque já conhecia os académicos. Sua Senhoria não teve nunca que punir a minha confiança, a qual como deixo dito, não tinha limites, comandando os homens que eu comandava.

Comigo foi igualmente um dos meus dignos oficiais. O nome deste, e dos bravos académicos que me acompanharam são os que se seguem :

Capitão de Artilharia João António Lobão.

Académicos:
2.° Sargento N.° 2 João Gualberto de Pina Cabral.
Cabo de Esquadra N.° 7 Albino Garcia de Mascarenhas.
N.° 9 Diogo Maria Vieira e Silva.
N.º 11 Avelino Eduardo da Silva Mattos.
Soldado N.º 15 Domingos Maria Loureiro.
N.º 21 José Maria Mendes Diniz.
N.º 24 Francisco Maciel Monteiro.
N.º 28 Jaime Garcia de Mascarenhas.
N.º 29 António Abranches Coelho.
N.º31 Simplício de Moura Machado.
N.º 34 António Joaquim Aleixo.
N.º 41 Estevão Joel Augusto.
N.º 42 Thiago da Silva Monteiro.
N.º 43 José Custodio da Costa Louraça.
N.º 44 Ignacio Fiel Gomes Ramalho.
N.º 48 José António Affonso Dias Veneiros.
N.º 49 Francisco de Souza Monteiro.
N.º 50 Francisco José Rodrigues Queiroz.
N.° 51 Estevão d'Assis e Souza.
N.° 56 Joaquim Pinheiro das Chagas.
N.° 62 António Maria Tovar.
N.° 63 Ernesto Augusto Zuzarte.
N.° 66 António José Barboza.
N.° 68 Thomaz d'Aquino Nogueira.
N.° 73 António Xavier Pinto.
N.° 79 José Silvestre Ribeiro.
N.° 81 José da Costa Pinto Bastos.
N.° 82 Theotonio Zuzarte.
N.° 88 Manoel António de Moura Cabral.
N.° 93 João Pedro Lecór.
N.° 102 Bazilio Cabral Teixeira.
N.° 103 José Maria Rojão.
N.° 113 Bernardo Coelho do Amaral.
N.° 116 Agostinho José da Silva Guimarães.
N.° 124 Francisco Ignacio Cid.
N.° 126 José Joaquim Alves de Mello.
N.° 127 António de Sá Ramalho.
N.° 130 Joaquim Cardoso Carvalho e Gama.
N.° 131 Manoel Dias Peixoto.
N.° 132 João Carlos Pimentel.
N.° 136 José Maria Corrêa Durão.
N.° 144 Bernardo Joaquim Carneiro.
N.° 146 Ernesto Adolpho de Freitas.
N.° 148 António Pereira Leitão.
N.° 150 Manoel José Mendes Leite.
N.° 151 Domingos de Saldanha Oliveira.
N.° 152 D. Francisco de Menezes Britto.
N.° 153 Francisco Maria do Carmo.
N.° 155 João Baptista Ferreira.
N.° 156 Manoel Vaz Lobo de Souza.
N.°157 João Pedro Fernandes Thomaz. (*)

(*) Além dos académicos acima relacionados, os académicos N.° 89, Manoel António Vellez Caldeira Castel-Branco, e N.° 98 , Lourenço de Oliveira Grijó, o primeiro empregado junto ao nobre Duque de Palmela [marechal de campo Pedro de Sousa Holstein, 1.º Duque de Palmela (1781-1850), 1.º duque de Palmela], e o segundo, desde longo tempo em comissão a bordo da esquadra, sempre que entramos em atitude de combate, reuniam-se aos seus companheiros, (com as armas na mão); o que efectivamente praticaram até separarem-se de nós, em virtude das suas comissões.
Igualmente devo declarar que tendo eu ficado governador militar da cidade de Faro, ali se me apresentaram os académicos N.º 30, Diogo António Palmeiro, N.° 75, Júlio Gomes da Silva Sanches e N.° 158, Emigdio José da Silva; este último com destino para se apresentar ao General Brito [brigadeiro António Pedro de Brito Vila Lobos (1782-1841)], e os dois primeiros ficaram em Faro, aonde prestaram relevantes Serviços, até que novamente regressaram para o Corpo.

