segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808 - Parte II


Memória de tudo o que se passou enquanto no tempo em que servi de Juis do Povo em 1808.
[Parte II: 14/3 - 22/5/1808]

[Continua da Parte I]

Em o dia 14 fiz o Officio para ver semo ???/??? a Contribuição dos Officios como do n.º 15, respondeuseme como do Officio n.º 16, e em consequencia tornei amandar chamar os Juizes dos Officios, emandei fazer novas derramas, excluindo alguns das Relaçoens, e que  mo diticassem (??? p7) notodo e com effeito notodo dos Officios se fez o abatimento demais de sete contos de reiz.

Em o dia 26 recebi partecipação como do n.º 17.

Em o dia 2 de Abril cheio de compunçaõ detanta desgraça que via sem poder remediar porque do Senado vinha huma Relação de cada Bairro, Ruas, e o numero daport= // daporta, o nome do individuo, para eu coletar na forma das instroçoens, fiz o Officio a favor das Mulheres da Ribeira, e lugares do Sal, veio a Portaria como se dezejava, e seve do n.º 18.

Em o dia 4 recebo a copia do Avizo do General em Chefe, como do n.º 19, e a Portaria do Senado n.º 20 aobrigarme a fazer o que aminha vontade naõ pedia, e alem disto continuamente estava areceber recados a apreçarme com a Contribuiçaõ pois era precizo que entrace dinheiro no Cofre: estez recados trazia o Procurador dos Misteres, Francisco Monteiro Pinto, que hera o que vinha da parte do Tribunal tomar sentido no que sefazia e ápreçar, disto heraõ testemunhas omeu Escrivaõ, os Escriturarios Joaõ Baptista e Bundano (p8), Jose Pedro Azedo, Joaquim Joze Pereira Pitta, Manoel Lazaro Tavares, Luiz Ignacio, e o Continuo Felisberto Manoel Rodrigues, trabalhando todos os dias desde as nove horaz damanhãm, athe as dez, e onze da noite e isto por huns poucos de mezes.

Em o dia 27 recebi a Ordem para remetter a Relação do que eu tinha colletado aos Officios, o que fiz como seve do n.º 21.
Em o dia 28 remeti para o Senado a Relação n.º 22.

Em o dia 30 mandoume chamr por hum Offecial Militar Pedro Lagarde para me achar as dez horas nas Cazas da Intendencia, o que fiz pela primeira vez, e aparecendo o lingoa Jorge Escarniche diceme que o Senhor Intendente se ad'mirava de eu o não ter hido procurar, respondilhe que as obrigacoens a que me achava ligado a respeito da Contribuição de Guerra me não deva lugar para poder comprimentar pessoa alguma, e diceme que queria lhe dese huma Relação de todos os acontecimentos da Cidade por semana, respondilhe que olugar que eu ocupava não tinha a meu Cargo semelhante obrigaçaõ mas só sim reprezentar as nessecidades Publicas, diceme que queria foce falar com elle todos os Domingos que era dia em que naõ havia Contribuição para o informar detudo que o Povo nessecitava, respondilhe que era precizo abrir as Obras Publicas afim de dar de comer aos desgraçados, pois naõ tinhaõ meios, nem com que matar a fome, que os acometia, respondeume por agora nãosepode cuidar nisso, a seu tempo, e retireime.

Em o 8 de Maio fui a Caza do Intendente na forma da Ordem, e vindo com o dito lingoa preguntoume que havia de novo, dicelhe que muita falta de Paõ, e que me constava moria gente de fome, respondeume que todas as providencias estavaõ dadas para haver abundancia, e preguntoume novamente se o Povo tinha entregado todas as armas que elle tinha mandado entregar, respondilhe que tudo estava entregue, que o Povo Portuguez era hum Povo muito obediente a qualquer Ordem, e que podia estar seguro que o Povo tinha entregado todas as suas Armas, e com isto ficou muito satisfeito, e dizendome que me era muito afecto, e que esperava eu naõ faltace ali todos os Domingos como me tinha dito, e dice mais q. lhe constava eu trazia ainda as Armas Reaes na minha vara e que logo devia tiralas, respondilhe com o que tinha passado com o Herman em 27 de Fevereiro e como isto hera hum engano em que elles estavaõ porque aquelas Armas eraõ da Nasção, dice-me que como a Caza Real uzava dellas deveriaõ logo ser tiradas e que deveria ser suprida pela Aguia, dicelhe que meparecia improprio, porque todas as Nascoens tinhaõ oseu destintivo, que estava persuadido que a Italia sendo governada pelo Imperador teria diverso Estandarte, respondeume que naõ deviaõ exestir, propuslhe que como o Governo determinava que naõ deviaõ exestir estas Armas, antão que tinhamos outras de que uzar, e sempre ficava destinguindose a Nasçaõ, diceme qual era, respondilhe as Armas da Cidade, proguntoume como eraõ, dicelhe que era hum Navio, detriminoume que as puzese logo, que elle omandava, respondilhe que tudo tinha formalidade; e todo o meu trabalho era naõ por a Aguia, e embaraçar este passo.

