quarta-feira, 29 de julho de 2020

Memórias: Vária Fortuna de um Soldado Português (J. J. Cunha Fidié)


João José da Cunha Fidié nasceu em Lisboa, provavelmente em 1789, filho de Fernando António Fidié. Assenta praça de cadete no Regimento de Infantaria n.º 10 (Lisboa) em 6 de Janeiro de 1809 e é promovido a alferes nesse mesmo ano, a 29 de Dezembro. A 15 de Outubro de 1814 é promovido a tenente. A determinada altura, transfere-se para o Regimento de Infantaria n.º 15 (2.º de Olivença).
A 6 de Fevereiro de 1818 é promovido a capitão e, cinco meses depois, a 15 de Junho, a major ajudante de ordens do novo governador da Madeira.
Em Dezembro de 1821 é nomeado governador de armas do Piauí. Desembarcou em Oeiras em Agosto de 1822. Comanda as forças portuguesas na batalha de Jenipapo, a 13 de Março de 1823.
Em 1825, tornou-se o comandante militar do Real Colégio Militar, tendo ocupado o lugar de diretor frequentemente.

Falece no posto de tenente general a 20 de Junho de 1858.

Tem a Cruz de Guerra, 1.º Classe por 4 campanhas, e as medalhas de distinção das batalhas de Albuera e Vitória.

A seguinte transcrição é da "Introdução" ao seu livro Vária Fortuna de um Soldado Português, publicado em 1850, com modernização da ortografia (ligação do livro em pdf no final):


* * *

INTRODUÇÃO

A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram, 
Com que em tio duro estado me deitaram.
Cont. Lus. Cant. 7, Est. 81. 


Quando a Pátria oprimida pelo jugo estrangeiro, que avassalou quase toda a Europa, quebrou os ferros que a algemavam, e restaurou a sua independência, ainda que imberbe, e só com algum conhecimento das línguas Francesa, Latina, e Inglesa (A) corri a alistar-me no numero dos seus defensores no Regimento de Infantaria n.° 10, onde fui cadete e oficial. Durante os seis anos que existiu a luta sanguinolenta, que restituiu Portugal à lista das Nações independentes, seguindo sempre as Bandeiras sob que me tinha alistado (B), em todas as ocasiões combati o inimigo, quer isolado, quer ao lado dos meus camaradas, como mostra o Documento n.° 45.

(A) Posto que me considerasse só com princípios das mencionadas línguas, contudo o conhecimento que da ultima possuía, utilizou ao Serviço; pois separando-se os Batalhões do Regimento em 1809, e comandando o 1.º o Tenente Coronel inglês Oliver, lhe servi de intérprete, como bem sabem os antigos oficiais daquele Regimento, e mesmo os de Infantaria n.º 4 , e caçadores n.º 10.

(B) Aqueles mesmos Oficiais de Infantaria n.º 10, poderiam certificar, se necessário fosse, a minha dedicação ao serviço, ainda o mais trabalhoso e arriscado; e que por não me querer separar do Regimento e ir para Elvas, preferi o serviço debaixo do fogo, no 1.° cerco da Praça de Badajoz, sofrendo febres intermitentes, e que, quando marchámos para a Batalha d'Albuera, no caminho e entre giestas, curti uma sezão: depois do que me uni ao Regimento, entrando na ação do seguinte dia; e á noite fui de piquete para a borda do rio, que separava o nosso campo, do campo inimigo; o que tudo obrigou o Coronel, então o Ex.mo Conde Resende, a oferecer-me logo que voltámos ao 2.º cerro da mesma praça,uma Comissão ao Porto, afim de conduzir recrutas, na convicção, de que os novos ares e exercício, restabeleceria, como aconteceu, a minha saúde. assaz danificada; cuja Comissão agradecido aceitei, tendo tido o Coronel a deferência de me dar um outro Oficial mais moderno, (o Alferes Pedro Passos) confiando-me portanto a Comissão. Estes mesmos Oficiais estarão lembrados, de que pelos excessos no serviço, durante a campanha, por duas ocasiões sofri graves pneumonias, a que a idade e construção física pode resistir: e as Informações semestres que devem existir na Secretaria da Guerra, poderão certificar o conceito que mereci aos diferentes Chefes dos Corpos em que servi, tanto durante a campanha como depois.