Duque da Terceira (John Simpson, 1834)
Sabido é que o comando geral da expedição foi dado ao nobre Duque da Terceira [tenente general António José de Sousa Manuel de Meneses (1792-1860), 1.º duque da Terceira], o que nos causou o maior prazer, pois tornámos a ver à nossa frente o valente soldado que nos tinha comandado nos Açores, e conduzido ao glorioso combate da Ladeira da Velha [3/8/1831], na ilha de S. Miguel. 

O nobre Duque da Terceira (justiça é confessá-lo) pela sua urbanidade e maneiras com que tratou sempre aqueles que fomos seus companheiros na emigração, e seus subordinados no campo da honra, pelo valor que desenvolvia, em suma, pela muita confiança que depositávamos em Sua Ex.ª; deve lisonjear-se que desde logo nós todos contamos com a mais feliz vitória, fosse qual fosse o destino a que S. Ex.ª nos levasse.

É do meu dever declarar que naquela ocasião fui mandado como oficial de artilharia que sou, e encarregado do comando da minha arma na Expedição Libertadora.

O estado da Foz continuava a ser o mesmo que já deixo descrito. Ali cheguei pois, e imediatamente fiz embarcar as quatro peças de artilharia de montanha, com o seu competente material, o que tudo foi para bordo de um dos navios de transporte que fazia parte dos do comboio; embarque que se efectuou debaixo do risco com que todos os embarques então se praticavam.


Castelo de S. João da Foz, no Porto. (fotografia de Henrique Matos, Wikicommons)

Recebi, na Foz, 200 000 cartuchos de infantaria, embalados, os quais me foram mandados da cidade para serem embarcados, assim como muitos milhares de pederneiras. Requisitei logo alguma casa aonde pudesse recolher o dito cartuchame, com alguma segurança para dali o fazer embarcar. O General Cabreira [brigadeiro Diocleciano Leão de Brito Cabreira (1772-1839)], a quem fui logo apresentar-me, e a quem estavam dadas as ordens a respeito do embarque, conheceu bem a minha justa requisição, mas como satisfazer-ma? Casa com alguma segurança, e a abrigo de qualquer acidente desastroso na Foz, aonde encontrá-la naquela época? S Ex.ª me autorizou para eu mesmo ir indagar aonde poderia ser recolhido o dito cartuchame com as vantagens necessárias, isto é, segurança dos incêndios, e facilidade de poder embarcar.

Em quanto à segurança dos incêndios, nem uma só casa descobri que estivesse a esse abrigo, ainda mesmo que ficasse fora da facilidade do embarque. Então assentei (e felizmente acertei) que a casa mais próxima ao rio, no ponto do embarque, era aquela de que devia lançar mão. Assim o executei, e para ela fiz logo conduzir a parte do cartucha que até então se achava na rua a céu descoberto: ali continuei a receber o resto. Acredite-se-me, ainda hoje tremo ao lembrar-me do risco em que então estive, pois que durante os dias que nos demoramos na Foz, o meu quartel foi na mencionada casa aonde tinha os 200 000 cartuchos; estando a toda a hora e a todos os momentos exposto a ser vítima, porque o inimigo não só nos atormentava com os tiros de peça e fuzilaria, mas igualmente com os repetidos tiros curvilíneos! Repito: eu dava mil parabéns à minha resolução em ter escolhido a dita casa junto à borda do rio, porque antevi que os tiros curvilíneos do inimigo, ele os não queria perder lançando as bombas e granadas áquele ponto (por não correr no risco de que tais projécteis caíssem no rio) enquanto que lançando-os sobre a povoação, sempre contava com fazer-nos algum estrago.

