sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808 - Parte I


Memória de tudo o que se passou enquanto no tempo em que servi de Juis do Povo em 1808.
[Parte I: 24/2 - 14/3/1808]

Em o dia 24 de Fevereiro de 1808, estando na Praça do Comercio do meio dia para a huma hora, chegouse a mim Francisco de Mendonça Arraes e Mello, que serve de Escrivão da Camara e diceme agora acabo de passar as ordens necessarias para fosse tomar parte do lugar de Juis do Povo, em consequencia da molestia do actual, e estimo encontralo para lho entimar; propuslhe todos os inconvenientes que tinha para não servir semelhante lugar, respondeome que a Ley me obrigava, e que por força o havia de ser, pois asim o determinava o General em Chefe: Chegando a caza achei a Copia do Avizo que consta do Documento n.º , e Carta de Officio n.º 2.

Em o dia 25 pelas nove horas da manhãm apareceo em minha Caza o Escrivão do Povo Alexandre Antonio Duarte, com o Continuo da Caza dos Vinte e quatro Felisberto Mansel Rodrigues, e com hum grande masso de papeis fechados, e huma Carta do Juis do Povo Mansel Antonio de Figueiredo, o que consta do Documento n.º 1, e depois de eu ler a ditta Carta, diceme o Escrivão que, de ordem do seu Juis me vinha entregar aquelle Masso de papeis, ao que respondi não tomava conta delles porque andava em deligencia de me despensarem do lugar, e com esta resposta levou o Masso dos papeis, e // foise embora.

Em o dia 26 pelas duas horas recebi huam Portaria do Senado na qual me detreminava que no dia 27 foce a Casa dos Vinte e quatro tomar posse dos papeis e Vara como do Documento n.º 4, vendo isto passei a Casa do Conde de Novion e pedilhe me fizese obzequio de falar ao General para me despensar do lugar para que tinha sido nomeado respondeume que isso não fazia elle porque acabava de informar as minhas boas qualidades ao General Junot; e passou este mao homem a dizerme que eu passava a ser Juis do Povo debaixo de hum Governo de energia, e capaz, e que não era o Governo podre que tinha acabado, não foi precizo mais nada para eu me retirar, e nunca mais procuralo, lembrado da ingratidão que elle particava contra quem o tinha feito gente.

Em o dia 27 pela manhãm no Senado diserãome q o Tribunal mandava deitar as Armas Reaes abaixo, em consequencia da Ordem do General em Chefe, respondi que emquanto não tivesse huma muito pozitiva para isso certamente o não faria, esta resposta foi dada diante do Escrivão da Camara, Official Maior, e alguns dos Procuradores dos Mesteres; pasado poucas horas recebi huma Carta do Official Maior dizendo que o Senhor Guião decedia que deitase as Armas abaixo da minha Vara, como se ve // se ve do Documento n.º 5; isto a tempo que eu estava para ir a Caza dos Vinte e quatro tomar a posse, fui primeiramente a Caza de Francisco Antonio Herman, e falandolhe dice que eu era o novo Juis do Povo que hia tomar posse do lugar em consequencia do Avizo expedido por elle, de Ordem do General em Chefe, e como S. Ex.ª tinha determinado deitar abaixo as Armas da Nação, e estas condecoravão a Insignia do meu lugar, e no outro dia me devia aprezentar ao General em Chefe, que me detreminasse como devia hir, e fazendo huma pequena pauza respondeume que uzasse da minha Insignia como estava em todas as funçoens do meu Ministerio, mas quando foce ao General Junot que não levasse Vara, e que elle daria parte do motivo por que eu a não levava, retirandome fui para a Caza dos Vinte e quatro e ahi achei todos menos o Juis despensado, e me foi aprezentado o dito Masso de papeis, a Vara, e huma Carta de Officio a Casa dos Vinte e quatro como do Documento n.º 6, e abrindo o dito Masso de papeis achei a Portaria n.º 7 e os Mappas n.º 8 e n.º 9, e feito o Auto de Posse, todos igualmente derão provas de satisfação que tinhão de eu tomar aquelle lugar, e a mim tão pouca me acompanhava.