Finda a guerra, o primeiro serviço extraordinário que se me apresentou, foi pretender servir na Divisão dos Voluntários Reais de El-Rei, para o que por duas diferentes ocasiões me ofereci, não sendo aceito o meu primeiro oferecimento, por se haverem igualmente oferecido outros Tenentes mais antigos, e que por isso tiveram preferência, e foram promovidos a Capitães; não tendo tido também lugar o segundo, sem acesso, (devido ao muito desejo que tinha de servir em quanto moço, e onde mais útil fosse), por não se admitirem oficiais nos mesmos postos.

O segundo serviço extraordinário que se me apresentou, foi em 1817, na Divisão Portuguesa Auxiliadora, e para o qual também me ofereci; mas dizendo-se-me que não se permitia a ida de oficiais avulsos, requeri ao Ex.m° Marechal  Beresford o trocar com  Diogo Honorato de Brito, então Tenente do Regimento N.° 15, o que obtive, mas não sem grande dificuldade, e já bem tarde, pois só na noite da véspera do dia que a Expedição levantou ferro, e saiu a Barra, é que a ordem para a minha passagem chegou ao Comandante do Regimento de Infantaria N.° 7, aquartelado em Setúbal, e no qual me achava servindo. Marchei pois imediatamente, e quando na manhã seguinte cheguei a Lisboa, já os transportes que conduziam a Divisão, estavam de barra a fora ; motivo porque julguei dever expor o acontecido ao Marechal General Beresford , diligenciando obter ir depois, no transporte que devia conduzir o resto da Tropa destinada para o Rio: — tendo-me ouvido aquele General, disse-me com bom modo; e muito pausadamente como quem refletia, e conhecia a minha situação, e razão que tinha para alcançar o que pedia: — eu pensei que estava pronto, os oficiais que hão de acompanhar o resto da Tropa estão já nomeados, ser-me-ia muito desagradável apresentar no Rio de Janeiro, a Sua Majestade o Snr. D. João. VI, um Batalhão, com um Oficial de menos: fazendo uma pausa maior, aproveitei a ocasião, e pedindo-lhe licença, disse-lhe respeitoso e decidido; pois bem, eu estou pronto, eu vou embarcar, ás ordens de V. Ex.ª; e fazendo a. devida vénia deixei o dito Marechal: no fim da salta voltei os olhos para ver se ainda se achava no mesmo lugar, ou se se havia retirado; e vendo que ainda lá estava, voltando-me, fiz-lhe um atencioso comprimento, e saí daquela sala, tendo tido a satisfação de observar certo ar no Marechal, que indicava parecer-lhe extraordinária a minha repentina resolução, em tais circunstâncias; e de quem estava com muita curiosidade de ver, se com efeito eu ia embarcar; o que efectuei, destacando naquela Divisão para o Rio de Janeiro no Regimento n.° 15, onde servi como Tenente, e depois como Capitão de Granadeiros, em 1817 e 1818; tendo porém sido obrigado a embarcar, por estas circunstâncias, que de mim não dependeram, sem roupa, sem dinheiro, e só com o fato que tinha vestido; nem mesmo ter tido tempo, de despedir-me da minha família; pois dirigindo-me, como me cumpria, a bordo da Fragata Príncipe D. Pedro, que comboiava os transportes, e que ainda se achava no rio, na qual ia o Comandante da Divisão, o Ex.mo Marquês de Angeja, este me acolheu com a sua costumada afabilidade, me deu mesa, e roupa para uso da viagem, tratando-me mais como amigo, do que como súbdito; circunstâncias que sempre me tornaram grata a sua memoria.