Estou capacitado que se o inimigo adivinhasse aonde eu tinha o mencionado cartucha, ele procuria fazer o seu dever (sejamos justos para com todos). Muitas vezes aconteceu estar eu e o 2.º Tenente Pina de Artilharia, sentados sobre os barris onde tinha o cartuchame, e as bombas e granadas rebentarem a pequena distância (mas sempre para o interior da povoação) da casa que ocupava. 

Várias noites tentámos o embarque das ditas munições. Julgue-se do nosso trabalho e risco. Eu e os meus beneméritos académicos, assim como o pequeno número de soldados de artilharia com que tinha ficado, éramos quem levamos os barris até ao ponto do embarque, e algumas vezes tivemos que tornar a conduzir aqueles para a dita casa, por ser absolutamente impossível o embarcarem, tudo devido ao terrível fogo dirigido pelos inimigos.

Concluiu-se afinal o embarque das munições, isto é, conseguiu-se o porem-se a bordo dos navios que nos deveram conduzir, mas a confusão indispensável em tais occasiões, fez com que uma grande parte das munições não fossem embarcadas nos navios que para isso se tinham nomeado. Porém ninguém podia responder por aquela falta, porque ela foi filha da extrema necessidade, em consequência do tempo que obrigou a levantar alguns navios, no número dos quais entraram os destinados para a condução das munições, e então forçoso foi o metê-las a bordo das outras embarcações.

Começou o embarque das tropas desses bravos a quem estava reservada a glória de virem abrir as portas da capital do reino! Embarquei pois com os meus valentes companheiros para bordo da fragata Rainha, aonde igualmente embarcaram os Nobres Duques, da Terceira e de Palmela , assim como o estado maior da divisão, e mais pessoas adjuntas aos nobres duques. Custará a acreditar, mas desgraçadamente nós os académicos fomos o mais mal tratados possível a bordo da dita Fragata!

O alojamento que se nos deu, quem o acreditará?! Foi na coberta junto à câmara; uma vela da fragata separava o pequeno intervalo que ocupam duas peças, (destinado para cinquenta e tantos homens de bem, votados a salvarmos a pátria!) do intervalo imediato aonde estavam os doentes de cólera, e para cúmulo de maior falta de consideração, os marujos que eram castigados com grilhões aos pés, eram mandados sofrer o dito castigo junto ao nosso infame alojamento! Custa-me a usar de tais expressões, mas como faltar à verdade?!

Como era do meu dever, fiz constar ao nobre duque, quanto deixo dito, assim como que, não tendo nós levado os nossos criados, não tendo meios de mandarmos cozinhar a triste ração que nos davam a bordo, em suma, faltando-nos a própria agua, forçoso era tomar-se alguma providência. 

O almirante Napier [almirante Charles John Napier (1786-1860)] deu efectivamente as suas ordens para que fossemos o mais bem tratados que pudesse ser, mas o oficial do detalhe iludiu sempre os bons desejos do almirante, e nós nunca fomos mais mal tratados em viagem alguma! Porém nossa constância jamais se enfraqueceu. Sempre superiores aos comodistas, jamais em nossa presença aqueles se atreveram a blasonarem do que não praticaram. É nosso dever desmascarar os impostores.

Graças ao que cada um de nós tinha podido levar para comermos, a não ser isso, maiores seriam as privações que sofremos. Lembrar-me-ei sempre das noites que dormimos sobre a tolda, por não cabermos todos em baixo (no já dito pequeno espaço que nos deram). Parece-me estarmos ainda cobertos com a imensa vela, e ali nos entregarmos ao sono como se estivéssemos sobre fofas camas! Quem acreditará que deitados sobre o duro taboado da tolda, vestidos, e com tanto incómodo, nós nos aborreciamos por sermos obrigados a levantar-nos antes do romper do dia, pois que desde então começava a baldeação da Fragata (*). Tanto pode o amor da pátria!