Em o dia 16 recebi hum Avizo so Senado para me achar no dia 17 do meio dia para a meia hora no Tribunal de Capa e volta (p11), e o meu Escrivaõ para acompanhar a prezença do General como seve do Documento n.º 23.

Em o dia 17 fui para o Senado com omeu Escrivaõ na conformidade do Avizo recebido, donde achei quaze todos os membros daquele Tribunal, e logo que deu huma hora mandaraõ se chegar as seges, e todas seguidas fomos para o Quartel General e entrando nas Salas era huma multidão de gente detodas as claçes, e estados, que naõ se podiaõ conhecer, despois disto apareceo Pedro de Mello Brainer, que nesta ocaziaõ fez de Mestre de Ceremonias, e chegou aporta que devedia a Sala grande, da sala de entrada e chamou pelo Senado da Camara o fez entrar para a Sala grande, e logo ápareceo o General Junot precedido de todos os Conselheiros do Governo tanto Francezes, como Portuguezes, e logo se chegou o Principal Deaõ e leu a sua oraçaõ, e acabada, seguiçe o Conde da Ega, depois continuou o Conselheiro Joaõ Joze de Faria das Costa Abreu Guiaõ (p11), e seguiçe o Chanceler Mor do Reino Manoel Nicolao Esteves Negraõ, acabado levantou a voz o General Junot e fez a sua oraçaõ em Francez, finalizada prencipiou //  Prencipiou por entre todos a conversar com algumas pessoas, e com isto se concluio este grande cortejo.

Em o dia 21 recebi do Conselheiro  Joaõ Joze de Faria das Costa Abreu Guiaõ, hum Avizo para eu me achar na Junta dos Trez Estados, e o meu Escrivaõ, e lá me comunicaria o que tinha de Ordem superior a dizerme, como seve do Documento n.º 24.

Em o dia 22 pelas sste horas da manhãm recebi hum recado do Dezembargador Francisco Duarte Coelho, que tinha negocio demuita ponderacaõ que tratar comigo, e que quandoeu fosse para a Missa passace por sua Caza, as dez horas quando sahi fui por lá mandoume dezer que estava a Missa que esperace hum bucado, respondi que eu taõ bem hia a Missa que a vinda falariamos o que fiz, e mandandome entrar para a sua livraria estava com elle Thimoteo Verdié, e logo se ajuntaraõ o Dezembargador Felipe Ferreira de Araujo e Castro, e hum Bacharel chamado Fulano Moira (p12), e principiaraõ a dizerme que na minha mam estava a felecidade da Nasçaõ, que esta tinha perdido a occaziaõ de milhorar notempo da Aclamação do Senhor Rey D. Joaõ Quarto, e como agora se offerecia esta occaziaõ hera precizo aproveitalla, para o que elles tinhaõ aranjado hum Papel para me servir deguia a eu felecitar huma Nasçaõ por quem eu reprezentava, para o que elles me mandariaõ huma Copia em limpo, e antaõ sobe que no outro dia hera eu chamado para dar o meu Votto sobre o pedir hum novo Rey, e que detarde mo mandariaõ, fiquei  emediatamente perturbado, e vindo procurar o meu letrado naõ achei em caza, detarde mandoume chamar a sua caza Themoteo Verdié, o que fiz e achei lá o dito Dezembargador Felipe Ferreira, emais hum Macedinho, filho de Agostinho Joze de Macedo, Professor de Felozofia, que medizem foi Secratario da Legação de D. Lourenço de Lima, na Embaixada de França eme diceraõ que naõ tinhaõ tido tempo deter posto o apel a limpo o que fariaõ, e a toda a hora q. estivese prompto mo trariaõ a minha caza, e retireime desconfiado disto, m este mesmo dia pela meia noite apareceume em minha caza o dito Dezembargador Felipe, e mais o tal Macedinho com tres papeis does em Portuguez, e hum em Francez, e me diceraõ era igual aos does, e me pediaõ muito que olhace que delez provinha a felecidade da Nasçaõ, e se retiraraõ, sendo o da Copia n.º 25.

[CONTINUA]

Transcrição: Jorge Quinta-Nova

DOCUMENTO 44
I-29, 16, 45
CAMPOS, José de Abreu. Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808. [S.l.], [s.d.]. 54 p.
Cóp. Ms.
Cat. Linhares n.º 171.
Coleção Linhares.

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: Seção de Manuscritos

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