Em 1819 e 1820 servi na Ilha da Madeira na qualidade de Ajudante de Ordens da pessoa do Governador o Ex.mo Sebastião Xavier Botelho, em cujo exercício mereci geral favor, e o conceito que dá a conhecer a nota n.º 2. Em 1821 fui nomeado para o Governo das Armas da Província do Piauí, e por essa ocasião deveria ter recebido um posto, e uma ajuda de custo (C) porém a urgência do serviço fez com que se expedisse ordem ao Comandante da Charrua Gentil Americana, destinada para o Pará, para me receber a seu bordo, e conduzir-me diretamente à Cidade de S. Luís do Maranhão: não podendo pois demorar-me para receber um e outro, como era de Lei, e sempre se praticou, e se verificou ainda com os Oficiais que, compuseram a Divisão Constitucional Lusitana, enviada à Bahia: antepondo pois o bem da Pátria ao meu próprio, parti sem mais recursos, do que as comedorias a bordo, e a Carta Regia da minha nomeação. Sem querer dar importância estes e outros serviços mais relevantes; como mostram os Documentos n.os 3 — 4 — 5 — 40 — 41 — 42 — e que á exceção do 1.º, em resumo ofereci à judiciosa consideração do atual Ministro da Guerra, como se vê da exposição junta com o n.° 20, serviços aqueles tão extraordinários, e de tal ventura e valia, que merecendo a qualificação de — quase sem exemplo — pelo respetivo Ministro da Guerra, como mostramos Documentos n.° 3 – 5 — 41 — e 42 — foram aprovados com honrosas, e não vulgares expressões, pelo Punho Régio; considerando-os de honra; brio, inteligência e apurada lealdade, Documento n.º 29 (D).

(C) Não obstante haver constantemente requerido o embolso da ajuda de custo, ainda não foi possível recebê-la, apesar de constar que chegou a minutar-se Decreto para uma ajuda de custo de 500$000 que não consta recebesse, como não recebi, por ter já seguido viagem.

(D) “Custa acreditar, que tendo o atual Ministro declarado na Câmara dos Srs. Deputados no dia 12 de Abril do ano passado — que entendia não devia fazer favor a parentes ou amigos, nem devia negar a justiça quando ela fosse reclamada: que tendo sido obrigado a decidir uma pretensão que lhe estava afecta como Ministro, ele não havia de indeferi-la quando a justiça estava da parte do pretendente, todavia ajuda: esta pretensão não teve decisão!

Em 1825 fui nomeado 1.° Comandante do Real Colégio Militar, que por vezes dirigi na ausência do diretor; em 1837 fui encarregado da sua direção, por se haver suprimido provisoriamente este lugar, e nesse mesmo armo, pelo restabelecimento dele. fui nomeado diretor, por Decreto de 10 de Fevereiro, como tudo mostra o Documento n.° 10. Havendo sido exonerado deste lugar, por Decreto de 5 de Setembro de 1848, e convencido que por esta decisão o meu Credito ficava prejudicado, julguei dever ilibá-lo, requerendo, como me cumpria, e se vê pelos seguintes requerimentos, a que juntei alguns documentos, cujos originais existem na Secretaria dos Negócios do Reino, unidos ao decretamento dos meus serviços, e pelo qual se vê, que no Brasil, e em apuradas circunstâncias, pude conseguir desempenhar os meus deveres, como convinha à Dignidade Real, à honra e crédito da Nação, e do Governo; desprezando os meus particulares interesses, como além doutros) mostram os Documentos n.º 3 e 5, e cuja importância dá bem a conhecer o Documento n.° 42.