(*) Quantas vezes eu e os meus companheiros, ao levantarmo-nos, tanto de cima da tolda como do infame alojamento que nos deram, nos achámos pegados ao tabuado por efeito do alcatrão espalhado, nas costuras do dito tabuado?! 
Detestáveis devoristas, dizei, aonde sofresteis mais incómodos dos que sofreram os meus beneméritos académicos ?!

Já embarcados, mas ainda à vista da Cidade Eterna, nós olhávamos para seus muros [para sempre respeitáveis] e com saudade que não se explica, nós nos lembrávamos dos seus valentes defensores, nossos companheiros de armas; e bem assim dos heróis portuenses, que tanto merecem da pátria agradecida.

Levantou-se em fim o ferro, soltou-se o rumo, e aos incómodos que já deixo notados, juntou-se aquele do enjoo, moléstia quase geral nos primeiros dias de viagem.

Navegamos pois correndo ao longo da costa, passando à vista de todos os portos que desde o Porto se encontram, navegando para o Sul. Nos primeiros dias, nós ignorávamos aonde desembarcariamos, e quando os navios pairavam em frente de algum porto, os desejos que nós tínhamos de saltar em terra, é bem de presumir quais eles seriam, mas não vendo tomarem-se as disposições indispensáveis para o desembarque, forçoso nos era ir sofrendo o que já fica dito, e assim iamos pondo o inimigo em alarme. Passámos pois o Cabo da Roca, conhecemos então que ao Algarve é que nos dirigiamos. Prospera e felizmente passamos o Cabo de Espichel. Desde então, a todos os momentos esperávamos emproar à terra.

No dia 24 de Junho de 1833 , depois de havermos passado como em revista de grande parada, junto a todas as povoações marítimas do risonho Algarve, fomos desembarcar na praia de Cacela, entre Tavira e Vila Real de Santo António.

O inimigo teve ainda o arrojo de nos dirigir alguns tiros de Artilharia (disparados do Forte da Conceição), mas imediatamente de bordo das nossas embarcações se lhes correspondeu com terríveis bandas de Artilheria, o que fez logo calar o fogo inimigo, e nós efectuamos o nosso desembarque sem a mais leve oposição.

Pouco depois de estarmos em terra, apareceram muitos habitantes de Vila Real de Santo António, dando positivos sinais do prazer que tinham em nos ver ali, e para os libertarmos. Animados aqueles habitantes dos mais patrióticos sentimentos, partiram para a dita vila a fim de se reunirem, e armarem, para unidos a nós defenderem a pátria até então escravizada. Ali se me apresentou um sargento de artilharia, o qual se ofereceu para ir levar umas cartas que eu tinha escrito a bordo, as quais lhe entreguei, e aquele partiu logo.(*)

(*) Estando ainda a bordo da fragata, mas já para desembarcar, escrevi algumas cartas com o fim de ver se poderiam ser entregues a oficiais de artilharia que sabia serem dotados de bons sentimentos, e que por certo aproveitariam aquela ocasião para se unirem a nós. Aos nobres duques dei conhecimento das ditas cartas. S. Ex.ªs me autorizaram para que, em nome da nossa adorada rainha, assegurasse às pessoas a quem me dirigi, que a protecção lhe seria dada, assim como a todos que viessem unir-se a nós.

Depois de haver desembarcado toda a Divisão Libertadora, apesar ser já de noite, marchámos com direcção a Tavira, mas tendo andado algum terreno fizemos alto, e bivacámos no campo, passando logo a cozinharmos o inseparável amigo Bacalhau que se nos tinha distribuído a bordo antes de saltarmos para terra. E mesmo para que a tropa tivesse algum descanso, pois era de presumir que o rebelde Molelos [marechal de campo Francisco de Paula Vieira da Silva Tovar (1774-1852), 1.º visconde de Molelos, governador de armas do Algarve] nos quisesse disputar a entrada em Tavira.