No dia 28 pelas nove horas fui a Caza do General Junot com o meu Escrivão mas sem Vara na forma de insinuação, e dando parte quem // quem era veio logo o dito General e depois de nos cumprimentarmos dice ele que se tinha deliberado a comfirmar a nomeação que o Senado tinha feito pelas boas informaçoens q de mim tinha, e do muito que me amava o Povo, isto talves para me por a sua fação, eu, lançando mam de tantos obzequios, dicelhe que as sirconsttancias do Povo erão as mais tristes que se podião imaginar, pois estavão sem meios alguns de subsestir e se S. Ex.ª me dava licença eu tinha que por na sua Prezença huma Reprezentação a respeito da Contribuição, para o que esperava que S. Ex.ª me nomeasse dia, e hora para lha entregar, e Caza dos Vinte e quatro me acompanharia a ese fim, determinou o dia trez de Março dicelhe que S. Ex,ª não devia reparar o eu ir sem a Insignia do meo lugar, porque em consequencia das Ordens que tinha havido para retirarem as Armas da Nação, e a minha Insignia as tinha, havia recorrido ao Senhor Herman para me dar as instruçoens necessarias a este fim, elle o tinha assim determinado, e que daria parte a S. Ex.ª, respondeume que se delebararia o que havia de ser. Dali passei a Casa do Conselheiro Guião, intitulado Vice Presidente do Senado, a darlhe parte do que tinha passado contra a Ordem que tinha recebido do Officvial Maior da Sacrataria do Senado sobre mandarme deitar as Armas abaixo, respondeume esta bem, diselhe // diselhe que o General me tinha tratado muito bem, e em consequencia eu tinha aproveitado a ocazião, e conteilhe tudo o que tinha passado a respeito da Reprezentação, ao que me respondeu está bem. Dali fui a Caza de Pedro de Mello Brainer o qual não achei em Caza. Derigime a Caza do Conde de SamPaio, a quem falei e me expressou os sentimentos de humiliação, que todos devriamos ter, athe que a Providencia se lembrasse de nos. Fui a Caza do Principal castro com quem estive, e me recomendou muito socego e moderação pois as circunstancias assim o exigião. Eu que chego a Caza desta degreção imediatamente recebo a Carta de Guião, como do Documento n.º 10.

Em o dia 3 de Março pelas dez horas da manhãm ajunteime com os Deputados da Caza e fomos ao General Junot. Este nos veio falar, e eu lhe entreguei a Reprezentação n.º 11 na prezença de toda a Caza, respondeume que a entrada de hum Exercito, e a sua sustentação, era muito despendiosa, q ele já tinha feito os seus Officios para o Imperador, e a vista daquella Reprezentação novamente o tornava a fazer, e que elle esperava que S. M. I. e R. a modificase em parte, que no todo não podia ser, e dice mais que elle se achava muito agradecido ao Povo pelo socego que tinha tido no Carnaval, e terem obedecido ao seu Edital, e nos acompanhou athe a porta. Persuadiuse este homem que era obediencia aos Edi-//Aos editaes o socego do Povo, quando isto nascia da desgraça em que todos se achavão em huma escravidão, e auzentes do seu Soberano.

No dia 4 fui ao Senado aprezentarme, e levar huma Copia da reprezentação que tinha entregado a Junot como do n.º 11, e ali fui reprehendido pelo Conselheiro Guião no mesmo Tribunal por ter dado ao General a Reprezentação fazendo tudo contra a carta que elle me tinha mandado, que eu tinha sido muito altanado quando tinha estado da outra vez no lugar por culpa do Principe, isto hera rancor antigo que este homem me tinha porque em primeiro lugar não há Asento na Caza dos Vinte e quatro que obrigue o Juis do Povo a dar parte no Senado dos Requerimentos, ou Reprezentaçoens, que deriga ao Trono em beneficio Publico, e muitas vezes pelas torturas que o mesmo Senado faz ao Povo, como seria possivel chegar a verdade a prezença do Soberano, se se consentise semelhante freio, mas o rancor deste Tribunal contra mim vem do Principe me encarregar do arranjo que eu fiz para a sustentação da Guarda Real da Policia, e outras couzas mais, e depois de eu responder aos insultos que me dise, entreguei a Reprezentação n.º 12 para me saber entender com a Portaria porque a achei bastantemente confuza, e diceme que me mandarião a resposta.

Em o // Em o dia 5 recebi a Carta de Officio n.º 13, e fiquei mais descançado para não viver entalado.
Em o dia 9 recebi a Carta de Officio n.º 14 para a Coleta dos Officios que selembrarão não vinhão no Mappa.

No dia 10 prencipiouçe a Contribuição na Sala da espera da caza dos Vinte e quatro, com sentinelas Francezas a Porta para haver sucego, eu tive a honra de que omeu asento e do meu Escrivão, publicamente foce por baixo do Retrato de S. A. R. e seus Augustos antecessores os quadros que ornavão a Sala, e os Reposteiros das portas tiverão sempre as Armas Reaes.

[CONTINUA]

Transcrição: Jorge Quinta-Nova

DOCUMENTO 44
I-29, 16, 45
CAMPOS, José de Abreu. Memória de José de Abreu Campos, sobre tudo o que se passou enquanto serviu de Juiz do Povo, em 1808. [S.l.], [s.d.]. 54 p.
Cóp. Ms.
Cat. Linhares n.º 171.
Coleção Linhares.

Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: Seção de Manuscritos

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