Nestes Reinos, e nos exercícios em que tenho estado empregado, já na qualidade de sub-diretor do Arsenal do Exercito Libertador na Muito Heróica Cidade do Porto, como se vê nos Documentos n.º 3 e 42, já antes, e depois daquela época, no serviço do Real Colégio Militar, sendo ainda 1.º Comandante, e servindo no impedimento do, diretor, mereci a aprovação dos respetivos Ministros, Documentos n.º 3 — 9 — e 10 — assim como a geral, e afetuosa consideração dos Alunos, como é bem notório, tendo também tido a ventura de obter, não só afeição, mas o favor, e lisonjeiro conceito dos antigos Empregados, como se depreende do conteúdo na carta junta com o n.º 12; conhecendo-se também pelo penúltimo § da carta com o n.º 14 o modo porque outro Empregado no Corpo Instrutivo, considerei: o meu costumado exercer no serviço do Estabelecimento, devendo ainda declarar, que mereci tanto favor aquele antigo Lente (autor da carta) que achando-se na Secretaria da Guerra, com o respetivo Ministro em 1833, logo depois do falecimento do 2.º diretor do Real Colégio Militar, e vendo que o mesmo Ministro de mim se não lembrava, e que por isso me não mandaria retirar da Comissão em que me achava no Porto, lhe falou em meu favor, resolvendo-se por isso o mesmo Ministro a mandar-me apresentar imediatamente em Lisboa, restituindo-me logo ao meu lugar de 1.º Comandante, e encarregando-me da Direção do Estabelecimento, recomendando-me, que nele restabelecesse o seu antigo e regular andamento; o que tudo será fácil de provar, vendo-se as ordens que se expediram, e ouvindo os antigos Empregados.

Pela mesma carta se vê também, que comparado o meu serviço no Colégio, com o de outro Chefe daquele Estabelecimento; além dos três de que só tenho feito menção em alguns dos meus requerimentos se conhece as vicissitudes a que estão sujeitos os homens, principalmente aqueles que timbram em seguir um sistema sisudo, e invariável, como lhes cumpre, sendo fieis aos seus princípios, como essenciais qualidades em todo o serviço, principalmente no militar, aonde mais facilmente se pode comprometer o crédito do Governo, a honra, e proveito da Nação. E de quanta ventura não precisão aqueles, que firmes em seus princípios de honra e verdade, são muitas vezes forçados a mostrar por qualquer modo, a sua desaprovação a atos inconsiderados!... resultando disto, não poucas vezes, consequências desagradáveis, e das quais sabem aproveitar-se aqueles que têm algum interesse cm que elas apareçam, e mesmo se generalizem, e obtenham publicidade, para melhor produzirem o desejado efeito; achando também quem as abrace e proteja, mesmo sem as acreditar, concorrendo deste modo para que o efeito seja mais eficaz, danificando assim, ainda que temporariamente, acredito de quem (possuindo bons direitos à consideração pública) descansa na sua convicção intima, e na firme e inabalável constância: com que sempre trilhou o caminho da honra, e procurou o da gloria, e bem da Pátria.

Não obstante a convição de que o publico me fazia justiça, e a segurança da minha consciência não me era possível desvanecei a ideia que constantemente me ocupava, de ser necessário que uma Comissão de inquérito tomasse conhecimento dos negócios relativos ao tempo da minha gerência no Colégio; e por isso vi com grande satisfação, nomeado um sisudo General para o Inspecionar (assim como a outros Estabelecimentos o ano passado) não me constando que o mesmo General, achasse cousa alguma que pudesse prejudicar-me.

Pelo que tenho a honra de oferecer ao Publico, parece-me evidente, que se procurou menoscabar a minha reputação, ofenderam-se meus direitos, e preferiu-se a presunção da capacidade de quem ainda não havia prestado serviços daquela natureza, á certeza que resulta de serviços já prestados. Felix qui potest rerum cognoscere causas !!!

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Fonte
"Introducção" in: João José da Cunha Fidié, Vária Fortuna d'um Soldado Portuguez,  Lisboa, Tip. Alexandrina Amelia de Salles, 1850. pp. 3-9. O livro pode ser encontrado na internet, com possibilidade de baixar o pdf, em https://books.google.pt/books?id=CQ8-AQAAMAAJ [abre em novo separdor].


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