Antes que rompesse o dia, a Divisão Libertadora pegou em armas, e na melhor ordem fomos mandados marchar; ao amanhecer estávamos próximos ao sitio denominado Almargem, aonde os inimigos nos esperaram, persuadidos de que estando senhores daquela posição nos poderiam fazer frente! Apenas nos avistaram, começaram logo a dirigir-nos tiros de Artilharia (segundo o seu costume a grandes distâncias, e nós marchando para eles, mas sem ainda havermos passado da coluna de marcha para a ordem de ataque.)

Os bravos batalhões de caçadores, que iam na frente, apenas deram vista daqueles escravos postados além da ribeira do Almargem, impacientes por lhe fazerem custar cara semelhante ousadia, romperam o fogo, marchando com tal denodo, que apesar da ribeira (a qual passaram dando-lhe a água por cima da cintura) que tinham na sua frente, nada foi bastante para deixarem de pôr em completa derrota os vis escravos do usurpador, os quais desapareceram com tal velocidade, que nunca mais os tornámos a avistar! O inimigo deixou em nosso poder duas peças de artilharia volante, uma de calibre 3 e outra de calibre 6.

Quando teve lugar o arrojo dos bravos batalhões de caçadores, o resto da divisão, apesar de marchar com igual valor, já não podemos ver se não um ou outro desgraçado rebelde correndo na mais desordenada fuga, e salvando-se da morte, embrenhando-se por entre o denso arvoredo dos risonhos campos de Tavira.

A Divisão tendo já passado o Almargem fez alto, enquanto uma força de caçadores (que tinha sido mandada em seguimento do inimigo) não recolheu. Passado algum tempo, recolheu a dita força, e a divisão continuou a marchar (na mesma ordem triunfante, em que até ali tinha marchado) em direcção à cidade de Tavira, aonde entrámos nesse mesmo dia, 25 de Junho de 1833, sem obstáculo algum.


Ribeira da Almargem, Tavira (fotografia de Digfish, Wikicommons)


A Cidade estava quasi deserta! O inimigo, assaz poderoso em embustes, tinha feito espalhar tal terror entre os habitantes daquela, que a maior parte deles (de ambos os sexos) tinham desamparado suas casas e fugido para o campo.

Informado o nobre Duque da Terceira de que o inimigo continuava a retirar-se na mais desordenada fuga, e em direcção à cidade de Faro, determinou que a Divisão Libertadora se aquartelasse na Cidade. (§)

(§) Como tinha por costume, acompanhado por um dos membros da Câmara [homem respeitável a todos os respeitos sociais e liberais] fui aquartelar os mais dignos companheiros, depois do que exige igualmente o ser aquartelado.
Conservarei sempre em memória o que então me foi dito pelo respeitável ancião que me acompanhava, e foi o seguinte: “O Senhor Doutor mór. há-de vir para minha casa. Convite que de bom grado aceitei, e ali fui o mais bem tratado possível. Devo igualmente declarar que, desde que em Junho de 1832, tinha partido da Ribeira Grande [na Ilha de S. Miguel], foi só na noite de 25 de Junho de 1833 que me deitei em cama de lençois.

Na tarde do dia 25 de Junho de 1833, na casa da Câmara da cidade de Tavira aonde compareceram os nobres Duques da Terceira e de Palmela, acompanhados de todos os comandantes dos corpos da Divisão Libertadora, oficiais da mesma, e pessoas de distinção da terra, que haviam ficado em suas casas, foi aclamada Sua Magestade Fidelíssima a Senhora Dona Maria 2.ª e a Carta Constitucional, o que se fez público, estando arvorado o estandarte nacional em uma das sacadas da Câmara, passando depois todos os concorrentes a assinarem aquele solene acto.

Ao romper do dia 26 do dito mês e ano, a Divisão, depois de pegar em armas, foi mandada marchar em direcção à cidade de Faro. Nossa marcha jamais foi alterada. O inimigo havia-se apoderado de tal terror, que apesar de não ser perseguido – com a Espada sobre os rins – todo o campo lhe parecia pouco para o deixar livre à nossa marcha triunfante.

Marchámos pois na melhor ordem possível. A estrada que desde Vila Real de Santo António corre para o Norte do Algarve, além de ser a mais pitoresca pela agradável vista dos campos do litoral do Reino do Algarve, aquela corre quase paralela ao oceano, que ali banha as férteis margens daquele reino.

Nós marchávamos na melhor ordem. Do mesmo modo, sobre o nosso flanco esquerdo, e nas águas do oceano navegava (na mesma direção para o Norte) a nossa esquadra. Raras vezes se apresentará um quadro mais brilhante e vistoso: duas divisões, uma terreste e outra marítima, marchando e dirigindo-se paralelamente à vista uma da outra, e ambas para o mesmo fim, aquele de libertarmos a pátria oprimida pelo mais cruel dos tiranos. 

A Divisão Libertadora fez alto sobre a estrada, quase à vista da povoação denominada Fuzeta. Recebi ordem para com o distinto corpo do meu comando ir reconhecer a dita povoação, o que efectuámos, tendo a satisfação de vermos vir para nós os habitantes daquela, os quais abençoando a nossa vinda, davam repetidos vivas à Divisão Libertadora. Fácil é de crer que nós entrámos na dita povoação como em romaria. 

Eu passei logo a tomar conhecimento do estado em que se achava a fortificação que ali existe. Os meus dignos companheiros, que haviam ficado na povoação, passaram logo a fazer arranjar alguma coisa para comermos, o que em breve se prontificou. Voltei do forte aonde tinha ido, e então reunidos os habitantes da Fuzeta em um largo, ali se aclamou a rainha e a carta. Depois do que o académico Lourenço de Oliveira Grijó falou àqueles habitantes, mostrando-lhe a que nós íamos, e o que era de esperar que eles fizessem. Nós pagámos generosamente quanto tínhamos comido. Aquela povoação é composta quase toda de pescadores, e sabido é a triste sorte desta miserável classe.


Marina de Olhão (fotografia de Juntas, Wikicommons)

A Divisão Libertadora havia continuado a marchar em direcção à notável vila de Olhão. Digo notável vila de Olhão, porque a justiça pede que eu aqui diga o que então seus decididos habitantes já haviam feito. Aquele povo de heróis, antes da Divisão Libertadora ali chegar, e ainda quando o rebelde Molelos se achava em Tavira, já haviam aclamado a rainha e a carta constitucional. Isto quando ainda se achavam entre os inimigos comandados pelo seu chefe, Molelos, e aqueles que haviam ficado em Faro, cidade que dista uma légua daquela povoação! Honra pois aos valentes olhanenses. Eles deram logo uma prova do quanto se podia contar com a sua cooperação. A sua valente conduta bem mostrava então, e dali por diante quanto são dignos de louvor por seus heroicos feitos. 

Quando partimos da Fuzeta, já o fizemos indo embarcados até Olhão, aonde desembarcámos, e aonde passei a aquartelar os meus companheiros. É do meu dever mencionar igualmente o prazer e bom acolhimento com que fomos recebidos por aquele povo de heróis. Todos à porfia se esmeraram em nos tratar bem, e em todos se manifestava o mais nobre entusiasmo pela liberdade legal.

Começaram então a apresentar-se-nos muitos dos indivíduos que haviam desamparado o rebelde Molelos. A Divisão Libertadora tinha recebido ordem para acampar, e ali passámos a noite.

Ao romper do dia 27 do dito mês e ano, a Divisão Libertadora, depois de haver formado, continuou sua marcha triunfante sobre a cidade de Faro. Durante aquele trânsito fomos sempre recebendo imensos apresentados que haviam podido fugir das fileiras dos rebeldes. 
Por aqueles soubemos que o rebelde Molelos tendo convocado um conselho, sobre se se deveria ou não fazer forte em Faro, optou pela negativa, e havia abandonado aquela cidade, depois de haver mandado inutilizar toda a artilharia, pólvora, oficinas do Trem, e de haver chamado a si os dinheiros publicos. 

Entrámos em Faro. Segundo o meu costume passei a eu mesmo ir aquartelar os meus dignos companheiros, depois do que fui igualmente para o quartel que se me deu.
De tarde passei logo a ver o estado em que se achava o Trem, e mais depósitos militares. Tive a satisfação de achar as oficinas do Trem, prontas a nelas se poder trabalhar, o que foi devido ao patriotismo do seu director, e ao bom espirito dos operários, os quais poderam iludir as terminantes e ameaçadoras ordens que tinham recebido do rebelde Molelos, inutilizando tão somente objectos que para nada prestavam já.


Na manhã do dia 28 do mesmo mês e ano, estando já com o corpo do meu comando, formado no largo da Sé de Faro,  para segundo as ordens que recebesse, executá-las, foi então que o nobre Duque da Terceira me nomeou para ficar governador de Faro, e encarregado de várias comissões, sendo a mais importante o prover a Divisão Libertadora de munições de guerra, artilharia, etc., etc. 
Bem queria eu não largar os meus dignos companheiros, mas, alem de ser mandado, a quem se não a mim (então) pertencia o desempenho de tais comissões? O Capitão Lobão havia, em Tavira, dado parte de doente. O meu cuidado limitava-se então a quem tomaria o meu lugar. Lembrei-me do nobre Conde de Ficalho [tenente António de Melo Breyner Teles da Silva (1806-1894), 3.º conde de Ficalho], hoje Marquês do mesmo título, e por certo, este benemérito conde, que reunia as simpatias dos meus bravos companheiros, seria aquele que me substituísse. Porém o Capitão Lobão, apesar do seu incómodo de saúde, apresentou-se e marchou com a Divisão.

Dada a ordem para aquella marcha, o meu primeiro pedido foi o de rogar ao quartel mestre general da Divisão Libertadora, o benemérito José Jorge Loureiro [major José Jorge Loureiro (1791-1860)], que eu esperava que para com os meus dignos académicos, sua senhoria tivesse sempre a mais pronunciada atenção. (?)

(?) Confesso que para com o digno José Jorge Loureiro, as minhas recomendações não careceram de instâncias, pois que S. S. obsequiou sempre os meus companheiros.

Quando se me intimou a ordem para ficar em Faro, disse-se-me que eu ali ficaria durante o tempo necessário para desempenhar as comissões de que tinha sido encarregado. Confesso que só aquela lisongeira esperança é que então adoçou a saudade que me causava o apartar-me dos meus amigos, daqueles bravos com quem desde Outubro do 1830 eu tinha constantemente partilhado as privações, os perigos e a glória adquirida até aquele dia! Nós nos abraçámos todos, nossas últimas palavras, despedindo-nos, foram: A Pátria livre ou morrer pela Liberdade.

Marchou pois a Divisão Libertadora, e eu fiquei na Cidade de Faro. [...]»


* * *

Fonte
João Pedro Soares Luna, Memórias Para Servirem à Historia dos Factos de Patriotismo e Valor Praticados pelo Distincto e Bravo Corpo Académico que fez Parte do Exercito Libertador, Typographia Lisbonense, Lisboa, 1837. Páginas 321-348.

Leia a biografia de J. P. S. Luna em
http://www.arqnet.pt/dicionario/lunajoaopsoares.html

Notas
O texto foi modernizado ortograficamente, assim como em termos de pontuação, mas o original pode ser consultado no livro, que pode ser lido na sua inteireza em: 
https://archive.org/details/memoriasparaserv00soar/page/n6

Imagens
Foto no topo do artigo (Fortaleza de Cacela) da autoria de Marc Ryckaert, na Wikicommons.

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Resumo Official das Operações da Expedição as Ordens do Excellentissimo Duque da Terceira, desde o seu desembarque no Algarve, até á sua definitiva entra da em Lisboa
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